Bíblia dos Contos Proibidos.

16 O Sussurro na Estática.


A rádio estava morta. Literalmente.

Era o que Artur pensava enquanto ajustava o dial do seu antigo rádio valvulado, um modelo Philco dos anos 50, que ele comprara num mercado de pulgas. A cidade inteira havia migrado para a era digital, para os streamings de música e podcasts, mas Artur, um homem de hábitos antiquados e paixão por antiguidades, preferia o som crepitante e a imprecação do rádio analógico.

Morando sozinho numa casa isolada, herança dos pais, ele passava as noites em sua oficina, restaurando relógios antigos. O rádio era seu único companheiro, embora nos últimos meses emitisse apenas o chiado monótono e sem vida da estática. Todas as estações locais haviam encerrado as transmissões em AM e FM.

Certa noite, um temporal varreu a região. A chuva batia com fúria nos janelões da oficina, e os trovões faziam a casa inteira tremer. Artur, concentrado em um relógio de pêndulo que se recusava a funcionar, ligou o rádio por puro hábito. O chiado habitual encheu o ambiente, alto e opressivo.

De repente, no meio daquela massa sonora, algo mudou. Um som fraco, quase inaudível, quebrou a monotonia. Artur parou de trabalhar e aproximou o ouvido do alto-falante. Era um padrão. Três batidas curtas, uma pausa, e um sussurro indistinto. Parecia uma voz humana, mas distorcida, como se viesse de muito, muito longe, ou talvez de um lugar onde o ar não existia.

Ele ajustou o dial com cuidado milimétrico, buscando limpar o sinal. O som ficou mais claro, mas não menos aterrorizante. Era uma voz de mulher, repetindo a mesma frase em loop: "Eles me levaram... não olhe para a janela... eles me levaram...".

O coração de Artur disparou. Aquilo não era uma estação de rádio. Era um loop, uma gravação antiga talvez? Ele checou o dial novamente; não havia estação ali. Apenas a frequência vazia que, em teoria, só deveria produzir estática.

Ele tentou racionalizar. Talvez alguma interferência da tempestade, algum sinal de rádio amador captado de forma bizarra. Mas o conteúdo da mensagem o perturbava. "Não olhe para a janela". Instintivamente, seus olhos se voltaram para o grande janelão de vidro, onde a chuva escorria como lágrimas e os relâmpagos iluminavam a noite escura. Ele se forçou a desviar o olhar.

A voz continuou, agora com mais desespero. "Achei que você fosse meu amigo, Artur. Você é um homem mau."

Artur gelou. A voz sabia o nome dele.

O som do rádio mudou de repente. O chiado da estática desapareceu por completo, substituído por um silêncio absoluto. Então, um som novo começou a se formar, baixo no início, depois mais alto: o som de vidro quebrando.

Ele olhou para a janela novamente. Apenas seu reflexo o encarava, pálido e aterrorizado. Mas o som continuou, e ele percebeu que não vinha do rádio, nem da janela da oficina. Vinha da sala de estar.

Artur, paralisado, ouviu passos molhados se aproximando da oficina. Passos que não eram os dele. E então, o rádio, que ele havia acabado de silenciar, explodiu em um grito agudo de estática, mais alto do que qualquer coisa que ele já tinha ouvido, abafando o som da porta da oficina se abrindo lentamente.

A última coisa que Artur ouviu antes de a escuridão engoli-lo foi o sussurro no rádio, agora cristalino e bem próximo, diretamente em seu ouvido: "Eles me levaram. Agora, é a sua vez."


Notas finais
Oie, pessoal! Peço desculpas pela minha ausência. Não tenho conseguido postar muito porque o único lugar onde consigo escrever é na escola, e tem sido bem difícil conciliar tudo. Espero de verdade que vocês entendam a situação!