Bíblia dos Contos Proibidos.
4 A Boneca de Olhos Vazios.
Ana sempre teve uma aversão particular por bonecas de porcelana. A pele pálida e rachada, as bochechas coradas com um rubor artificial, e, acima de tudo, aqueles olhos fixos e vítreos a faziam sentir um arrepio. A família, no entanto, parecia encantada com a relíquia de família que sua avó trouxera do interior. "Uma peça de valor", diziam. A boneca, que parecia uma noiva em miniatura, com seu vestido de renda amarelada e um pequeno buquê de flores secas nas mãos de porcelana, foi colocada no alto da estante, na sala de estar. Ana evitava olhar para ela.
A mudança de comportamento do filho de Ana, o pequeno Léo, de cinco anos, começou de forma sutil. Ele sempre foi um garoto agitado e barulhento, mas de repente, começou a ficar calmo demais. Passava horas brincando sozinho, sussurrando para si mesmo. Quando a mãe perguntava com quem ele estava falando, ele respondia: "Com a noivinha".
Ana inicialmente não deu atenção. Crianças têm amigos imaginários. Mas o comportamento de Léo começou a mudar de maneira mais perturbadora. Ele passou a ser desobediente e a agir de forma estranha. Uma noite, ele apareceu na porta do quarto de Ana, com o pijama sujo e os olhos arregalados. "A noivinha não gosta de você, mamãe", ele disse, antes de desaparecer de volta para seu quarto.
O medo de Ana cresceu. Ela começou a ter pesadelos. Sonhava com a boneca descendo da estante, seus pés de porcelana ecoando no chão de madeira, o buquê de flores secas caindo de sua mão. Acordava suando frio e corria para o quarto de Léo, que dormia tranquilamente. A boneca, na sala, estava sempre no mesmo lugar.
Uma noite, Ana acordou com o som de vidros se estilhaçando. Ela se levantou em pânico, mas aterrorizada, e desceu as escadas. Ao chegar na sala, a cena era de puro horror. O vidro da estante onde a boneca ficava estava quebrado, mas a boneca não estava lá.
Um barulho no quarto de Léo a fez correr. A porta estava aberta. O quarto estava escuro. Ela ligou a luz, e o que viu a fez gritar. Léo estava sentado na cama, de costas para a porta. Ele estava em silêncio, e em suas mãos, segurava a boneca. Ana sentiu um alívio momentâneo, mas quando Léo se virou, ela sentiu seu sangue congelar.
Os olhos de Léo, antes cheios de vida, estavam agora fixos e sem expressão, parecidos com os da boneca. As bochechas estavam com um rubor artificial, como se tivessem sido pintadas. A boneca não tinha olhos. Apenas buracos vazios. A noiva de porcelana agora sorria com os olhos de seu filho. "Mamãe", disse uma voz estranha e áspera. "A noivinha queria olhos novos".
Ana desabou no chão, o terror preenchendo todos os seus poros. O rosto de Léo, um dia familiar e adorado, era agora estranhamente calmo, seus olhos fixos de uma forma que Ana nunca vira antes. E a boneca, sem olhos, repousava calmamente em seu colo, um silêncio assustador pairando no ar. Ana não sabia o que havia acontecido, mas uma certeza fria se instalou em seu coração: algo terrível havia tomado o lugar de seu filho.
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