Açucarado

1 U: açucarado


Notas iniciais
Olá, pessoas lindas!!!
Tudo bem com vocês?
Bom, estou aqui com mais uma história e espero muito que vocês gostem! ♥
Queria aproveitar para agradecer às adms do Pride, especialmente a red que fez essa capa maravilhosa, pela qual sigo muito apaixonada. Obrigada mesmo! ♥ ♥ ♥

{amargo}

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A garota passou anos acreditando que a vida era cor de rosa. Não tinha motivos para pensar o contrário. Filha única de um casal bruxo de classe média, Lavender Brown cresceu amada, protegida e mimada. Seu mundo era vibrante, mágico e seguro. Sua vida quase ausente de problemas ou complicações.

Era natural, portanto, que houvesse se tornado uma adolescente feliz, doce e romântica. Sonhando com histórias açucaradas e esperando encontrar o amor verdadeiro a cada esquina. Sonhos de menina, porém, nem sempre se tornam realidade. E, no fim do dia, o amor não fez nada além de lhe deixar um gosto amargo em sua boca.

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Lavender Brown era uma galeria de corações partidos. Um remendo mal feito de esperanças e sonhos e amores perdidos. Uma coletânea de canções tristes e poemas melancólicos. Malquista e mal-amada a ponto de que tudo o que lhe restara foram cantigas de maldizer.

Ela tentou manter seu romantismo firme e incorruptível, no entanto, isso parecia impossível quando garotos a desapontavam com tanta frequência. Eles clamavam o coração dela para si, o pegavam nas mãos e o esmigalhavam sem nenhuma misericórdia. A menina poderia enumerar – e narrar com detalhes – cada uma de seus desgostos e desamores. Sua vida era eterna desventura.

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Amor exigia fé, Lavender achava. Era um salto no escuro. Uma caminhada, aos tropeços, por um labirinto que poderia te levar à glória eterna ou à morte iminente. Amar era acreditar, mesmo sem comprovações, que o objeto do seu anseio lhe dizia verdades. Que não te machucaria ou abandonaria deliberadamente.

Ser uma romântica exigia uma quantidade ainda maior de fé. Porque se fazia necessário que se ignorasse todas às mágoas, sofrimentos e decepções e continuasse acreditando que o amor valia a pena. Houve um tempo em que Lavender Brown fora uma romântica, adoraria ter se mantido assim. No entanto, seu coração – nesse ponto apenas poeira e dor – estava exausto de acreditar.

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Parvati Patil não era uma romântica. Essa afirmação talvez surpreendesse a maioria das pessoas, considerando a quantidade de livros de romances nos quais a menina vivia com o nariz enfiado. Além de toda feminilidade cor de rosa que parecia emanar de sua alma. Estereótipos, contudo, nunca eram confiáveis. Apesar das aparências, Parvati tinha um senso muito grande de realidade e não gostava de se permitir sonhar com o que não poderia ter. Além disso, nenhum de seus livros amados parecia ter sido escrito para meninas como ela. O amor, a garota achava, era para meninas brancas e heterossexuais. Parvati Patil não era uma coisa nem outra.

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Esqueça o que dizem os livros, se apaixonar pela sua melhor amiga não é fofo. É uma dor de cabeça sem fim. Ao menos, na experiência de Parvati Patil. Se apaixonar por Lavender Brown não foi algo que ela planejou. A garota, entretanto, não conseguia imaginar um cenário no qual isso não acontecesse. Tudo sobre Lavender era encantador. A amiga era doce, divertida, inteligente, corajosa, cheia de convicções e linda. Tinha uma daquelas almas gentis, que os equivocados tendiam a tomar como fraqueza, e a força necessária para sobreviver a uma guerra a ao ataque de um lobisomem. Cada vez que ela sorria, o coração de Parvati explodia. Cada vez que ela chorava, o coração de Parvati se despedaçava. A certeza de que seus sentimentos românticos jamais seriam correspondidos tornava tudo pior.

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{azedo}

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As lágrimas despencavam como uma tempestade, chuva ácida caindo sobre a pele delicada de Lavender Brown. Os dedos suaves de Parvati Patil se moviam com familiaridade pela cascata dourada que eram os cabelos da amiga. Ela odiava ver a menina sofrendo, mas odiava ainda mais quando o sofrimento era causado por um garoto. Um daqueles idiotas perversos que não sabiam valorizar a preciosidade singular de Lavender. Parvati os odiava. Parvati os invejava. Tinha certeza, no entanto, de que se o coração da outra garota estivesse em suas mãos, ela o protegeria com sua vida. O manteria com ela e jamais o deixaria cair ou se estilhaçar no chão. Se ao menos Lavender pudesse dá-lo a ela...

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Se você deixar leite exposto ao calor por muito tempo, ele irá azedar. Seu doce característico fermentará e será contaminado por um gosto acre e desagradável. Lavender Brown sabia disso muito bem, já tendo tido sua cota de experiências repulsivas com leite estragado. De alguma forma, a menina acreditava que o amor era um pouco como leite. Se bem conservado, poderia ser doce e delicioso. Mas se não fosse o caso, azedaria.

A garota parecia ter um talento nato para arruinar aquele sentimento sublime. Após tantas decepções era impossível não notar que o único denominador comum naquelas equações era ela mesma. Então talvez – e apenas talvez – Lavender também tivesse sua parcela de culpa naquele processo de fermentação. A constatação era mais indigesta que o leite.

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{agridoce}

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Havia coisas piores no mundo do que corações partidos e amores não correspondidos. Lavender Brown e Parvati Patil aprenderam isso ainda em seus dias de meninas. Não tiveram escolha, uma vez que a guerra desabou sobre elas, as soterrando em seus escombros e pilhando sua inocência. Foram tempos de sofrimento e escuridão. A chama que existia entre as duas – gerada por anos de amizade e afeto – era a única luz naquele oceano de trevas. A única que coisa que as mantinha aquecida. Um farol, permitindo que continuassem a navegar e as mantendo vivas e seguras.

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Parvati Patil sentia o pânico irrompendo como uma onda sempre que se lembrava do quão perto esteve de perder Lavender Brown. Por um instante – o mais horrendo e doloroso instante de sua vida – chegou a acreditar que a amiga estivesse morta. Mas não estava. Por alguma espécie de milagre, Lavender havia conseguido sobreviver a um ataque do lobisomem Fenrir Greyback. Não saíra ilesa e as cicatrizes a acompanhariam por toda vida. No entanto, haveria uma vida e isso era sempre motivo de alegria e esperança.

O mundo se recuperava de um momento difícil. Um momento de guerra e de trevas. As duas garotas também. Nada estava perfeito e nada seria como antes. Ainda assim, elas tinham uma à outra e sempre teriam. De alguma forma, isso bastava.

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Parvati Patil trançou os cabelos loiros de Lavender e os prendeu com uma fita cor de rosa. O gesto fez com que se lembrasse dos velhos tempos. Duas amigas fazendo tranças, analisando bolas de cristal e gargalhando, e por consequência, ignorando as reclamações de Hermione Granger. As lembranças pareciam de outra década e estavam impregnadas por um sabor agridoce, mas não necessariamente ruim.

Lavender finalmente havia recebido alta do St. Mungus e Parvati estava em sua casa, tentando animá-la.

— Você não precisa ficar aqui. — Lavender disse, enquanto começava a trançar os cabelos da Patil.

— Eu sei, mas quero ficar aqui. Quero ficar com você.

— Tudo bem. Então, pelo menos, me conte uma fofoca.

Os sorrisos que as duas compartilharam fez o mundo inteiro se iluminar. A vida nunca havia sido pior. A vida nunca havia sido melhor.

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{açucarado}

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O amor era um sentimento peculiar. Às vezes surgia de forma súbita, inesperada e inebriante. Um incêndio incitado pela fagulha mais frágil. Às vezes levava tempo, sendo cultivado aos poucos, dia após dia, nascendo da convivência, da amizade, do afeto e companheirismo mútuo. Uma pedra preciosa, formada por sedimentos que se convertiam lentamente em uma unidade de valor inestimável. Às vezes, por mais contraditório que pudesse parecer, se assemelhava a uma mistura de ambos. Ao menos, era assim que Lavender Brown se sentia sobre Parvati Patil. Se apaixonar pela melhor amiga lhe fora rápido e surpreendente, ao mesmo tempo em que levara anos e parecera a coisa mais certa do mundo. As duas coisas podiam ser verdade.

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Os lábios de Lavender Brown tinham gosto de chá de hortelã e de gloss de cereja. Os lábios de Parvati Patil tinham gosto de canela e mel. Quase dava para sentir o açúcar na língua. Os corações das meninas batiam em sincronia, enquanto suas bocas se encontravam com delicado desejo. Mãos trêmulas, respirações aceleradas, um milhão de sentimentos compartilhados. Um beijo.

Durou uma vida inteira, durou um único segundo. As duas amigas sorriram uma para a outra, quando finalmente se separaram. O mundo explodindo em uma cacofonia de cores. Um arco-íris se formando após a mais terrível das tempestades. A doçura impregnada em cada gesto e escorrendo em cada um dos – muitos – beijos que se seguiram àquele primeiro. Porque o romance também era para meninas como Parvati Patil. Porque o mosaico de corações partidos de Lavender Brown podia ser curado. O amor havia sido inventado para as duas e ninguém mais. O amor era açucarado.

Notas finais
Eu escrevi essa história para o Pride do ano passado, mas acabei não inscrevendo por achar que já estava mandando fic demais (corta para esse ano e o fato de que inscrevi ainda mais histórias kkkkkkk). Era inicialmente uma coletânea de drabbles, porém, acabei achando que funcionaria melhor como uma one-shot. A narrativa é bem fragmentada e muito mais sobre sentimentos e pequenas reflexões, mas gosto de escrever esse tipo de coisa e acho que fanfics no permitem isso.
De qualquer forma, espero que tenham gostado! ♥
Beijinhos,
Thaís
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!