Notas iniciais
Hey, eu não estou morta xD
A adorável presença de uma nova leitora nas minhas atualizações recentemente - e um pedido tão adorável quanto - me fez abandonar a preguiça e lutar contra o bloqueio criativo para escrever algo para esse Natal.
Portanto, eu dedico essa one-shot a wolfgirl.
Espero que gostem xD

Ao ver o carro parado em frente à casa, a menina interrompeu a corrida subitamente e o embrulho vermelho, enroscado em baixo do braço, quase caiu.

“Papai?” pensou sua mente fresca, com uma alegria quase palpitante na beirada do estômago.

Queria tanto acreditar naquilo que não chegou a lembrar de que aquela época não tinha nenhum significado para ele. Tampouco pensou que aquele carro — velho, sujo e desbotado — não o carregaria. Se por ventura o pai viesse, o faria num veículo reluzindo a novidade e imponência.

Entrou em casa hesitante e esperançosa.

Um pé depois do outro, trazendo neve para dentro.

Apresentava-se solitariamente a árvore na sala, com bolinhas coloridas e luzes mal colocadas por todos os cantos.

O presente fora comprado com o dinheiro resultante de um furto astucioso da carteira da mãe exatamente ao meio dia daquela véspera de Natal. Numa letra torta e inexperiente, o nome do menino se ajeitava no cartão pendurado no embrulho.

— Mãe? — chamou, percorrendo o corredor vagarosamente.

Temia, por mais que desejasse, encontrar o pai.

Fumaça saía da cozinha e, enquanto caminhava até lá, Thalia não sabia o que esperar ao olhar para dentro. No entanto, mesmo receosa, olhou.

— Mãe? — repetiu, um pouco incrédula, querendo ter certeza de que era ela.

De roupas íntimas, a mulher estava largada numa cadeira, a maquiagem borrava um pouco os olhos e os cabelos claros se desgrenhavam ao redor do rosto. Nos lábios finos e pálidos, ajeitava-se o fim de um cigarro.

Ao seu lado, sentava-se um homem que não era seu pai e ele empesteava a cozinha com o fedor do tabaco.

Nenhum dos dois lhe deu atenção. Pareciam sonolentos e distraídos, admirando o outro mundo por trás do silêncio. Duas garrafas vazias de vinho, os restos do pó branco e uma seringa estreita compunham uma cena deplorável.

Não queria que fosse a mãe ali.

Não de novo.

Não naquele dia.

— Cadê o Jason? — a menina cuspiu a pergunta com toda a raiva que o cheiro do fumo fazia arder em seus pulmões. Ninguém lhe respondeu.

Dos palavrões que sabia, havia aprendido alguns na escola e outros com a mãe. Usava-os com frequência, apesar de não saber bem o que significavam. Subiu as escadas, recitando os três de que mais gostava — os que soavam mais agressivos.

Quando acendeu a luz do quarto, viu o garoto em pé no berço, de olhos arregalados e nariz vermelho. Ele estivera chorando, mas sorriu banguela ao vê-la e estendeu os braços, abrindo e fechando as mãos.

Com dificuldade, Thalia pegou o irmão no colo. Ele estava começando a ficar pesado. Ao menos, dessa vez, a mãe se preocupara em lhe dar um banho decente e em coloca-lo para dormir.

Levou-o para o seu quarto e encostou a porta. Assim que foi posto no chão, Jason atrapalhou-se com os passos até a pequena estante, pegou o livro de contos e tentou subir na cama. A menina ajudou-o e puxou o cobertor para afastar o frio.

— Adivinha o que eu trouxe — disse ela, aproximando-se do garoto e encarando seus olhos despertos.

Ele a encarou, sem parecer entender.

O embrulho, depois de entregue, foi segurado e virado várias vezes com curiosidade por suas mãozinhas desajeitadas e desabituadas com presentes. Ele encostou a orelha na caixa e depois levantou a cabeça, resmungando numa linguagem embolada. (A mãe não os mimava como já fizera antes. Os presentes agora vinham, quando vinham, sem embrulho e sem cartão.)

— Tem que abrir — disse Thalia, rasgando um pedaço da embalagem malfeita e recebeu um sorriso. Prontamente, o menino estava fazendo o mesmo com o resto, com voracidade e pouca prática, até expor uma caixinha quadrada, com um boneco amarelo dentro.

— Chu? — perguntou o irmão, sorrindo no meio de uma das poucas palavras que sabia pronunciar.

— Isso.

Jason lhe deu a caixa e Thalia abriu-a para que ele pudesse tirar o Pokémon lá de dentro. A primeira coisa que ele fez foi virar o boneco e então colocou uma orelha na boca.

— Não! Isso é sujo. — O menino a encarou sem compreender e Thalia puxou o brinquedo da sua boca. — Sujo.

Ele não tornou a colocar o Pokémon na boca na frente dela. Só parou com o hábito tempos depois, quando o cheiro irresistível de brinquedo novo havia ido embora.

Thalia ficou observando enquanto ele mexia no brinquedo, empolgado. Era um pouco patético que ele gostasse tanto justamente do Pikachu, se considerasse quem era seu pai.

Apontando para a parte de trás da caixa, o garoto fez um som chiado com os lábios. Franzindo o cenho, a menina viu que seu dedo estava em cima de outro Pokémon. Ela riu. (Jason tinha alguns favoritos. O primeiro deles era o Pikachu, tal como era para muitas outras crianças, incluindo, secretamente, Thalia. Charmander e Farfetch'd seguiam na lista do menino, enquanto ela adorava a pomposa Jynx — e, até mesmo, o medo que o irmão sentia dos episódios nos quais ela aparecia.)

Bagunçou seus cabelos distraidamente e o garoto passou a mão para arrumá-los. Ela fez isso mais algumas vezes, até ser encarada com um resmungo.

No dia em que Jason entrara em casa pela primeira vez — quando ela o vira pela primeira vez — a mãe estava radiante. Ela se sentou na poltrona e chamou sua filha para perto, enquanto acariciava o rosto adormecido do bebê em seu colo.

Thalia havia pensado que ele era a coisa mais curiosa que já vira, com o cabelo louro e as bochechas infantilmente rosadas. As mãozinhas estavam fechadas e com curiosidade a menina tentou esticar seus dedos; eles tornaram a se fechar, macios e quentes, ao redor do seu indicador.

Não era o primeiro bebê que via, mas era o primeiro recém-nascido no qual punha os olhos e só conseguia se questionar como um ser humano podia ser tão pequeno, tão delicado e tão semelhante ao E.T. do filme.

“Ele é tão bonitinho” dissera ela a mãe naquele dia.

“É claro que é.” A mulher riu e beijou a testa do menino. Logo depois, segredou para a filha num sussurro: “É o meu garoto de ouro.”

Nos anos vindouros de sua infância, ela nunca chegou a entender aquilo.

— Quer ouvir uma história?

Sem realmente responder, Jason se ajeitou junto dela, de maneira que pudesse ver as figuras do livro.

Enquanto lia, de jeito infantil, pausado e um pouco errado, via o irmão apontar para as imagens. Ele dizia “au-au” para quase todos os animais de quatro patas e a menina ria.

O livro chegou ao fim e ela se inclinou e pegou outro. Mas aquele outro era antigo, as palavras muito difíceis e as ilustrações eram bizarras demais.

Resmungando, Jason empurrou-o para longe, mas a irmã ignorou seus protestos e continuou lendo a primeira história. Quando terminou, arrependia-se de tê-lo feito. O menino estava encolhido, agarrado a ela. Buscando proteção. A luz fraca da luminária parecia cada vez mais fraca na medida em que o medo crescia dentro dela.

— Pare de ser bobo — sussurrou. — É só um livro, Pikachu.

Mas ele apontou para um canto escuro no quarto.

— Para. Não tem nada lá.

Dizia mais para si do que para ele. Estava também assustada e não podia ter realmente certeza de não haver nada lá.

Thalia colocou o livro de lado e puxou o cobertor por cima de suas cabeças. As duas crianças sentiram a proteção caindo sobre seus corpos e agora nenhum monstro podia lhes fazer mal.

Apesar disso, Jason soltava murmúrios amedrontados e babados, enquanto seus dedos seguravam a mão dela.

Às vezes, Thalia tinha um sonho escuro, no qual ela fugia de um milhão de monstros, com o gosto de sangue e medo mesclados na boca. Aterrorizada, ela podia ouvir o pai correndo ao seu lado. As palavras que sempre ouvira de Zeus, a menina repetiu, naquele momento, ao irmão:

— Você não deve ter medo, porque tem o meu sangue e a minha coragem. — Ela não falou por um instante, como ele fizera. — E não se esqueça de que lobos amedrontados não lideram a matilha.

Embora não parecesse ter compreendido, o menino se acalmou.

Thalia retirou o cobertor do rosto e inspirou o ar gélido do quarto novamente. O canto escuro atrás da porta era só um canto escuro agora e nada parecia existir lá.

Olhou para a janela, onde o céu frio e pesado não tinha estrelas.

“Eu sei que o Jason precisa de mim” pensou Thalia, esperando que o pai a escutasse. “Mas eu me sinto mais como um pássaro ferido, perdido e assustado do que como um lobo...”

O pai não respondeu.

Na noite de véspera de Natal, a casa estava mergulhada num frio singelo, respirando o ar cansado.

O homem na cozinha acendeu novo cigarro. A mãe procurou outra garrafa de vinho. As duas crianças encolheram-se de baixo do cobertor, enquanto a noite calejava a atmosfera do lado de fora.

Havia abrigo ali, um com o outro, onde sempre haveria.

Com gentileza, Morfeu acolheu o menino e, logo depois, a irmã.

***

Branca e achocolatada.

Assim esquivou-se para o céu a manhã de Natal.

Thalia e Jason desceram as escadas de mãos dadas, cabelos bagunçados e olhos sonolentos. Foram recebidos pela mãe que, vestida e arrumada, os puxou num abraço e os encheu de beijos.

— Feliz Natal!

Os braços dela estavam fracos e nas dobras dos cotovelos viam-se marcas de picadas recentes. Detalhes que ninguém reparou, mas estavam lá, tão presentes e sensíveis quanto o abraço terno que era dividido em três.

— Jason, parece que tem algo para você na árvore de Natal.

O menino foi até lá, caminhando desajeitado. Ele caiu sentado e começou a abrir o presente.

— Me desculpe por ontem — a mãe murmurou, mas Thalia continuou silenciosa. Estava sentindo o cheiro de chuva que envolvia a sala e a mulher; era um cheiro que se sobrepunha a intensidade daquele semelhante que vinha dela e do irmão.

Tão nítido, tão físico e tão real quanto o colar de safiras no pescoço da mãe, o pai estivera ali. Seu pai, o pai deles.

Um presente foi posto em sua mão.

— Eu sei que você não acredita mais em Papai Noel, mas parece que ele ainda se lembra de você...

Ela havia mesmo comprado. Não Zeus. O presente era da mãe. Sabia disso, com uma certeza que não era estranha, não era nova. E ela gostou mesmo antes de abri-lo.

Jason já testava o sabor do seu brinquedo novo.

Naquela manhã, os três comeram juntos e a mãe pediu para que ela colocasse uma música. Quando o toca discos vazou o som doce que Thalia havia escolhido, a mãe começou a rir, levantou-se e chamou os filhos para uma dança.

A mulher nada disse, mas lembrou-se de quando conhecera Zeus. Ele a tirara para dançar ao som daquela mesma música.

— Mãe, do que você está rindo? — perguntou Thalia, sendo rodopiada pelo tapete.

— Eu não estou rindo. Estou sorrindo.

— Mas por quê?

— Porque eu estou feliz.

Mesmo vestida em trapos velhos, com os cabelos sujos, maquiagem borrada e o fedor de álcool misturado ao fumo na boca, não era difícil ver a beleza que a mãe ostentava. Quando, como naquela manhã, a mulher despia sua casca malcuidada e amarga, ela irradiava um encanto aos pés da irrealidade.

Do absurdo.

Quase, quase, perfeita.

— O papai veio aqui, não veio?

— Talvez. — Sorriu. — Mas eu estou feliz, porque amo vocês dois.

A menina não quis responder. Jason não sabia falar e ainda não compreendia um “amo você” mais do que compreendia um “bom dia”. Mas a mãe, com sua última dose de felicidade inabalável, continuou a dançar junto dos filhos.

Mesmo no típico frio matinal do inverno, o menino sentia-se num dia fresco de verão, rodopiando em meio a um jardim de lírios.

Thalia, mais tarde, pensaria naquele Natal como azul.

Azul cobalto.

Notas finais
Eu ainda não li O Sangue do Olimpo, então agradeço se me pouparem dos spoilers, okay? Sejam legais.
...
Em O Herói Perdido, a Thalia diz que a mãe deles namorava uns dublês idiotas, bebia muito e que não dava para confiar nela para cuidar do Jason; com isso, dá para entender que eles cresceram basicamente sozinhos.
Então, como ao longo dos livros nós não vimos nenhum desenvolvimento desse ponto extremamente positivo para o crescimento do personagem do Jason, a ideia de escrever algo sobre a infância dele e da Thalia e a Mamãe Grace estava na minha cabeça há um tempo. Mas ainda não havia encontrado o momento certo para escrever.
Quando recebi o pedido para uma one-shot natalina eu senti que duas coisas importantes haviam se encaixado. E eu gosto dessa ideia de Natal sob a atmosfera da família Grace.
Bem... é isso.
Feliz Natal a todos, espero que ganhem muitos presentes e... até uma próxima vez, eu espero xD
P.S. Lembrem-se que o peru/frango em cima da mesa é um cadáver uwu
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!