Azul
1 Capítulo 1 - Capitulo Único
Notas iniciais
Azul
– Capitulo Único -
Seus passos comedidos não forneciam nenhum barulho ante a terra fofa de grama baixa. Uma fina garoa despencava do céu molhando seus cabelos espessos, deixando-os pesados, talvez tão pesados quando seus ombros levemente arqueados para frente. A mão direita enterrada dentro do bolso do casaco do sobretudo, enquanto a outra empunhava uma garrafa de whisky barato qualquer. E se fosse de sua personalidade chorar, de certo lágrimas já estariam a correr soltas por seu rosto, no entanto, chorar para si era uma fraqueza que ele não se permitia. Orgulhoso de mais, mantinha as gotas intactas em seus olhos, se limitando apenas a caminhar por entre as lapides brancas sem denotar expressão alguma. O frio e o cortante silêncio da noite sendo seus únicos companheiros.
Era estranho se ver ali, naquele lugar, quando nem ao menos tivera a coragem de comparecer mais cedo. Covarde, sempre fora um, mas agora esta constatação lhe doía como nunca. Por que não havia estado ao seu lado quando ele mais precisara e o pior, nem ao menos as honradas despedidas lhe prestara. O homem com quem por várias noites dividira lençóis e o calor de seu corpo, agora já não habitava o reino dos vivos.
Ainda podia se lembrar claramente da ultima noite, o vai e vem suave, as respirações conectadas, o suor que escorria-lhes a epiderme, o cheiro do sexo que permeava o quarto vagabundo de um motel... Imagens tão claras e nítidas quanto a mais cristalina água, imagens essas que pareciam o perturbar a cada segundo dando-lhe uma única e dolorosa certeza. Jamais poderia senti-lo em si outra vez.
Deveria tê-lo escutado quando este recorrera a si alegando que toda aquela guerra era inútil, mas uma vez que ambos possuíssem os seus motivos e os orgulhos inabaláveis não permitiam que nenhum recuasse, continuaram. Lados opostos, rumos tomados totalmente diferentes, e uma vida que poderia ter sido longa e feliz destruída pela simples incapacidade de não cederem. Por que não fugiram quando lhes fora imposta a possibilidade? Por que não abandonaram tudo para simplesmente viverem plenamente aquele amor?
Essas eram perguntas que se fazia desde a exata hora em que tomara conhecimento daquela infeliz noticia.
Mas agora de que adiantava tais questionamentos? Ele já não estava mais ali, eles jamais poderiam estar juntos novamente, e tudo havia se perdido, tragado para a escuridão como um enorme buraco negro.
Parou em frente à enorme e mais honrosa lápide que ocupava aquele espaço e sem excitar permitiu-se cair de joelhos no chão. A dor do contato de sua pele com o chão de terra e pequenas pedras sendo irrelevante ante a dor de saber que ali embaixo jazia agora morto o grande amor de sua vida. E então pela primeira e única vez, deixou que um choro desesperado rompesse de sua garganta, a garrafa de bebida sendo atitada longe, enquanto com as duas mãos apoiava-se sobre o tumulo repleto de flores e presentes de despedidas. As lágrimas rompendo como um rio que deságua em um mar, transbordando todos os sentimentos que até então mantinha intactos no mais profundo de seu coração.
Sussurros baixos abandonavam seus lábios, palavras tão desconexas e embargadas que seria difícil para qualquer pessoa compreender, mas um nome e somente um único nome podia ser ouvido com perfeição, entoado pela voz grave como um profundo lamento.
“Steve.”
E Tony Stark sempre soube que tinha o poder de acabar com tudo ao seu redor, de fazer sempre as escolhas e opções erradas e de não ter a capacidade suficiente para não perder aquilo que amava.
Por que Tony Stark quebrava tudo em que tocava...
A chuva começou a despencar com mais força do céu, mas isso parecia não afeta-lo. Se mantendo ainda na mesma posição, se permitiu acompanhar em lágrimas a tempestade que se iniciava.
Pois estava ciente de que quando não quebrava algo, ele o deixava fugir.
E o Capitão América havia partido para sempre.
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