O ritmo do treino não diminuía, mas também já não era caótico como antes. Havia uma cadência construída ao longo das últimas semanas, uma espécie de entendimento silencioso que dispensava explicações longas ou comandos constantes. O campo do AXION já não era um espaço de testes individuais.

Tornara-se um ambiente onde decisões eram tomadas em movimento, onde cada ação era respondida com precisão e onde o erro, quando surgia, era absorvido e corrigido antes de se repetir. Raziel se movia no centro disso tudo. A espada larga descrevia trajetórias limpas enquanto desviava o fluxo de ataques ao seu redor.

Não buscava se impor sobre os outros, mas ajustar o campo. Um leve reposicionamento de corpo fazia Blaze alterar o ângulo de ataque. Um giro mínimo da lâmina criava abertura para Sakura avançar com um corte mais eficiente. Eryndor recuava meio passo antes de disparar, antecipando o movimento que viria.

Kael surgia onde não deveria estar, sempre no ponto exato onde alguém não estava olhando. E, ao lado, Azuki acompanhava, não mais como espectadora e sim como parte ativa.

— Mantém — disse Raziel, sem olhar diretamente.

Ela respondeu no mesmo instante. O círculo rúnico surgiu sob seus pés com uma estabilidade que já não causava surpresa. A mana fluiu sem resistência, e as invocações começaram a se formar, uma seguida pela outra.

Não havia esforço aparente, nem hesitação. Cada entidade surgia com precisão, assumindo posição no campo como peças de um tabuleiro que ela dominava com naturalidade crescente. O ritmo do combate continuava e começava a se adaptar à presença delas. Blaze desviou de uma das sombras sem interromper o próprio ataque. Sakura ajustou o corte para não interferir na movimentação.

Quando se deram conta, as dez invocações estavam ali. Antes poderiam ser apenas formas de uma demonstração de como seria o poder dela no futuro, porém com o passar do tempo todos ali viam que o futuro já estava entre eles.

Moviam-se em conjunto, cobrindo ângulos, criando pressão e abrindo espaços. Não havia atraso perceptível entre comando e execução. Não existia instabilidade no fluxo de mana. Elas simplesmente funcionavam. O campo se reorganizou ao redor disso, e foi nesse momento que Raziel falou.

— Vocês ainda não sabem… — O combate não parou. Mas o ritmo mudou. — …mas o teste da dungeon vai mudar.

A frase atravessou o movimento como uma lâmina silenciosa. Blaze errou um tempo de ataque por um instante, Sakura estreitou os olhos e Alya deslocou o olhar diretamente para ele, analisando cada palavra com mais atenção. Raziel girou o corpo, desviando de uma investida e reposicionando Kael com um leve toque de lâmina.

— Não vai ser uma dungeon comum. — Uma pausa curta. — Vai virar uma raid.

Dessa vez, o campo desacelerou, ninguém tinha pedido para diminuirem. Eryndor abaixou o arco levemente.

— Raid…?

— Oito pessoas — continuou Raziel. — Dois grupos de quatro… ou um grupo funcionando como um só.

Blaze soltou um leve riso, mais interessado do que surpreso.

— Isso muda tudo.

— É o ponto — respondeu Raziel.

Alya permaneceu em silêncio por alguns segundos, observando o campo, o grupo e, por fim, ele.

— E você tem certeza disso?

Raziel não hesitou.

— Tenho.

A resposta foi simples, rápida e suficiente. O campo ficou em silêncio por alguns segundos. Soube que era nesse momento que precisava dar um passo à frente.

— Então vamos montar isso agora.

Não houve resposta imediata. Sakura foi a primeira a relaxar a postura. Blaze abaixou a guarda em seguida. Eryndor desviou o olhar, como se já estivesse calculando possibilidades. Kael simplesmente parou. Alya foi a última, mantinha a postura por mais um instante e então assentiu.

— Então vamos testar isso.

Não havia cerimônia ou declaração formal. Mas naquele momento, ficou claro que o grupo estava formado. Precisavam de oito pessoas para formar um grupo. Raziel olhou para Azuki.

— Pode mostrar de novo?

A mesma não respondeu, com apenas um aceno da cabeça, apenas executou. As invocações surgiram mais rápido desta vez, com ainda mais precisão. As sombras se organizaram com eficiência crescente, reagindo ao campo como se fossem extensões diretas da percepção dela.

Não havia esforço visível ou desgaste imediato. Ela estava confortável naquele nível e aquilo chamou atenção. Não como surpresa. Raziel observou por alguns segundos, assim como todos ali percebiam o quanto ela estava evoluindo ao treinar com AXION. E então algo mudou em seu olhar, porque ele sabia do futuro e tinha conhecimento que ela estava longe do seu limite.

A ideia surgiu de forma clara. Necromancia… Invocação… Mas existia algo além. Invocador Divino, mas não disse nada. Porém, sua mente vinha lembrando dessa classe que surgiria no futuro e sua mente já trabalhava. Porque ele não trazer algo do passado ou depender de vínculo. Mas criar.

Construir entidades próprias e formar pactos com seres de luz e de mana pura. Por um instante, imaginou as sombras sendo substituídas por formas mais densas, mais brilhantes, mais poderosas. Entidades que não precisariam de âncoras. Que não dependeriam de restos.

Um sistema completamente diferente do caminho que ainda não existia ali. Mas existiria, e ao olhar para Azuki, teve certeza que ela poderia chegar lá. Um leve sorriso surgiu.

— Bom — disse apenas.

O treino terminou sem comando direto. O grupo naturalmente reduziu o ritmo até parar. O silêncio que se seguiu não era pesado. Era estável, o tipo de silêncio que surge quando todos entendem que algo foi definido. Mas Raziel ainda não havia terminado.

— Ou a gente pode fazer melhor. A frase veio sem aviso.

Blaze olhou para ele imediatamente.

— Melhor que isso?

Raziel apoiou a espada no ombro.

— Oito pessoas é o esperado. — Uma pausa. — Mas não é o limite.

Sakura franziu o cenho.

— O que você está pensando?

Ele respondeu sem hesitar.

— Dezoito.

O campo voltou a cair no silêncio. Dessa vez mais profundo. Eryndor foi o primeiro a reagir.

— Dezoito…? Blaze soltou um riso curto. — Você tá falando sério?

Raziel assentiu.

— Pensem comigo, vamos ter cobertura total. Pressão contínua e controle de campo absoluto.

Alya cruzou os braços.

— Isso não é padrão. — Justamente — respondeu ele.

O olhar dela se aprofundou.

— E por que isso funcionaria?

Raziel respondeu com calma.

— Porque ninguém vai esperar. — Uma pausa. — E porque a gente consegue sustentar.

O silêncio se transformou em algo diferente. Não dúvida e sim, possibilidades. O mago de fogo foi o primeiro a sorrir.

— Quebrar o recorde da raid… — Eryndor completou. — …aumenta a recompensa.

Sakura respirou fundo.

— Isso é arriscado.

— É — disse Raziel. Então completou: — Mas é viável.

Alya observou todos ao redor. E então disse:

— Se isso funcionar… — uma pausa curta. — A gente redefine o padrão.

O grupo entendeu. A ideia não era só vencer. Eles iriam superar, fazendo algo que ninguém tinha feito antes. E isso… era suficiente. Mas Raziel ainda não havia terminado. Ele olhou para Azuki.

— Ainda falta uma coisa.

Ela inclinou levemente a cabeça.

— O quê?

— Um ajuste.

O olhar dela se estreitou. Curiosa.

— Que tipo de ajuste? Raziel não respondeu imediatamente. — Depois vamos conversar sobre isso.

Ela não insistiu. Mas o interesse ficou evidente. O grupo começou a se dispersar lentamente, ainda discutindo possibilidades, estratégias, combinações. O clima havia mudado completamente. Não era mais apenas treino. Parecia preparação real.

Dessa maneira o espadachim saiu primeiro. Sem pressa, como sempre. Azuki o acompanhou alguns passos depois. O caminho até os alojamentos era silencioso àquela hora. O som distante da academia ainda ativa criava um fundo constante, mas não interferia na conversa. Ela caminhava ao lado dele, segurando o próprio tablet com leve firmeza.

— Que ajuste? — A pergunta veio direta. Ele manteve o olhar à frente.

— Você já chegou no limite da necromancia básica.

A invocadora franziu o cenho.

— Ainda dá pra melhorar?

— Dá — respondeu ele. — Mas não é isso que eu estou falando.

Uma pausa. A garota virou o rosto levemente.

— Então o quê?

O jovem parou, ela seguiu seu movimento, parando logo ao lado. Então ele finalmente falou.

— O que você faz hoje… — Outra pausa. — Não é o limite.

A garota fitou seus olhos intensamente, esperando não respondeu.

— É só o começo.

O olhar dela se aprofundou, certo, tinha acertado a veia da curiosidade da invocadora. Estava atenta.

— Existe algo acima disso — continuou ele. — Estável, forte. Mais… seu.

O coração dela acelerou levemente.

— O quê?

Raziel desviou o olhar para ela. E então disse:

— Você já ouviu falar de Invocações Divinas?

O silêncio que se seguiu não era vazio. Tinha início de algo maior. E, pela primeira vez… Azuki percebeu que o caminho que estava trilhando… Ainda nem havia começado de verdade. Mas a curiosidade por essa classe que ela nunca ouviu falar antes a deixou intrigada.