Awakening: O Regressor Escolhido pelo Sistema

17 CAPÍTULO 16 — O NOME QUE COMEÇOU A CIRCULAR


A segunda-feira amanheceu com uma sensação estranhamente silenciosa dentro da academia, como se o próprio ambiente estivesse absorvendo as mudanças ocorridas nos últimos dias antes de decidir como reagir a elas. Os corredores voltaram a se encher com o fluxo constante de alunos, os telões digitais exibiam avisos rotineiros e os professores retomavam suas atividades como se nada fora do comum tivesse acontecido.

Ainda assim, havia algo diferente no ar, algo que não podia ser apontado diretamente, mas que se manifestava em pequenos detalhes: conversas interrompidas, olhares mais longos do que o necessário e uma atenção coletiva que parecia girar em torno de um único nome.

No fórum interno da academia, essa mudança não era sutil. Um novo tópico dominava completamente a página principal, acumulando respostas em uma velocidade que deixava claro que aquilo não era apenas curiosidade passageira.

“Treino com AXION confirmado?” era o título, e abaixo dele, dezenas de alunos discutiam, analisavam e tentavam reconstruir o que havia acontecido no sábado. Alguns afirmavam com convicção que era impossível alguém chamar a atenção dos seis ao mesmo tempo, enquanto outros diziam que haviam visto registros de mana fora do padrão na área restrita.

As mensagens se sobrepunham em ritmo constante, criando um mosaico caótico de opiniões. “Ele está no nível deles?”, “Isso significa que ele já é Rank A de verdade?”, e o mais importante, “Desde quando ele era assim?” eram perguntas que surgiam repetidamente. O ponto central não era mais o duelo contra Henrique. Aquilo já havia sido absorvido. O que agora alimentava o interesse coletivo era algo mais profundo: a percepção de que havia alguém dentro da academia que ninguém havia entendido corretamente.

Raziel atravessava o corredor principal enquanto essas discussões aconteciam em segundo plano, ignorando completamente o fluxo digital que crescia ao seu redor. Não precisava ler o fórum para saber o que estava sendo dito. Conseguia perceber a mudança diretamente nas pessoas.

Os grupos que antes ocupavam o centro do corredor se afastavam levemente ao ver se aproximar, abrindo espaço sem precisar de qualquer gesto explícito. Alguns alunos mantinham o olhar por mais tempo, tentando medir algo que ainda não sabiam nomear. Outros simplesmente evitavam contato visual, como se isso fosse a melhor forma de não chamar atenção desnecessária.

Aquilo não era respeito puro. Ainda não. Mas sim, o início dele, misturado com cautela.

Continuou andando sem alterar o ritmo, como se nada daquilo tivesse importância. Na verdade, para ele, não tinha. O comportamento das pessoas sempre mudava quando o equilíbrio de poder se alterava. Previsível. e repetitivo. Acima de tudo, irrelevante para o que realmente importava.

No campo de treino externo, Azuki já o aguardava. Sentia até um certo alivio em saber que nesse último ano passaria mais tempo fora das salas de aula. Assim poderia focar em melhorias e no seu treinamento.

Ela estava posicionada no centro do círculo rúnico, que havia desenhado com muito mais precisão do que nos dias anteriores. As linhas de mana estavam mais estáveis, menos tremidas, formando um padrão que já não parecia improvisado. Quando Raziel se aproximou, a primeira sombra já havia emergido do círculo, assumindo uma forma humanoide mais definida, com contornos menos dispersos e movimentos mais consistentes.

— Você começou antes — disse ele, aproximando-se com calma.

A garota não desviou o olhar do círculo.

— Eu não posso depender de você para tudo.

A resposta veio sem hesitação, e havia algo diferente nela. Não era apenas determinação, a frase veio carregada de entendimento. Logo a segunda invocação começou a se formar logo depois, surgindo como uma distorção no ar ao lado da primeira sombra. O fluxo de mana se expandiu, e por um momento pareceu instável, mas não colapsou como antes. A segunda entidade se consolidou, tremulando levemente antes de assumir uma forma semelhante à primeira.

Raziel observou em silêncio. Aquilo não era mais tentativa. Já tinha se transformado em progresso real.

— Mantém — disse ele, em tom controlado. — Não força mais do que isso.

Azuki respirou fundo, ajustando o fluxo de mana. As duas sombras avançaram juntas, executando um padrão simples de ataque e recuo. Não havia velocidade absurda nem força esmagadora, mas havia algo muito mais importante começando a surgir: coordenação. As duas entidades não estavam mais competindo pelo controle da invocadora. Estavam funcionando como partes de um mesmo sistema.

— Está pensando nelas como uma coisa só — comentou Raziel.

— Eu parei de tentar controlar cada movimento — respondeu ela. — Só… deixei fluir.

— Isso.

Ele deu um pequeno passo à frente, observando com mais atenção.

— Agora ajusta a respiração.

Azuki franziu levemente o cenho.

— Minha respiração?

— Você prende o ar antes de sustentar a segunda invocação.

Ela testou. Inspirou. Soltou o ar de forma controlada, o círculo estabilizou ainda mais e as sombras responderam imediatamente.

— Melhor — disse ele.

O treino continuou por vários minutos, com ajustes finos sendo feitos em tempo real. Raziel não demonstrava, não exagerava, não elevava a voz. Apenas observava e corrigia. Cada detalhe importava: o ângulo das mãos, o ritmo da respiração, a forma como a mana era conduzida pelo núcleo até o círculo. Não havia desperdício.

Foi nesse momento que perceberam que não estavam sozinhos. Havia pessoas observando.

Não era uma multidão, mas também não era casual. Alguns alunos estavam claramente parados assistindo. Outros fingiam treinar enquanto olhavam de canto. Dois deles discutiam algo em voz baixa, provavelmente tentando entender o que estavam vendo.

Azuki percebeu primeiro.

— Tem gente olhando — disse, mantendo o foco no círculo.

Raziel não se virou.

— Deixa.

Ela hesitou por um instante.

— Antes… não era assim.

Ele respondeu com naturalidade.

— Antes era desprezo.

Azuki manteve o silêncio.

— E agora? — perguntou ela.

— Agora é interesse.

Ela absorveu aquilo em silêncio. O treino seguiu.

Depois de mais algumas repetições, Azuki decidiu tentar algo novo. O fluxo de mana aumentou de intensidade, e o círculo rúnico expandiu levemente, como se estivesse sendo pressionado de dentro para fora. Uma terceira distorção começou a surgir ao lado das duas sombras existentes.

Instável, ainda irregular, porém, tinha forma. Por um segundo, parecia que a terceira invocação iria se formar. Mas a mana não estava pronta e o círculo colapsou. As duas sombras desapareceram ao mesmo tempo.

Azuki cambaleou levemente, levando a mão ao peito enquanto recuperava o fôlego.

— Quase… — murmurou.

Raziel se aproximou.

— Não tenta isso ainda.

Ela ergueu o olhar.

— Eu consigo.

— Não hoje.

O tom dele não era duro, mas sobrecarregar não seria o melhor caminho. Azuki respirou fundo e assentiu.

— Quanto falta?

Raziel respondeu sem hesitar.

— Pouco.

Ela sorriu de leve. Eles deixaram o campo alguns minutos depois, e dessa vez ninguém tentou esconder que estavam sendo observados. Os olhares não estavam mais focados apenas em Raziel. Azuki também começava a chamar atenção. E isso mudava o cenário.

O efeito estava se espalhando. Durante o intervalo, sentado em um dos bancos próximos ao jardim interno, Raziel abriu o sistema. A interface surgiu diante de seus olhos com clareza.

[Sistema — Status Atual]


Força: 38

Agilidade: 37

Defesa: 35

Poder Mágico: 34

Mental: 39


Classificação Atual: Rank A

Aura: Nível Intermediário

Progresso para Rank S: 23%

Observou os números com calma, o crescimento havia diminuído. Como esperado. Rank A não era apenas um nível. Mas um limite, e ele estava encostando nele. Fechou a janela. Se quisesse avançar, precisaria de mais do que treino.

Precisaria de confronto. Mais tarde, enquanto caminhava de volta para o alojamento, o celular vibrou. Uma nova mensagem. O nome na tela não surpreendeu.

Richard.

Ele abriu.

“Você está chamando atenção demais.”

Simples e direto, como um bom gancho quando encontra um estômago durante uma briga. Sem emoção. Raziel leu a mensagem uma vez e depois outra. Então guardou o celular. Parou por um instante no corredor vazio, observando a própria mão.

A aura não apareceu. Estava lá, presente, controlada.

— Ainda não — murmurou.

Quando voltou a caminhar. Se pegou pensando que o momento certo ainda não havia chegado, estava próximo. E quando chegasse… Não seria apenas um duelo. Seria uma declaração.

E a academia inteira já estava começando a entender. O nome Raziel não era mais um erro no sistema. E sim, um aviso.

E, desta vez, ninguém poderia ignorá-lo.