Avesso
22 Capítulo 22 - O Preço da Armadura
Até aquele dia, Skamar gostava do Santuário.
Gostava mais do que admitia.
Gostava do cheiro das pedras aquecidas pelo sol, do movimento constante das pessoas, das vozes que vinham das áreas de treinamento, do brilho das armaduras quando o sol batia sobre elas.
Gostava de observar os Cavaleiros.
Alguns pareciam ter nascido para aquilo.
Aldebaran era enorme e parecia capaz de derrubar uma montanha.
Milo fazia tudo parecer uma brincadeira, até o momento em que deixava de ser.
Aioria tinha uma energia que fazia as pessoas naturalmente se afastarem ou se aproximarem dele.
Shaka parecia pertencer a algum lugar que ninguém mais conseguia alcançar.
E Mu...
Mu era diferente.
Quando vestia a Armadura de Áries, Skamar ainda tinha dificuldade para acreditar que aquele homem tranquilo que tomava chá com ela era a mesma pessoa que fazia os outros Cavaleiros baixarem a voz quando entrava em uma sala.
Ela gostava daquilo.
Da sensação de estar perto de pessoas extraordinárias.
Às vezes chegava a esquecer que havia alguma coisa errada.
Que ela não lembrava de onde vinha.
Que alguém talvez tivesse tentado matá-la.
Que havia um pedaço inteiro de sua vida desaparecido.
No Santuário, ela conseguia simplesmente viver.
Até aquele dia.
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Ela estava com Aldebaran quando ouviu o alarme.
Um som grave atravessou o Santuário.
Skamar ergueu a cabeça.
— O que foi isso?
Aldebaran ficou sério.
— Nada bom.
— É algum ataque?
— Não.
Ele já estava olhando para a entrada principal.
Pessoas começaram a se movimentar.
Cavaleiros deixaram seus afazeres.
Soldados correram em direção aos portões.
Skamar acompanhou Aldebaran.
— O que está acontecendo?
— Uma patrulha está voltando.
— E isso é motivo para alarme?
Aldebaran não respondeu.
Ela percebeu então que havia alguma coisa errada.
Muito errada.
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Os primeiros homens apareceram no caminho.
Dois soldados.
Depois um Cavaleiro.
Depois outro.
Não havia triunfo.
Não havia conversa.
Não havia aquele orgulho que Skamar costumava ver quando alguém retornava de uma missão.
Eles caminhavam em silêncio.
Um dos homens carregava alguma coisa.
Não.
Alguém.
Skamar parou.
O corpo estava coberto por um manto.
Um braço pendia para fora.
A mão estava imóvel.
— Quem é? — perguntou ela.
Aldebaran não respondeu.
— Aldebaran?
Ele segurou seu ombro.
— Skamar.
— Quem é?
— Não precisa chegar mais perto.
Ela olhou para ele.
— Quem é?
Aldebaran baixou os olhos.
— Um Cavaleiro.
Ela sentiu um frio percorrer o corpo.
— Ele está ferido?
Silêncio.
— Ele está?
Aldebaran demorou a responder.
— Não.
Skamar olhou novamente para o corpo.
— Então...
Sua voz falhou.
— Ele morreu?
Aldebaran assentiu.
Ela ficou imóvel.
Morto.
A palavra parecia não pertencer àquele lugar.
Àquele homem.
Àquela realidade.
Porque ele estava ali.
Tinha acabado de voltar.
Ainda estava vestido com parte da armadura.
Ainda fazia parte daquele mundo.
Mas não estava vivo.
Skamar sentiu o estômago revirar.
— Mas ele voltou.
— Sim.
— Então por que...
Ela não conseguiu terminar.
Aldebaran apertou o ombro dela.
— Algumas missões terminam assim.
Skamar olhou para ele.
— E isso é normal?
Aldebaran não respondeu.
O silêncio foi resposta suficiente.
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Mais tarde, Skamar descobriu o nome dele.
Era um Cavaleiro de Bronze.
Não era alguém famoso.
Não tinha derrotado um deus.
Não havia estátua esperando por ele.
Não havia histórias extraordinárias sobre seus feitos.
Era apenas um homem.
Um homem que tinha ido cumprir uma missão.
E não voltara vivo.
Skamar ficou sentada perto do local onde haviam colocado o corpo.
Mu apareceu algum tempo depois.
Ele estava de armadura.
A Armadura de Áries brilhava sob a luz do fim da tarde.
A capa branca arrastava levemente pelo chão.
O som metálico dos passos fez Skamar erguer os olhos.
Por um instante, ela sentiu a mesma admiração de sempre.
Então percebeu algo que nunca havia pensado antes.
Aquela armadura não fazia Mu parecer apenas poderoso.
Fazia parecer que ele pertencia àquele mundo.
Um mundo onde homens vestiam ouro para lutar.
Um mundo onde alguns voltavam.
E outros não.
Mu parou diante dela.
— Você está aqui há muito tempo?
Skamar assentiu.
— Ele tinha família?
Mu ficou em silêncio.
— Tinha.
— Filhos?
— Não sei.
Ela baixou os olhos.
— Alguém vai contar para eles?
— Sim.
— E depois?
Mu respirou fundo.
— Depois, eles terão que continuar.
Skamar ergueu os olhos.
— Como?
Mu não respondeu imediatamente.
— As pessoas continuam.
Ela olhou para o corpo coberto.
— Mesmo quando não conseguem?
— Às vezes não conseguem.
A honestidade da resposta doeu mais do que qualquer tentativa de consolo.
Skamar levantou-se.
— Eu achava que vocês eram fortes.
Mu ficou imóvel.
— Nós somos.
— Então por que ele morreu?
Mu não respondeu.
Ela olhou para a armadura dele.
— Essa armadura não protege vocês?
— Não contra tudo.
— Então para que serve?
— Para nos dar uma chance.
Skamar ficou olhando para ele.
— Uma chance de morrer?
Mu fechou os olhos por um instante.
— Também.
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Naquela noite, Skamar não conseguiu dormir.
Ela caminhou até a área de treinamento.
Havia crianças treinando.
Algumas não deveriam ter mais de dez anos.
Uma delas caiu.
Levantou.
Caiu novamente.
O instrutor mandou continuar.
Skamar ficou observando.
— Eles são crianças.
Mu estava atrás dela.
Ela não tinha percebido sua chegada.
— Sim.
— Por que estão fazendo isso?
— Porque foram escolhidas.
— E se não quiserem?
Mu ficou em silêncio.
Skamar virou-se.
— E se uma delas morrer?
— Pode acontecer.
Ela sentiu os olhos arderem.
— Como vocês conseguem viver assim?
Mu não respondeu.
Ela olhou novamente para as crianças.
— Eu achei que o Santuário fosse...
Parou.
— O quê?
— Não sei.
Ela riu sem humor.
— Um lugar onde as pessoas aprendiam a ser fortes.
Mu a observou.
— E é.
— Não.
Ela balançou a cabeça.
— Não é só isso.
Ele permaneceu em silêncio.
— É um lugar onde vocês aprendem a sobreviver.
Mu baixou os olhos.
— Sim.
— E alguns não sobrevivem.
— Sim.
Skamar virou-se completamente para ele.
— É por isso que você não queria que eu aprendesse?
Mu ficou imóvel.
Ela percebeu a resposta antes que ele dissesse qualquer coisa.
— É.
A palavra saiu baixa.
— É por isso.
Skamar olhou para ele.
— Porque eu posso morrer?
— Porque você pode perder tudo.
— Todo mundo pode.
— Você não entende.
— Então me faça entender.
Mu respirou fundo.
— Eu passei a vida inteira aqui.
Ele tocou a própria armadura.
— Sei o que isso significa. Sei o que acontece quando você veste uma armadura. Sei o que o Santuário espera de você.
A voz dele ficou mais baixa.
— E sei o que acontece quando você começa a gostar de alguém que pode não voltar.
Skamar sentiu o peito apertar.
Mu desviou o olhar.
— É por isso que eu não queria você aqui.
Ela ficou em silêncio.
Então perguntou:
— Então por que me trouxe?
Mu levantou os olhos.
E não respondeu.
Porque a verdade era simples demais.
Ele a encontrara sozinha.
Ferida.
Sem memória.
Assustada.
Não poderia abandoná-la.
Não poderia deixá-la sozinha em Jamiel.
Não poderia entregá-la a desconhecidos.
E, quando percebeu, já havia se tornado responsável por ela.
Depois, sem perceber, tornara-se mais do que isso.
Mu olhou para Skamar.
— Eu não sei.
Ela se aproximou.
— Sabe, sim.
Ele não respondeu.
— Você me trouxe porque não conseguiu me deixar para trás.
Mu fechou os olhos.
— Talvez.
— E faria de novo?
Ele abriu os olhos.
— Sim.
Ela sorriu tristemente.
— Então talvez eu tenha feito a mesma coisa.
— O quê?
— Não consegui deixar você para trás.
Mu ficou imóvel.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
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Na manhã seguinte, Skamar voltou ao campo de treinamento.
Não porque tivesse deixado de ter medo.
Mas porque havia entendido alguma coisa.
Ela não queria ser uma guerreira.
Ainda não.
Mas queria saber se defender.
Queria ser capaz de ficar de pé.
Mu observou quando ela se posicionou diante dele.
— Tem certeza?
Ela assentiu.
— Tenho.
— Depois de ontem?
— Principalmente depois de ontem.
Mu ficou em silêncio.
— Eu não quero morrer — disse ela.
Ele sustentou seu olhar.
— Ótimo.
— E não quero que você morra.
Mu sentiu alguma coisa apertar dentro do peito.
— Então aprenda.
Ela assentiu.
Mu levantou a guarda.
Skamar fez o mesmo.
E, pela primeira vez, o treinamento não parecia uma brincadeira.
Não havia garotas observando Mu.
Não havia provocações de Milo.
Não havia risadas.
Havia apenas duas pessoas diante uma da outra.
Uma tentando ensinar.
A outra tentando aprender.
E, entre elas, uma verdade que nenhum dos dois queria dizer em voz alta:
naquele mundo, amar alguém significava também aprender a ter medo de perdê-lo.
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