Avesso

20 Capítulo 20 - O Monge e o Touro


Skamar demorou a perceber que estava, sem querer, construindo uma vida no Santuário.

No início, seu mundo inteiro media um metro e oitenta e dois e vestia roupas tibetanas. Tudo girava em torno de Mu.

Era Mu quem a havia encontrado largada na poeira. Mu quem monitorava seu sono com precisão cirúrgica, sabia quantas gramas de comida ela consumia e previa suas sonecas antes mesmo de ela bocejar. Era ele quem respondia pacientemente a seus trezentos interrogatórios diários sobre como o mundo funcionava.

E, principalmente: Mu era a única constante que mantinha o chão sob seus pés firme.

Mas o Santuário era grande demais para pertencer a um homem só.

A primeira rachadura nessa bolha chamava-se Aldebaran. Não porque ele tivesse feito algo grandioso ou épico. Pelo contrário: Aldebaran era o único sujeito num raio de dez quilômetros que recusava terminantemente a tratá-la como um mistério cósmico ou um vaso de cristal.

— Você vai carregar esse caixote sozinha? — perguntou ele, cruzando os braços gigantescos.

Skamar encarou a caixa de suprimentos que parecia ter o dobro do seu tamanho.

— Vou.

Aldebaran deu um passo à frente.

— Vai não.

— Eu consigo!

— Eu sei que consegue. Mas por que ter o trabalho?

Ele se abaixou, pegou o caixote com dois dedos e o içou para o ombro como se fosse uma almofada de pena.

Skamar cruzou os braços, indignada:

— Isso é trapaça.

— O nome disso é alavanca e massa muscular. Bastante útil.

— O Mu disse que eu preciso aprender a me virar sozinha!

— O Mu fala demais — pontuou Aldebaran, sem desacelerar o passo. — Além disso, se você quebrar a espinha tentando bancar a forte, quem leva a bronca sou eu.

— Por quê? Você não fez nada!

— Exatamente. No Santuário, estar no lugar errado na hora errada é 90% de qualquer condenação.

A risada escapou da garganta de Skamar antes que ela pudesse conter.

Com Aldebaran, tudo era leve. Ele não fazia perguntas invasivas, não a encarava com pena e não tentava adivinhar de onde ela tinha saído. Ele apenas existia ao lado dela como uma montanha amigável.

— Sente falta de casa? — perguntou ele certo dia, enquanto mastigavam maçãs sentados nos degraus de Touro.

Skamar parou de mastigar. A resposta congelou na garganta.

— Eu não faço ideia de onde fica a minha casa.

Aldebaran freou a próxima mordida no ar.

— Pô. Foi mal.

— Tudo bem — ela deu um sorriso pequeno, um pouco torto. — Só acho engraçado. Todo mundo fala de "casa" como se fosse um endereço com número, rua e teto.

O Cavaleiro de Touro encarou o horizonte por alguns segundos, coçando o queixo.

— Talvez casa não seja um lugar no mapa.

— E é o quê?

Ele deu de ombros, despreocupado.

— Às vezes são as pessoas.

Skamar guardou aquela frase no bolso do peito.

Foi Aldebaran também quem descobriu que a mente de Skamar tinha pequenos "buracos de minhoca". Ela não entendia metáforas simples, desconhecia comidas básicas e sustentava rivalidades mortais com objetos inanimados.

Certa tarde, ele a flagrou no meio de um combate corporal contra uma jarra de vidro com tampa de rosca.

Cinco minutos de cara feia.

— Quer ajuda aí?

— Não.

Mais três minutos de torção desesperada.

— Tem certeza? A jarra parece estar ganhando.

— Eu estou sob controle.

Aos dez minutos, Aldebaran suspirou, se aproximou e colocou a mão sobre o vidro.

— Skamar.

— O quê?

— Você tá prestes a aplicar um golpe marcial num utensílio de cozinha.

— Ela começou! A tampa tá me encarando!

Aldebaran caiu na gargalhada. Com um estalo quase imperceptível, ele girou a tampa sem esforço algum e devolveu o recipiente para as mãos dela.

Skamar ergueu o queixo, pisando fundo:

— Eu estava no milímetro final.

— Claramente. Você praticamente venceu por pontos.

— Você é muito irritante.

— O Mu fala a mesma coisa.

— O Mu fala isso de mim!

— Viu só? — ele deu uma piscadela. — Vocês nasceram para ser uma família.

E assim, sem nenhum alarde, Aldebaran virou seu porto seguro para todas as horas em que Mu estava ocupado demais sendo solene.

Com Shaka, o processo foi o oposto. Ele não oferecia ajuda, não fazia piadas e definitivamente não distribuía frutas.

A primeira conversa real dos dois aconteceu numa tarde silenciosa na Casa de Virgem. Skamar o encontrou flutuando a meio metro do chão, perfeitamente imóvel, parecendo uma estátua dourada que alguém esqueceu de apoiar no solo.

Ela parou. Piscou. Esperou cinco segundos. Nada.

Aproximou-se devagar, inclinando a cabeça para olhar por baixo dele.

— Você tá fazendo isso de propósito ou a gravidade só esqueceu de você?

— Estou fazendo de propósito — respondeu Shaka, sem abrir os olhos e sem alterar o tom de voz calmante.

— Por quê?

— Porque posso.

Skamar ponderou.

— Argumento sólido.

Ela simplesmente se sentou no chão, cruzando as pernas bem embaixo dele.

Shaka abriu um dos olhos, encarando-a lá do alto.

— Você não tem medo?

— De você flutuar? Tenho inveja, não medo.

— De mim — corrigiu ele. — A maioria das pessoas tem uma certa hesitação na minha presença.

Skamar deu de ombros.

— Você parece ocupado demais flutuando para ter tempo de me matar. E, sinceramente, se quisesse, já teria feito.

O canto dos lábios de Shaka se ergueu numa fração de milímetro.

— Uma análise admiravelmente prática.

Ele voltou a fechar os olhos. Ficaram ali por quase uma hora.

Para Skamar, aquilo foi uma descoberta libertadora. Com Mu, tudo era um aprendizado. Com Aldebaran, tudo virava piada. Com Shaka... ela não precisava preencher o ar com nada. Podia só existir.

— Você sonha? — lançou Shaka, quebrando o silêncio sem nenhum aviso prévio numa tarde posterior.

— Todo mundo sonha, Shaka.

— Não perguntei se é biologicamente capaz. Perguntei se você sonha.

Skamar encolheu os ombros, cutucando uma pedra com a ponta do sapato.

— Sim. Com coisas que não conheço.

— Lugares?

— Às vezes.

— Pessoas?

— De vez em quando.

— O mar?

Skamar travou. A pedra rolou para longe.

— Por que você perguntou do mar?

— Sua respiração muda quando você olha para o horizonte. Suas pupilas dilatam quando sente o cheiro da maresia vindo da costa. É bastante evidente.

ela engoliu em seco.

— Eu... gosto de água.

— Eu sei.

— Você sabe quem eu sou, Shaka? — a pergunta saiu quase como um sussurro. Aterrorizada, mas faminta por uma resposta.

— Não — disse ele, imediato e sincero. — Mas sei que você não é só uma garota que perdeu a bagagem e a memória no caminho.

Um arrepio frio subiu pela espinha dela.

— Isso deveria me assustar?

— O medo é só a reação da mente perante o desconhecido. Ele raramente ajuda a resolver o enigma.

Skamar soltou um riso anasalado.

— Você treina para falar assim? Tipo... escondendo três charadas dentro de cada frase?

— É um dom natural — retrucou Shaka, com uma leveza rara.

Três dias depois, a cena era quase caótica na Casa de Touro.

Aldebaran tentava proteger um prato de rabanadas caseiras enquanto Skamar usava táticas de distração dignas de um guerreiro para surrupiar fatia por fatia. Shaka assistia a tudo a dois metros dali, sentado em silêncio absoluto.

— Skamar, pela última vez: isso é roubo qualificado! — reclamou o gigante, tentando cobrir o prato com as mãos imensas.

— Você tem dez! Eu só peguei três!

— A questão é o princípio! É a minha comida!

Ela abocanhou mais um pedaço com um sorriso vitorioso.

— Agora é nossa comida. Redistribuição de renda do Santuário.

Aldebaran olhou para o virginiano em busca de apoio moral:

— Shaka, olha o monstro que a gente criou. Ela perdeu completamente o respeito.

— Você estimula o comportamento dela alimentando-a sempre que ela faz cara de coitada — observou Shaka, impassível. — A culpa é sua.

— Viu? O sábio falou — Skamar deu uma piscadela.

Mas, de repente, o riso dela sumiu. A sensação veio sem aviso.

Aquela bagunça. A provocação. A comida compartilhada. O calor no peito.

Não era uma lembrança clara com rostos ou nomes, mas um eco. Uma sensação de déjà vu tão forte que fez seu estômago dar um nó.

Aldebaran percebeu a mudança instantânea no ar.

— Ei. O que foi?

— Nada... — ela balançou a cabeça, mas a voz falhou. — Às vezes... eu sinto que tô quase lembrando.

Shaka abriu os olhos totalmente, focando a atenção nela.

— E o que acontece?

— Desaparece — ela levou a mão à testa, frustrada. — É horrível. É como tentar segurar água com as mãos abertas. Quanto mais eu aperto, mais rápido escorre.

O silêncio caiu pesado sobre o grupo. Aldebaran deixou o prato de lado.

— Você quer mesmo lembrar? — perguntou o gigante, suave.

— Quero. Porque viver nesse buraco negro é cansativo.

— Você não tem medo do que pode encontrar do outro lado? — provocou Shaka.

Skamar respirou fundo. Os olhos brilharam com o início de lágrimas que ela se recusou terminantemente a deixar cair. A voz, no entanto, saiu afiada como uma lâmina:

— Eu não tenho medo de descobrir quem eu era. Eu tenho pavor de descobrir quem tirou isso de mim.

O ar na sala pareceu congelar.

Aldebaran abaixou o olhar, o semblante subitamente sério. Shaka não piscou. Mas a postura do virginiano mudou: a indiferença contemplativa deu lugar a uma profunda e respeitosa compreensão.

— Então talvez — disse Shaka, a voz mais macia do que o habitual — você não precise arrombar essa porta de uma vez. As lembranças voltarão quando você tiver estrutura para suportar o peso delas.

— E se eu nunca tiver?

— Então você descobre quem quer ser a partir de hoje — respondeu o virginiano.

Aldebaran quebrou a tensão com um sorriso caloroso, dando um leve empurrão no ombro dela:

— E convenhamos, essa parte você já tá dominando.

Skamar fungou, limpando o canto do olho.

— Tô?

— Lógico. Você gosta de roubar minha comida, adora atazanar a paciência do Mu, ama o cheiro do mar e não consegue passar dez minutos sem arrumar confusão.

— Isso não é uma identidade, Aldebaran!

— Para mim, já é um excelente começo — brincou ele, apontando para o peito dela. — Sem contar que você conseguiu a façanha de fazer dois Cavaleiros de Ouro e um 'homem mais próximo de Deus' gostarem de você.

Ela olhou para os dois, com o peito apertado.

— Vocês gostam de mim?

Aldebaran colocou a mão no peito, fingindo uma ofensa mortal:

— Eu divido minhas rabanadas com você! Se isso não é amor, não sei o que é.

Shaka apenas assentiu com a cabeça, com um pequeno e genuíno sorriso:

— Sim, Skamar. Nós gostamos.

Ela sorriu de volta. E, pela primeira vez desde que acordara sem nome e sem passado, o vazio no seu peito não pareceu tão fundo.

Talvez Aldebaran estivesse certo. Casa não era o lugar de onde ela tinha sido arrancada. Casa era o que ela estava construindo ali, tijolo por tijolo.

Mais tarde, na calada da noite, Mu finalmente retornou à Casa de Áries.

Exausto e com o manto coberto pela poeira do caminho, ele congelou ao pisar na entrada. Encolhida contra a pilastra de pedra, usando os próprios braços como travesseiro, Skamar dormia profundamente. Ela tinha ficado ali esperando por ele.

Mu se aproximou em passos silenciosos e se ajoelhou ao lado dela.

— Skamar... — chamou ele bem baixo.

Ela piscou, tonta de sono, demorando alguns segundos para focar o rosto dele na penumbra.

— Mu...? Você voltou.

— Voltei. Por que não foi dormir na sua cama?

Ela deu um sorriso sonolento, coçando os olhos com as costas da mão.

— O Aldebaran me disse uma coisa hoje... Disse que 'casa' não precisa ser um lugar. Disse que pode ser uma pessoa.

Mu parou. A mão dele, que ia tocar o ombro dela, congelou no ar.

— Ele disse isso?

— Foi — ela assentiu, bocejando. — Você acha que é verdade?

Mu olhou para o rosto pequeno, para a expressão confiada e completamente desarmada da garota que ele resgatara do nada.

— Acho — sussurrou ele.

— Que bom... — ela murmurou, já fechando os olhos de novo. — Porque acho que tô começando a ter uma.

O coração de Mu deu um aperto tão violento que quase o fez perder o ar.

Ele não disse nada. Não conseguiu.

— Boa noite, Mu... — resmungou ela, afundando no tecido aquecido.

— Boa noite, Skamar.

Ele permaneceu ali, ajoelhado na pedra fria, observando a respiração tranquila da garota.

E foi exatamente ali, no silêncio da Casa de Áries, que o Cavaleiro de Ouro sentiu o peso de um medo terrivelmente humano. Ele não temia o retorno dos inimigos do Santuário. Temia o dia em que a memória de Skamar finalmente retornasse... e ela descobrisse que aquele lugar, e aquelas pessoas, nunca tinham sido o seu verdadeiro lar.

E antes de levá-la ao seu quarto, apertando os punhos suavemente sobre o joelho, Mu fez uma oração silenciosa e egoísta para os deuses: que quando o passado finalmente viesse cobrar a conta, Skamar ainda escolhesse ficar.