Avesso
19 Capítulo 19 - A Panela Dourada
Skamar descobriu que existia uma regra não escrita no Santuário.
Cavaleiros de Ouro não tinham hora para comer. Tinham fome. Era diferente. E quando tinham fome, a diplomacia do Zodíaco colapsava.
Ela descobriu isso numa tarde aparentemente inocente, sentada nos degraus da Casa de Áries. Aldebaran apareceu carregando uma cesta que parecia capaz de abrigar um pequeno povoado.
— O que tem aí? — perguntou Skamar.
— Comida.
— É para quem?
— Para o almoço.
— Para quantas pessoas?
— Seis.
Skamar abriu a cesta e piscou, tentando processar a quantidade de feijão, carne e arroz.
— Aldebaran, vocês vão almoçar ou sitiar uma cidade?
Ele a encarou, parecendo ofendido.
— Eu sou um homem alto e forte, Skamar. Tenho necessidades nutricionais. E o Mu não sabe comer, então preciso dar apoio moral e calórico.
— O Mu não sabe comer?
— Ele vive a base de brotos de bambu, farinha de cevada e chá! O homem tá virando um vegetal de Jamiel!
— Eu ouvi isso — disse Mu, surgindo do corredor com a serenidade de quem carrega o peso do cosmos nas costas. Ele parou diante da mesa e olhou para a cesta. — Aldebaran, você trouxe suprimentos para uma guerra santa.
— Trouxe feijoada. Porque você almoça como um pássaro tibetano em jejum.
— Eu não almoço como um pássaro — rebateu Mu, mantendo a voz pausada. — Eu busco o equilíbrio corporal.
— Quanto você comeu hoje? — interveio Skamar.
Mu pensou por dois segundos.
— O suficiente para manter a mente sã.
Aldebaran apontou para ele vitorioso:
— Viu? Resposta de quem tá subsistindo à base de fotossíntese!
— Quem mais vem? — perguntou Skamar.
— Você vai ver — respondeu Aldebaran.
Antes que Mu pudesse retrucar, a porta foi empurrada com tanta força que os gonzos de bronze rangeram. Aioria entrou sem bater, sem pedir licença e se movendo numa velocidade que tangenciava a da luz só para alcançar a mesa.
— Eu senti cheiro de comida.
— Claro que sentiu — suspirou Mu.
Aioria sentou-se, puxou um prato e apontou a colher para o dono da casa.
— O que tem?
— Comida brasileira. Senta e come — respondeu Aldebaran, servindo uma concha generosa.
Aioria sorriu, os olhos brilhando.
— Aldebaran, você é a única coisa boa que aconteceu a este Santuário desde as eras mitológicas.
— Eu sei.
Mu olhou para os dois, indignado.
— Vocês percebem que estão transformando minha casa numa cantina?
Aioria mastigou rapidamente e encarou Mu.
— Sua casa?
— Sim.
— Você paga aluguel?
Mu piscou, pego de surpresa.
— O quê?
— Você paga aluguel pela Primeira Casa? Se não paga, o imóvel é público. É patrimônio de Atena. E nós somos os servidores. Logo, a feijoada é um direito.
Aldebaran concordou com a cabeça, de boca cheia.
— Pior que a lógica dele faz sentido, Mu.
— Não faz o menor sentido! — Mu elevou o tom de voz em um milissegundo antes de se recompor, tossindo discretamente.
Skamar cobriu a boca, mas a risada escapou. Mu olhou para ela, traído.
— Você também, Skamar?
— Desculpa!
Aioria ainda gesticulava com um pedaço de couve na colher quando a porta se abriu novamente.
Milo surgiu na entrada, de braços cruzados e um sorriso debochado que cobria metade do rosto.
— Que bonito.
Mu revirou os olhos.
—A elite do Zodíaco reunida na clandestinidade.
— Não é clandestino — disse Skamar.
— Eu não fui convidado — Milo retrucou, caminhando com passos lentos e dramáticos.
— Nem eu — disse Aioria.
— Eu moro aqui e também não fui convidada — completou Skamar.
Milo parou, olhou para ela e abriu um sorriso radiante.
— Gostei de você. Tem o espírito de deboche necessário para sobreviver aqui.
— Não a incentive, Milo — avisou Mu, servindo-se de uma porção microscopicamente pequena de arroz.
— Ah, então você é Skamar?
— Sim.
— A nova serva de Áries.
Mu levantou os olhos.
— Milo.
— O quê?
— Não chame ela assim.
— Mas ela é.
Skamar inclinou a cabeça.
— Sou?
Mu respondeu rapidamente:
— Não exatamente.
Milo sentou-se.
— Então o que ela faz?
— Ela ajuda na casa — corrigiu Mu.
— Ah.
Milo olhou para Skamar.
— Então você é uma espécie de administradora de crise? — sugeriu Milo, sentando-se sem cerimônia.
— Acho que sou uma espécie de serva premium.
— Excelente.
— Porque?
— Porque essa casa precisava de alguém para impedir o Mu de viver como um eremita tibetano.
— Eu não sou um eremita.
— Mu, você passa semanas olhando fixamente para a parede! — Aioria gargalhou.
— Eu estava meditando!
— E falando com carneiros — acrescentou Milo.
A sala caiu em um segundo de silêncio absoluto.
Skamar virou-se devagar para o Cavaleiro de Áries.
— Você fala com carneiros?
— Apenas com os meus, em Jamiel. O Hamal é um excelente ouvinte.
Aioria bateu a mão na mesa com tanta força que os pratos saltaram.
— Eu sabia! A história do pastor não era metáfora!
— Qual o problema em ser pastor de ovelhas?
Nesse exato instante, Shaka de Virgem atravessou o portal. A aura de iluminação e santidade que o cercava parecia quase incompatível com o cheiro de feijoada que dominava o ambiente. Ele parou, de olhos fechados e expressão serena.
— Quem tem cara de pastor?
Todos olharam para ele.
— Ninguém — respondeu Mu, cruzando os braços.
Shaka virou o rosto na direção de Mu, depois para a mesa, depois para Skamar.
— Entendi. Realmente, o alinhamento cósmico de Áries é extremamente pastoral.
Ele se aproximou e sentou-se em silêncio.
Skamar piscou, chocada.
— Você veio comer? Achei que você se alimentasse exclusivamente de iluminação espiritual.
Shaka manteve os olhos fechados enquanto aceitava o pote que Aldebaran lhe estendia.
— A iluminação suprema exige carboidratos, Skamar. Até o Nirvana precisa de sustentação proteica. Que Buda lhe recompense, Aldebaran. A versão vegetariana com tofu e cogumelos está impecável.
Milo apontou para o Cavaleiro de Virgem.
— Viu? É por isso que ele é o meu favorito. Ele mete essa banca de santo, mas não nega uma boca livre.
— O desapego inclui desapegar-se do orgulho e aceitar comida grátis. É uma prática monástica, inclusive. — declarou Shaka, levando uma colherada à boca com extrema elegância.
Skamar olhou de Shaka para Aioria (que já estava no terceiro prato), de Aioria para Milo (que roubava farofa do prato alheio) e de Milo para Mu (que parecia à beira de ter um colapso nervoso silencioso).
Se Atena dependesse disso aqui hoje, o mundo já era, pensou ela, rindo sozinha.
— Eu não acredito que vocês são a linha de defesa final da humanidade.
Mu murmurou, massageando as têmporas:
— Nem eu, às vezes.
— Mu — chamou Skamar, quando a montanha de comida finalmente começou a diminuir.
— Sim?
— Por que vocês comem juntos?
Mu pausou com a colher no ar. Pensou por alguns segundos.
— Não sei.
— Porque ninguém gosta de comer sozinho — disse Aldebaran, encostando-se na cadeira com a satisfação de um dever cumprido.
— E porque a feijoada do Touro é a única coisa que me impede de cometer insubordinação neste lugar — admitiu Aioria.
— E porque eu apareço onde o caos está acontecendo — completou Milo.
Shaka terminou seu prato com calma impecável.
— É uma tradição profana que nos mantém ancorados à nossa humanidade.
Skamar sorriu.
— Então vocês são uma panelinha.
Silêncio instantâneo.
Aioria olhou para Aldebaran. Aldebaran olhou para Milo. Milo olhou para Shaka. Shaka virou o rosto para Mu.
— É — disse Aioria. — Acho que somos.
— E eu entrei? — perguntou ela, mantendo o tom casual, embora os olhos entregassem a dúvida.
Mu respondeu antes que qualquer outro tivesse a chance de fazer uma piada:
— Entrou.
Aldebaran colocou mais um pedaço de bisteca no prato dela.
— Com certeza.
— Agora não tem mais volta — Aioria apontou a colher para ela. — Se o Santuário for atacado, você tá no grupo de risco.
Milo sorriu.
— Meus pêsames.
— Isso era para ser reconfortante? — riu Skamar.
— É o máximo de afeto que o Milo consegue demonstrar sem usar a Agulha Escarlate — explicou Aioria.
— Que calúnia absurda! — Milo colocou a mão no peito, fingindo dor mortal.
Shaka olhou para Skamar.
— Você se acostumará.
Ela sorriu.
— Espero que sim.
—
Quando a noite caiu e o banquete improvisado finalmente acabou, os convidados começaram a se dispersar.
Aioria parou na porta, limpando os farelos da armadura.
— Amanhã tem de novo?
— Se você trouxer os ingredientes, sim — respondeu Aldebaran.
— Eu trazer? Onde estão seus servos, para que consigam isso pra você?
— Amanhã é folga do Edinaldo. E falei pra Marinalva que amanhã ela poderia levar a mãe no médico e descansar depois, sem problemas.
Quando terminaram de comer, Skamar começou a recolher os pratos.
Mu levantou-se imediatamente.
— Deixa.
— Eu posso ajudar.
— Você não precisa.
— Eu quero.
Milo, já encostado na cadeira, observava.
— Então ela realmente virou serva?
Mu olhou para ele de forma não muito agradável.
— Ei, administradora. Não deixa o pastor aí te convencer de que manda em você.
— Ele é o meu chefe — disse ela.
— Pior ainda.
Skamar começou a rir enquanto levava os pratos.
Milo acompanhou-a com os olhos por alguns segundos. Então olhou para Mu.
— Ela é diferente.
Mu ficou sério por um instante.
— É.
— Você sabe de onde ela veio?
— Não.
— E mesmo assim trouxe para cá?
— Sim.
Milo apoiou o cotovelo na mesa.
— Corajoso.
Mu olhou para ele.
— Talvez.
— Ou imprudente.
— Também é possível.
Por alguns segundos, os dois ficaram em silêncio. Então Milo sorriu.
— Mas acho que ela vai sobreviver.
Mu olhou para a cozinha, onde Skamar conversava alguma coisa com Shaka.
— Acho que sim.
Conversas e risadas seguiram por mais um tempo. Quando finalmente o caos terminou, todos começaram a ir embora.
Mu suspirou fundo.
— Boa noite, Milo.
— Boa noite, pastor. Deus te abençoe.
— Ele não é esse tipo de pastor! — gargalhou Aldebaran, puxando Milo pelo ombro para fora do templo.
Skamar estava encostada no balcão, rindo baixo, enquanto arrumava os últimos copos. Mu ficou parado na porta, observando a escuridão da escadaria por onde os outros desciam.
— Mu? — chamou ela.
— Sim?
— Eu gostei.
Ele se virou.
— Da comida?
— Da bagunça.
Mu olhou para a mesa bagunçada, para os pratos empilhados e depois para ela. Um sorriso pequeno e genuíno finalmente apareceu em seu rosto.
— Eles fazem isso com uma frequência assustadora.
— E eu posso continuar aqui?
Mu pareceu surpreso com a pergunta.
— Você mora aqui, Skamar.
— Eu sei. Mas vocês já tinham o grupo de vocês antes.
Mu ficou em silêncio por alguns instantes, ajustando o tom de voz.
— Éramos cinco guardiões solitários. Agora somos um pouco mais do que isso.
— Um pouco mais? Então, eu realmente estou na panelinha?
Mu sorriu.
— Infelizmente.
— Infelizmente?
— Você viu o que aconteceu hoje.
Skamar sorriu.
— Acho que consigo sobreviver.
Mu riu.
— Espero que sim.
Skamar sorriu, dando um passo em direção ao corredor dos quartos.
Ela parou no início do corredor, virou-se com um brilho divertido nos olhos e fez uma pequena reverência debochada.
— Boa noite, pastor.
Ela desapareceu corredor adentro antes que ele pudesse responder.
Mu ficou parado na porta. Então ouviu a própria risada escapar.
Talvez Aldebaran estivesse certo. A Casa de Áries realmente estava ficando mais cheia.
E, para sua infelicidade...
Muito mais barulhenta.
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