Avesso

16 Capítulo 16 - A Terrível e Singela Estrela de Touro


A escuridão e o silêncio da madrugada ainda pairavam densos sobre Jamiel quando Mu despertou. Havia algo no ar — talvez um pressentimento sobre o sonho de Skamar, talvez apenas o peso dos próprios pensamentos — que o tirou do sono sem aviso.


A escuridão do quarto era profunda, quebrada apenas pelo brilho pálido da lua que atravessava as frestas da janela. O frio cortante da altitude tibetana o envolveu assim que ele afastou as cobertas, e seus pés tocaram o chão de pedra gelado, lembrando-o de que, mesmo sob toda a serenidade que cultivava, havia momentos em que o coração pesava.


Mu vestiu-se de modo simples, como quem não pretendia dormir mais. A casa estava mergulhada em sombras, e o único som era o ranger discreto da madeira sob seus passos que dava com a calma habitual. Não havia pressa — não era uma noite para batalhas, mas para decisões.


Ele alcançou a sala e, com um gesto delicado das mãos, acendeu a lareira. As chamas ganharam vida num sussurro de luz e calor, lançando reflexos dourados nas paredes e na lã espessa do tapete. Por um instante, Mu permaneceu de pé diante do fogo, os olhos fixos nas chamas, como se procurasse nelas uma resposta.


A questão voltava, insistente: o que fazer com Skamar?


Levá-la ao santuário... expô-la ao que ele próprio mal conseguia nomear... ou protegê-la ali por mais um tempo, mesmo que isso significasse mentir por omissão?


Mu afundou-se no sofá com um suspiro discreto. A dúvida que se enroscava em seu peito era uma que nem seus longos anos de treinamento espiritual conseguiam dissipar.


Ele não temia o perigo. Temia magoá-la. Temia assustá-la e afugentá-la. Temia o olhar dela ao descobrir a verdade.


“Preciso de conselhos,” pensou, e permitiu-se um esboço de sorriso ao imaginar quem, entre os poucos a quem confiava, poderia lhe oferecer uma perspectiva mais leve, mais prática... talvez até mais sábia do que as velhas vozes de Jamiel.


Aldebaran.


É claro.


Alguém que via a vida de frente, com uma simplicidade que Mu, às vezes, invejava em silêncio.


Sem hesitar mais, estendeu a mão para o telefone repousando sobre o móvel de madeira rústica ao lado da lareira. Discou o número gravado na memória e encostou o aparelho ao ouvido, a lareira estalando suavemente ao fundo.


Ele esperou.


E foi quando a madrugada ganhou trilha sonora de um jeito que ele jamais teria previsto.


— ALOOOOOO??! QUEM É??? — a voz potente de Aldebaran veio misturada a um pagode rasgado.


No fundo, uma música explodia no último volume:


🎶 Cheia de manias… toda dengosa… 🎶


Mu afastou o telefone da orelha, o músculo das sobrancelhas elegantemente arqueados. Ele fechou os olhos por um instante, respirando fundo como se precisasse reunir toda a paciência acumulada em todos os templos do Tibete.


— Aldebaran? — tentou, a voz suave e controlada, mas foi abafada por mais um trecho da canção:


🎶 Menina bonita... sabe que é gostosa… 🎶


— ALOOO??? TÁ MUITO BAIXO, FALA MAIS ALTO! — Debas gritava, em meio a própria cantoria desafinada.


Mu respirou fundo, ainda com a serenidade de um monge zen, mas com uma leve contração no canto da boca.


— Abaixe essa música — pediu, cada sílaba perfeitamente articulada.


— QUÊ?? MÚSICA?? PÔ, AMIGO, TÁ TOCANDO MEU SOM AQUI, SABE COMO É, DOMINGÃO! É O RAÇA NEGRA, MANO! NÃO DÁ PRA BAIXAR AGORA NÃO, ESSA PARTE É BOA! — E lá vinha ele, empolgado:

🎶 Então me ajude a segurar, essa barra que é gostar de vocêêêêê, iê… 🎶


A linha ficou em silêncio por uma fração de segundo. Mu abriu os olhos, agora iluminados por um brilho dourado suave, e murmurou baixinho:


— Chega.


Num estalar de dedos, a energia cintilou ao redor dele, e antes que Aldebaran pudesse alcançar o refrão, um clarão sutil envolveu sua sala.


Em um breve momento, Aldebaran surgiu bem no meio da sala de Mu, ainda com suas roupas de dormir — de bermuda, chinelo Havaianas, camiseta que parecia fazer propaganda de algum político de seu país de origem e com o celular ainda tocando o pagode no bolso.


Ele piscou algumas vezes, tonto, olhando em volta.


— Ué… eu tava na minha casa… — coçou a cabeça, confuso.


A música agora saía abafada do bolso dele, num volume bem mais aceitável:


🎶 Meu amor, confesso… 🎶


— Agora está na minha — respondeu Mu, sem alterar o tom.


Debas arregalou os olhos, depois deu uma risada escandalosa.


— HA HA! Caraca! Por que que cê não disse que era urgente, homi? — e, sem cerimônia, já se jogava no sofá como se fosse a própria casa. — Peraí, peraí… — puxou o celular do bolso e pausou o som. — Pronto. Agora sim, podemos ser sérios.


Fez uma pose solene com os braços cruzados, mas não resistiu a completar:


— Só digo uma coisa: se tu tivesse me deixado terminar a música, eu ia acertar o tom certinho dessa vez. Tava sentindo.


Mu ergueu uma sobrancelha, discreto, um sorrisinho minúsculo ameaçando surgir.


— Isso teria sido um feito histórico — murmurou, com um sarcasmo tão delicado que passou quase despercebido.


Aldebaran riu de novo, despreocupado, já olhando em volta:


— E aí, o que rolou? Vai me dizer que eu fui teletransportado só pra tomar chá? Ou tem coisa séria?


Mu fechou os olhos por um instante.


— Chá primeiro. Coisas sérias depois.


— Melhor assim, porque vou te falar... — Aldebaran colocou uma mão na barriga. — Acordei no clima do pagode brasileiro, mas meu estômago tá gritando por manteiga de iaque tibetano!



Mu adentrou a cozinha com o amigo, que se sentou à mesa. Abriu o antigo armário de madeira, procurando o que poderia servir ao brasileiro. Pensou que Aldebaran poderia não apreciar tanto a exótica culinária tibetana, então resolveu preparar algo mais à maneira de seu irmão de armas. Decidiu então, assar carne de iaque, servindo com queijo de ovelha derretido por cima. Também fritou algumas batatas para servir de acompanhamento junto com o arroz biryani. Tinha certeza que aquilo faria o touro feliz. Enquanto cozinhava, os amigos conversavam:

- Mas então, meu amigo, sobre o quê precisa conversar?

- Debas, estou com um hóspede em casa.

- Hóspede? Alugou um quarto pelo Airbnb? — disse divertido, pegando um pedaço de pão de cevada. — Acho que eles vão ter um pouco de dificuldade em chegar aqui...

- Esse é o ponto, meu amigo. Eu estava pastoreando os animais numa manhã comum, não observei nenhuma movimentação estranha, nenhuma notícia de grupos de turistas ou alpinistas, nada... Encontrei uma garota desacordada, ferida, quase morta, na verdade. Não faço ideia de como conseguiu chegar aqui. Estamos há quilômetros de altitude.

Aldebaran arregalou os olhos.

- Ela conseguiu passar pela ponte do cemitério das armaduras?

- Conseguiu sim. Acredito que o desespero da fuga de quem ou do quê a machucou, possa ter ajudado.

- Ela está acordada?

- Está e não se lembra de nada. Procurei informações sobre ela em todos os lugares, com todas as pessoas, nada Debas, não existe absolutamente nada. A questão é que preciso voltar ao santuário e não vejo para onde direcioná-la. Ela não sobreviveria sozinha aqui. Não tenho como deixá-la nesse fim de mundo e também não posso mantê-la no santuário. E eu... não... não quero... abandoná-la, sabe? — Mu, fingindo estar ocupado com as panelas, permanecia de costas para Aldebaran, evitando o contato visual. Escolhia as palavras para não deixar transparecer o envolvimento afetivo que sentia, mas tudo o que conseguiu foi gaguejar com uma voz meio sentida. — Ela é... é tão... boazinha...

Aldebaran franziu a testa desconfiado.

- Boazinha?

- Uhum. — disse, desconcertado e notoriamente evitando o contato visual.

- Só boazinha? — o touro cruzou os braços, intrigado.

- Só... E também...

- Então não é "só"! — gargalhou divertido, o touro — Anda, Mu. A verdade, sempre.

Mu deixou-se cair em uma cadeira, cruzando os braços sobre a mesa e escondendo o rosto entre eles.

- Ojijoknkkbh — disse algo de uma forma impossível de compreender.

- Não entendi, Mu.

- Ojuhjbum — outro murmúrio incompreensível.

- Vamos Mu, diga! — exclamou o touro.

- Ela é maravilhosa, Debas! — disse, com o rosto ainda escondido.

Aldebaran gargalhou escandaloso.

- E qual o problema, meu amigo? A armadura é de ouro, o espírito é de guerreiro, mas o corpo ainda é de carne e osso, Mu! — questionou, ainda sem segurar o riso.

- Não é nosso propósito, Aldebaran. — disse Mu, levantando-se para servir a mesa.

- Não é nosso propósito, mas não é um pecado usar um pouquinho da vida que o Criador te deu, para você mesmo. Por Atena... Maravilhosa é essa comida! — disse, se servindo.

Aldebaran levantou-se para pegar a jarra de suco de goji que estava em um armário próximo.

- Sendo discreto e não interferindo nas obrigações com o santuário, eu não vejo motivos que te impeçam de viver um romanc...

Foi então que viu um pequeno saco de tecido rústico aberto. Olhou rapidamente em seu interior e viu o yarsagumba. Virou-se perplexo para Mu.

- Mas me diga, Mu. Existe outro motivo para você não... han... consumar esse romance?

Mu suspirou pesaroso, olhando para o chão.

- Existe sim, Aldebaran. — respondeu, pensando na origem desconhecida da garota. Preocupava-se com a possibilidade da moça ser comprometida. Não queria tomar para si a mulher de outro e causar sofrimento a todos.

- Puxa, meu amigo. Não se preocupe, isso pode acontecer com qualquer um. — disse ainda perplexo, pressupondo qual seria esse problema.

- Não, Debas. Isso não acontece com qualquer um. Realmente, é uma situação nova pra mim. Te chamei aqui porque confio em você, meu amigo, sempre fostes bom conselheiro e sabe guardar segredos.

- Mu, o meu conselho é... Já pensou em procurar um médico?

- Como?

- Sim, porque esse chá soluciona o... han... problema, temporariamente, né? Mas não é a cura definitiva. Em Atenas existem médicos excelentes para homens e...

Mu bateu a mão na própria testa, indignado.

- Aldebaran, eu não tenho problemas de virilidade!!

- Mas então... — questionou, com o saco de yarsagumba nas mãos.

- Pode pegar pra você.

O touro gargalhou divertido e escandaloso.

- Eu não preciso disso não, Mu! Fui criado no Pará, a base de muito açaí e maniçoba. Comida forte, sabe? Sou um touro legítimo. — disse, em meio às gargalhadas.

- Compramos por engano, Aldebaran.

- Pois jogue isso fora, Mu!

- Deixe aí, custou caro.

- Jogue isso fora, áries! Já pensou, se alguém vê, se essa informação sai daqui? Se chega no exército de Hades?? Seus inimigos zombando de ti durante a guerra santa?? Ou então se Kiki descobre quando for adulto e conta às gerações futuras da casa de áries?? Você vai ficar conhecido em todos os tempos, como Mu, o cavaleiro que não fazia a revolução estelar entre quatro paredes. Mu, o poderoso cavaleiro brox...

Mu abriu rapidamente a porta da cozinha através da telecinese. Tinha sentido a presença da menina atrás da porta.

- Ah, me desculpe, eu estava tentando identificar quem mais estava aqui e se era apropriado eu entrar...

- Entre, Skamar.

- Não, obrigada. Volto depois. Ouvi que estavam discutindo sobre problemas masculinos... — disse, sem graça, olhando para o chão.

Mu olhou perplexo para Aldebaran, que ria deliciosamente.

- Skamar... Olhe... — dizia Mu, desconcertado — Foi um mal entendido... Eu não sei o que ouviu, mas eu não tenho nenhum problema. Nenhum problema, entendeu?

- Não se preocupe, eu não ouvi nada, não ouvi nada... — disse a moça, sacudindo as mãos no ar, querendo encerrar o assunto. — Muito prazer! — sorriu para o touro.

- Muito prazer, Skamar. Ouvi falar muito bem de você. Eu sou Aldebaran de Tou... Eu sou o Aldebaran, prazer.

"Aldebaran Detou, que sobrenome estranho", pensou.

Após a apresentação, ficara mais à vontade. Aldebaran tinha um aspecto intimidador. O rapaz de traços africanos e indígenas tinha uma estrutura corpórea enorme, com uma estatura que, supunha, facilmente aproximava de dois metros de altura, além ser extremamente musculoso e muito, mas muito forte. Chegava a ser engraçado o contraste do grande homem sentado à cadeira da cozinha, onde o móvel era muito menor do que o adequado ao rapaz. Era uma figura imponente, a botar medo em qualquer um, porém a impressão se dissipava no primeiro sorriso. Aldebaran era um homem de gestos e gostos simples, de riso fácil e sorriso largo, de coração nobre e bondoso. Não era difícil entender o porquê era o melhor amigo de Mu, juntamente com Shaka.

- Er... Eu vou terminar algumas coisas... Podem me chamar quando quiserem... — disse, depois de conversarem por alguns minutos. E saiu.

Esperou a menina fechar a porta para voltar a falar:

- Mu, você tem bom gosto! A moça é belíssima!

- Aos meus olhos, Skamar é a mulher mais linda que já vi, Debas. Mas não foi isso que me fez me interessar por ela. Nós temos uma conexão incrivelmente profunda. A beleza é apenas um bônus.

- E com todo respeito, meu amigo, mas que bônus! — riu. — Já contou a ela sobre sua vida como cavaleiro de Atena?

- Não... Ainda não... Por não ter decidido qual conduta tomar em relação ao retorno ao santuário, ainda não fiz nada a esse respeito.

- Pois vai precisar contar, o quanto antes. É o tipo de coisa que não tem como esconder, né, meu amigo? — tomou um gole do suco de goji — Escuta... Porque você não a mantém no santuário como sua serva?

- Como minha serva? — questionou, pensativo.

- Sim, Áries. Obviamente, será uma "serva" diferenciada, você não precisa delegar funções pesadas a ela, na verdade, sequer precisa delegar funções. Apenas a mantenha cuidando do ambiente de forma geral. Desta forma, você a mantém próxima de si, pode protegê-la, pode até ter um romance se quiserem, se forem discretos o suficiente para não fazer disso uma grande polêmica no santuário. Você sabe, né? Embora não haja lei que nos imponha isso, o celibato é valorizado entre os de ouro. Relações casuais são toleradas, relações oficiais são uma afronta. Mas basta saber levar.

O ariano ouvia, pensativo.

- E sinceramente Mu, quanto à perda de memória?? Você não acha que se ela tivesse algum namorado ou compromisso, esse cara já não a teria procurado em Lhasa?? Pelo menos registrado uma ocorrência de desaparecimento?? Você disse que não há registro nenhum!

- Não, não há.

- Pois então! Que tipo de homem sequer se daria ao trabalho de procurar sua mulher? Skamar não deve ter ninguém por ela, na verdade, Mu. Faça isso. Leve-a como sua serva.

Mu o olha com uma expressão indecifrável.

- Aldebaran... Você é um gênio.