— Melody? Está prestando atenção na aula? – Me cutuca a professora de português.

— Não, sinto muito. – Confesso. Fecho meu caderno e ponho os braços em cima dele.

— Você se acha muito esperta, não? A prova é amanhã e você não prestou atenção em nenhuma de minhas aulas nesse bimestre, tem certeza que irá tirar uma nota tão boa como sempre?

— Sim. – Afirmo com a cabeça sem sombra de dúvidas.

— O Exame Nacional do Ensino Médio é esse ano, se você não se dedicar 100%, você fica pra trás. Você e Ronald podem ser os melhores da classe, mas não lá fora. Vocês não serão os melhores desse país muito menos do mundo, se continuar assim, com essa arrogância de que ninguém pode lhes ensinar algo que não saibam vocês irão perder muita coisa na vida.

— Então me ensine algo que eu não saiba. – A desafio. – Eu já aprendi a matéria do Ensino Médio inteira por diversão, só estou aqui pra fazer as provas, porque não permitem que alguém altamente inteligente vá direto para uma faculdade. Então tenho que perder meu tempo aqui enquanto não me formo.

Cruzo os braços e a encaro. Escuto o sinal tocar avisando o término da aula, ela pega suas coisas e vai embora brava, a classe toda ri e comenta. Eu continuo séria, não a respondi por achar engraçado, mas sim porque ela me irritou, e eu tenho tendência a responder grosseiramente pessoas que me irritam.

— Você não existe, Mel! – Brincou Rony.

Eu apenas ri. Sinto um desconforto no peito, eu o olho, ele para de rir e franze as sobrancelhas.

— O que foi?

— Nada não... – Respondo desconcertada. – É que, estava pensando... Não tenho nada para fazer hoje à tarde, você poderia ir lá em casa.

— E ver séries? – Ele sorri. Ambos amamos ver séries. – Ia adorar, vamos direto pra sua casa, então?

— Sim, meus irmãos voltam da faculdade mais tarde hoje, então não tem ninguém para reclamar de nós. – Eu sorrio, adoro quando ficamos nós dois em casa, sem ninguém.

— Perfeito. – Ele sorriu. – Tenho que te mostrar uma série nova muito legal.

— E eu tenho que conversar com você sobre algo.

— O que?

— Agora não dá, em casa conversamos, é melhor.

— Pode me adiantar o assunto?

— Não teria graça, teria? – Ele ri e eu viro novamente para frente.

Aula de física agora, minha favorita, estamos fazendo um projeto para apresentar ao colégio inteiro, e o tema é mistérios do universo, e eu farei parte do grupo que irá falar sobre viagens no tempo, e o Rony também, claro, somos fanáticos por esse tema. Também tem o Roberto e a Sophia, mas eles não ligam tanto quanto nós ligamos.

A verdade é que eu amo tudo sobre o universo, é algo que me fascina, viagens no tempo, buracos de minhoca, buracos negros, ufologia, absolutamente tudo. É incrível e não tem como não se apaixonar por tudo que o universo esconde. Queria eu ter o poder de desvendar todos esses mistérios.

A professora coloca a matéria na lousa, como já sei de tudo que preciso saber, apenas finjo prestar atenção. Meu celular vibra no meu bolso, é o Rony me mandando mensagem, pego o celular e desbloqueio a tela.

“Devíamos ter cabulado hoje, tá mt chato!!!”

Eu dou um sorriso e começo a responder.

“nem me fale, mas amanhã a gnt mata aula, quero andar um pouco na paulista, topa?”

“A paulista é linda de manhã e de noite. Bora ir hj também?”

“dps de ver as séries, sim. Por mim tudo bem”

“Meeel... Não vai contar o q qr falar comigo?”

“morra na curiosidade se quiser ;)”

Ele não responde mais, e eu guardo meu celular no bolso novamente. Acho que vou dormir um pouco e acordar na hora do intervalo, como sempre, afinal, não tem como aprender nada de novo aqui.

Alguém cutuca minhas costas, levanto a cabeça meio sonolenta, mas vejo a garota alta e negra, de cabelo todo encaracolado ao meu lado, Fernanda.

— Dorminhoca, é hora do intervalo. – Ela fala mexendo no celular.

Eu não falo nada, apenas levanto e vejo a sala vazia, olho pra Fernanda, ela me olha e ergue uma sobrancelha esperando alguma ação minha.

— Vai ficar aí, ou o que? – Pergunta impaciente.

Saio da cadeira e ponho minha mochila em cima desta, pego meu fone que está no bolso lateral e vou em direção da saída junto a Fernanda que não se desconcentra de seu amado celular.

— Tem uma festa sábado, quer ir?

Eu a olho e dou risada. Eu? Numa festa? Creio que nunca me verei numa festa.

— Não sirvo para festas, você sabe.

— Really? Mas nem pra dançar um funk? Você precisa se divertir mais sabia? Você é muito estudiosa pra quem tem 17 anos. Aposto que nunca bebeu.

— Nunca mesmo. – Confirmo sua dúvida. – E não me fez a menor falta.

— Dar a louca numa festa é a única coisa que se pode esperar de uma adolescente, por que não faz isso também? Pensa no assunto, sábado vai ser light, começa umas cinco da tarde e acaba às onze da noite. Depois te mando o endereço por mensagem, ou te busco em sua casa, sei lá, tanto faz, mas pensa bem, dê a louca uma vez na vida.

Não respondo, terminamos de descer as escadas, estamos no pátio, cheio de mesas quadradas, tipo aquelas de bar, procuro Rony em meio a tantos adolescentes barulhentos, Fernanda vai para um lado, e eu para outro sem achar Rony. Finalmente o acho, ele está comendo um cachorro quente e um refrigerante. Vou a sua direção e sento em sua frente.

— Saudades? – Sorri.

— Não vou falar com você até me contar o que quer falar comigo.

— Mas como vou falar com você sobre o que quero falar com você, se você não quer falar comigo?

— Touché.

Eu pego seu cachorro quente e dou uma mordida enorme e o devolvo, ele me olha incrédulo e depois ignora. Eu rio e ele também.

— Então, agora faltam duas aulas e depois vamos ver nossas séries. – Sorrio.

— Não, agora faltam duas aulas e depois você me conta o que tanto quer me falar.

— Não sei se quero falar ainda. – Confesso balançando os ombros.

— O quê? – Ele quase grita. – Porque isso agora?

— É que isso que te quero falar pode estragar o que temos.

— Para com isso Mel, nada vai estragar nossa amizade, nem hoje, nem nunca.

— Nunca diga nunca. Há sempre probabilidades, mesmo que pequenas, de nossa amizade morrer facilmente.

— Quem disse que ligo para as probabilidades? Só me importa sua amizade, e eu vou lutar muito para que ela não “morra” nunca. Amizade é sentimental, não racional, não tente colocar números nela.

Eu sorrio, mas dou minha resposta:

— Às vezes você é muito “humanas”, sabia?

— E você às vezes é muito “exatas”, sabia?

— Sabia, e é por isso que nos damos tão bem. Iguais e diferentes ao mesmo tempo. A dupla perfeita.

— A dupla perfeita. – ele repete rindo e finalizando seu cachorro quente. – Ah, o que você estava conversando com a Fernanda?

— Você nos viu conversando? – Indago surpresa, mas ignoro o fato. – Bem, ela estava me convidando para uma festa sábado, mas sei lá...

— Por quê? Adoraria ver você de roupa curtinha dançando. – Ele zomba. Estico-me para bater em seu braço o mais forte possível e surti efeito. – Ai! Mão pesada, hein? Só estava brincando, sua louca.

— Não sei dançar, muito menos usar roupas curtinhas, sabe disso!

— Bem... Suas roupas são um pouco curtinhas, sabia? Você tem esse estilo meio “ousadinha”, sei lá. – Ele ri. – Mas não é exagerado, relaxa, é... Normal.

— Minhas roupas são adequadas para o calor de São Paulo, ok?

— Ok... Obrigado calor de São Paulo!

— Idiota!

— Burguesinha!

Caímos em risadas como dois idiotas. O sinal toca e me lembra que mais uma vez não me alimentei da comida servida na cantina, um avanço. Na cantina a comida não tem nada de saudável, e eu estou querendo comer coisas mais saudáveis.

— Agora é Educação Física, pronta pra fazer nada? – Me cutuca Victor rindo.

— Claro, e você?

— Igualmente. – Ele sobe as escadas, deixando-me rir sozinha.

— Hoje é dia de futebol! – Comemora Rony.

— Como você gosta tanto de futebol?

— Gostando. – Ele balança os ombros. – Pelo menos não fico “fazendo nada”.

— Prefiro fazer nada a jogar futebol.

— Paixão nacional, Mel! Como não gostar? Como não jogar?

— Há outros esportes melhores, como vôlei, por exemplo.

— Talvez.

Subimos as escadas, ambos quietos em meio a tantos barulhos, já em sala, aguardamos o professor de Educação Física, eu com os fones de ouvidos, finalmente o conecto ao meu celular e escuto música, assisto o professor chegar, fazer a chamada rapidamente, tudo passa como uma simples cena que não presto atenção, apenas escuto minhas músicas, meu rap, meu rock nacional, meu pop internacional. Boas músicas, apenas preciso de boas músicas.

O professor sai da sala, e nós o seguimos. Subimos mais um lance de escadas, e pronto, estamos no campo de futebol da escola, o sol castiga meus olhos assim que ponho meus pés no gramado falso. Invés de ir para a esquerda, preparar-me para jogar futebol, vou para a direita, onde há um pequeno pátio retangular e gelado, do tamanho de uma quadra de vôlei escondida atrás da de futebol, não há visibilidade de uma quadra para outra por causa da parede, apenas uma porta larga que as une.

Ao entrar lá, encosto-me na parede gelada de concreto, escuto minhas músicas, uma por vez. Sou a única naquela quadra de vôlei vazia e esquecida, sou a única na minha mente, capaz de entender a importância dela e de decifrá-la. Talvez minha mente seja uma quadra de vôlei de concreto.

Sinto uma mão tocar em meu ombro, tiro os fones e olho em direção ao dono da mão, é Victor, eu sorrio e ele se senta ao meu lado. Suas roupas são folgadas, sua calça jeans surrada, seus olhos castanhos e cabelos negros lisos, ele é quase tão pálido quanto eu e sempre carrega um esboço de sorriso no rosto.

— Amo essa aula. A única em que nós conversamos direito.

— Sempre conversamos nas aulas e depois delas. – Retruco. Não há lógica no que ele disse. Victor ri.

— Mas só nessas aulas conversamos eu e você. Sem ninguém por perto. Acho bem legal.

— Ah...

— Às vezes você parece muito robótica, sabia? Os garotos não gostam disso.

— O garoto certo vai gostar. – Limito-me a responder, com as pernas junto à barriga, desvio meu olhar para o canto da quadra.

— Rony, por exemplo?

Eu o fito, como se desse um aviso para não falar sobre, e uma pergunta sobre como chegara a tal conclusão.

— Calma. – Ele ri desconfortável. – Dá para perceber como você o olha, eu percebo esse... Amor. – Victor gesticula a palavra como se fosse algo grande.

— Pode ser tudo, menos amor.

— Então você admite que seja alguma coisa! – Fala convencido.

— Claro que é alguma coisa! – Afirmo. – Amizade.

Sei que não o convenço. Tampouco me convenço de tal argumento. Sei que não é só amizade, lógico que não, é algo a mais, mas o que? Amor não pode ser. Amor é um mito capitalista.

— Você... Já falou com ele sobre... A amizade de vocês?

— Não te interessa.

— Mesmo?

— Mesmo.

— Você parece um robô. Deveria se abrir mais com um amigo antigo, até porque depois você pode não ter nenhum.

Pelo tom de sua voz, noto que está magoado, e que a culpa é minha. Ele se levanta em direção à saída desta quadra de vôlei para a outra de futebol.

— Espera Victor! – Eu o chamo convencida de que não quero magoar ninguém hoje.

Ele volta e se senta ao meu lado novamente.

— Desculpe. Eu só não quero falar sobre isso.

— Não precisa. Só me deixe falar. Eu sei que você não é do tipo que fala de sentimentos, e sei que os acha banais, mas você tem que começar a falar mais de sentimentos, principalmente com Rony. Eu conheço o cara e todas as garotas que ele ficou, enquanto também ficava com você, mas isso a gente não comenta... – Ele brinca. – Enfim, todas eram garotas normais, não tão inteligentes, porém sentimentais, ele gosta disso, de sentimento, romantismo. O estranho é que nenhuma dessas garotas satisfez o meu amigo, pois ele não largou de você, então, a minha conclusão é: Ele pode ser romântico, mas não dispensa uma garota-gênio.

— Ou seja, eu tenho que ser sentimental e inteligente?

— Sim, só tenta praticar na parte do “sentimental”. – Ele ri.

— Tá. Obrigada pelas suas tentativas de conselho.

— Tentativas? Poxa, jurava que tinha ido super bem nesse conselho.

— Mais ou menos.

— Valeu a tentativa. – Ele balança os ombros.

Ponho meus fones de ouvido de volta, a música que tocava sem parar alegra-me os ouvidos. Victor continua lá ao meu lado, sem insistir falar mais comigo. Às vezes sou rude, mas adoro o Victor, é um bom amigo.

É estranho, agora que parei para pensar, sempre mantivemos nossa “amizade colorida”, mesmo quando ele estava com outras garotas, pois nada ameaçou ser um relacionamento sério, então não víamos problemas. Deve soar ridículo falar deste jeito, mas não parecia errado, tampouco me parece errado agora.

Victor está certo, se continuou comigo mesmo quando estava com outras, deve ser porque eu tinha algo que faltava a elas, e duvido que seja algo diferente de inteligência, afinal é só o que sou. Uma maldita nerd.