Ave Azul
1 Capítulo Único
Dois pombos batem suas asas para sair do caminho de um homem na frente de um prédio. O Sol ainda estava no céu quando aquele morador atravessou a entrada do edifício e foi visto.
— Chegou cedo hoje, senhor — disse o porteiro sorridente.
O homem apenas assentiu sem olhar para o porteiro, continuando seu rumo até as escadas. Andava devagar, mas não apreciava nada ao seu redor. Era um lugar reservado para quem ganha muito bem, esse lugar. O homem, entretanto, não encontrava agrado em todo esse luxo.
Ao chegar no primeiro andar, uma idosa apareceu quando uma porta foi aberta. Ela se assustou ao ver o outro tão cedo, depois franziu o cenho ao ver que ele levava cerveja em uma sacola. Ainda mostrando sua carranca, a idosa voltou ao interior de sua casa. O homem continuou subindo.
No segundo andar, havia ninguém saindo ou entrando em um dos apartamentos. Apenas um tapete sujo com “Bem-vindo” bem desgastado. Era igual aquele em frente a porta da casa onde deixava seu filho no início de semana.
O andar seguinte foi o mais difícil de se estar. Era onde morava, onde não desejava voltar. Ele continuou subindo, então.
— Boa tarde — cumprimentou o vizinho do andar de cima. — Não quero incomodar — disse ele, embora esse fosse seu bordão que sempre faltava uma parte, “mas irei” —, mas um dos meus pássaros sumiu! Quando acordei hoje de manhã, não escutei sua bela música e não o encontrei na gaiola. Por favor, se o encontrar, traga ele para mim.
O homem que subia tentou um pequeno sorriso e fez uma careta no lugar. O vizinho pareceu entender aquilo como um “está bem” e voltou para seus outros pássaros, assobiando.
Alguns andares depois, o homem alcançou o terraço. Uma área acessível a todos os moradores. Para a sua sorte, havia ninguém para incomodá-lo ali. O banco parecia estar reservado para ele. A primeira garrafa de cerveja foi aberta e tomada muito rápido por conta da sede depois de andar por tanto tempo. Não podia reclamar, pois foi sua opção não pegar o elevador.
Quando abria a segunda cerveja, um grito estranho assustou o homem, fazendo-o largar a garrafa no chão. Um litro derramado em meio a estilhaços de vidro.
— O que é… — Antes de terminar, o homem encontrou a origem do som. O pássaro azul perdido. Ele procurava migalhas no chão do terraço e gritava o que apenas o vizinho maluco entendia como música. — Cala a boca.
Agora ciente daqueles grasnos, o homem pegou mais uma de suas cervejas e começou a abrir, incapaz de ser assustado com o canto de qualquer pássaro. Todavia, seu celular tocou e vibrou no bolso da calça. Derrubou mais um litro, olhou para o que foi desperdiçado e suspirou antes de pegar seu aparelho.
— Finalmente você mostrou os dentes. Agora não tem volta — disse uma mulher no telefone, a ex do homem. — Me faça o favor de não vir mais aqui, nem para ver o meu filho!
Sem que antes pudesse debater, o celular foi desligado. A voz daquela mulher nunca mais o incomodaria novamente, pensou ele por um instante. Por outro lado, ele nunca mais poderia ver seu filho. O homem não era bem-vindo aonde ele estivesse. Onde sua ex estivesse.
Dois pássaros pousaram próximos a ave azul do vizinho maluco. Os três passaram a procurar migalhas. O homem ficou observando eles um pouco enquanto ainda lhe restava uma garrafa de cerveja. Era sua última vez bebendo, como havia prometido ao seu filho. Também não brigaria com sua ex, outra promessa que cumpriu ao jogar seu telefone para fora do terraço.
O último gole de cerveja foi tão rápido quanto o primeiro. A última garrafa terminou como as demais, quebrada depois que foi largada pelo homem agora de pé. Alguns sons foram produzidos pelos pássaros quando o vidro quebrou. Eles voaram para a beirada, acompanhando o homem.
— Cala a boca — exigiu o homem bêbado antes de continuar subindo com os dois pombos e a ave azul.
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