Avatar - O Legado da Paz
3 Capítulo II - Os atentados
Notas iniciais
Cedo em Cidade República ventava gelado, por instarem instalados em mar aberto, a situação piorava a cada lufada. Não fazia orvalho, porque não estava na estação, mas o frio chegava incomodar os quem andavam sem agasalhos. Hava gostava de sua túnica porque poderia usar em qualquer ocasião, no caso, estava fechada, e as vestimentas permitiam que as mãos ficassem escondidas na manga. “Moda a 70 atrás” riu pensando sobre o assunto.
Não quis caminhar até a parte própria de meditação da Ilha, preferiu as árvores do jardim, onde tentaria não ser interrompido. Apesar dos acontecimentos recentes, o monge tentava manter a calma. No fundo, os ensinamentos espirituais eram a fachada perfeita. Hava queria sair dali e tentar vingar de alguma maneira as possíveis vitimas que estavam no Templo. Porém, mantinha a tranquilidade. O desapego foi a lição mais difícil que lhe foi ensinada, talvez ainda não tenha sido assimilada por completo.
Achou um espaço entre as grandes árvores, parecia feito para meditação, um circulo imperfeito era feito com a luz que passava pelas copas esverdeadas. Se ajeitou, colocou o rosário inseparável de contas brancas nas mãos e mergulhou. “Silêncio”
Jinora dormiu mal, foi abatida pela noticia do templo e aquilo se tornou um plano de fundo para sua mente. A noite não foi das melhores, desde a viagem para encontrar Hava Andhi a situação não andava bem. O relacionamento com Kai estava pelas últimas, ambos quase não conversavam sem brigar. A situação foi piorando quando a garota descobriu quem tinha que trazer para a Ilha. Sempre que tinha a mente poluída por pensamentos confusos, olhava para as setas azuis tatuadas em seus braços e se lembrava: “Se o mundo está com problemas, nós temos que ajudar” e aquilo reconfortava.
Se ficasse concentrada apenas nos afazeres de Mestra, tinha a situação sob controle. No entanto, bastava o mínimo contato com Ikki ou Meelo e os sentimentos mais extremos eram aflorados. Desde ontem, ficou matutando a ideia de que Hava poderia ter combinado alguma coisa com Ikki, só que eles não se viam a anos. Tentava mudar de pensamento, rolava em sua cama e se concentrava no atentado, porque? como? o que será que vai acontecer? e a cabeça dela trabalhava, chegava a doer de vez em quando.
Quando viu que dormir mais um pouco seria impossível com o turbilhão de pensamentos, decidiu levantar. Sorriu ao ver que seu espírito companheiro estava ali, um coelho-libelula voava em círculos, eufórico. Jinora fez um carinho no focinho e foi ao banheiro.
Horas depois estava terminando o desjejum na companhia de sua família. Sentava ao lado de Kai a mesa, mas era como se estivesse com uma outra visita. Ambos tiveram muitas brigas, todavia essa estava se estendendo por tempo demais.
—- Pai, já se tem noticias sobre a autoria do atentado? — Jinora perguntou.
—- Não, mas tem pistas, uns dirigíveis atingiram uma torre, ninguém se feriu fatalmente — respondeu Tenzin.
—- Alguma pista sobre a fabricação dessas aeronaves? — questionou Kai
—- Não, nenhuma marcação ou insignia, nada — novamente Tenzin pareceu mais preocupado que o normal.
—- O senhor está diferente hoje — falou Ikki.
—- Estou preocupado crianças, tenho maus presságios — comentou Tenzin, que ainda os chamava de crianças. Jinora e Ikki não gostavam do tratamento infantil.
—- Onde está Hava, Jinora? — Tenzin perguntou e arrancou risinhos de Ikki, um mal estar em Kai e “aff” de Meelo.
Jinora suspirou.
—- Eu não faço a menor idéia — respondeu de má vontade.
Já não existia mais resquícios da batalha que culminou a queda de Kuvira, prédios haviam sido reformados, e um onda de avanços tecnológicos modernizaram a capital da República Unida das Nações. Os satomóveis ganharam formas mais arredondadas, assim como o sistema de trens que passou a ser mais rápido e eficiente. A monumental Estação Central ganhou uma decoração clássica, que o deixava com uma expressão antiga em contraste com os novos arranha céus espelhados que surgiram com o avanço da década.
Tenzin e Jinora encontraram Asami e Korra na sede do conselho. Hava ainda não tinha aparecido. Após buscas pela Ilha, o grupo decidiu partir para a reunião e depois se concentrar no paradeiro do porta voz do leste. O palácio do governo teve sua estrutura alterada por causa da convergência, tinha criado raízes, só que agora os funcionários conseguiram transformar em parte da decoração aquela mata espiritual.
A sala executiva da presidência foi uma das mais afetadas com a plantação, paredes e janelas tinham rastros com florzinhas coloridas. Era inevitável a atração de pássaros que passavam o dia empoleirados sobre os galhos que vazavam as paredes. A chefe de gabinete era uma senhora, com uma expressão mal humorada, que autorizou a entrada no escritório do Avatar e suas companhias. Para surpresa de todos, dois rostos conhecidos estavam reunidos ali junto com o presidente.
—- Antes que me repreendam, decidi vir antes porque não gosto de voar em bisões — falou Hava, que pegou Tenzin e Jinora de surpresa.
—- Muito curioso um monge que não gosta de voar em bisões, não acham? — quem falou foi o outro conhecido, Varrick.
Hava estava sentado a vontade, tomando chá e parecia estar ali há algum tempo. Varrick, parecia estar arrumado para um baile de gala. Usava um terno de linho, sob medida, azul marinho. Tenzin e Jinora olharam de maneira questionadora para o monge, já Asami e Korra queriam entender porque o empresário estava presente para a suposta reunião.
—- É realmente muito curioso, Hava, poderíamos conversar a sós? — Tenzin fez um sinal para sair do gabinete.
Antes de se levantar, Hava alcançou uma edição do Republicano, jornal diário que circulava na cidade. Tenzin tinha o semblante sério, quando se afastou do grupo para poder dialogar com seu convidado. Não permitiu que Jinora participasse, frustrando — a.
—- Você sabe de mais alguma relacionada aos ataques? — começou Tenzin.
—- Não, sei tanto quando o senhor — respondeu, tinha abandonado a expressão debochada de antes.
—- Eu tenho um mau presságio sobre esse repentino ataque, e não me sinto confortável com você falando com pessoas como Varrick… — Tenzin estava encarando Hava.
—- Veja isso — Hava mostrou a manchete do jornal. “Templo dos sábios do Fogo é alvo de terrorismo” — Eu acredito que está relacionado com o ataque ao Templo do Leste.
Tenzin analisou friamente.
—- O senhor tem alguma idéia do que podemos enfrentar? — tentou Hava, vendo que o mestre não falou nada.
—- Não, mas pode ser algo muito perigoso — pensou alto, olhando para o nada.
Korra chamou atenção dos dois para chegada de Raiko. O primeiro presidente de Cidade República estava em seu segundo mandato, isso explicava a presença de Varrick na sala, que é o principal financiador do partido.
—- Presidente Raiko, precisamos da sua autorização para convocação da Forças Unidas — solicitou Korra. Hava e Varrick pareceram não entender o pedido.
—- Avatar, com todo respeito, se esse pedido tem alguma coisa a ver com os atentados a templos religiosos, eu sugiro que vá procurar as autoridades locais — Raiko com uma postura mais retraída sobre casos internacionais que antes, Korra bufou.
—- Senhor presidente, se faz parte de sua ideologia, difundir o modelo de governo que existe aqui, é necessário se posicionar a respeito desses acontecimentos — falou Asami.
Hava percebeu que Raiko mantinha — se inexpressivo aos pedidos. Desde ontem tentava entender porque essa reunião havia sido marcada, pois acreditava não haver necessidade de usar, emprestado, qualquer que seja a medida proveniente daquela cidade. Eram conflitos externos e as Forças Unidas só poderiam ser convocadas caso houvesse um problema para segurança mundial. Por enquanto, aquele não era o caso.
Quando terminou o raciocínio, escutou uma parte da fala do chefe de Estado:
—- … é a função dos Novos Monges do Ar manter a paz e auxiliar o Avatar.
Hava se incomodou.
—- Senhor presidente, permita — me apresentar Hava Andhi, porta voz do Templo do Ar do Leste que tem algumas informações para lhe passar — disse Tenzin fazendo um sinal para Hava.
—- Presidente Raiko — fez uma reverência. — O que eu tenho a dizer, primeiramente, é que o senhor está certo em não se envolver em assuntos internacionais. — Korra olhou furiosa para Hava. — No entanto, Cidade República poderá sofrer as consequências se as nossas suspeitas se confirmarem — finalizou. Raiko olhou preocupado.
O presidente fez sinal para o monge continuar falando.
—- Eu liderei algumas missões para distribuição de recursos para cidades ao leste do Reino da Terra, eram lugares mal alocados e passando por dificuldades, e desde então temos dividido equipes para realizar esses serviços em outros lugares e os outros Templos fizeram o mesmo em outras nações. — Hava fez uma pausa como se quisesse escolher uma palavra de mais impacto. — Só que, de três anos para cá, os monges tem sido proibidos de entrar em algumas cidades. No reino da Terra, alguns grupos organizados se encarregaram de expulsar os acólitos. E segundo o nosso conhecimento, a Nação do Fogo, tem tido esses problemas também.
—- E o que atingiria Cidade República? — questionou Raiko.
—- Veja, muitos moradores desses lugares conseguem refúgios em cidades maiores e mais estruturadas. Zao Fu, Chin, e Omashu tem recebido um aumento de população muito grande. Senhor presidente, não reparou que sua Cidade passou a receber muito mais pessoas que antes?
—- Sim, ao contrário da Nação do Fogo, nós aceitamos os novos moradores, faz parte da expansão… — Raiko foi interrompido por Jinora.
—- O senhor não entendeu que essas imigrações estão acontecendo por causa do medo? Alguma organização está assustando essas pessoas e isso vai afetar as grandes cidades a qualquer momento — a Mestra parecia exaltada, e corou quando percebeu o exagero no tom de voz.
Hava olhou com orgulho para ela.
Alguns minutos de silêncio e Tenzin se pronunciou.
—- O que queremos dizer é, já que temos trabalhado em conjunto, queremos que o senhor esteja a par dos acontecimentos e possa tomar uma atitude a tempo. Não queremos mais problemas como a revolta dos habitantes da Tribo da Água, lembra? — recordou de uma das crises que marcou a primeira passagem de Raiko na chefia executiva da Cidade. Aquele caso também envolveu espirituosidade e religião.
Três dias depois
Manchete no Republicano: “Raiko declara: Os autores desses atentados são covardes’”
—- Ele pensou por três dias e levantou mais polêmica do que antes? — Asami parecia indignada disse entregando o jornal para Korra, ambas estavam na nova sede das Indústrias Futuro. A sala de Asami ficava na cobertura, proporcionava uma vista panorâmica de toda bacia Yue. Era possível ver, de longe, o memorial do Avatar Aang.
Korra estava sentada em uma das poltronas daquela sala luxuosa. Estava tensa. Olhava para a reportagem e imaginava a repercussão que isso traria. Sentia que poderia agir para evitar que esse novo inimigo agisse de maneira mais drástica. A engenheira percebeu tal preocupação se aproximou da Avatar. Lhe fez um carinho no rosto e começou a massagear as costas de Korra, começando pela parte superior.
—- Você vai achar um jeito de resolver isso — falou Asami.
—- Nós vamos — respondeu Korra beijando, pegando as mãos leves de sua companheira e beijando — as.
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