Sina

Eu já queria encontrar com esse homem antes. Antes de ser um traidor, ele é um cientista, me recuso a dizer que ele é brilhante, mas fatos são fatos. Toda a família Varrick é feita de cientistas, desde Iknik Blackstone Varrick, todos os seus filhos foram gênios em seus próprios assuntos, desde negócios, filosofia, engenharia. Esse nome está estampado nos livros.

Fico aliviado em não ser eu em propor esse negócio. Olhando para o seu rosto, que não dorme a dias, sua postura cansada. Não sou o melhor nisso, mas posso conseguir algo útil.

— O que você propõe? -- Eu digo antes de todos.

Sei que Meelo, Riku e principalmente Mira não estão tão abertos quanto eu, mas nós precisamos de qualquer coisa para vencer, mesmo fazer negócio com esse tipo de pessoa.

— Bem, eu estou um trapo, isso eu garanto. Será que vocês não têm um lugar melhor para conversar? Uma bebida? Algum petisco. estou aceitando qualquer coisa.

Meelo olha para ele desacreditado. Eu não sei como ele está aguentando ficar de pé. Suas feridas pararam de sangrar, mas a dor que ele deve estar sentindo faria qualquer um pelo menos cambalear. Mas, ele permanece firme.

— Bem, acho que você não percebeu ainda a posição que está. Além do mais, aqui parece ter isso que você pediu?

Ele olha em volta, parece procurar algo. Mas, dá de ombros.

— Estou ilhado, meus equipamentos estão quase sem bateria. Eu só queria ter um pouco de dignidade. Se fosse em nosso país eu os receberia com um belo jantar, ou seja o que for. Apesar de tudo eu zelo pela hospitalidade.

Ele parecia querer nos enrolar.

— Acho que você sabe como nosso tempo é precioso.

— Tempo, tempo. Como um relógio com um ponteiro quebrado. Tão repetitivo.

Minha pouca paciência estava se esvaindo. E ao olhar para Riku, vi também que ele não aguentaria por muito tempo.

— Venon, se não dizer, não temos como negociar.

Ele pensou um pouco. Se sentou no chão com tudo, e tirou as botas. Suspirou fundo.

— Sabe, eu pensei bastante antes de vir aqui. Pensei na minha vida, claro, apesar de não aparentar, eu gosto do tipo de vida que levo. Achei que expulsando os meus irmãos do país, tendo tudo em minhas mãos, ajudando meu ídolo, achei que me sentiria satisfeito. Mas...

Riku o interrompeu. Socou a parede com força.

— Vamos acalmar os ânimos, por favor... -- Ele disse o encarando. -- Eu vejo Haru falando sozinho algumas vezes. Acho que ele não percebe, mas parece incorporar alguma coisa. Ele fala e responde a si mesmo. Isso acontecia mais antes de virmos para cá. Mas, mesmo agora, as vezes ele não parece ser ele mesmo.

Mira se sentou próximo a ele. Parecia muito interessada no que ele dizia.

— Seu corpo está todo cheio de cicatrizes, suas mãos, pernas, principalmente o abdômen e as costas. Bem, não como o nosso amigo ali. -- Ele aponta para Meelo. — Mas, ele parece estar perto de rachar, como um ovo quebrado. Melhor como uma das bolas de energia do meu pai.

— Bolas de energia? -- Eu pergunto.

— É de conhecimento de todos que meu pai tentou dominar a energia espiritual, e todos sabem que isso não deu certo. -- Venon parou subitamente.

— Antes que eu continue. Eu preciso negociar com vocês antes. Se tudo der certo, como esperamos. Acredito que voltaremos a Republic City. Eu espero estar com vocês nessa volta, e eu espero também ser creditado por toda a minha ajuda, e perdoado de qualquer coisa que me acusem.

— Te acusar? Todo sabem o que você fez. Você é um traidor de merda. -- Riku diz.

— Bem, eu estou ajudando agora não é? Acredito que essas informações serão muito uteis. Se tudo der errado, estarei tão ferrado quanto vocês.

— Ok. falaremos da sua ajuda. Mas, a questão do perdão, é difícil. -- Mira falou

Ele deu de ombros.

— Vocês não precisam me perdoar de coração. É só fingir.

Ele achava que era uma coisa fácil. Mas, infelizmente parecia até um pouco razoável. se ele voltasse para Republic City sem esses termos. Provavelmente ele seria julgado, até executado.

— Você tem seu acordo. Porém se tudo isso ser inútil, ele estará cancelado.

— Eu garanto, são informações valiosas. Bem continuando. Uma bola de energia é um nome bem genérico para um invento do meu pai. Mas basicamente é um núcleo magnetizado com energia espiritual limpa. Envolto por placas de uma liga de metal. Meu pai dizia que trouxe um metal muito raro do mundo espiritual. Não sei como isso foi possível, mas foi o que ele disse. As placas de metal são atraídas pelo núcleo, e selam qualquer coisa entre elas. Inclusive a própria energia espiritual, que no caso é uma energia volátil, extremamente poderosa e imprevisível.

O que ele dizia parecia importante. Mas, eu não conseguia compreender.

Kieran que estava no outro cômodo parecia melhor agora. Ele andou devagar e olhou para todos.

— Quando eu desmagnetizei aquela bola, Haru absorveu toda a energia em um piscar de olhos.

Fazia sentido o envolvimento de Kieran, como um dobrador de metal.

— Mas, o que fazemos com essa informação? -- Mira perguntou.

— Imagine o corpo de Haru como uma placa de metal, toda a energia espiritual que ele consumiu está presa dentro dele. Alguma coisa está mantendo ele inteiro, como um núcleo. Apesar de muitas vezes parecer que ele não vai aguentar, algo puxa para dentro essa energia novamente.

— É uma teoria interessante, eu simplesmente digo.

— Não é uma teoria. -- Mira simplesmente diz.

Quando eles falam de coisas espirituais, eu me sinto um peixe fora d’agua. Eu tento racionalizar tudo o que eu ouço, e isso complica muito o meu entendimento sobre o assunto.

— Vaatu é o núcleo que faz toda essa energia se manter dentro dele. -- Mira continua. -- Então se desestabilizarmos Vaatu nem que seja por um segundo, você acha que essa energia vai ser liberada? -- Ela pergunta a Venon

— Bem, é o que eu espero. Mas, tenho que dizer uma coisa muito importante. Quando essa energia for liberada, eu não creio que será de uma maneira ordenada ou contida. Tenho quase certeza que haverá algo parecido com uma explosão, e não vai ser pequena. Então quero estar bem longe quando isso acontecer.

Ouvi-lo dizer isso trás um peso enorme sobre as minhas costas. Então mesmo se derrotarmos Haru, a chance de não sobrevivermos continua. Eu olho para toda a minha volta. Mira, Riku, Meelo... Suni apesar de não estar aqui. São praticamente crianças. Eles passaram por muita coisa... E vão ter que passar por algo assim novamente.

— Tudo bem, estou preparada para isso. -- Mira diz sem pestanejar. -- Mas... -- Ela para abruptamente. -- Eu não posso fazer isso com vocês.

É obvio ela ter essa atitude. Eu também teria. Mas, creio que já passamos por toda essa conversa antes.

— Não vou discutir, você já sabe o que eu penso, e já sabe o que estou disposto a fazer. -- Meelo diz.

Ela olha para baixo. Sabe que não existe como negociar isso.

— Viemos para cá juntos, e se tivermos que morrer juntos... -- Riku fala antes de ser interrompido por Venon.

— Lindo, vocês são realmente unidos. Mas, se isso der certo, eu ainda preciso da minha garantia. Se todos vocês morrerem, quem vai garantir o acordo?

Apesar da frieza com que ele fala, infelizmente tem essa questão.

O ar que já estava quente, de repente se agita, não apenas Riku, mas, Meelo também está furioso. A tensão no ambiente era palpável, e as palavras de Venon só aumentaram a sensação de peso sobre os ombros de todos.

— Então é melhor nos ajudar a pensar uma maneira de não morrermos. -- Todos se viram para Kieran que sorri, como se tivesse tirado uma carta da manga.

Haru

Minha mente não para. E nem o meu corpo. Eu sinto toda essa energia se agitar dentro de mim. Agora ela até que está calma, mas quando eu domino algum elemento, a sinto ir até o limite. É como segurar uma tempestade dentro de um frasco. Cada vez que utilizo esse poder é como se o frasco estivesse prestes a explodir. Só mais um pouco, eu só preciso me concentrar nisso.

Fecho os olhos e, em vez da escuridão de sempre, encontro uma claridade surpreendente. Não vejo as memórias dolorosas que às vezes me assombram. É como se eu ainda estivesse adormecido, antes de me despertarem. A calma dessa luz é estranha, mas bem-vinda. É um momento de paz em meio ao caos da minha mente. E isso me assusta um pouco. Sinto um calor familiar, uma sensação calorosa de um abraço.

— Raava? -- Eu chamo. -- Mas, o som ecoa ao meu redor.

A claridade pulsa levemente, como se estivesse respondendo ao meu chamado. A sensação de abraço se intensifica, me envolvendo com uma tranquilidade que há muito tempo não sentia. Não tenho certeza se é realmente Raava, mas essa presença me conforta por alguns minutos. Antes que o calor se dissipe, e um frio excruciante tome conta do lugar. A claridade perde sua força, e a escuridão de sempre me rodeia.

— Ainda existem fragmentos... -- Ouço a voz dele ecoar. -- Mas, não se preocupe, isso não vai nos prejudicar. Quando você estiver completo, eu terei poder para destruí-la.

Ouvi-lo assim, gera uma pequena hesitação nos meus pensamentos. E mesmo tomado pela sua energia, uma semente de dúvida começa a brotar nos confins da minha mente.

Meelo

O tempo é nosso inimigo. Tentamos pensar em todas as alternativas possíveis, mas não existe nada que possamos fazer.

— Mas, e se nos enterrarmos ele? -- Riku diz como se isso fosse uma boa ideia.

— Creio que uma coisa parecida já aconteceu, e sabemos como terminou. -- Sina diz impassível.

Todas as ideias parecem péssimas, nada parece fazer sentido. E o tempo passando cada vez mais rápido...

Eu só consigo pensar na Suni. Será que ela está machucada? Será que está com sede? Toda essa incerteza é pior que a dor dos meus ferimentos. Sinto uma tontura de repente. A droga está perdendo o seu efeito. Discretamente me afasto dos demais, e como o soldado disse, apenas uma pitada, isso é suficiente para que eu consiga me firmar, paro de tremer e respiro fundo. Eu preciso aguentar mais um pouco.

— Você está bem? -- Mira pergunta, e eu sinto a culpa em seu olhar.

—— Estou. -- Eu simplesmente minto.

Ela me encara. E eu a encaro de volta. Lembranças invadem a minha mente, a primeira vez que eu a vi, na escola, e um dia comum. Ela não enevelheceu, mas seu olhar é de alguem que teve muitas perdas.

— Eu não vou discutir mais sobre isso.. -- Ela diz. -- Mas, você sabe a minha opinião.

— Sim. Mas, somos o time avatar. — Eu tento anima-la.

— Somos, não é? — Ela parece pensativa.

— Sim, em qualquer lugar, seja aqui, em Republic City, no mundo espiritual, estaremos com você.

Seu olhar muda por alguns segundos.

— Mundo Espiritual? -- Ela diz.

Eu tento entender, mas ela repete mais um vez baixo.

— Os portais, todos eles foram fechados? -- Ela pergunta

— Creio que sim, Korra fechou todos.

— E como eles surgiram? Meio que não cheguei a ter essa aula.

Uma ideia começa a se formular na minha mente.

— Fora os dois portais que existiam nos polos, depois de Korra derrotar Kuvira e absorver a energia de uma das suas armas ela o converteu em um portal. Depois disso mais portais foram surgindo.

— Imagine que Haru é como uma maquina assim, se eu conseguir conter nem que seja um pouco, posso tentar criar um portal... -- Mira diz

— Mandar ele, ou nem que seja um pouco dessa energia para o mundo espiritual. -- Eu digo com entusiasmo.

— Sim. -- Ela parece um pouco mais feliz -- É uma chance, pequena, mas ela existe. Já foi feito antes... Eu só preciso dela.

Mira

O tempo havia terminado. Eu estava com os nervos a flor da pele. E ao falar do plano para os outros, eles não pareceram convencidos.

— E se isso não dar certo? E se você for levada junto? -- Riku perguntava.

— Mesmo tendo essa aula, eu nunca consegui compreender como Korra fez isso. -- Sina parecia curioso.

— Eu entendo um pouco do conceito, mas nunca o vi em pratica. O último que tentou isso foi o meu pai, e todos sabemos o resultado. -- Venon falou.

Eles estavam me fazendo hesitar, mas eu não podia. Essa era a única chance, então eu iria agarra-la de qualquer modo.

— É isso, ou morrer. -- Eu disse simplesmente.

Riku suspirou.

— Eu vou fazer de tudo para te ajudar. Se é isso que você quer tentar, então todos nós iremos te apoiar.

— Eu não. Quero estar bem lon... -- Venon tentou dizer, mas Riku finalmente havia dado um soco nele.

Por algum motivo, todos rimos. Fazia tempo que isso não acontecia tão espontaneamente.

É isso não havia mais para onde correr. Finalmente tudo terminaria, bem ou mal.

Haru.

Eu não lembrava direito do ponto de encontro, porém eu conseguia sentir um pouco da sua energia. E isso me empolgava.

— Suni. -- Eu falei, como se precisasse, a garota veio até mim como um fantasma. Seu corpo já estava dando sinais de exaustão. Mas, eu não me importava.

— Está na hora de você rever seus amigos, um último reencontro.

Nossa conexão balançava de um lado para o outro. Estava ficando um pouco fraca, mas era o suficiente. Quando tudo terminasse, eu conseguiria fortalece-la.

Fui atraido para Mira como uma mariposa se atrai pela luz. Ela era minha luz, minha esperança no final das contas.

E quando a vi no horizonte eu não pude deixar de sorrir.

— Estou realmente feliz em vê-la, que bom que aceitou o meu convite. -- Eu disse feliz.

Seu rosto transparecia aversão.

— Quando nos tornamos um apenas, tudo ficará claro.

Eu senti o odio de Riku somente o encarando. E as outras pessoas que estavam com ela. Sina, Meelo... E com surpresa Kieran.

— Isso é uma especie de traição? -- Eu perguntei. Mas, eu não precisava de resposta, eu o deixei livre...

Seu olhar era afiado. Isso me deixou feliz por ele. Finalmente ele estava tendo escolhas. Mesmo que seja essa, ele está livre de verdade agora, pena que isso vai durar pouco tempo.

Eu olhei em volta. Estavamos praticamente em cima do vulcão. Que estava prestes a entrar em erupção. Era um relógio perfeito, isso não poderia se alongar.

— Então é isso. Podemos começar.

Notas finais
É isso, finalmente iremos entrar no arco final.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.