Avatar: A Lenda de Yan
8 O Revés da Água
Notas iniciais

Simplicidade. Era o que não existia naquela cidade grande. Era tudo selva de pedra. A noite a cidade não parava de forma alguma. Os carros eram silenciosos, mas os sons instalados em seus interiores explodiam músicas de modo insano, o que por algumas vezes causava pequenos tremores no vidro da janela, ou até na minha cama de dossel. Sim, eles me instalaram num quarto gigantesco, algumas vezes maior do que o que eu tinha na minha casa, em Omashu. Eles se preocuparam até em colar diversos posteres da Avatar Kyoshi, alguns deles, tão falsos e tão manipulados, que não parecia a verdadeira Kyoshi. Havia uma mesa no quarto, onde jazia uma brilhante estátua de ferro de Toph, que parecia me encarar. As mãos na cintura, o jeito imponente da primeira dobradora de metal, a expressão dura na face. Pelo menos me senti seguro.
O quarto era espaçoso, com tapetes macios pelo chão, alguns cristais espalhados pelo lugar. Em um pedestal, no canto do lugar, estava uma rocha desigual. Eu queria poder dominá-la, apertá-la na minha mão e torná-la parte de mim, mas o presidente já veio hoje aqui, dizendo que eu precisava descansar, afinal de contas, com toda a energia gasta no dia e com os compromissos amanhã, eu necessitaria de uma boa noite de sono. Mas como dormir, sabendo que o dia de hoje antecede o primeiro dia do resto da minha vida? Estou iniciando minha história, continuando um ciclo milenar de tantos outros. É estranho, você parar para pensar a respeito disso. Um dia você é apenas mais um, num mundo inteiro. E no outro, você é toda a salvação, tudo o que todos precisa.
Num dia, ninguém se preocupa em tirar uma foto minha, afinal de contas, eu não era nada. Mas no outro, os flashs são exclusividades minhas. E até um tirano é capaz de mudar os planos, para me lembrar de que eu sou alguém.
A sensação de que todos reverenciam o meu nome agora, me faz flutuar. Estou flutuando, suavemente, na brisa, no vento, na água calma de um lago. A água parece mãos suaves e gélidas, mas com um toque sublime, que me carrega para longe. Os olhos de Toph parecem brilhar. Kyoshi parece se mexer, dominando a terra em um dos posteres mais belos dela. A cama balança na água na calmaria do espaço, na escuridão aconchegante e silenciosa. Adormeço.
O sol penetra pela primeira fresta que ele encontra. A cortina, que o presidente Meelo não fechou direito, é a culpada por eu acordar na primeira hora da manhã. Abro meus olhos e sei que estou acordado, pois sinto os olhos de Toph em mim. A estátua continua na mesma posição, me encarando. Eu sei que a Toph era cega, mas aquela estátua parece me escanear, me abrir e ler o que eu tenho por dentro. Ergo minha mão direita e giro-a e a estátua me obedece e vira os olhos para a parede.
Jogo os lençóis para o lado, e lanço minhas penas para fora da cama. Hoje eu preciso sair desse palácio e conhecer a cidade. Pretendo ir a lugares famosos, que todo mundo no mundo conhece. Preciso fazer coisas legais, se eu quiser que o tempo passe logo, para que chegue o momento do meu treinamento. A ansiedade me consome.
Ergo-me e fico em pé em cima de um dos tapetes. Eu sei que a dobra de água tem um determinado movimento, no qual eu preciso me mover de modo fluído, seguindo o fluxo da água. A dobra da água vai contra todo o aprendizado da terra. Para dobrar a terra, eu sempre aprendi a ter movimentos rígidos, trabalhar a base da postura, para que a terra obedecesse aos meus comandos e não eu aos dela. A terra é um elemento teimoso, nos termos humanos, um elemento cabeça-dura. É necessário ser além disso, se nós quisermos dominá-la. Já a água não. A água parece ser companheira e obediente. Se fizermos o movimento certo, ela se projeta, ela se orienta sem nenhum problema.
Ergo minhas mãos e faço o primeiro movimento básico de dobra de água. Empurrar e puxar. Minhas mãos se movem com suavidade, para frente e para trás, enquanto meu corpo acompanha o movimento sem nenhuma dificuldade. Para frente e para trás, para frente e para trás. Suavidade. Destreza. Atenção. Disciplina. Para frente e para trás. Frente, trás, frente, trás. Empurrar e puxar. Imagino que a água já esteja sobre meu controle, quando giro o braço direito lentamente, em um movimento circular ao redor de minha cabeça. A mão direita serve de suporte, para que a dobra continue. Imaginando que eu esteja acertando tudo, suspiro e continuo a me mover com fluidez, mesmo não estando dobrando a água.
A porta do quarto se abre lentamente. Um dos conselheiros do presidente pede licença e entra, assistindo-me, enquanto eu finjo dobrar a água.
─ Avatar...
─ Me chama de Yan, por favor. ─ peço de modo gentil. ─ É muito cedo ainda...
O conselheiro sorri.
─ Ok, ok. Desculpe Yan.
Dou uma suave risada e o conselheiro relaxa. Sorrio.
─ Qual o nome do senhor?
─ Goma! ─ eu reverencio o conselheiro, com respeito. ─ Yan, o presidente Meelo gostaria de levar o senhor aos hospitais hoje, fazer uma visita nos centros de lazer da cidade, para mostrar a todos o senhor.
Olho para o lado.
─ Será que isso é uma boa?
─ Claro que sim, Yan! As crianças ficarão felizes em ver o Avatar, andando pelos corredores! Você é sinônimo de paz, Avat... Yan! ─ o conselheiro sorri. Ele é o mais amável entre todos. ─ Que mensagem devo dar ao presidente?
─ Que eu irei sim, com todo prazer. Só preciso me arrumar, conselheiro Goma.
Reverencio Goma, no típico sinal de respeito e reverência aos mais velhos. Ele repete isso. As vezes, ser o Avatar nos torna um ser respeitado. Mas minha sabedoria não era digna disso.
O conselheiro Goma pede licença e sai pela porta, fechando-a em seguida. Olho pela janela. Daqui posso ver o mar e a estátua de Aang, imponente. Ando até a janela e fito a estátua do Avatar. Minha vida passada, o monge, que foi capaz de salvar o mundo inteiro, numa jornada épica. Com a minha idade, ele já dominava os quatro elementos. O que torna a coisa um tanto... ameaçadora. Ele estava praticamente na mesma posição, com a Nação do Fogo. Isso me deixa com medo. Eu preciso agir.
Miro o espelho e fito minha imagem refletida. Desde o dia em que eu fui informado de que eu era o Avatar, minha imagem no espelho passou a ser estranha. Eu não me sentia mais um frágil dobrador de terra, incomum entre os meus. Eu era, ou melhor, eu sou parte de algo muito grandioso. Desde o dia em que todos se curvaram perante minha presença, eu sinto o mundo com mais facilidade. O mundo é problema meu agora. E o peso por ser Avatar, não só decaiu sobre meus ombros. Decaiu sobre a vida de meus pais. Eles tinham mais uns quarenta anos pela frente, talvez até mais, afinal de contas, nós, dobradores de terra, somos famosos pela nossa longevidade. Porém, a minha identidade nova trouxe a eles, um fim prematuro.
Se nós, Avatares, reencarnamos, o que impossibilita de meus pais reencarnarem também? Espero que estejam me assistindo e que me assistam sempre, pois honrarei meu sangue.
Olho minha expressão de determinação Aquilo, até certo ponto de conforta, pois sei que não irei dar o braço a torcer. Os anos passarão, e eu lutarei até o fim contra tudo o que for envenenar o nosso mundo. Eu não vou permitir que tomem o meu mundo, como se ele fosse de posse de qualquer um. Jaya sofreria nas minhas mãos, pois hoje, eu treinarei com disciplina e em poucas semanas, estarei apto a usar a dobra de água. E nenhum incêndio vai me parar. Eu jamais serei tomado pela dobra de sangue.
Coloco meu casaco verde e o abotoo. Arrumo minha trança, passo a mão pelo rosto e sei que estou pronto. Arrumo minhas botas, testo algumas colônias. Escolho o cheiro de madeira, do vidro mais esguio e transparente. Dou uma última olhada no quarto. Meus olhos encontram a estátua de Toph Beifong. Suspiro suavemente. Movo minha mão e com a dobra de terra, faço a estátua girar novamente, até seus olhos ficarem presos aos meus. Sussurro um pedido de desculpas e abro a porta.
Dos dois lados o corredor se estende, quase que infinitamente. Naquele andar, o silêncio era absoluto. Era o andar residencial do palácio presidencial. Alguns dos ministros usavam, quando passavam a noite trabalhando. O presidente Meelo não. Ele estava na Ilha do Templo do Ar, alguns poucos quilômetros da cidade.
O corredor era largo. Haviam diversos lustres nas paredes, mas as luzes estavam apagados. Pelo chão se estendia um tapete bonito, com mosaicos complexos, sem nenhum significado aparente, o que amortecia meus passos e os tornava silenciosos. Haviam quadros pelas paredes e as janelas, uma em cada extremidade, davam para a estátua de Aang no lago e para o outro lado da cidade, que já fervilhava naquelas horas da manhã.
Encaminho-me para o saguão de entrada, e fico na porta, na espera de alguém para me levar para o tal hospital. No alto da escada, consigo ver o presidente Meelo conversando com Kyle e os outros ministros e conselheiros. Aparentemente acabaram de sair de uma reunião. O presidente Meelo me vê e acena para mim, enquanto os outros continuam numa conversa intensa a respeito de seja lá o que foi conversado em reunião. Olho para Kyle. Ele ainda não me viu. Ou se viu, não fez nada. Será que ele está arrependido de ter se comprometido como meu professor? Olho intensamente para ele, mas ele conversa com um dos ministros da Nação do Fogo, presente no governo da cidade.
A Cidade da República é governada por um presidente, eleito de modo democrático e não-dobrador. As exceções ocorreram há quase setenta anos, quando o povo clamou nas ruas, pela eleição indireta de Tenzin, que tomou o cargo. Em seguida, após os projetos de lei, feitos por Meelo, a população saiu novamente às ruas e ele conseguiu o cargo, que perdura até hoje. O Conselho e os Ministros são escolhidos nos quatro continentes, para que assim, haja equilíbrio entre todos no mundo. As decisões tomadas para a cidade e para os seus devidos países, como por exemplo, o envio de apoio militar, se dá em reuniões com eles. São oito conselheiros e oito ministros. Kyle é um dos conselheiros mais influentes, pelo que pude perceber. Ele representa a União da Água do Sul, de onde sua mãe era.
Olho novamente para ele, atento com quem ele conversa. O ministro a quem assinalo como da Nação do Fogo, parece estudar alguma proposta, pois coça o queixo concentrado, alisando a barba que nasce ali. Olhando a maneira como ele se veste, noto, que o ministro em questão, é o ministro das Relações Sociais e Internacionais, pois ele tem no peito a insígnia desse ministério da cidade. O que será que o Kyle fala com ele? Será que está indo atrás de uma autorização para me mandar embora da cidade, de modo a não ferir a aliança que a Cidade da República tem com Omashu? Será que não sou bem vindo ali?
─ Ministros, conselheiros, preciso ir andando. Missão importante hoje, com nosso jovem Avatar. ─ Meelo abre os braços de modo abrangente e agradece. ─ Tenham um ótimo dia, senhores.
Meelo desce os lances de escada, sua capa voando atrás de seus passos, enquanto os ministros e conselheiros se dissipam. Uns retornam aos seus gabinetes, pelos corredores do palácio presidencial. Kyle, por exemplo, segue os passos rápidos do presidente, que segura o corrimão, exibindo suas tatuagens de dobrador de ar. Kyle para o presidente. Fala algo rápido. O presidente Meelo sorri suavemente e assente, olhando para mim. Os dois começam a descida veloz, e param na minha frente. Kyle traja um terno de tom azul, enquanto um manto de pele de animal cai pelos ombros. Talvez lá fora esteja frio. Os cabelos estão presos no alto da cabeça, num rabo de cavalo curto. Ele me olha, os olhos com a mesma aparência de ontem, quadno cheguei: estudando-me. Por fim ele sorri, e eu sorrio. Ele não desistiu de mim.
─ Yan, o conselheiro Kyle me contou os planos dele para você e a ideia fantástica que ele teve. ─ Meelo sorri, enquanto segura meu ombro. ─ Kyle estava conversando ali em cima, com nosso ministro das relações internacionais, afim de procurar um professor para você em dobra de fogo. Você concorda?
Fico em silêncio. Olho para aqueles dois homens na minha frente, agradecido.
Corro na direção dos dois e os abraço com força. Um cheira de modo doce. O outro de modo suave. As vestes de cores amarelas e laranjas de Meelo fazem meus olhos fecharem e eu me sinto grato. Estou a salvo. Estou indo bem...
Largo os dois e sinto vergonha. Solto uma risada, permitindo que a tensão se dissipe e que a vergonha me deixe em paz. Meelo e Kyle sorriem para mim, enquanto trocam olhares. Suspiro aliviado. A sensação de poder dominar o fogo me aquece por dentro. Sinto a energia fluir de pensamento, para sensação. Eu irei dominar dois elementos. Água e Fogo. Duas coisas opostas. Eu me tornarei mestre... Três elementos.
─ Presidente! O senhor pode se tornar meu mestre em dobra de ar! ─ grito entusiasmado, quase saltitando. Tento em controlar. ─ O senhor poderia...
─ Yan, creio que não posso... ─ interrompe-me o presidente, resoluto. ─ Eu preciso me dedicar mais e mais à cidade. Sendo assim, eu não lhe daria nenhum rendimento bom. Mas eu conheço alguém que possa ser seu mestre. Mas tudo ao seu tempo!
Assinto e espero que o presidente abra a porta. Por incrível que pareça, as pessoas não estão mais me perseguindo. Na rua, os cidadãos da cidade vem e vão, realizando seus afazeres, indo para seus trabalho, desviando de carros, passeando com cachorros. Os carros deslizavam pelas avenidas e ruas em silêncio absoluto. Não tinham rodas, com alguns tinham em Omashu. A base deles eram planas e flutuavam alguns bons centímetros do chão. E mesmo estando de dia, luzes brilhantes acendiam-se pela cidade, os prédios altos, de vidro, ferro, coloridos, com desenhos pelas paredes, cartazes que, vez ou outra, passavam voando por nós. O cheiro no ar era suave.
─ Iremos de carro para o Hospital.
Não vi quem disse. Apenas estou perplexo com o carro: na frente do palácio, encaro a máquina que nos levará. O carro flutua no chão. Seu brilho dourado, com o preto e o prata dos detalhes no vidro e nos faróis. Na frente do carro, reluz as letras “IM”, imponentes e lindas. O carro é espaçoso. Dentro já existe um motorista e outras duas ou três pessoas. Fico curioso para saber quem mais irá nessa viagem.
─ Vamos, vamos... ─ o presidente me empurra gentilmente, enquanto passamos pela entrada.
Agora que analiso ao redor, consigo enxergar guardas presidenciais em todos os lados. A Lótus Branca. Estão ocultos na entrada do portão retorcido, do outro lado da rua, na sacada da mansão, andando ao redor da casa. Proteção.
Kyle segue conosco, sinalizando que ele também visitará os hospitais. Quando chegamos ao carro, noto que ele exala um calor suave, aconchegante e gostoso. Fico algum tempo saboreando aquela sensação, enquanto o presidente entra e Kyle depois. Por fim, entro e me assusto.
Dentro do carro, os bancos se distribuem de modo circular, como numa limosine. O presidente Meelo senta-se na janela oposta a de Kyle. No banco restante, oposto ao motorista, está sentado o Rei da Terra, o Senhor do Fogo e a princesa Azsa. Arregalo meus olhos, enquanto a princesa sorri suavemente. O Rei me encara em silêncio e o Senhor do Fogo Iroh III me encoraja a entrar. Sento-me atrás do motorista, fitando-os. Azsa muda de lugar, permitindo que os dois líderes de estado fiquem mais aconchegantes. Ela se senta ao meu lado.
─ Oi... ─ diz ela, sorrindo. Ela é bonita, os cabelos negros parecem sedosos e o rosto é harmonioso. ─ Eu sou a...
─ Princesa Azsa. ─ respondo baixo, só para ela ouvir. ─ Herdeira do trono da Nação do Povo, conhecida como a Princesa Azul. ─ sorrio, sem graça. ─ Eu já estudei você, nas aulas de História Mundial.
Azsa ri nervosa.
─ Eu tenho só dezesseis anos e faço parte dos livros de história? Isso é assustador! ─ ela faz uma careta fofa.
Rimos de modo contido.
─ Enfim... Eu gostei do que você falou ontem, na reunião. ─ confidencia ela. ─ Papai poderia muito bem ter passado muito tempo do meu lado, se não fosse essa guerra idiota. Haviam dias que ele permanecia meses longe de casa. Realizando cercos, manobras evasivas, ataques, derrotas. Era chato.
─ Eu imagino. ─ na verdade, eu imagino bem isso, afinal de contas, meu pai era general do Reino da Terra e participou de muitas batalhas contra Jaya. ─ Meu pai era general.
Azsa pareceu uma flor, pois encolheu-se, como a flor murcha.
─ Sinto muito a respeito dos seus pais.
─ Obrigado. ─ fazem quase três semanas. Quando falo ou penso sobre, sinto como se estivesse engolindo uma meia fedorenta.
─ Vamos ouvir música? ─ convida ela, tirando do bolso um aparelho pequeno e com um fio que se divide em dois. ─ Coloca o fone no ouvido, vai. Você vai conhecer, direto da Ilha Ember, os Chifres de Dragão Errante.
Coloco o fone. Os saxofones e as guitarras berram juntos na música, enquanto o piano surge, com a gaita e diversos outros instrumentos. Mas a música é tão harmoniosa, tão gostosa, que eu sorrio para Azsa, que já cantarola baixo a letra, que ela bem conhece. Relaxo. A música me faz flutuar e o cheio da flor de fogo invade minhas narinas. Minha mãe tinha um canteiro cheio delas em casa, por mais que elas fossem naturais da Nação do Fogo. Flores de Fogo. Princesa Azul. Azsa da Nação do Fogo.
Eu estava bem.
O dia correu excelentemente bem. Visitamos um complexo de hospitais no centro da cidade. Eram oito prédios interligados por passarelas de vidro escuro. Meelo em disse que os dobradores de ar que viviam na cidade, gostavam de voar por cima do complexo, pois os prédios formavam um mosaico lindo de um desenho do corpo humano. O lugar era silencioso. E o presidente Meelo dizia, que o Hospital da Cidade da República era um dos maiores empregadores de todo o oeste do planeta. Dizia que havia gente de todo o mundo, trabalhando para que aquele lugar titânico funcionasse bem.
Nos últimos anos, a medicina, ciência que estuda as doenças e como curá-la das pessoas, obteve um avanço estrondoso, no qual os dobradores de água desenvolveram técnica magníficas, usando de sua dobra. Os dobradores de ar, por exemplo, após a Convergência Harmônica, cresceram muitas vezes. O mundo todo foi agraciado com o renascimento dessa dobra fantástica. E nos últimos dez anos, os dobradores de ar desenvolveram também uma técnica de detecção de doenças e em parceria com os dobradores de água, criaram uma cura para os cânceres e doenças graves.
E Meelo narrava tudo isso, entusiasmado, enquanto Iroh III e Marlokk apenas ouviam, olhando um vidro alto, onde os médicos e enfermeiros realizavam uma cirurgia. Fitei-os, enquanto as dobras eram feitas dentro do salão. As roupas brancas e azuis claras, os rostos sérios, a dobra de sangue, os preparativos, o término.
Por fim, Meelo me instruiu de subir com a princesa Azsa, seu pai e o rei da Terra, para visitarmos a ala dos doentes.
Era um espaço amplo demais, no qual estavam distribuídas as camas, em intervalos de espaços iguais. Haviam pedestais com remédios, comprimidos, soros, máquinas ligadas, monitorando os batimentos cardíacos, pressão sanguínea, as vibrações cerebrais. O lugar era infinitamente branco. A presença de outras cores ali deveria ser intensa. Os pacientes aptos a caminhar, andavam pelos corredores, conversavam com os outros, que estavam deitados. Haviam um homem careca, que segurava um suporte para soro. A veia do braço estava furada, enquanto o remédio entrava. Mas ele era o mais brincalhão. Contava piada para as crianças, umas carecas, outras com manchas pelas peles.
Ele bagunçava os cabelos, dobrava uma pequena rocha de terra, fazendo formas engraçadas, enquanto as criancinhas riam adoidadas.
A enfermeira-chefe, uma dobradora de água, andou até nosso lado, e por fim disse:
─ Coloquem as máscaras. Estamos nos precavendo da disseminação das doenças. ─ informou ela. ─ Alguns aqui, possuem doenças altamente contagiosas. De qualquer modo, sou a enfermeira-chefe Wanda. O brincalhão dobrador de terra lá dentro é o Bao, nosso palhaço nas horas vagas. ─ ela sorriu, um pouco triste. Seus cabelos grisalhos denotavam já alguma idade. ─ Avatar Yan é uma honra enorme tê-lo aqui.
Ela me reverenciou e eu imitei o gesto. Ela cumprimentou os outros dois líderes de estado, mas Azsa e eu não esperamos. Entramos. Bao, que brincava com sua dobra de terra, para animar a todos, parou e nos fitou. Ficaram murmurando entre si, indagando que seríamos nós. O Rei Marlokk entrou, já com sua máscara, seguido do Senhor do Fogo Iroh III, Kyle e o presidente Meelo. Nós seis fitamos os doentes e eles começaram a sorrir brevemente.
Ali dentro o cheiro dos remédios fez minha narina arder. Todos olham para mim, depois para os outros. Estavam entusiasmados. Bao, o palhaço, correu na nossa direção e reverenciou-nos com um prazer desigual.
─ Eu sei quem é você, garoto! ─ balbucia o homem, emocionado. ─ Você é o Avatar! Nossa salvação!
Todos os doentes ovacionam como podem, felizes com minha presença. As crianças carecas, que estavam sentadas em suas camas, ficam de pé, o que causa mais rebuliço entre todos. Eles gritam meu nome, falam em vozes altas e batem palmas. O Senhor do Fogo anda até eles, na companhia do Rei da Terra e eles são aclamados com força. Os líderes ficam felizes e tocam as mãos de todos, deixando para trás, aqueles com sorrisos lindos. Sinto-me emocionado.
Ando até um leito, no qual uma menininha careca pede para que eu espere. Ela é uns quatro ou cinco anos mais nova do que eu. Ela desliza alguns giz de cera sobre o papel, e quando termina, me entrega um desenho incrível, no qual eu apareço com olhos brilhantes e dominando os quatro elementos. No desenho eu flutuo num redemoinho de água, enquanto os outros elementos giram em torno de mim. Pareço poderoso.
Ela sorri, quando eu agradeço.
─ A Milla tem câncer. ─ informa a enfermeira-chefe, quando me afasto. Ela me pega de surpresa. ─ Desde o cinco anos, Milla fica no hospital, tratando-se. O pai dela quem descobriu isso. ─ a enfermeira sorri brevemente.
─ Como ele descobriu?
─ O pai de Milla era um dobrador de ar. Ele desenvolveu sozinho uma técnica de dobra de som, na qual o próprio corpo denúncia a doença. Quando ele estava ensinando a técnica para a filha, descobriu o câncer alojado nos ossos dela. Estamos fazendo o máximo para mantê-la viva, porém, o mundo vê com maus olhos, nossas técnicas de cura, portanto, estamos atrasando o inevitável com todos esses daqui... ─ a enfermeira está nervosa, pois dobra a base do avental dela. ─ Precisamos ganhar essa causa. As pessoas criminalizam a dobra de sangue também, já que muitos ladrões e pessoas ruins utilizaram. Mas a dobra de sangue poderia salvar o mundo.
Olho para meus pés e depois fito Milla. Ela é tão adorável. Já está desenhando outro desenho para Azsa, que sorri para mim, feliz.
─ Então a senhora está me dizendo, que tudo o que essas pessoas aqui necessitam, é a dobra de sangue, de acordo com a doença, certo? ─ pergunto, olhando minhas mãos.
─ Sim, sim, Avatar. ─ a enfermeira me olha curiosa.
─ Como posso ajudar?
O dia transcorre rápido demais, enquanto eu persigo o presidente Meelo com perguntas sobre leis, exceções, atribuições, Liga das Nações Unidas, etc, etc. Ele fica doido com tantas perguntas e mais doido ainda quando eu disse o motivo pelo qual estava falando delas. Eu disse que era a favor da dobra de sangue em âmbito hospitalar.
─ Mas Yan! A dobra de sangue não pode ser adotada para fins medicinais! Ela foi criada como um modo de manipular e ferir os outros. Você deveria ser contra ela. ─ protesta ele, enquanto assina alguns papéis na recepção, protegida por um vidro. ─ Eu não sou a favor dessa ferocidade!
─ Presidente Meelo, você já ouviu algum dobrador de sangue desse hospital? Existem crianças lá em cima, que não tem chances, se não utilizarem da dobra de sangue nelas. Como vocês podem não pensar a respeito? ─ digo, surpreendido pelo tom de minha voz. ─ Pense a respeito disso!
─ Yan, a dobra de sangue é o câncer que assola nosso mundo. ─ o presidente Meelo fala com calma e clareza, o semblante tomado pela paciência de um dobrador de ar.
─ Não! ─ retruco, sentindo o rosto esquentar. ─ A dobra de sangue não é nosso câncer, que assola nosso mundo! É a dobra que assola nossos cânceres.
Dou as costas para Meelo e saio andando rapidamente pelo corredor, ouvindo meus passos ecoando abafados. Meelo grita por mim, mas quando dou conta, estou atravessando as portas automáticas e saindo do hospital. Verifico meu bolso. Minha pedra de proteção ainda jaz lá, assegurando-me segurança, caso necessário. A avenida na frente do hospital está apinhada de gente. Todos me olham curiosos, enquanto eu corro entre os carros, ouvindo freios bruscos e gritos transtornados. As buzinas preenchem o ar e logo eu sumo por um beco.
O cheiro de sujeita é intenso. Estou entre dois prédios que se erguem altos, os ratos e as latas de lixo fazendo companhia a mim. Respiro profundamente, mesmo que o cheiro faça arder minhas narinas. Estou num daqueles momentos, em que eu estou atrás de uma solução para meus problemas. Retiro do bolso meu mais novo desenho, dado pela pequena Milla. Aliso o papel, enquanto sinto cada risco feito pelos gizes coloridos. Meu coração fica apertado. Eu preciso salvar aquela jovem menina, tão talentosa e linda. É minha responsabilidade como Avatar.
Preciso usar de minha influência. Mas antes, noto que eu preciso estudar mais sobre a dobra de sangue, pois não quero sujar mais minha imagem, caindo de cabeça num projeto sem que eu saiba. Hoje a noite, determino, ou perguntar ao Kyle a respeito de tudo. Ele deve ser inteligente o suficiente, para me responder. Ele está do meu lado, claro que está, afinal de contas, não iria se oferecer como professor, se não estivesse.
Encosto minhas costas contra a parede de tijolos fria do prédio e olho mais uma vez para o desenho. Aproximo-o do meu peito, num gesto bobo e olho para o céu. Ainda está no início da tarde, quando resolvo que serei eu o precursor dos estudos da dobra de sangue. E eu irei, eu mesmo, salvar a vida de Milla. E para isso, irei treinar minha dobra de sangue, para que eu possa salvá-la das garras da doença.
Corro para a rua seguinte e paro um homem. Ele se assusta, quando salto do beco e o paro. Dou uma risada, antes dele me ver. Ele sabe quem sou eu, pois relaxa.
─ Será que todos os Avatares são doidos? ─ exclama ele, abanando o rosto. É um homem com vestes bonitas, em tons cinzas. Vestia-se de modo social. Os óculos estavam no alto do nariz pontudo. ─ No que posso ajudar, menino?
─ Para que lado fica o parque Avatar Korra? ─ pergunto, respirando forte.
Ele apontou para a rua atrás dele.
─ Segue direto, sua direita. HEY! ─ berra ele. ─ Cuidado com a rua, AVATAR MALUCO!
Corro a toda velocidade pela calçada, desviando das pessoas, e fazendo suas vestes sacudirem. Sorrio, enquanto passos por uns e outros, dando acenos de cabeça ou muitas vezes me desculpando, quando esbarro nelas, afinal de contas, não sou nenhum dobrador de ar, apto a ser evasivo. Dobro terra, locomovo-me como uma avalanche de rochas, que leva tudo pelo seu caminho. Olho para frente e para os lados, enquanto as poucas árvores se erguem nas frente dos prédios baixos de comércios, com vitrines pintadas de vidro. Aqui ou ali, existem barracas de frutas ou objetos aleatórios, como brinquedos ou utensílios para cozinha. Existe na avenida ainda uma loja de aparelhos de telefone móvel que eles chamam de celmoveis.
Quando me dou conta a rua da frente se ergue para uma ponte de ferro, onde os carros vem e vão, no seu absoluto silêncio. Daqui eu posso ver o parque. Corro pela ponte, na minúscula calçada na lateral. O rio fluí por baixo, calmo e sereno. Paro um instante. Olho a água. A luz do sol faz com que ela cintile, conforme corra seu curso pela cidade. Algumas pessoas esbarram em mim, enquanto passam ao meu redor, mas eu continuo a fitar a água. Ela será a resolução de muitos problemas.
Continuo minha corrida pela ponte, até que ela acabe. Ali, naquela altura da cidade, os carros são diferentes. Eles possuem rodas e pneus. Paro e olho um instante. O centro da cidade, nessa rápida observação, mostra-se mais rico. Aqui, os carros continuam bonitos e modernos, nas suas cores metalizadas, porém, são de modelos anteriores aos sem rodas. Aliso o pneu, antes de continuar minha caminhada, agora por um espaço amplo e coberto de grama verde.
Passo do lado de diversas esteiras, aonde as pessoas praticam alguns exercícios físicos e ergo meu olhar curioso. A estátua dela está lá.
A imagem da estátua é da idade adolescente dela. Na mesma posição que Aang, a Avatar Korra fita o horizonte, séria. Seus cabelos e roupas ainda típicos da Tribo da Água do Sul. Toco na base da estátua e sinto uma energia diferente percorrer meu corpo, como se eu fosse um copo cheio pela metade e estivessem empurrando para dentro o restante do que faltava.
─ Oi Korra. ─ falo baixo, temendo acordá-la e vê-la sair andando pela rua. ─ É. Eu sou o novo Avatar.
Subo na base da estátua, que é ampla o suficiente para que eu me sente. A energia dela parece me renovar, parece ser boa o suficiente para que eu me erga e começa a fazer o necessário. Mas essa não é a verdade. Inspiro, cruzo as pernas e fecho meus olhos. Creio que meditar torne tudo mais fácil, depois. Penso somente um instante. Agradeço a Korra, pois, é a primeira vez que me sinto seguro, desde a morte de meus pais.
“De nada!”
Fecho meus olhos, e esvazio minha mente. Penso no como o vazio é implacável e bom e deixo minha mente ser tomada pelo nada. O meu corpo fica leve e suave, com uma brisa outonal. Os barulhos das crianças com seus animais, dos carros e da cidade, simplesmente somem com uma sucção, que me lança para o nada. Meu corpo e minha mente são a mesma coisa. Tenho vislumbres.
Vislumbres de rostos, vislumbres de mantos ondulantes e sinto calores. Sinto a presença de outros. Suspiro fortemente e quando abro meus olhos novamente, vejo os olhos azuis de Kyle. A luz do sol, já se pondo, lançava tons laranjas em seus cabelos castanhos, produzindo um efeito curioso. Fito-o por um instante.
─ Sabia que te encontraria aqui. Gostou da estátua da minha mãe, Yan? ─ Kyle fita o rosto da mãe.
Engulo em seco.
─ Sim, muito! Essa estátua é linda.
Kyle sorri. Soa abafado.
─ Todo ano, no aniversário dela, as pessoas vêm aqui e colocam presentes. Eu a amo tanto. ─ Kyle parece triste. Talvez seja minha culpa. Eu deveria ter esperado próximo do lago. ─ Sabia que eu a vi ontem?
─ VOCÊ VIU O FANTASMA DELA, KYLE? ─ minha voz soa esganiçada, pois eu morro de medo de fantasmas.
Ele ri.
─ Não. Ela apareceu para mim, através de você, Yan. Ela me instruiu a te ensinar a dobra de água. ─ os olhos de Kyle brilham. Fico em silêncio. ─ Ela apareceu, quando você saiu da órbita.
Olho para cima, para o rosto da Avatar.
─ Vamos para o lago. A lua vai nascer em poucos instantes, posso sentir. ─ Kyle estende a mão e me ajuda a saltar da base da estátua. ─ Foi bom você meditar antes, vai nos poupar muito.
Kyle comentou sobre a vida da mãe dele e de como ela era linda. As vezes, quando ele falava de Korra, eu sentia vontade de dar um abraço nela, mas logicamente que eu não poderia fazer aquilo, afinal de contas, Korra fora uma vida passada minha. E depois, Kyle falou sobre o pai. Mako. Eu não o conhecia bem, nem a história dele. Mas Mako foi brilhante. Tornou-se ministro, logo depois, quando Tenzin se tornou presidente. Mako morreu cedo, logo depois de Kyle nascer.
─ Papai me deixou uma herança interessante. ─ comenta Kyle, como quem não quer nada, mas não escondendo o orgulho na voz. ─ Posso dobrar água quente.
Dou uma risada.
─ Você ri agora, pois não sabe o estrago que água fervente faz nas pessoas, pequeno Yan! ─ ele me devolve, sorrindo abertamente. ─ Posso tornar qualquer água quente. A chuva, jatos poderosos, desde água morna até a água fervente. Sou temido por isso. E único. Ontem, você teve sorte. Meelo foi prudente em me parar. Se não teríamos o primeiro Avatar de rosto derretido da história!
Kyle e eu rimos alto. Estávamos na frente do lago. A superfície da água estava calma, lisa, sem nenhuma ondulação aparente. Não conseguia enxergar nenhum peixe pela água, assim como nenhum telespectador para nos assistir. Ergui minha mão direita, como se erguesse algo pesado. A terra obedeceu e ergueu-se como um pequeno banco, no qual eu sentei. Fiz outro movimento semelhante e cedi outro lugar, para que Kyle se sentasse. Ele agradeceu com um movimento de cabeça.
─ Diferente da terra, que é um elemento teimoso, a água é fluída, obedece ao simples gesto. Ela coopera com seu dobrador. Você, por exemplo, Yan, que já é mestre em dobra de terra, sabe que a posição do corpo influência na excelência da dobra. Mas nós, dobradores de água, precisamos atender ao elementos, nos movendo com fluidez. Veja.
Kyle ergue-se do banco improvisado de terra e volta-se para o lago. Ele aponta em silêncio para a água na nossa frente e inicía um movimento.
─ Esse daqui, chama-se “empurrar e puxar”. ─ com as mãos e o corpo, Kyle empurra o ar para frente e para trás, suavemente, movendo-se como a água. ─ Vê? Minhas mãos e meu corpo se comportam como a água. De modo fluído. Vê? Para frente e para trás. Tente.
Levanto-me e encaro o lago. A água vai se mover, ah, ela vai, ou não me chamo Yan! Minhas mãos estão tremulas. Respiro fundo, até que o tremor me abandone e eu sinta segurança. Suspiro. Deixo que o vento frio do parque me deixe calmo. Por cima do ombro, olho para a estátua da Avatar Korra. Olho para a água e sinto algumas mãos em meus ombros. Inicio o movimento. Empurrar e puxar, empurrar e puxar.
─ Aja menos como um dobrador de terra! Domine a água! Água! ─ manda Kyle.
Esforço-me para me concentrar, com a voz de Kyle ecoando na minha mente. Penso na diferença das duas dobras, penso com cuidado, penso redobrado. Tento me ligar à água, tocando sua superfície gelada com a ponta dos dedos. Repito o movimento e tudo o que ganho de volta é a total imobilidade dela. Fico frustado.
─ Não está indo, porquê? ─ pergunto, não escondendo minha tristeza na voz. ─ É difícil!
─ Não é! Você só está pensando, ainda, como um dobrador de terra, Yan!
─ EU NÃO ESTOU! ─ berro frustrado. Kyle sorri para mim, enquanto ele aponta para a água.
Olho. A água agora ondula.
─ O que eu fiz?
─ Você fez a água se mover, Yan! ─ Kyle mostra novamente com o dedo, enquanto a água para. Ele parece curioso. ─ Quer dizer então, que você tem um bloqueio natural para a água. ─ Kyle coça o queixo, onde a barba cresce suave. ─ Interessante. Tente novamente, vamos ver se acontece algo...
Volto-me para o lago e respiro. Movo minha mão, para frente e para trás, no movimento de empurrar e puxar, empurrar e puxar, empurrar e puxar, salientando em minha cabeça que eu deveria me portar como a água, de modo fluído.
A lua cheia estava no alto do céu, enquanto ao redor, as pinceladas da perfeição pintavam estrelas prateadas, que cintilavam no azul-marinho. O vento frio ao meu redor, fez minha trança ondular atrás de minhas costas. Respirei profundo e mudei de posição. Movi meus braços com a fluidez necessária, digna de um bom dobrador de água. Permiti que a energia fluísse pelos meus braços pudessem realizar o movimento correto. Mas nada aconteceu, nada que eu pudesse ver.
─ MOVIMENTA, ÁGUA DESGRAÇADA! MOVIMENTA!
Berro. Movimento meus braços com firmeza, demonstrando minha ira e a estaca de gelo cresce com velocidade na minha direção. Até mesmo Kyle foi pego de surpresa, quando a estaca brota da superfície da água do lago e vem na minha direção. Eu mesmo me assustei, mas não fiz nada. A estaca cresceu, poderosa e encontra minha carne. A dor cresce também, conforme o gelo adentra a pele e fez o que devia ter feito antes. Era castigo? Talvez. Meu urro preenche o ar e os poucos que caminham no parque se assustam e logo estão ao meu redor, para me ver. Era castigo da água. O revés.
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