Ausência

1 Ausência


Não pretendia ir até lá. Não pretendia nem deixar a casa para começo de conversa, mas as 3 semanas de isolamento já estavam há muito cobrando seu preço para a pobre Aisha, que como toda Husky não foi feita para o isolamento.

O plano era dar algumas voltas no bairro mesmo, mas a calmaria das ruas paralisava até mesmo minha companheira, que logo perdeu a afobação de finalmente ver a rua para realmente ver a rua.

Não saímos de casa nenhuma vez desde o início da quarentena. Quando entramos em casa pela última vez, mal podíamos respirar em meio ao mar tempestuoso de pessoas transitando pelo local. Agora mal podíamos respirar devido ao som dos meus passos ecoando entre os prédios e ao vento frio que castigava minha pele.

Aisha era quem conduzia agora. A cadela que sempre caminha por essas ruas agora não conseguia encontrar nada. Não havia os costumeiros padeiros com pedaços de pão para entregar quando pensavam que eu não estava olhando. Não havia as crianças empolgadas que sempre lhe faziam carinho. Não havia barulho de conversas para atrair sua atenção. Não tinha mais cheiro algum nas ruas para lhe despertar a curiosidade.

Não havia absolutamente nada. Apenas nós. Nem precisava mais da corrente, Aisha estava tão chocada quanto eu, e andava poucos passos a minha frente, persistindo em tentar encontrar algum conhecido em um esforço vão.

Pela primeira vez, olhei para as ruas, os prédios, os toldos fechados, cada degrau de cada escada, cada pichação de mau gosto, as paredes manchadas pelas marcas do tempo, o rio que passava quieto como o voo de uma coruja, e cada ponte que conectava os dois lados do centro de Veneza, como costelas que protegem os pulmões e o coração. Mas não havia mais o pulsante som da vida de Veneza, e o ar bombeado pelas ruas era tão frio quanto o medo que se instalava em meu próprio coração com a visão mórbida de meu lar, que eu via pela primeira vez em anos.

Antes, a vida era tão presente que tudo que se via eram pessoas por todo canto, preenchendo cada espaço do lugar, até preencher as memórias das ruas de minha infância com rostos desconhecidos.

Contaminada pelo meu crescente nervosismo, Aisha apressa o passo, indo para seu lugar preferido. Como se sentisse a presença de um pequeno pedaço de sua vida se aproximando, os sinos da igreja nos saúdam e as bandeiras acenam com pouca energia

O som dos sinos rompe o silêncio e ecoa no vazio como um trovão, espantando as poucas pombas que repousavam bem no meio da praça e despertando minha companheira de caminhada do estupor que a acometeu, de repente lhe dando forças para nos puxar de volta para casa, fugindo do que costumava ser o centro da vida da Veneza, e que agora foi transformado em uma espécie de cidade fantasma.

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