Levou apenas uns dez minutos até acabarmos de tomar os sorvetes, que escolhemos ser de chocolate.

— Aonde vamos dormir? — perguntei para Ariana.

— Aqui no parque mesmo. — respondeu, pensativa — Ou no carro. Mas eu voto no parque; a grama é bem tratada e teremos mais espaço.

Nós não sabíamos o que fazer com o carro da Lâmia, então apenas deixamos na calçada ao lado da estrada. Quando o sol se pôs, rapidamente desaparecendo por trás das montanhas, nós pegamos nossas coisas e deitamos na grama para dormir. Ariana estava certa, ali era confortável.

Suspirei e fechei os olhos, sentindo o sono me dominar.

Quando acordei, ainda estava escuro. Ariana e Nico estavam deitados perto de mim. Cuidadosamente, ergui o pulso de Ariana e olhei seu relógio dourado; marcava 9:34 da manhã. Senti o ar se prender em minha garganta; eram quase dez horas da manhã e o sol ainda não havia nascido. Comecei a me preocupar com meu pai. Balancei o ombro de Ariana até ela abrir levemente os olhos.

— O que? — ela resmungou.

— Precisamos continuar. — sussurrei.

Senti Nico rolar em minha direção e senti sua respiração em meu pescoço. Meu rosto corou.

— Que horas são? — perguntou Ariana, um pouco grogue.

— Quase dez da manhã. — respondi, com a preocupação tomando minha voz.

Seus olhos flamejantes se abriram completamente.

— É, é isso mesmo. — concordei com sua expressão surpresa.

— Não pode ser. — ela disse, e então olhou para seu relógio — Pela Harley de Ares! Acorde, Nico!

Nico se sentou, bocejando.

— Por que vocês estão acordados tão cedo? O sol ainda nem nasceu. — ele reclamou.

— Já está tarde, e eu não tenho nem certeza se o sol irá nascer. — falei, me levantando e sentindo meus olhos lacrimejarem.

Nos jogamos dentro do carro e Ariana o ligou.

— Quanto tempo falta para chegarmos? — perguntei a Ariana.

— Precisamos cruzar Nevada, mas esse é um bom carro e eu gosto de velocidade. — disse ela.

— Quanto tempo ainda temos?

Ariana encontrou meus olhos pelo espelho retrovisor.

— Rory, amanhã é o solstício de inverno, e amanhã a noite você terá que encarar Nix e a derrotar.

Engoli em seco.

— Eu estou pronta.

— Tem certeza? — ela ergueu uma sobrancelha.

— Não. — falei — Mas eu continuo falando isso para mim mesma na esperança de que se torne verdade.

Em silêncio, pegamos a estrada. Ariana corria com o carro como se não houvesse amanhã. Quando eram 10:30 da manhã, o sol começou a surgir.

Meu humor melhorou quando vi a placa de "Bem — vindo à Califórnia".

Finalmente.

Se eu soubesse o que iria acontecer, não teria ficado tão feliz.

Quando nos aproximamos da fronteira do estado, sorrimos uns para os outros.

E então, tudo explodiu ao nosso redor.

***

Quando eu voltei a consciência, tudo doía, especialmente minha cabeça. Nos primeiros segundos permaneci com meus olhos fechados, me preparando para o que iria ver. Quando os abri, ofeguei. O lugar era lindo; um campo com gramas completamente verdes e colinas bem formadas, o céu era azul, com o sol quase se pondo. Um rio corria a distância, com os raios de sol o fazendo parecer feito de ouro.

Tentei erguer minha cabeça, mas ela ainda doía. Levei minha mão até minha têmpora e quase desmaiei. Havia sangue ali, embora estivesse meio seco. Conforme fui tocando meu rosto, fui encontrando machucados, arranhões, não tão grandes, mas com certeza suficientemente profundos. Isso não era bom.

Eu me lembrei de quando consegui curar o pulso de Ariana cantando, mas será que conseguiria fazer isso comigo mesma? Sem contar que eu fiquei assustadoramente fraca depois de fazer aquilo.

Ariana. Nico.

Olhei para meu lado; uma figura escura estava ao meu lado no chão. Nico.

— Nico... — tentei falar seu nome, mas minha voz estava tão fraca que me assustou. Como se alguém estivesse tentando rouba-la.

Ele estava desacordado, e pelo que eu podia ver, suas mãos estavam queimadas da explosão e seu rosto com cortes. Me forcei a me erguer e me sentar ao lado dele. Meu corpo doía horrivelmente.

Eu estava machucada e exausta, mas precisava ajuda-lo. Talvez... talvez eu conseguisse me equilibrar e não usar toda minha energia; apenas o suficiente para o fazer voltar a si.

Toquei na mão e no rosto de Nico e murmurei as palavras cantadas em grego. Rapidamente, os cortes começaram a se fechar e sua mão não estava mais queimada. Parei e respirei fundo. Ele estava bem agora, apenas desacordado.

— Ariana. — falei e me virei, a procurando.

Ela estava desacordada também, jogada no chão meio afastada. Não estava muito melhor que Nico e eu. Me pus de pé e fui até ela. Me ajoelhei e pus a mão em sua testa, como fiz com Nico.

Ela suspirou e abriu os olhos.

— Rory. — ela resmungou e se sentou devagar. Com certeza com dores, mas na condição em que eu estava, era o melhor que poderia fazer.

Nossas roupas estavam chamuscada e suja.

— Ariana. — cumprimentei.

— Nico? — ela perguntou.

— Ali. — fiz um gesto com a cabeça, me levantando.

Ariana me seguiu até Nico.

— Nico. — tentei faze-lo voltar a consciência — Nico. — afastei seu cabelo do rosto.

Ele abriu os olhos escuros e me olhou.

— Olá, Aurora. — ele disse, com a voz suave mas não fraca. Ele agia como se fosse normal um carro explodir e você ir parar em um lugar diferente.

— Bom dia. — sorri — Ou melhor, boa tarde.

— Aonde estamos? — ele perguntou.

— Não faço ideia. — respondi.

— Ariana?

— Aqui. — ela se abaixou perto de Nico.

Antes que nós pudéssemos continuar com nossa conversa; uma voz nos cortou.

— Meios-sangues?

Me pus de pé em um pulo e fiz surgir meu arco e flechas assim que Ariana sacou sua espada. Nico tirou sua espada das sombras.

— Meios — sangues, com certeza. — disse a voz, e quando olhei na direção que vinha, precisei proteger os olhos do sol.

Era um homem montado em um cavalo. Ele tinha cabelos castanhos e barba bem feita. Montado em um cavalo marrom, parecia ter saído de um filme medieval, embora usasse uma camisa marrom e jeans.

— O que fazem aqui? — ele questionou, com a voz firme e autoritária. Não era o tipo de cara que se deveria desafiar.

— Tentando achar nosso caminho para Shasta. — minha voz subiu uma oitava.

— Por que você apenas pensaria em ir até lá? — ele franziu as sobrancelhas — Uma titã poderosa fez seu castelo lá, para governar um reino que ainda não conquistou. Nós estávamos esperando pelos heróis a derrotarem, como eles fazem com todos os vilões.

Aparentemente, ele não apenas parecia como uma cara de um filme medieval, como também falava como um.

— Nós sabemos. Nós vamos derrota-la. — suspirei — Quem são esse heróis?

— Os que lutam as batalhas pelos deuses. Não podem ser derrotados!

— É, tenho certeza de que somos nós. — disse Ariana.

Por um momento, o cara pareceu surpreso, mas então balançou os ombros.

— Sigam-me, eu vou leva-los para minha tribo. — disse, fazendo o cavalo se virar. Ele nos olhou por cima do ombro — Me perdoem, meu nome é Capillus.

Seguimos atrás dele, com dores no corpo. Eu particularmente sentia dor na lateral de meu corpo; me perguntava se não teria quebrado uma costela.

Depois de uns vinte minutos, chegamos a um pequeno vilarejo. Era bonito e havia vários cavalos e também poços.

Todas as pessoas do vilarejo nos encaravam, como se fossemos uma espécie de aliens.

Capillus nos levou até uma grande tenda. Ele nos levou para dentro dela.

— Jovens meios-sangues, conheçam Barbus, o líder da tribo. — ele falou, orgulhoso.

Um homem saiu das sombras. Ele parecia uma versão mais velha de Capillus, provavelmente estava em seus cinquenta anos. Usava uma toga vermelha presa com broche de sol dourado. Seu rosto era gentil, mas severo; como uma pessoa em que você podia confiar, mas se você o desobedecesse, seria punido severamente.

— Olá, meios-sangues. Bem — vindos a minha casa, espero que se sintam a vontade. — sua voz era profunda e gentil, me lembrava a de Aslam de As Crônicas de Nárnia. — O que os trazem aqui?

Não soava como uma pergunta, soava mais como se ele estivesse interessado em nossa história. Comecei a contar sobre a missão.

Ele era um bom ouvinte. Me encorajava a continuar a falar.

Quando comecei a falar sobre meu sonho com Apolo, ele ficou tenso. Parei de falar, esperando que ele dissesse algo, mas ele só continuou a me encarar.

Assim que mencionei o Rio Dourado, uma coisa estranha aconteceu. Seus olhos brilharam e começaram a se tornar prateados. Encaravam a mim intensamente, sem íris ou pupila.

Pânico correu por minhas veias e eu dei um passo para trás, esbarrando em Nico.

— Fique longe do Rio Dourado. Suas águas não lhe pertence. — a voz de Barbus ecoava na tenda.

Ele caminhava lentamente até nós, como um robô.

Olhei para Capillus, esperando que ele nos ajudasse, mas ele se encontrava na mesma condição, com os olhos de prata nos encarando.

— Olhos de prata. — murmurou Nico.

— É, nós sabemos disso! — Ariana gritou, erguendo a espada.

— Confiar nas escamas azuis, que era Mea. Mas não nos olhos de prata, são eles. — falei, armando o arco — O que fazemos?

— Fugimos. — disse Ariana.

Avançamos para fora da tenda, mas aparentemente toda a tribo havia sido afetada pelo mesmo fenômeno que Barbus e Capillus. Eles nos seguiam.

— Protejer o rio. — eles murmuravam, simultaneamente.

Nossa sorte era que eles eram mais lentos que nós, então escapar não foi problema. A tribo era formada por umas trinta pessoas, então só derrubávamos os que estavam em nosso caminho.

— Siga o por do sol. — Nico gritou.

Meu corpo doía enquanto corríamos, Nico e Ariana corriam em minha frente, embora eu fosse sempre mais rápida que eles. Eu tropecei e perdi o equilíbrio, olhando para trás. A tribo nos seguia, mas estavam longe.

Me pus a correr novamente, ignorando toda dor que eu sentia em todo meu corpo. Nós chegamos até um riacho, que era lindo e brilhava como ouro a luz do sol. Mas quando chegamos mais perto, vi que não era o sol que o fazia ficar dourado. Era o Rio. Nós encontramos o Rio Dourado.

Tirei o frasco de meu pescoço e corri até o rio. Ele exalava quentura, afinal era feito de raios de sol. Ele era quente. Eu não iria tocar. Afundei o frasco e o observei encher. O tampei e coloquei novamente em meu pescoço. Olhei outra vez para o rio; a tentação de toca-lo era grande.

Não, uma voz parecida com a de meu pai passou por minha mente.

Saí de meu transe.

— Rory! — chamou Ariana — Grifos. — ela apontou para o céu.

Eu ficaria maravilhada com os animais, se não estivesse desesperada. Apolo havia me dito para ter cuidado com os guardiões. Será possível que não fossem apenas aquela tribo?

Olhei para o por do sol, ele não havia mudado desde que eu havia acordado do acidente, o que era estranho. Meu pai devia estar usando toda sua energia para nos esconder de Nix por um tempo a mais.

Fixei meus olhos no sol, e concentrei toda minha energia em minhas palavras.

— Pai, um último favor... me ajuda. — minha última sentença saiu com desespero. Nós três não poderíamos enfrentar grifos e vários zumbis na condição que estávamos.

Nada aconteceu, e eu comecei a soluçar, me sentindo sem esperanças. Os grifos emitiram um último som de aviso.

Mas então os raios do sol se concentraram em minha direção, quentes e aconchegantes, mas também ameaçadores. Eu entendi, por instinto, o que deveria fazer. Ergui minha mão e me concentrei, como quando usava os poderes de Morfeu. Mas dessa vez eu estava controlando os raios solares.

Os grifos e os guardiões foram queimados vivos.

Ariana e Nico estavam ao meu lado, surpresos e também envoltos da luz do sol. Pareciam completamente recuperados dos machucados e eu também já não sentia mais dor.

Mais uma vez a luz do sol brilhou em nossa volta, morna e aconchegante, e então... silêncio.

Notas finais
Comentem!!!!!!!!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.