—Só responda o que eu perguntar, tudo bem assim ?

Aurora sorriu, acendeu um cigarro e cruzou as pernas olhando Mel fixamente.

—Estamos aqui pra isso não é?

—Bom –Disse retomando a posição de psicóloga, pegou papel caneta, gostava do método antigo, afinal Aurora não permitia a entrada de computadores. –Quero que você volte lá quando era criança, já teve algum animal de estimação?

—Nunca tive, meus pais diziam que eu era alérgica, a pouco tempo descobri que era mentira, eles achavam animais sujos e nunca permitiram.

—Você já matou algum animal?

—Nunca. –Dizia em quanto batia as cinzas no cinzeiro sobre a mesa.

—Interessante. –Então mel tirou seu óculos de grau, e coçou os olhos. –O primeiro homem que você sentiu vontade de matar foi seu tio? Ou quando criança já sentia esses desejos?

Por um instante Aurora se perdeu em seus pensamentos e via tudo em sua cabeça.

—Não, o primeiro homem que eu quis matar foi o papai.

Era exatamente o que mel imaginava.

—Em outra consulta você disse que percebia o envolvimento dele com amantes não é? Então conte-me mais sobre sua relação com seu pai.

—Eu nunca fui de amigos, mas eu tive uma, Bianca. Meu pai a violentou. –Mel podia ver os olhos de Aurora encherem de raiva. –Ele violentou uma menina de 12 anos,ela foi passar férias na nossa casa ela tinha minha idade, eu ouvia seus gritos abafados pela mão dele quando acordei para beber agua, eu era capaz de enxergar a cena mesmo estando no corredor, ele maltratou aquela menina, teve muitas coisas que ela fez porque quis mas ele mandava, ela não sabia o que estava fazendo, eu...eu não saberia

—Você presenciou isso apenas uma vez?

—Não, foram varias vezes, e eu não fiz nada pra impedir. –O rosto de Aurora se cobriu de tristeza, e sua voz ficou baixa. –Matar nunca foi o maior dos meus pecados. Encobrir os crimes do meu pai certamente já me mandariam pro inferno.

—Seu pai sabia que você sabia?

—Ele me notava algumas vezes espionando, ele fez nossa empregada tirar o filho, ele traia minha mãe de baixo dos meus olhos e ela o idolatrava, ele era o melhor homem do mundo na boca dela, eu nunca contei, eu tinha que ter gritado antes dele fazer aquilo com a Bianca, ela passou um mês sendo abusada e eu nunca contei a ninguém. Eu vi minha amiga mudar dentro da minha casa de uma criança doce, de família boa, pra uma menina desconfiada, assustada e triste para sempre.

—Você era uma criança e pensava como uma criança, não teve culpa. Se fosse nos dias de hoje teria.

—Mas ai conheci o tio Alvaro todo correto, todo amoroso, e deu no que deu. –Disse respirando fundo.

—É notável sua repulsa por homens, principalmente pelos exemplos que você teve em sua criação. Posso notar sentimentos, o que não te faz um monstro, vamos dizer assim.

—Eu não aceito traição, o meu maior prazer não está no sexo em si, não está na morte, eu sinto prazer de saber que fui a ultima, de saber que não fui traída, sabe por que? –Disse olhando nos olhos de Mel, que molhava a boca com a língua ansiosa. -O mundo está cheio de bons homens, boas mulheres escondidos na noite, você dorme com um possível amor da sua vida que dorme com outras três e na maioria das vezes quando diz que você é maravilhosa, está repetindo o que disse para as outras. O mundo está cheio de homens e mulheres com parceiros incríveis, tanto de cama quanto pra vida, mas por prazer vão a motéis imundos buscar algo diferente. Eu vejo caras que se aproximam de mim e guardam a aliança no bolso, deixam a mulher, assim como meu pai fazia com a minha mãe pra buscar uma coisa nova. Eu dou uma coisa muito mais do que nova, um mundo novo talvez, um paraíso ou o inferno.

Era inevitável pra Mel não pensar em sua situação com Marcelo, talvez fosse antiprofissional, mas por um instante ela se sentiu capaz de compreender o que Aurora tentava dizer.

—E quando você mata um pai de família Aurora?

—Ele deveria ter pensado mais na família dele, na mulher dele, na vida dele.

—Então você só mata homens que traem ?

—Homens fáceis, só mato quando eu transo.

—Então nunca matou uma mulher?

Aurora silenciou, olhou pra baixo e acendeu um novo cigarro, tragou-o e disse.

—Sim, eu já matei uma mulher.

—Tinha medo que ela te traísse ? –Mel ficou um tanto quanto surpresa.

—Não.

—Você também transou com ela?

—Sim, se não nem precisava mata-la.

—Por que a matou se não pra ser a ultima?

—Vingança.

—Como? –Mel sentia-se surpresa a cada palavra da paciente.

Novamente Mel foi capaz de ver a face de Aurora mudar, e passar de raiva e tristeza para um sorriso maléfico e muito malicioso.