Aula nos lençóis
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Clarice olhou-se no espelho pela décima terceira vez, se perguntado se estaria bonita o suficiente para o encontro marcado as três da tarde.
Três da tarde era um horário estranho para um encontro, mas a vida de professora só lhe proporcionava folga nas terças-feiras e o único horário que seu par tinha disponível eram as três horas.
Clarice ainda não estava acreditando que marcara um encontro em um site online de relacionamentos. No auge dos trinta anos, parecia extremamente desesperada para encontrar alguém. No entanto, só fizera isso porque sua psicóloga lhe dizia que deveria tentar coisas novas e inusitadas.
Sair com alguém desconhecido, para Clarice, era algo surpreendentemente novo e até mesmo perigoso.
— Acho que estou bem. Vamos fazer isso, Clarice – disse ela, para si mesma.
Checou se a blusa colada da cor azul estava bem, checou também suas calças e até mesmo seu sutiã. Checou tudo. Exatamente tudo.
Depois de alguns longos minutos de muito nervosismo dentro do carro, conseguiu avistar a cafeteria do outro lado da rua. Mesas com flores estavam postas na calçada, alguns casais sentavam-se ali para beber café e paquerar, não era a toa que a cafeteria chamava-se Doce Amor.
Sentou-se em uma cadeira, pedindo apenas uma água. Olhou para os lados, para cima, para baixo e… bem, só não olhou para outro lugar porque não havia outro lugar. Por fim, checou o relógio, avistando os ponteiros marcarem 15:04. Seu par estava atrasado.
— Ela deve estar presa no trânsito — sussurrou Clarice, novamente conversando consigo.
Tentou se convencer que ela estava ficando maluca, afinal, só se passaram quatro minutos. Nem todo mundo era pontual como Clarice.
— Vou verificar se o horário está certo — disse, pegando o celular dentro da bolsa.
Abriu as conversas do site de relacionamento, procurando o nome Giovana. Lá estava ela, a foto parecia até mesmo brilhar, os cabelos loiros eram apaixonantes, mas não tanto quanto os olhos castanhos.
“Esteja em frente a cafeteria as três horas.”
“Como você vai estar? Eu esterei de azul”
“Acho que você vai saber quando eu chegar”
Foi tudo.
Clarice parou para observar melhor, nem mesmo sabia como Giovana estaria.
—
15:22
Clarice balançou inquietamente as pernas, olhando para todos os lados.
15:30
Clarice pediu a segunda garrafa de água com gás.
15:36
Clarice decide ir embora.
No entanto, assim que pensou em se levantar, alguém sentou-se rapidamente em sua frente.
A mulher de cabelos negros e olhos verdes, olhou estranhamente para a garota com inúmeras tatuagens e piercings.
— Desculpe pela demora — disse ela.
— Giovana?! — perguntou Clarice, olhando-a com muita surpresa.
— Oi, professora… — murmurou Giovana.
— O que está fazendo aqui?
Clarice encontrava-se imensamente confusa. Aquela era Giovana, cuja a foto de perfil do site era totalmente diferente do que se era visto. E se não fosse só isso, Giovana também era sua aluna.
— Vim me encontrar com Clarice e… bem, creio que é você — disse ela, sorrindo debochadamente.
— Você sabia que era eu! Não acredito nisso! — Clarice bateu na mesa, levemente irritada por ser feito de trouxa.
— Ah o que foi? Eu sou maior de idade, sou a mesma pessoa que conversou com você no site, tenho as características que você procura… O que tem de errado? — perguntou Giovana, colocando a unha pintada de preto na boca.
— Você é minha aluna, Giovana. Apesar de não comparecer muito nas minhas aulas… — acrescentou Clarice.
— Uau eu sou sua aluna! E dai? Você tá aqui, eu tô aqui, já estamos até conversando, por que parar agora?
Clarice pensou três vezes em se levantar e ir embora, mas ainda digeria a surpresa. Qual era a possibilidade de ter um encontro marcado com sua aluna?
— Ei, pode trazer dois cafés e pães de queijo para nós? — pediu Giovana ao atendente.
— Sabia que é perigoso ficar marcando encontro com desconhecidos pela internet, Giovana? Você é jovem, qualquer um poderia passar a perna em você e te convidar para um lugar privado ou algo assim — ralhou a professora.
— Bem, você não é desconhecida, professora — o sorriso debochado aumentou. Giovana jogou uma mecha dos cabelos castanhos para trás e acrescentou: — E eu não sou burra, Clarice.
— Certo — Clarice suspirou pesadamente. — Se quer que isso aconteça, então não me chame de professora, estamos fora da escola, tenho um nome e você bem sabe qual é. E também não comente a ninguém sobre isso.
— Isso o que? O fato de ser lésbica ou de marcar encontro com alunas?
Clarice a olhou surpresa pela resposta.
— Relaxa, Clarice, estou brincando! Eu não direi a ninguém, OK? Você sabe que eu nem vou à escola, nem mesmo tenho amigos que são de lá… — comentou Giovana.
— Não faça mais essas brincadeiras, quase que eu tiro dinheiro da bolsa para te subordinar — Giovana gargalhou e Clarice observou o sorriso venusto.
A verdade era que nem mesmo conhecia Giovana como pessoa, já que ela aparecia nas aulas uma vez a cada dois meses e olhe lá…
— E então…? Por que não está indo à escola? — questionou Clarice, com intuito de começar uma conversa um pouco… normal.
— Eu estou trabalhando, sabe. É à noite, mas, mesmo assim, aquilo acaba comigo, chego cansada e ainda preciso cuidar dos meus irmãos, por isso falto bastante. — respondeu Giovana.
Se bem lembrava, Giovana era maior de idade e morava apenas com seus três irmãos mais novos, tendo que cuidá-los depois que a mãe morreu de overdose. Giovana ganhava um cuidado diferente dos outros alunos da escola, afinal ela tivera que arcar muitas responsabilidades ainda nova.
— E no que está trabalhando? — Clarice sorriu amigavelmente e observou os olhos negros.
— Tatuadora — respondeu, dando de ombros.
A mulher mais velha deu uma pequena gargalhada, parando para ver o quão obvio era. Giovana era apaixonada por tatuagens, isso estava em sua biografia no site de relacionamentos.
— Eu sei que deve ser difícil para você, Giovana. Afinal, você é tão nova e é cheia de compromissos, mas por favor tente ir mais as aulas! É o seu futuro que está em jogo, Gio, se você estudar e se esforçar poderá dar um bom futuro aos seus irmãos também e garanto que é isso que você quer — as palavras cuidadosas foram proferidas com carinho.
— “Gio”? Gostei do apelido — ressaltou.
— Não ouviu nada do que eu disse?
— Ouvi, Clarice. Agradeço por se preocupar comigo, mas eu estou bem, certo? Eu estou fazendo o que gosto e apesar das coisas estarem um pouco difíceis, eu sempre me viro. Minha vida toda foi assim — respondeu Giovana, o sorriso já não fazia parte do seu rosto.
— Se precisar de qualquer coisa fale comigo, certo? Não hesite — disse firmemente.
— Estou sim precisando de algo, para ser sincera — murmurou Giovana, olhando para o rosto angelical de Clarice.
— E o que é?
— Bem… de você na minha cama, especificamente. — o sorriso retornou, mas dessa vez malicioso.
— Jesus! Quanta indecência, Giovana! — Clarice colocou as mãos no rosto, sentindo-o formigar.
— O que é? Vai me dizer que você ainda é virgem?!
— Fale baixo, Giovana! — Clarice olhou para todos os lados, mas ninguém pareceu notar a conversa. — Não é isso… É que no meu tempo as pessoas não falavam esse tipo de coisa no primeiro encontro — explicou Clarice.
— Você parece uma velha falando assim, Clarice. Mas, bem, os tempos são outros, sabe? Século 21, essas coisas… — Giovana gargalhou e Clarice teve de acompanhá-la.
Giovana estava certa, no fim. Era algo totalmente normal, em muitos encontros —principalmente os de aplicativos ou onlines — a primeira coisa que queriam era sexo, depois, talvez, conversar. Clarice estava pouco acostumada com isso, mas não significava que não era aquilo que queria.
— Mudando de assinto… Sei que isso parece bem clichê, mas o que está procurando especificamente em um site de relacionamento? — questionou Gio.
— Para ser sincera com você… — Clarice bebericou o café amargo. — Minha psicóloga falou por cerca de uma hora sobre como é bom conhecer coisas novas e encontrar pessoas diferentes. Eu ouvi seu conselho e cá estou!
— Entendi — Giovana riu.
— Ela é uma péssima psicóloga, não sei porquê ainda pago quinhentos reais por mês! — Clarice acompanhou a gargalhada de Giovana.
— Acho que até mesmo eu dou conselhos melhores, sabe eu entendo tudo sobre a mente humana, mas entendo melhor sobre o corpo humano — o sorriso malicioso aumentou gradualmente e Clarice demorou alguns minutos para entender onde ela queria chegar.
Clarice suspirou discretamente, perguntando-se onde aquela conversa levaria. No fim, decidiu finalmente entrar naquela brincadeira com segundas intenções. Que mal havia, afinal?
— E quanto você me cobraria a cada sessão? — questionou Clarice.
Ambas aproximaram mais o rosto, sentindo o cheiro de café impregnar no ar.
— Bem… Você pode me pagar de outra forma, sabe… — Giovana estalou a língua e colocou a ponta do dedo na boca, sendo mais provocativa que conseguia.
Clarice esqueceu totalmente que aquela era sua aluna. Pensou consigo mesma; já estava ali, sentada e conversando, então porquê não levar aquilo adiante se pudesse?
— É, dane-se… — sussurrou Clarice, sentindo os lábios gelados aproximarem-se dos seus.
— Estava demorando demais, Clarice — murmurou Giovana.
— Aqui não. Vamos para a minha casa — pediu ela, vendo a garota assentir.
No carro, as carícias tornaram a começar. Giovana passeava com sua mão pelas coxas da mulher ao seu lado, enquanto os lábios molhados beijavam suavemente o pescoço alvo.
— Eu vou bater o carro assim, Giovana — murmurou Clarice, numa súplica que nem mesmo ela queria que fosse atendida.
— Eu espero que não bata, porque ainda temos muito a fazer…
E foi assim que a aluna terminou conhecendo os lençóis da professora.
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