Notas iniciais
Espero que gostem.

Maldita, penso enquanto olho mortalmente para a chuva. Como pode chover tanto? E olha que essa chuva nem era prevista. O canal 19 precisa demitir o rapaz da previsão do tempo. Já estou há quase duas horas olhando para a janela e a droga da chuva não para. Passaram-se meses desde minha última noite romântica com Joe e justo agora que decidimos sair e ter uma noite normal, como um casal normal, antes dele voltar a viajar à trabalho, chove.

- Você não tá com frio? – Joe me pergunta. Ele está se aproximando e está com algo em suas mãos. – Fiz pra você – E então estica os braços, dando um sorriso mais do que meigo.

- Não quero.

- Mas tá tão gostoso.

- Não quero.

- Não vai nem provar? – Ele diz em tom de piedade.

- O que é? – Respondo tentando ser a ignorante que nunca fui.

- Fiz com amor e carinho, não precisa desse ódio todo – Então finalmente sorrio, fazendo-o sorrir também. Tomei a xícara de suas mãos e dei um pequeno gole. Ah... Estava precisando de caf... Chocolate? Que estranho. Geralmente isso vem em canecas... Mas não importa. Está bom. Dou mais um gole, e dessa vez um longo, e olho para Joe. Ele está com certa ansiedade no rosto, uma felicidade comovente naqueles perfeitos olhos azuis, como se estivesse dizendo “Não sei cozinhar porcaria nenhuma, mas me arrisquei a fazer isso porque te amo”.

- Chamou sua mãe pra fazer, Thor? – Falo com um ar de riso. Chamo-o de Thor por que eles realmente se parecem. Esses cabelos lisos e loiros e esse legítimo sorriso do Christopher Hemsworth são capazes de chamar a atenção de qualquer mulher.

- Ha-ha, que engraçada – Ele diz enquanto cruza os braços, desviando lentamente o olhar para o aquário onde vivem meus 32 platys*.

Aproximo-me dele para lhe dar um abraço e assim que inclinamos o pescoço para dar um longo beijo e sentir mais uma vez o gosto de um chocolate que parece café, escutamos um barulho extremamente alto lá fora.

Tenho um susto.

- O que foi isso? – Meu coração está batendo rápido. Joe acelera o passo até a janela, coloca a mão esquerda no vidro e fecha levemente os olhos, como se não estivesse enxergando nada. E não há como enxergar. O vidro está totalmente embaçado por fora e a chuva com pingos grossos. Aproximo-me na esperança de conseguir ver algo e não consigo – O que foi isso? – Digo mais uma vez e dessa vez para mim mesma.

Joe abre a janela e de imediato somos surpreendidos por um vento absurdamente intenso. E quando menos esperamos, escutamos alguém gritar.

- Ai, meu Deus – Digo assustada. – Fecha a droga dessa janela.

- Não consigo. – Ele responde enquanto tenta se aproximar das persianas. Os pingos fortes e grossos estão impedindo e por incrível que pareça isso realmente dói quando entra em contato com a pele.

- Droga! – Grito, afastando-me o máximo possível da janela que Joe por mais que tudo quer fechar.

Então a luz acaba.

Grito mais uma vez enquanto sinto Joe se aproximar de mim.

- Calma! Vai ficar tudo bem. Vamos para a cozinha – Ele diz alto.

- Precisamos fechar a janela.

- Eu não consigo.

- Mas vai molhar tudo – E então, logo após vermos um vulto, escutamos algo cair na casa.

Por um longo minuto ficamos em silêncio, escutando apenas o vento intenso e as batidas de nossos corações. Algo caiu da janela para dentro da sala, e não era algo pequeno. Não era uma bola que o filho do vizinho joga sem querer, não era uma pedra, não era nada semelhante a isso, disso tínhamos certeza. O que parecia? Parecia alguém caindo no chão. Suspiro lentamente enquanto recuo uns passos, tentando distanciar-se o máximo possível daquilo.

- Lyanna? – Joe sussurra para mim.

Não havia necessidade de sussurros, não havia cochichos, o mínimo que poderíamos fazer para escutar um ao outro era falar um pouco mais alto que o tom normal de voz, e isso por causa do vento absurdo que não dava deixas. Precisávamos sussurrar. Sentíamos isso. Sentíamos medo. Medo do que poderia estar na nossa casa agora, do que poderia estar a poucos metros de nós.

E antes que eu pudesse devolver o sussurro, a luz volta. Tive um susto idêntico ao de quando ela acabou. Uma claridade alcançou minhas pálpebras e então percebi que o medo me fez fechar os olhos. Abri-os e vi Joe à minha frente. Senti um imenso alívio ao vê-lo ali, naquele instante, há pouco mais que 10 cm de mim. Convivo com ele há cinco anos e não há coisa melhor que sua companhia e seu conforto. Tenho um turbilhão de pensamentos em menos de dois segundos, até que, desesperadamente, ele desvia o olhar para mim. Assusto-me ainda mais com aquela sua expressão exagerada, perguntando-me o porquê de tanto desespero e seus sucessivos ofegos.

- Você está bem? – Sussurro bem próximo ao seu ouvido, com certo medo em descobrir a resposta.

- Shhh – Ele diz. Encaro-o preocupada, ainda ofegando de leve devido o susto. Então ele segura firmemente o meu rosto e vira-o delicadamente para a janela.

- Ah-meu-Deus. – Digo pausadamente entre suspiros ao ver um homem de joelhos, de costas e ao lado do aquário, com partes de suas vestes rasgadas e, se não me engano, ferido.

A intensidade do vento diminuiu e por isso agora é possível escutar as bolhas que a bombinha produz. Meu coração está batendo como nunca bateu antes, meu medo está ultrapassando seus limites. Por toda a minha vida enfrentei furacões, brigas, espancamentos, mãos e mais mãos de estranhos passando pelo meu corpo, já levei uma facada, quase morri em um incêndio, mas em nenhuma dessas tragédias senti tanto pavor como estou sentindo agora. Joe aperta levemente o meu braço e recua um passo, fazendo-me recuar também. E o meio segundo que levamos para nos mover, foi o tempo necessário para fazer aquele homem levantar a cabeça. Prendo a respiração por um momento.

A princípio penso que ele vai se virar e que vai nos encarar com certo olhar sombrio, legitimamente como um filme. Mas ao contrário de todos os meus pensamentos e com certeza os de Joe também, ele apenas se levanta, continuando com as costas viradas para nós. Inclina levemente o rosto e, pelo que parece, fareja algo. E de imediato acho aquilo terrivelmente estranho. Desvio o olhar para Joe, que ainda está segurando o meu braço, e faço um gesto pedindo-o para irmos para a cozinha. Ele parece ignorar meu pedido e me solta. Aquele homem com certeza o está fascinando. Volto a olhar para aquela estranha criatura que está na minha sala e tenho um susto quando ele, bruscamente, vira a cabeça para o aquário. Joe coloca sua mão à minha frente, afastando-me ainda mais daquilo e, então, para me chocar ainda mais, aquele ser enfia a mão no meu aquário do jeito mais estranho possível, tira boa parte dos meus belíssimos platys e os enfia na boca de uma forma totalmente repugnante. Uns caem no chão, ele ignora e começa a pegar mais. Sinto meus olhos arderem em lágrimas enquanto aquela criatura lutava para pegar os peixinhos que passavam por entre seus dedos. Os dois primeiros peixinhos daquele aquário eu tinha ganhado da minha mãe. Era uma das poucas lembranças que lhe restavam, e aquele idiota acabou com tudo em menos de cinco segundos. Coloco a mão na minha boca, arcando comigo mesma para não gritar, mas não consigo.

- SEU IMBECIL – Gritei alto o suficiente para Joe acordar de seu pesadelo provisório. – COMO PÔDE COMÊ-LOS? – Procurei a coisa mais próxima possível e a joguei. O vaso que estava do meu lado o acertou em cheio. Quando menos espero ele vira o rosto para nós do mesmo modo que virou para o aquário, segundos antes de comer os peixinhos. Agora percebo que boa parte do lado direito do seu rosto está terrivelmente machucada e... seus olhos... são cores diferentes. Por milésimos de segundo passa em minha cabeça que antes daquele ferimento aquele rapaz fora demasiado bonito. Mas agora... Agora está horrível. Fazia movimentos estranhos com a língua e com a cabeça enquanto nos observava e, deliberadamente, começou a andar em nossa direção. As lágrimas que antes queimavam meus olhos agora descem pelas minhas bochechas. Aquilo que estava à minha frente não era um humano, não podia ser...

Começo a chorar de medo e corro para a cozinha, com toda a certeza de que Joe estaria atrás de mim. Olho para trás e o procuro.

- Joe? – Grito entre soluços. Volto para a sala e tenho um susto ao ver Joe esmurrando a coisa da qual estávamos fugindo – Para com isso! – Peço em uma tentativa frustrada, tentando tirá-lo de cima do bicho. Estava odiando aquele ser estranho mais que tudo nessa vida, mas não sou a favor de brigas, não sei quem esse cara é, não sabemos se ele é doente – Você só parece o Thor! Não tem a força dele! – Digo altíssimo, tirando-o finalmente dali e fazendo-o cair em cima de mim. Nos levantamos rapidamente assim que caímos, querendo nos afastar o máximo possível daquilo – Por que você fez isso? – Digo, dando sucessivas tapas em Joe. – Agora tem um morto na minha sala... – Estou completamente pasma. Minha cabeça está latejando.

- Vou ligar para a polícia – Ele diz, finalmente. E assim que Joe passa pelo morto para pegar o telefone, ele o agarra. Grito desesperadamente. O bicho crava seus dentes em sua panturrilha e arranca-lhe o pedaço, fazendo jorrar sangue por boa parte da sala e consequentemente em mim. Joe cai no chão e aquilo começa a ataca-lo. – SAIA DAQUI, LYANNA – Joe gritou enquanto tentava afastar o bicho. – CORRA!

Eu devia ficar, devia ter ficado, mas a primeira coisa em que pensei foi correr e abandonar ali o que poderia ser o amor da minha vida. Cambaleio até a porta. Ai, meu Deus, repito dezenas de vezes em minha mente, Joe está lutando na minha sala com um ser de outro mundo que comeu os meus peixes.

Pego as chaves e corro. Minhas mãos tremem como se eu estivesse segurando uma britadeira. Minhas quase 25 tentativas de acertar e enfiar a chave no buraco da fechadura foi um fracasso.

- Que droga! – Grito enquanto jogo as chaves no chão. Coloco as mãos na cabeça, nervosa, e corro outra vez para a sala. Ao chegar vejo Joe com suas entranhas para fora. Aquilo lhe arrancou as tripas e agora o está comendo. Vomito logo em seguida e pela primeira vez sem pensar no carpete. Limpo a boca com as costas da mão, vou para a janela por onde o bicho passou e pulo, horrorizada. A chuva ainda está forte e quase caio ao encostar meus pés no chão. Olho para o lado esquerdo e me deparo com um carro atravessado até a metade por um poste de luz, e caindo dos bancos da frente duas pessoas. Dois homens, com não mais que 25 anos. O rapaz que estava no banco do motorista, com cabelos tão negros quanto a pele, está sendo devorado pelo que parece ser a mesma coisa que acaba de estragar minha vida. A diferença é que dessa vez é uma mulher. Vem em minha mente que aqueles dois bichos deveriam estar no banco de trás antes de acontecer o acidente.

Olho com nojo e choque aquela cena horrenda e choro ainda mais. Então corro para o lado direito o mais rápido possível, com a chuva atrapalhando minha visão e machucando-me a pele, à procura de algo ou alguém que pudesse me ajudar. Procuro em todos os cantos, mas as ruas estão vazias. Fui ao centro do cruzamento e girei, à procura de ajuda. E essa chuva que não facilita, penso enquanto desvio o olhar para sucessivos becos. Procuro bem e no final da rua avisto um homem. Corro até ele e na medida em que vou me aproximando percebo que é um mendigo.

- Senhor, me ajuda, pelo amor de Deus, meu namorado está morto – Digo desesperada, mas não obtenho nenhuma resposta, apenas um olhar assustado. A chuva molhou toda a sua barba e agora ela está emaranhada para dentro. – Senhor? – Repito, com medo de ele ser outro bicho daqueles – Onde está todo mundo?

Então ele avança uns passos, ficando bem próximo a mim e finalmente fala – Todo mundo?

- É! – Recuo a quantidade de passos que ele avançou ao ver que estamos próximos demais – Por que não tem ninguém nas ruas? – Então, e dessa vez involuntariamente, começo a chorar, coisa que o mendigo não percebeu por causa da chuva. Lembro-me de Joe. Nunca mais vou ver o azul límpido de seus olhos, penso enquanto rodo mais uma vez o olhar pela cidade.

- Estão ocupados. – O mendigo diz, parecendo preocupado demais ao pegar suas coisas no chão.

- Ocupados? Ocupados com o que? – Pergunto sem entender nada.

Então ele levanta o rosto com um sorriso macabro, fazendo-me se afastar ainda mais – Morrendo.

Meu coração pula e de imediato fica preso em minha garganta.

- O-O que? – Digo com dificuldade.

- MORRENDO! – O mendigo grita, fazendo-me cair no chão. Arrasto-me para longe dele e começo a correr. Sem plano, sem rumo. – CORRA, FILHA, CORRA... – Grita mais uma vez e depois baixa o tom de voz, ainda certificando-se de que posso escutar – Ou então será a próxima...

*Peixe tropical muito procurado para criação em aquário.

Notas finais
O que acharam? :))))