Até que o Apocalipse nos Separe
19 O inacreditável
Notas iniciais
O silêncio até o nosso destino foi um massacre. Passei o caminho inteiro segurando a mão de Daryl enquanto Tyreese vez ou outra tentando puxar algum assunto.
– Espero que dê para encontrar alguma coisa hoje! – Ele comentava e logo em seguida olhava para nós, esperando alguma resposta. – Não é mesmo? – Queria responder, mas não senti vontade. É sim, Ty, pensei, ainda olhando o mundo lá fora pela janela. Ele apenas assentiu, constrangido, voltando os olhos para a estrada. Se eu fiquei com dó? É claro que fiquei. Mas minha boca se recusou a abrir para respondê-lo. O que eu posso fazer?
– Aqui está bom. – Rick falou do nada, curto e grosso, enquanto estacionava perto de um velhíssimo (e bota velho nisso) posto de gasolina. Não senti vontade de responder o Ty naquela hora, mas senti uma vontade imensa de socar a cara do Rick quando ele falou. Não sei o por quê.
Ah, espera... Eu sei sim! Porque ele é um idiota!
Abri a porta rapidamente e empurrei o Daryl.
– Ei! – Ele disse, parecendo ofendido com o meu empurrão.
– Desculpa. – Eu sussurrei.
Enquanto todos saíam do carro, ele se aproximou de mim.
– O que foi? – Ele sussurrou também, parecendo preocupado.
Suspirei. Espero que ele tenha entendido.
Ele colocou as mãos nos meus ombros e os apertou levemente.
– Lyanna... Ele é assim mesmo. Agora será que você pode esquecer isso e se concentrar no que viemos fazer aqui? – Perguntou, ainda com uma das mãos em meu ombro.
Suspirei mais uma vez, impaciente. – Tá, tá, tudo bem, agora sai logo da porra desse carro. – A resposta veio junto de um empurrão.
– Essa é a Lyanna que eu gosto! Bruta e estressada! – Ele disse enquanto saia do carro, revirando os olhos.
Assim que sai mandei-o calar a boca. Ele pareceu não gostar, mas o senti sorrindo atrás de mim. Resolvemos isso depois. Parei para observar o lugar. Vi o de sempre: carros abandonados, sangue pelo chão, gente morta na calçada. Até agora, nada de mortos-vivos. Ainda bem. Se bem que eu adoraria que um aparecesse agora e comesse a bunda de Rick. Mas decidi guardar esse comentário.
– Ok. Faremos o seguinte... – Rick começou a falar enquanto passava os olhos pela rua em que estávamos – Vamos vasculhar aquele supermercado da esquina. Creio que lá encontraremos os alimentos necessários. Mas Hershel falou que também precisávamos de medicamentos, e já que por aqui também tem uma farmácia, daremos uma olhada por lá também. Só que é melhor nos separarmos para isso acabar logo. – Idiota – Tudo bem?
– Tudo bem. – Respondemos.
– Ok. Tyreese e Michonne, supermercado. Daryl, você vem comigo. – E eu?
– Com licença, Sr. Incrível. – Falei para Rick enquanto Ty e Michonne já iam em direção ao supermercado. – Não está esquecendo alguma coisa? – Cruzei os braços enquanto o encarava.
Ele revirou os olhos. Mas que filho da p... – Você vem com a gente. – E começou a caminhar.
Daryl me esperou para caminharmos lado a lado – Eu vou matar esse cara. – Sussurrei.
Ele sorriu – No fundo vocês se gostam, tenho certeza.
Olhei indignada para ele – Você tá afim de morrer também? – E conferi a arma que já estava em minhas mãos.
– Você tá de TPM ou alguma coisa do tipo? Caralho, hein. – Daryl fala irritado.
– É o que tem pra hoje!
– Será que dá pra vocês falarem baixo?! – Rick “grita” em forma de sussurro. Ok, Lyanna, calma. Controle-se, penso enquanto respiro profundamente. Você vai pegar a droga dos medicamentos, vai voltar para o carro e daqui a pouco você vai embora.
Como a cidade aparentava estar praticamente deserta, não nos preocupamos muito com a ida até a farmácia. Só tomamos cuidado para algum zumbi não nos ver e acabar ferrando o plano todo. Quando chegamos à fachada daquele minúsculo estabelecimento com um letreiro enorme escrito “FARMÁCIA” em vermelho, Rick se escondeu e bateu na vidraça, pra ver se tinha algum morto-vivo lá dentro. Esperamos um pouco e nada apareceu. Acho que isso significa que a barra está limpa e que podemos entrar.
Com todo o cuidado e armas a postos, entramos. A farmácia era bem maior do que parecia. Havia dois corredores feitos com três estantes de madeira e todas elas tinham várias caixas de remédio espalhadas. Algumas estavam até pelo chão. Quando cheguei perto do balcão notei que tinha um cadáver jogado. Tinha uma arma alguns centímetros distantes de sua mão e muito sangue já seco espalhado e imaginei que tivesse cometido suicídio. Na parede ao seu lado, uma frase escrita à mão e com sangue: FIZ O QUE PUDE. Fiquei imaginando as várias coisas que ele queria dizer com aquilo, o que me deixou um pouco abalada.
– Psiu. – Rick cochicha, chamando minha atenção e me tirando daqueles pensamentos errôneos. Olhando para mim, ele desvia o olhar para uma cesta que estava jogada quase aos meus pés, e com isso eu imagino que ele está me pedindo para pegá-la e apanhar a maior quantidade de medicamentos que eu conseguir. Penso em mostrar o dedo do meio para ele, mas acho que não é necessário, já que ele não foi ignorante, e então pego a cesta.
Com a arma numa mão e a cesta na outra, vou jogando nela, com o antebraço, certa quantidade de cada remédio que encontro. Vejo algumas seringas embaladas e coloco-as também. Quando olho para o lado, vejo Daryl fazendo o mesmo que eu. Ele também olha para mim e acaba dando uma piscadinha. Bobo, penso enquanto dou um inevitável sorriso. Rick está olhando o restante da farmácia.
Quando acho que já peguei o necessário, vou até o balcão e coloco a cesta sob ele. Apoio-me nele, de costas e pelos cotovelos, e decido dar uma bela olhada naquela bunda maravilhosa do Daryl. E enquanto imagino uma transa bem gostosa entre nós dois, noto um vulto passar pelo lado de fora da farmácia.
Desvio imediatamente meu olhar para a vidraça. Penso que são Michonne e Tyreese já voltando, mas então um rosto desconhecido aparece curioso. Meu coração dispara e abaixo-me rapidamente. Daryl e Rick percebem meu susto e se abaixam também. Calma, calma, imploro a mim mesma enquanto desvio meu olhar para Daryl e Rick. Eles fazem uma cara de interrogação, querendo saber o que era, e então, para resposta dos dois, alguém entra.
– Ele disse que queria o que mesmo? – A voz de um homem pergunta. Encolho-me o máximo possível, preocupada com Daryl. Ele tinha sumido da minha vista.
– Um analgésico. – Uma mulher com voz enjoada responde. Essa última apoiou-se no mesmo lugar onde eu estava há alguns segundos. Justo o lugar onde eu estou bem abaixo com o coração à mil. Que ótimo.
Em pleno desespero, noto que o cadáver do suicida está bem na minha frente junto daquela frase lamentável. Torço indiscutivelmente para a mulher não reparar nisso, sentir curiosidade e acabar aproximando-se ainda mais. Sinto vontade de olhar para os fundos da farmácia para ver se encontro aqueles dois idiotas, mas tenho medo de ser pega. E agora? Penso agoniada enquanto torço para eles irem embora logo.
Depois de escutar algumas coisas sendo reviradas, finalmente falam.
– Achei! – O homem diz, parecendo aliviado.
– Ótimo, vamos logo embora com essa merda. – A mulher responde, afastando-se do balcão.
Então, quando eles abrem a porta para finalmente irem embora e quando eu penso que tudo vai finalmente se resolver, alguma coisa cai nos fundos da farmácia. Droga! Grito mentalmente. Droga, droga, droga! Eles devem ter derrubado alguma coisa!
O homem e a mulher, que antes estavam dando passos para saírem da farmácia, pararam. Fecharam novamente a porta e num silêncio amedrontador começaram a andar vagarosamente em direção aos fundos. Escuto um revólver sendo armado e logo tento bolar alguma coisa, mas nada vem em mente, só o medo de ser pega.
– Quem estiver aí, por favor, saia. Não vou machucá-lo... – O homem fala, tentando parecer calmo. Até parece que não vai... Penso com ironia. – Eu já vim aqui antes e esta farmácia não tem saída pelos fundos... A única entrada é esta pela qual acabei de passar... – Ele continua. É perceptível a mentira em sua voz. É perceptível a maldade que nela se esconde. – Mais cedo ou mais tarde você vai ter sair, e acredite, é bem melhor você sair agora...
O lugar fica em silêncio por uns segundos, até que Rick e Daryl saem detrás da estante, com as mãos levantadas. O casal logo aponta as armas para eles.
– Ok, tudo bem. – Rick começa.
– Uh, uma besta! – A mulher diz com certo interesse enquanto olhava para Daryl. Vadia.
– Coloquem as armas no chão. – O homem ordena e, calmamente, Rick e Daryl fazem o que ele manda.
– Tudo bem, vamos com calma, nós só queríamos uns medicam...
– Cala a boca! – O homem ordena mais uma vez. – Chutem pra cá! Anda! – E logo eles fazem isso. Eu preciso fazer alguma coisa, penso amargurada.
A mulher aproxima-se para pegar as armas e logo volta. De fato, ela mostra certo interesse na besta e parece esquecer os três homens no local para analisa-la. O homem que veio com ela, pelo contrário, não desgruda os olhos dos que vieram comigo e avança alguns passos na tentativa de encurralá-los ainda mais. E então finalmente vejo a oportunidade. O cara está ocupado demais prestando atenção em Rick e Daryl, e a mulher entretida demais com aquela besta. É o momento perfeito.
– Alguém mais veio com vocês? – O homem pergunta, mudando aquela voz calma do início para uma desnecessariamente furiosa.
Então eu seguro firme minha arma, levanto-me rapidamente e aponto-a para a mulher, que estava mais próxima.
– Sim, veio. – Digo, assustando os dois.
O homem fica sem saber o que fazer, mas não para de apontar a arma para os dois homens bem maiores que ele. Com um passo atrás do outro vou me aproximando da mulher e noto as várias armas que estão ao seu alcance, inclusive a besta em sua mão.
– Coloque tudo no chão e chute! – E é isso que ela faz. Não parece tão interessada agora, parece? Pego tudo e coloco em cima do balcão.
– Cuidado com o que você vai fazer com essa arma! – O homem grita para mim. – Bote essa arma no chão ou eu vou atirar neles dois!
– Coloque você essa arma no chão! – Disse, ainda apontando para a mulher. – Você só pode atirar em um de cada vez. E o tempo que você vai levar para atirar em apenas um deles é o tempo que eu vou precisar para atirar na cabeça dela e na sua. – Desvio meu olhar para ele. – De qualquer forma, você vai morrer. – Dou uma pausa para absorver tudo enquanto olho no fundo dos seus olhos. – Então, como você prefere? Da maneira fácil ou difícil?
Totalmente atordoado, ele desvia rapidamente o olhar dos rapazes para mim e vice-versa, até que, meio ofegante e relutante, afirma com a cabeça, colocando sua arma também em cima do balcão, lentamente.
– Tudo bem. Só não atire nela. – Ele fala enquanto levanta as mãos.
Olho para os rapazes, preocupada, e eles acabam retribuindo o mesmo olhar. Pego umas das armas que estão perto de mim e jogo para Rick, mas assim que faço isso, escuto uma delas sendo armada bem atrás da minha cabeça, o que me deixa completamente tensa.
– Ora, ora, ora... – Essa voz! Meu coração dispara e logo vem à tona um sentimento de nojo e ódio. – Parece que o destino quer nos ver juntos, Lyanna.
Todo o meu corpo se vê em arrepios enquanto o pior dos desgostos vem a minha mente. Sinto uma vontade enorme de esfolá-lo vivo, de tortura-lo de mil maneiras possíveis, de arrancar um por um os seus dentes e depois fazê-lo engolir cada um deles. Só quero fazer o que desde aquele dia minha raiva vem desejando. Só quero decapitá-lo e enfiar sua cabeça em uma estaca. – Tomas.
Fale com o autor