Até que o Apocalipse nos Separe
3 Nada como um dia após o outro
Notas iniciais
Boa leitura!
Já anoiteceu e a escuridão está atrapalhando quase que por inteiro a minha visão. Minhas nádegas estão doendo devido o tempo que passei sentada num galho estranho e por hora me pergunto se um dia vou conseguir sair daqui. Olho para baixo e ainda vejo os zumbis. Todos esticando seus braços ao redor da grande árvore, tentando, pelo menos, comer um pedacinho de mim. Duas horas após a lua ter centralizado no céu um esquilo passou pulando os galhos e chamou a atenção de todos os mortos. Pensei que seria a minha grande chance de descer e correr, afinal, já tinha descansado demais. Mas, infelizmente, a atenção voltou para mim assim que encostei o meu maldito pé esquerdo no chão e fui obrigada a voltar para a droga do galho.
Escuto minha barriga roncar. Passo de leve minha mão sob meus peitos nus e volto a encarar os zumbis. Achou que ia ficar assim?, penso involuntariamente enquanto torço o pescoço, voltando a lembrar de tudo que aconteceu há algumas horas. Covardia é o que vou fazer agora!
Passo mais uma vez a mão pelos meus seios e olho cuidadosamente para o direito. Mesmo com a escuridão dá pra ver o quanto ele está machucado. Tomas não só beliscou como também o arranhou. E agora ele está doendo. Maldito seja. Essa lembrança será eterna. Dói-me o coração quando volto a pensar em Steve, Bernadete e... Clara. Ah... Clara, coitada. De certa forma a amei. Aqueles irmãos malditos... Eles não têm sensibilidade, não têm coração, não têm compaixão e só vão ter consciência da dor de um estupro quando tiverem 30 centímetros da droga de um galho enfiado no rabo. Malditos, malditos, repito várias vezes em minha mente, pensando se algum dia vou reencontrá-los e se vou conseguir me vingar. Certamente seus veículos já estão há quilômetros daqui e eles imaginando se algum zumbi realmente gostou dos meus seios e com certeza rindo dessa ideia. Penso em várias maneiras de tortura-los até que um barulho chama minha atenção. Olho rapidamente para o lado e me afasto um pouco com medo do que possa ser. Não vinha do chão, vinha do alto das árvores. Suspiro de alívio ao ver outro esquilo pulando e pulando como se estivesse no paraíso dos trampolins. Ele chega bem próximo de mim, provavelmente curioso e se perguntando o porquê de eu estar aqui, tão perto de sua casa. Minha barriga ronca mais uma vez e estranhamente vem em minha cabeça que aquele esquilo seria um prato delicioso para o jantar. Pisco várias vezes ao me pegar pensando nisso e tiro a faca do bolso, calmamente, para não espantá-lo.
- Oi, amiguinho – Sussurro com um sorriso idiota estampado no rosto. Sabia que se avançasse um pouco o esquilo fugiria. – Você já jantou hoje? – Ele é tão fofo, suas mãozinhas são tão fofas. O que a fome não faz com as pessoas... – Já? Que ótimo, porque eu não – Então atiro a faca, o acertando em cheio contra a árvore. Vou até ele e o pego. Arranco-lhe a pele e o que não vou comer jogo para os zumbis. Rio ao vê-los correndo atrás do pedaço de carne, feito um bando de cachorros. Até que finalmente tenho uma ideia.
Como um pedaço daquele prato mal passado com receio de não conseguir nada depois e jogo o restante para os zumbis, bem longe. Eles vão até a carne e aproveito o momento para pular de galho em galho, distanciando-se o máximo possível deles. Poderia já ter feito isso, mas infelizmente me seguiriam. Poderia ir correndo também, mas fiquei com medo de aparecer outros zumbis em meio a escuridão. Então apenas continuei, pulando e pulando como o fofo esquilo que matei há alguns minutos.
Eu já estava longe quando as árvores começaram a ficar distantes umas das outras. Já não podia mais saltar. Se saltasse poderia cair e ganhar um enorme machucado devido a altura e ainda correria o risco de um zumbi me pegar de surpresa. O correto seria ficar na árvore em que estou agora e esperar o dia amanhecer. Apenas me sentei, apoiei minhas costas à madeira velha e fechei os olhos. O cansaço me domina. Talvez eu possa dar um cochilo... Afinal, o sol vai aparecer daqui a pouco e tudo vai melhorar. Ou talvez apenas diminuir as consequências.
- Cerveja – Jason me pede com um estalo de dedos sem nem olhar para mim. Está concentrado demais assistindo alguma porcaria na TV, sentado em sua poltrona velha, só de regata e bermuda. Parece que se sente bem quando está com roupas desse tipo. O problema é que estamos sozinhos em casa e eu ainda não tenho coragem para lhe dizer umas verdades. Fechei o livro que estava lendo, coloquei-o de lado e fui à cozinha, em silêncio. Peguei a droga da cerveja, levei para ele e nem tive a consideração de abri-la.
Ele olha meio que sem paciência para a garrafa lacrada – Ela vai se abrir sozinha, por acaso? – E a joga de volta para mim. Tenho péssimos reflexos e sem querer a deixo cair. Preocupo-me imediatamente, pois era a última na geladeira. Meu coração já começa a palpitar intensamente. Desvio minha atenção para ele, nervosa, e o pego encarando-me com aquele olhar que tenho tanto medo. – Eu tinha certeza de que você não era retardada igual sua mãe – Ele começa enquanto se levanta e avança rapidamente uns passos até mim – Agora estou duvidando disso. – Tenho um susto com suas palavras e recuo à medida que ele se aproxima.
Já temia o que iria acontecer – Não, não, não... – Digo enquanto coloco minhas mãos à sua frente. Ele as ignora e puxa com força meus cabelos para o chão, fazendo-me encostar a cabeça no tapete e me ajoelhar. Sinto uma imensa dor e grito enquanto tento tirar suas mãos dali.
- Não faz barulho! – Ele grita em sussurros. Agora, além do meu cabelo, está segurando minhas duas mãos com apenas uma das suas. Ele tinha o dobro do meu tamanho.
- Para! – Grito mais uma vez, ignorando-o. Mas na verdade, ele que parece me ignorar. Parece ignorar minhas súplicas. Peço mais uma vez e sou respondida com uma tapa no rosto. Agora lágrimas rolam pelas minhas bochechas.
- Se pedir de novo já sabe o que leva. – Ele diz, rígido e sem emoção na voz.
Estou de joelhos a sua frente. Por um longo minuto ele não diz e não faz nada. Penso que está se arrependendo por ter feito aquilo, por ter batido em sua enteada pela terceira vez. Mas ao contrário disso o escuto abrir o zíper da bermuda. Começo a chorar intensamente, tentando ao máximo não gritar para não levar outra tapa na cara. Meus olhos estão fechados desde o momento que ele me forçou para o chão. E não pretendo abri-los agora. Logo sinto seu pênis em meu rosto, encostando levemente nos meus lábios. Afasto aquilo de mim, chorando, e levo outra tapa na cara, dessa vez mais forte. Ele segura forte meus cabelos e força seu pênis contra minha boca. Eu a fechei rigidamente. Levo outra tapa na cara e sou obrigada a abrir a boca para gritar. Essa foi sua chance para enfiar de vez seu membro em minha boca e me fazer engasgar. Tusso com aquilo em minha boca, quase vomitando, e ele ignora. Continua enfiando seu pênis até minha garganta. O empurro mais uma vez, fazendo-o cambalear para trás, abro finalmente os olhos e corro para a porta. Antes que pudesse sair da casa ele volta a me agarrar. Tento gritar, mas ele tapa minha boca com força e me joga para o lado do sofá, fazendo-me ficar de joelhos e ainda pressiona minha cabeça contra o assento. Mexo-me bruscamente quando sinto suas mãos em minha intimidade. E ainda com uma das mãos em minha boca, começa a baixar minha calça. Tento gritar mais uma vez, mas a única coisa que alguém seria capaz de escutar eram murmúrios. Então ele afasta minha calcinha e do nada sinto uma dor insuportável, seca, digna de tortura. Choro imensamente enquanto sinto-o entrar em mim.
Acordo como se não tivesse dormido há séculos e então percebo que tive outro pesadelo. E dessa vez o pior de todos. Passo a mão pelo meu rosto que está ensopado de suor e olho para a copa das árvores. A luz do sol está passando por entre as folhas e chegando até mim. Fecho mais uma vez os olhos, dou um longo suspiro e abraço os joelhos. Fico assim por um bom tempo até cair na real. Não posso morar aqui, comer esquilos e ficar nua para sempre, penso enquanto volto a ficar de pé. Primeiro olho para baixo e vejo se há algum perigo. Parece que tudo está calmo. Depois vou ao topo da árvore e procuro algo. Qualquer coisa, qualquer sinal de vida, o que puder me ajudar. Sorrio sozinha ao ver uma casinha no meio do nada. E se há casa, há estrada. Desço rapidamente e são necessárias três horas para chegar até ela. Enquanto caminhava voltei a pensar no terrível pesadelo. Eles são constantes, tenho quase todas as noites e eu já estou praticamente acostumada com isso. Mas esse... Esse foi real. Parecia real. Nunca foi tão horrível reviver uma lembrança.
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