Até Que A Morte

1 Capítulo Único


Por um milagre seu cabelo repicado e difícil de lidar estava comportado e muito bonito preso no coque elaborado. A maquiagem deixava sua pele perfeita, mas natural, apenas realçando a cor nas bochechas, os cílios longos, os lábios avermelhados. Os brincos eram diminutos diamantes, o colar uma elaborada teia de aranha com algumas dezenas de pontos de luz que cobriam boa parte do colo. O vestido branco deixava os ombros nus e um pequeno recorte no vale dos seios ressaltava sua feminilidade, a costura perfeita na cintura e um volume pouco exagerado do quadril para baixo. Machi nunca se imaginou tão, tão... Ridícula...

Pakunoda e Shizuku surgiram no reflexo do espelho cobrindo seu rosto com a grinalda e lhe entregando o buquê vermelho, quase negro. As expressões solenes pareciam mais adequadas para um funeral.

O espelho deu lugar à igreja enorme de mogno antigo e vitrais que brilhavam na luz do dia que vinha de fora. Não registrou os convidados, mas a igreja estava cheia e todos olhavam para ela e ela, que nunca foi considerada uma mulher tímida, abaixou a cabeça lisonjeada enquanto caminhava até o noivo.

Em pé, dos dois lados do altar, a trupe se erguia solene vestindo negro. Kuroro no centro em costume de padre celebrava o casamento enquanto olhava em seus olhos. Sedutor, quase paternal, sempre diabólico. O que foi dito, foi dito num borrão, pois não se lembrava. Registrou apenas quando Lucilfer decretou "pode beijar a noiva" e seu véu foi erguido. Ela ergueu o rosto angelical e o buquê se desfez num punhal que com extrema reverência cravou no peito do homem morto no caixão à sua frente.

Inclinada sobre o morto, girou o punhal a noventa graus, e só então o que era sonho tornou-se pesadelo quando o morto abriu seus olhos psicóticos e diminutos arreganhando o sorriso lunático que Machi reconheceria em qualquer lugar.

Hisoka lhe causava um terror que jamais admitiria. O medo nasceu ao pé da barriga, arrepiando sua espinha e nuca e lhe dando ganas de vomitar. Estava prestes a gritar quando o morto aproximou seu rosto do dela, mas uma mudança repentina de ângulo a fez engolir o desespero.

A igreja havia desaparecido. Estava de cabeça para baixo e suas mãos estavam presas num mastro com seus próprios fios de Nen. Estavam agora em alto-mar, era noite cerrada e as ondas balançavam o barco de forma preocupante. O "noivo" lhe encarava de cima, próximo ao seu rosto, sem piscar, a língua lambendo os lábios com lascívia. Quando ele estava próximo de beijá-la uma onda mais forte fez o barco virar e Machi se sentiu cair...

Acordou assustada, suando em bicas, desorientada.

Lembrou que estava num galpão abandonado aguardando ordens do Danchou.

Recebeu o vento fresco e noturno com um arrepio de gratidão. Os resquícios do sonho se apagando rápido, mas não totalmente para sua inquietação. Levou um segundo para perceber que tinha dormido sobre alguns entulhos e tinha rolado em meio ao sonho.

E estava nos braços do palhaço.

Hisoka a olhava sem piscar; o rosto inexpressivo, vestindo a máscara de sempre. Ela franziu o cenho e o empurrou para se levantar, mas ele não permitiu num primeiro instante.

— Machi, você está bem? Estava se remexendo muito — a pergunta veio numa voz de trovão do outro lado do galpão onde Franklin estava sentado ao redor de um jogo de cartas com os outros. Todos olhavam para ela. E Hisoka.

— Foi só um sonho — retrucou zangada, ainda tentado empurrar o ruivo que a apertava. Ele estava quente e ela já se sentia febril.

— Um dos ruins — constatou Uvogin.

— Você não faz ideia... Quer me soltar, droga?! — finalmente explodiu.

— Você falou meu nome — explicou calmo ousando enrolar numa mecha dos cabelos cor-de-rosa num dos dedos.

Ela engasgou sentindo o rosto avermelhar de raiva e vergonha.

— Sonhei que você estava morto.

Ele sorriu em desafio tombando a cabeça para um lado, infantil.

— Por isso você estava tão incomodada?

— Tch. Eu estava incomodada por que mesmo te matando você revivia.

Ele riu silencioso da explosão raivosa dela ao mesmo tempo em que ela se soltou dele e fugia rápido para perto dos companheiros. Mas antes que ela se afastasse, ele a chamou de volta:

— Machi.

Ela se virou raivosa.

— O que é?

— Seu elástico. Você deve estar com calor...

Ela se aproximou para arrancar o acessório da mão dele.

— Pois eu estou... — ele completou aos sussurros.

Seus olhos se arregalaram e sentiu o rosto mais quente. Cerrou o maxilar pronta para lhe dar um soco.

— O que vocês estão cochichando aí? — Nobunaga interviu do outro lado demonstrando que mesmo a distância a Trupe não perdeu um movimento da interação entre os dois; ninguém confiava em Hisoka, sábios.

Kuroro e Pakunoda entravam nesse momento.

— Ah! Machi sonhou comigo! Sou um homem realizado! — Hisoka dramatizou teatralmente.

— Não enche — retrucou desgostosa.

— Pesadelos? — o Líder perguntou afetuoso para ela.

Eles trocaram um olhar cumplice que alegrou a ladra.

Hisoka revirou os olhos nas sombras.

Notas finais
16/02/2019 — não sei por que eu engavetei esse texto rs' a quem ler, fica aqui o meu "muito obrigada" ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!