Através das barreiras do tempo
32 Despedida
Notas iniciais
Se calou por um instante e disse triste:
— Que pena que não o reencontrarei mais nesta fábrica.
— Me reencontrará sim! No corpo de meu… quer dizer… do Regis.
Despedida.
Na manhã seguinte, enquanto tomava um copo de leite com café junto a Regis, na cozinha de nossa casa, lhe disse:
— Regis, estou indo embora.
— Pra onde!? — espantou-se ele.
— De volta pra minha casa, minha família. De volta pro meu tempo.
— Eu não quero que você se vá! — negou ele tristemente.
— Ué! — estranhei. — Você vive reclamando de minhas broncas. Vive me chamando de intruso, impostor.
— Você é um intruso. E é chato também! Mas eu não quero que você se vá!
— Se eu sou chato, por que não quer que eu vá?
— Porque você é meu companheiro! Você está a toda hora junto comigo e até me ajuda quando preciso.
— Eu gosto de estar com você, maninho. Mas eu preciso voltar pro meu tempo.
— Fique comigo, por favor. Preciso de sua companhia.
— Não! Você não precisa. Eu estou te deixando preguiçoso. Tenho que ir e você terá que caminhar por si só.
— O que será de mim?
— Você será especial. Siga meus conselhos. Já no ano que vem, volte à escola. Você precisa dela.
— Eu não serei padre. Serei casado e estudado. Em quê? O que você estudou?
— Eletrônica, Eletrotécnica…Telecomunicações.
— Você trabalha na televisão!? — admirou-se ele.
— Não! Lembra daquele aparelhinho que eu trouxe? Aliás… — corri até o quarto, apanhando-o escondido entre as roupas, as quais cheguei ali, liguei-o, arrastei o maninho junto a mim, tirando uma foto de nós dois juntos.
— Você trabalha fazendo este aparelho?
— Fazendo, não! Mas fazendo com que ele mande esta foto aqui, por exemplo, para o mundo inteiro, em questão de nadinha.
— Como assim? Até pra Rússia?
— Pois é!
— E como você irá embora?
— Do mesmo jeito que eu aqui cheguei.
— Como foi que você chegou?
— Estou indo agora lá na praça do centro. Estou convicto que lá existe um portal e que o senhor Pedro, que me trouxe aqui, me levará de volta.
— O senhor Pedro… da fábrica?!
— Pois é! Ele mesmo!
— Ah! — franziu a cara, o maninho. — Ele é só um bobão!
— Não é um bobão! — neguei nervoso. —Ele é o meu principal amigo daquela fábrica. Quer dizer… ele é o seu principal amigo daquele lugar perigoso.
— Não é um lugar perigoso! — negou Regis.
— Acha que aqueles safados sejam dóceis? Fabrício por exemplo?
— Ele é só um moleque bobo!
— Em meu tempo, caras como ele vão pra cadeia!
— Por quê?
— Porque crianças existem para serem respeitadas e amadas, não para serem bonecos nas mãos de pedófilos — fiquei deveras nervoso.
— Calma, Arthur — riu ele. — Você tá nervoso à toa. Se ele mexer comigo, dou um murro na cara dele!
— Não é o que tenho visto!
— Mas é o que farei a partir de agora!
— Está bem! — ri desconfiado. — Acredito em você.
— Tais safados nem deixam a gente trabalhar em paz.
— No meu tempo, até nossos pais, nossos chefes, nossos patrões… todos iriam para a cadeia.
— Quê!? — franziu o nariz, o maninho, sem entender o que eu queria dizer.
— No futuro, crianças como nós não podem trabalhar, só estudar e brincar. É engraçado que em tal tempo no qual elas devam brincar, elas não querem mais. Minha profissão se tornou responsável por isso.
— Como assim?
— Graças a este aparelhinho aqui, do futuro, as crianças não mais brincarão como nós fazemos aqui, nas ruas. Não sairão nem de dentro de casa, o dia todo grudado nesta tecnologia viciante.
— Todas as crianças terão aparelhos como estes?
— A maioria sim!
— Até eu! Se eu tivesse um desses, só ficaria em casa.
— Pois é! As crianças de meu tempo, não saberão o que é strena varselha, salva, carneirinho, namoro no escuro…
— O que elas fazem com este aparelho? Filmam e tiram fotos?
— Jogos. Milhares de jogos!
— E elas não trabalham nem um pouquinho? Só vão na escola e jogam neste aparelho?
— Caso a justiça descubra uma criança trabalhando, levam os pais dela preso sem chance de pagar fiança.
— O que é pagar fiança? — Não entendeu, Regis.
— Às vezes, dependendo o motivo porque a pessoa acaba preso, o delegado pode estipular um determinado valor que tal preso ou a família paga e sairá da cadeia. Mais ou menos isso! Mas, no caso de fazer o filho trabalhar, não tem como. Fica preso mesmo!
— Você tá mesmo é maluco, como sempre. Onde se viu, só porque a criança vai ajudar os pais a ganhar algum dinheiro, a polícia vai prender os pais dela?
— Pois é! — fui incisivo. — Poucos dias antes de eu vir para seu tempo, conheci um menininho de nove anos de idade. Ele era um garoto hiperativo e adorava ajudar seu pai a fazer reboco nas construções que ele trabalhava. Enquanto o pai ia desempenando tais paredes, o menininho seguia na frente enchendo as paredes de massa pronta. Um juizado da infância descobriu isso e mandou a polícia prender tal homem, acusando-o de abuso de vulnerável, expondo-o ao trabalho infantil. E não foi apenas levado para falar com o delegado, foi preso mesmo, algemado e indiciado.
— Aqui também é proibido crianças como nós a trabalhar — lembrou o maninho. — Lembra que de vez em quando os fiscais do trabalho aparecem na fábrica e os chefes mandam a gente fugir embora de lá, saindo pelos fundos da fábrica?
— Sim! Mas eles buscam apenas descumprimentos das leis trabalhistas e o máximo o que aconteceria se chegassem a nos pegar trabalhando, seriam multar a empresa por ter funcionários sem registro em carteira. No meu tempo, caso isso ocorra, vão todos presos de verdade. Acho que as leis de meu tempo são um pouco exageradas. Concordo que a criança tem mais mesmo é que estudar e brincar. Você por exemplo, volto a repetir, faça o favor de voltar ao colégio. Diploma de bacharelado em quarto ano do fundamental, só indica que você é mais um na estatística dos analfabetos.
— Você é maluquinho mesmo, maninho — riu Regis. — Gosta de falar esquisito, vulnerável, bacharelado, indiciado… o que mais? Hiperativo…
— E você não sabe o que significa nada disso, não é? Se tivesse na escola, saberia. Agora eu já vou indo.
— Posso ir com você?
— Pro futuro?! — estranhei.
— Não! Pra praça central ver você ir.
— Ah, tá! Claro que pode!
Enquanto saíamos juntos para a rua, em busca de meu passaporte de volta ao meu tempo, Regis ainda perguntou:
— Não vai se despedir dos outros?
— Não! Prefiro não.
— Nem da mãe!
— Depois você explica a ela o que aconteceu — tomávamos o caminho da rua esburacada em frente de casa.
— Não irá no velório?
— Pra quê!? — dei de ombros. — Pra falar a verdade, eu não gostava muito dele mesmo.
— Credo, Arthur! Ele morreu!
— E daí? — dei de ombros. — Se eu não gostar e uma pessoa quando ela está viva, sou obrigado a gostar depois que ela morre?
— O que ele fez pra você?
— Disse a papai que tínhamos um apelido muito feio lá na fábrica e ainda foi sarcástico sobre isso comigo.
— Nem sei o que é… sacrás…tico! E disse ao papai que somos frangotinho? Bela coisa!
— Não foi esse, Regis! O outro. Muito pior!
— Não estou nem aí! — deu de ombros, ele.
— Explique ao papai o seu apelido na fábrica[1].
— Eu hem! Não sou doido!
— Pensando bem, antes de ir vou passar em outro lugar!
— Onde? — estranhou ele. — Este é o caminho para o velório!
— Não vou lá! Já disse! Vou à olaria.
— Fazer o quê? Tá com saudades de cortar tijolos com José?! — riu o maninho.
— Despedir-me de duas pessoas.
— Você é mesmo esquisito. Não se despediu nem de nossa mãe, mas vai se despedir de outros!
Passamos praticamente ao lado da casa onde estava acontecendo o velório.
— Não vai entrar? — Perguntou-me Regis.
— Já disse que não!
— Posso ir? Depois te encontro na olaria.
— Você é quem sabe.
Ele decidiu que sim e se infiltrou entre as centenas de pessoas que, em vida, talvez nunca tivesse visitado tal homem, depois que morreu nem deveria mais ir, pois, de que adiantará?
Retificando minha implicância, tal homem, primo de papai, não era uma pessoa má (e nem é porque ele morreu que estou dizendo isso). Ele respeitava as crianças, era responsável com seu cargo de chefia, graças ao privilégio de ter irmão encarregado e nunca fizera brincadeiras imorais com quem quer que seja. Em meu conceito ele só pecou por gracejar com papai, sobre de fato um apelido para lá de feio, o qual Regis ganhara do molecão Fabrício.
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