* * *

Kagome acordou assustada. Abriu os olhos com rapidez e pôde notar que Shippou estava aconchegado ao seu corpo no colchonete improvisado enquanto Sango e Miroku dormiam do outro lado em seus respectivos colchonetes. Do lado oposto ao de Kagome, através do brilho das chamas reluzentes da fogueira que os aqueciam naquela noite de primavera, estava Inuyasha, dormindo tranquilamente.

Ao constatar que estava segura, a garota virou para o lado oposto com movimentos sutis, visando não acordar o pequeno youkai ao seu lado, e apanhou na bolsa escolar amarela um espelho pequeno. Seu rosto estava exatamente igual ao de sempre, o usual rosto da garota divertida de quinze anos, e suas roupas condiziam com aquilo.

Suspirou feliz ao ver que tudo não passara de um sonho – um sonho misto de felicidades e tristezas, conquistas e percas. Estava tudo bem agora, nada daquilo ocorrera de verdade senão na sua mente adormecida. Ainda assim, sorriu ao imaginar se Inuyasha poderia ser tão doce como fora nos momentos apaixonados do sonho que acabara de ter assim como em tantos outros que ela já havia tido com ele.

Saindo devagar do colchonete, Kagome engatinhou precariamente até onde o hanyou estava. Era maravilhoso vê-lo ali maravilhoso como sempre fora e tão tranqüilo em seu sono.

O coração da garota ainda batia acelerado pelo susto da imaginação fértil e sem saber a razão lembrou-se de algo que Inuyasha lhe havia dito no seu sonho: “Você nunca disse que me amava”. Ele havia chorado ao dizer aquilo no sonho dela, vendo que parecia tarde mais para conquistá-la.

Assim, ela se permitiu abraçá-lo apertado, fazendo com que ele estranhasse. Num primeiro momento agradou-lhe a sensação de ter a garota tão perto a demonstrar seu carinho por ele, mas Inuyasha era um garoto que havia sido muito magoado pela vida e protegia-se do amor a todo custo.

— Eh. — Resmungou irritado. — Por que está me abraçando assim, Kagome?

— Gomen, Inuyasha. — Ela sentiu o rosto queimar em vermelho vivo. — Tive um sonho que me assustou muito.

— São apenas sonhos, mulher. — Ele riu em deboche. — Esses humanos... Sentem medo de tudo.

— Hai. — Ela sussurrou, virando-se para voltar ao colchonete e derramando lágrimas silenciosas.

Não, ela pensou, Inuyasha não pode ser o garoto doce dos meus sonhos. Jamais.

Ao vê-la se deitar com expressão tão entristecida, Inuyasha praguejou contra si mesmo. Estava temendo se apaixonar por ela, mas a cada demonstração que ela fazia tornava-se mais difícil entender e controlar os sentimentos que havia no seu peito.

Logo se viu indo até onde ela estava, preocupado com o fato de ter dito algo que a magoara. Detestava vê-la chorar daquele modo, principalmente quando sentia que era sua culpa.

— Eh, Kagome? — Sussurrou para não acordar Shippou, sentando-se ao lado da bolsa dela.

— Hai. — Os lábios dela se moveram sem produzir som. As lágrimas ainda caíam pelo seu rosto.

— O que houve?

— Eu não deveria amar você. — Ela escondeu o rosto em baixo da coberta, desejando que ele fosse embora e se arrependendo de ter dito aquilo.

— Você nunca disse que me amava. — Ele riu genuinamente, sentindo que aquilo que batia no seu peito realmente era a paixão surgindo aos poucos.

Kagome fingiu não ter escutado, mas um sorriso gigantesco surgiu nos seus lábios naquele instante. Adormeceu pouco tempo depois sem se preocupar com mais nada, mas Inuyasha permaneceu sentado ali diante de si durante o resto da noite, retirando o cobertor do seu rosto e observando o sorriso lindo que havia ali.

Sim, talvez ele pudesse ser o garoto doce dos sonhos dela.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!