Atmosphere
10 You are my gingerbread man
Notas iniciais
Clarke não queria ficar em casa. Seu coração ferido palpitava, sua memória traiçoeira usava de todas as artimanhas para vê-la ainda pior do que já estava. Ela encarou seu próprio reflexo, criado na porta de vidro do bar a sua frente. No fim das contas, ficar sóbria não era exatamente o que ela precisava.
A médica abriu a porta e caminhou pelo lugar até entrar na área de bebidas, se sentando no balcão e pedindo um martini. O bar estava relativamente cheio, e Clarke percebeu o pequeno palco mais a frente, onde duas garotas nenhum pouco sóbrias cantavam uma música qualquer da Katy Perry. Elas estavam tão soltas e se divertiam tanto que a loira as invejou por um momento. Por que não podia se divertir como todos? Porque sua maldita mente a prendia no mais terrível dos seus problemas: o dono do sorriso incrível e de tirar o fôlego, das mãos quentes e calejadas, dos músculos definidos e dos olhos negros como o Universo.
"Pare, Clarke!", ela ralhou consigo mesma, virando todo o líquido do copo em sua boca, "Ele é um problema, e você está fora disso, ouviu? FORA. DISSO!". A Griffin abaixou a cabeça, a sacudindo em negativa. Sentiu alguém se sentar ao seu lado; a moça tinha cabelos lisos e compridos, olhos castanhos claros e quaisquer chances dela estar bêbada eram válidas. Era uma das garotas que estava no karaokê. Ela pediu uma mistura qualquer ao barman e virou-se para a médica, usando o indicador para erguer seu queixo. Ela abriu um sorriso irônico e murmurou um "ãhn, ãhn", com um sacudir de cabelos.
— Por favor, não me diga que você está sofrendo por um homem. — a garota pediu, rolando os olhos — Querida, você é gostosa. Qualquer um dentro desse bar vai te querer de quatro berrando seu nome.
— E você é? — Clarke resmungou, começando a ficar irritada.
— Echo, ao seu dispor! E você, garota? — ela virou o copo em seus lábios, soltando uma gargalhada — Tristan, mais um copo!
— Sou Clarke.
— Bem, Clarke, se você quer se divertir, tome mais um gole e suba naquele palco!
Echo batia palmas, totalmente fora de si. A Griffin abriu um sorriso e virou o copo mais uma vez, e outro, e mais outro, aquela estranha estava certa. Mesmo a beira de uma overdose alcoólica, estava coberta de razão. Ela não deveria estar sofrendo por ele, deveria se divertir, ser ela mesma pelo menos uma vez na vida. Ela se levantou do banco e caminhou a passos decididos até o palco, onde o microfone lhe esperava. Seus dedos claros tocaram a tela do tablet onde as músicas seriam selecionadas até encontrar a perfeita. Quando achou a mesma, ela abriu um sorriso e tocou na música, Gingerbread Man, da Melanie Martinez. A melodia invadiu o bar e Clarke envolveu o microfone com suas mãos, encarando a multidão antes de começar a cantar.
I'm frosting
(Estou congelando)
I don't need a man to make my life sweet
(Eu não preciso de um homem para adoçar minha vida)
Prince charming
(O príncipe encantado)
Just isn't the one that I think I need
(Simplesmente não é o que eu acho que preciso)
You're thirsty
(Você está sedento)
You think I give out all my shit for free
(Acha que dou tudo de graça)
I'm bursting
(Estou transbordando)
Out laughing at idiocy
(Rindo de toda essa idiotice)
As pessoas pareciam gostar da voz suave de Clarke. Desde nova, todos acreditavam que a loira tinha um dom para a música, mas ela simplesmente negava. Seu sonho era ser médica, cuidar das pessoas, ajudá-las... Era ser como sua mãe. Maldito fosse o tráfico. Maldita fosse a reviravolta que sua vida estava levando. Desde que seu pai morrera, todas as noites, ela se perguntava como sua vida seria se Abigail fosse apenas uma médica. Ela imaginava se estaria em Savannah, se teria conhecido Bellamy. Se teria seu coração mais uma vez quebrado. Ah, como era tudo tão ridículo. Desde quando ela abaixara suas barreiras e estava sofrendo por um problemático? Ela sorriu para o público, sentindo a música invadir seu corpo, a acalmando.
I need a gingerbread man, the one I'll feed
(Eu preciso de um homem de biscoito, quem eu vou alimentar)
The gingerbread man, the one I'll eat
(O homem de biscoito, quem eu comerei)
One who's always crazy
(Aquele que está sempre louco)
Never calls me baby
(Nunca me chama de amor)
That's the one that I want
(Esse é quem eu quero)
All you boys are not him, him
(Todos vocês, garotos, não são como ele)
Ela o queria, o desejava. Seu corpo parecia entrar em combustão quando ele estava por perto. Mas resistia. Tinha de resistir. Talvez ele nem se importasse com ela de verdade, talvez apenas quisesse levá-la para a cama e adicioná-la a sua longa lista de garotas pegas com sucesso. Se ele realmente se importasse, não teria beijado Anya, teria? Ah, sua mente estava a castigando, açoitando-a a cada pensamento, fazendo-a querer chorar e trancar em seu quarto pelo resto do ano.
Lá na frente, a porta se abriu, revelando a expressão preocupada de Bellamy Blake. Queria se desculpar, a segurar apertado e dizer que sentia muito. Empurrando os bêbados da sua frente, ele caminhou até o balcão de bebidas, e estava prestes a perguntar sobre a loira quando ouviu sua voz doce e suave ecoar pelo estabelecimento.
Can't you see?
(Você não pode ver?)
I only want the ones who never see me
(Eu só quero aqueles que nunca me veem)
But I'm happy
(Mas eu estou feliz)
I love playing these games until my heart bleeds
(Eu adoro jogar esses jogos até meu coração sangrar)
It bleeds jelly
(Ele sangra gelatina)
Cause you don't want someone to eat your cookie
(Porque você não quer que alguém coma seu biscoito)
Can someone please
(Alguém pode, por favor)
Find him for me, find him for me?
(Encontrá-lo para mim, encontrá-lo para mim?)
Ele a encarou, enquanto a mesma levemente se sacudia ao som da música, segurando o microfone com as duas mãos. Blake não impediu o sorriso de nascer em seu rosto, vendo-a tão feliz e solta, mesmo que sobre influência do álcool. Os cabelos loiros estavam soltos, rodeando seu rosto, o emoldurando como um quadro angelical. Como ele poderia ter ficado tão apaixonado por uma garota como agora? Talvez fosse sua pele, tão macia e cheirosa. Talvez fosse seus lindos olhos azuis, claros e profundos como a nascente de um rio. Talvez fosse sua personalidade forte, divertida, e totalmente independente. Ela o prendia de forma fixa, com a força de uma atmosfera.
"Eu preciso de você, Clarke.", sua mente sussurrou, tão baixinho que mal ele mesmo pôde ouvir, "Eu preciso de você como um planeta precisa da sua atmosfera."
I need a gingerbread man, the one I'll feed
(Eu preciso de um homem de biscoito, quem eu vou alimentar)
The gingerbread man, the one I'll eat
(O homem de biscoito, quem eu comerei)
One who's always crazy
(Aquele que está sempre louco)
Never calls me baby
(Nunca me chama de amor)
That's the one that I want
(Esse é quem eu quero)
All you boys are not him, him
(Todos vocês, garotos, não são como ele)
Clarke começou a dançar, se sacudindo, gargalhando, totalmente livre. Os homens gritavam enlouquecidos, as garotas riam animadas, e uma morena gritava o nome da loira muito entusiasmada, como se fossem amigas. Bellamy se encostou num dos bancos do balcão, e apenas pediu um copo d'água, atraindo risadas irônicas dos bêbados ao seu redor. Ele estava vendo a médica sendo ela mesma, e por nada no mundo iria se esquecer.
I'm the icing covering his body
(Eu sou o glacê cobrindo seu corpo)
I wanna hold him so close, so tightly
(Eu quero segurá-lo tão forte, tão apertado)
Baby how do I say this politely?
(Querido, como eu posso dizer isso, educadamente?)
Love me hard and don't be nice, please
(Me ame com força e não seja gentil, por favor)
I wanna feel your crumbs on my body
(Eu quero sentir suas migalhas sobre meu corpo)
I want to break you in pieces like me
(Eu quero que te quebrar em pedaços como eu)
Baby don't be so scared of biting
(Querido, não tenha medo de morder)
Want to eat each other into nothing
(Quero que comamos um ao outro até virarmos nada)
Ela realmente queria aquilo? A mente do Blake aventurava-se em perguntas. O que Clarke queria realmente dizer com aquela música? Ela sorriu, encarando os olhos negros de Bellamy com tanta intensidade que pareciam soltar eletricidade. Ela não parecia tão furiosa agora. Ela realmente parecia... Eletrizante.
I need a gingerbread man, the one I'll feed
(Eu preciso de um homem de biscoito, quem eu vou alimentar)
The gingerbread man, the one I'll eat
(O homem de biscoito, quem eu comerei)
One who's always crazy
(Aquele que está sempre louco)
Never calls me baby
(Nunca me chama de amor)
That's the one that I want
(Esse é quem eu quero)
All you boys are not him, him
(Todos vocês, garotos, não são como ele)
A melodia ecoou até acabar. Clarke se abaixou e vez uma reverência ao pessoal, cambaleando para fora do palco. Bellamy correu em sua direção, chegando a tempo de segurá-la e impedir que enterrasse seu rosto no chão. Ela sorriu, um tanto grogue, e pediu, numa fala enrolada, que a levasse para fora. Assim ele o fez. Já do lado de fora, ela se agachou e começou a vomitar, a poça branca do álcool formando-se no chão. Ele segurou seus cabelos, enquanto ela continuava a regurgitar, indo para frente e para trás, arqueando as costas. Tossiu algumas vezes, até terminar o que estava fazendo. O moreno a ajudou a se levantar, e ela enlaçou seu pescoço com os braços, rindo.
— Clarke, você está bêbada. — ele avisou, a segurando pelos cotovelos, enquanto a mesma respirava contra seu pescoço — Você não quer fazer coisas que vai se arrepender depois.
— Você é meu homem de biscoito, Bellamy. — ela sussurrou e riu, aproximando seus lábios do mesmo — Meu doce, doce homem de biscoito.
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