Atmosphere
6 Maybe having a job is not that easy
Notas iniciais
Am I in love with you? Am I in love with you?
Or am I in love with the feeling?
Trying to find the truth, trying to find the truth
Sometimes the heart is deceiving
Can't get out of my head, I need you to save me
If I am delusional then maybe I'm crazy
In love with you, am I in love with you?
Or am I in love with the feeling?
— The Feeling, Justin Bieber.
Na manhã daquela segunda-feira, Clarke abriu os olhos com uma perspectiva diferente do mundo.
Octavia e Raven ainda dormiam na sua sala de estar, em um colchão de casal, enquanto a mesma estava deitada no sofá. Sua intrevista de emprego seria dali a três horas, e seu estômago parecia ter vida própria de tanto nervosismo. Ela era uma boa médica, dedicada e muito esforçada. Mas mesmo sabendo de suas qualidades, ela ainda tinha medo de não ser aceita.
Correu até a cozinha e preparou o café, enquanto a Blake acordava e caminhava direto para o segundo andar atrás de um bom banho frio para despertar os ossos de seu corpo. Octavia era professora de artes marciais na renomada academia Grounder, por isso tinha músculos definidos e um corpo sarado de invejar qualquer mulher. Lincoln também era professor no mesmo estabelecimento. Ela ensinara a Clarke uma coisa ou outra para que pudesse se defender durante as festas. A loira iria usar uma de suas técnicas em Finn, mas Bellamy fora mais rápido.
Sacudindo a cabeça, Griffin levou a xícara de café aos lábios rosados e observou a neve do lado de fora. Perguntava-se quando veria o Sol do verão brilhando naquela cidade, para que pudesse dar um passeio de escuna ou apenas observar o mar no cais de Savannah. Por outro lado, Clarke amava a neve. O tempo chuvoso e escuro a fazia se recordar dos tempos em que ela e seu pai passavam a tarde inteira vendo filmes e jogos de futebol. Com um suspiro, se afastou da janela. Era um dia de glória para ela, não queria estragá-lo com lembranças de um tempo que jamais voltaria a ter.
— Bom dia, Clarkey. — Octavia desejou, com os cabelos ainda molhados — Animada pra sua entrevista?
— Bom dia, O. Eu não consigo parar de pensar nisso. — Griffin mordiscou o lábio — E se me recusarem? Se eu não for boa o suficiente?
A garota dos cabelos morenos rolou os olhos e segurou os ombros da amiga, encarando fundo as lagoas azuis límpidas e claras dela. A Blake também era conhecida por ser um poço de incentivo e esperança. Estava sempre apoiando seus amigos, não importava no que fosse. Segundo todos ao seu redor, ela era mesmo uma mulher incrível e abençoada.
— Clarke, pelo amor de Deus, eu vou fingir que não ouvi essas perguntas saindo da sua boca. Você é a pessoa mais incrível e competente que eu já conheci! — Octavia praticamente berrou — Meu irmão tem pontos no braço, eles foram feitos em casa, e dão de mil em qualquer outra sutura que algum médico de araque faça por aí. Se o Ark não te aceitar, tenha em mente uma coisa: são eles que estão perdendo você.
— O, você só não é canonizada por causa das festas. — Griffin segurou a amiga num abraço apertado, rindo — Obrigada por estar sempre me apoiando.
— É isso o que amigos fazem, né? Agora, vai se arrumar que eu e Raven cuidamos de tudo. Aliás, meu irmão disse que vai passar aqui e te dar uma carona pro hospital, e ele não gosta de atrasos.
— Awn, que lindo! — Raven exclamou, abraçando a amiga por trás, lhe fazendo levar a mão ao peito devido ao susto — Logo vamos ter mais uma Blake na família, O!
Clarke rolou os olhos rindo, empurrando o ombro da amiga e gritando um "vai se danar, Raven". Ela subiu as escadas e esgueirou-se até seu banheiro, trancando a porta e entrando debaixo do chuveiro. Os dedos claros massageavam seu couro cabeludo com cuidado, espantando a preguiça matinal de uma vez por todas. Iria aceitar a carona de Bellamy por motivos bem simples: ela não conhecia a cidade, e não sabia o caminho para o hospital. Saiu do banho sentindo seus músculos renovados e relaxados, como se a tensão se dissipasse feito fumaça ao vento. Enrolada em sua toalha, ela caminhou até seu quarto e trancou a porta, virando-se para seu armário e escolhendo o melhor vestido que possuía ali. Não, ela particularmente não gostava nenhum pouquinho de vestidos, mas queria — e precisava — causar uma boa primeira impressão. Após vestida, ela se maquiou com cores leves e passou um batom claro, seguindo os padrões de sua pele. Com o secador, fez leves cachos em seu cabelo dourado, e logo ela estava pronta. Ao olhar no relógio em seu pulso, ela reprimiu um gritinho de surpresa e medo. Havia perdido duas horas e dez minutos em tomar banho e se arrumar, coisa que jamais havia feito antes em sua vida.
Quando desceu as escadas, ela sentiu seu coração falhar uma batida e quase caiu dos últimos degraus da escada. Bellamy estava ali, apoiado na pilastra da cozinha, sozinho, e não havia sinal de Raven nem Octavia ao redor, apesar das louças estarem lavadas e guardadas nos armários. Clarke engoliu em seco quando o rapaz levantou seus olhos escuros até ela. Ele sentiu seus lábios o traírem, contorcendo-se em sua face até formarem o tão belo sorriso de dentes brilhantes. As orelhas de Griffin esquentaram mais rápido do que um microondas, e ela torceu para não estar corada. Após um longo suspiro, ela caminhou até ele e o cumprimentou com um sorriso caloroso, refletindo como ela se sentia para com ele. Bellamy Blake era como uma espécie de droga; tê-lo era maravilhoso e especial, mas os efeitos colaterais poderiam ser desastrosos.
— Oi, Bell.
— Bell? — ele riu, erguendo uma sobrancelha.
— Seu nome é comprido, ok? — Clarke desconversou, nervosa — Ei, onde estão Raven e Octavia?
— Elas saíram e apareceram lá em casa. O me enxotou pra fora, dizendo que você estava me esperando, então eu meio que não tive muita escolha. Podemos ir?
Ela assentiu com a cabeça, enquanto caminhava até a porta e abria para o rapaz sair. Já do lado de fora, a loira deu um sorriso ao observar o carro do Blake. Era um Opala preto, com rodas cromadas e um escapamento discreto. Clarke e seu pai eram fãs de carros e motos, seus maiores passatempos quando estavam juntos era assistir programas de restauração. Ela sacudiu a cabeça com leveza, observando enquanto Bellamy lhe direcionava um sorriso de lado e dizia-lhe para entrar no carro. A Griffin rolou os olhos e sentou no banco da frente; ele ainda era Bellamy Blake, o garoto estupidamente arrogante do sorriso mais bonito que ela poderia ter conhecido.
— Você parece nervosa.
— Nunca trabalhei num hospital. Quer dizer, já vi minha mãe trabalhando várias vezes, mas…
— Agir por sua própria conta e risco é muito mais complicado. — ele concluiu, olhando para a estrada.
Ela o observou enquanto o mesmo continuava concentrado no asfalto a sua frente. Como aquele rapaz, praticamente um desconhecido, poderia entendê-la tão bem? Com um suspiro, ela tentou focar sua mente em outra coisa, como por exemplo, a entrevista de emprego que tinha para ali pouco mais de meia hora. O nervosismo tomou conta de seu estômago novamente e ela respirou fundo, rodando o relógio em seu pulso repetidamente. Aquela fora a última coisa que seu pai havia lhe dado, quando Clarke completara seus vinte anos de idade, a quatro anos atrás. A frase que ele havia dito naquela manhã ainda estava fresca em sua mente. "Este relógio marcará não apenas as horas de seus compromissos, nem da saída do seu trabalho. Este relógio, minha flor, marcará cada minuto do seu futuro brilhante". Lágrimas ameaçaram seus olhos, mas ela se manteve firme, olhando fixamente para o pedaço cinzento de asfalto que surgia a sua frente.
Bellamy tinha sua mente tão longe quanto a de Clarke. Quase sempre sua cabeça divagava até o fatídico dia em que perdera sua mãe, e passara a ter pesadelos quase todas as noites. Os gritos de dor, as súplicas por socorro. Aquilo o atormentava a quatorze anos da sua vida, e ainda costumava lhe fazer visitas sorrateiras durante seu sono. Ficara aliviado por não ter tido pesadelos na noite anterior, pois assim a dona dos olhos azuis ao seu lado não poderia ver seus demônios o torturando durante seu sono. Pensar nisso o fez franzir o cenho e observar discretamente a garota sentada em silêncio no banco do seu carro.
Bellamy tentava burlar os pesadelos de todas as formas possíveis. Fosse bebendo até esquecer seu próprio nome, ou se relacionando com todas as mulheres que conseguisse seduzir em festas e baladas. Nunca funcionava, e as vezes, as tentativas de esquecer de seus malditos sonhos só os piorava. Mas naquela noite… Naquela noite, fora tudo muito tranquilo. Sem nenhuma única visão sequer em sua cabeça. Que efeitos aquela garota poderia ter nele? Ela era um experimento diferente, com efeitos e resultados desconhecidos. Um verdadeiro campo minado, no qual Blake estava seriamente disposto a entrar de cabeça erguida.
— E ali está o Ark. — Bellamy declarou, com um falso sorriso no rosto, que obviamente não passou despercebido pelo olhar atento da loira.
Era um grande complexo de prédios brancos, no alto de uma pequena colina. Um jardim de tirar o fôlego estava devidamente regado na frente do lugar, e ambulâncias entravam e saíam de dez em dez minutos. O chefe da segurança parou o carro no estacionamento para funcionários e deixou que Clarke saísse primeiro. O nervosismo a atingiu em cheio novamente, havia se esquecido de como hospitais são cheios e movimentados. Mordiscando sua bochecha e rodando freneticamente o relógio em seu pulso, Griffin estava a um tênue fio de entrar em um colapso nervoso.
— Você vai se sair bem. Só precisa falar com o doutor Jackson.
— Eu não sei. E se eu…
— Clarke, por favor, para com todo esse drama e entra logo. — Blake rolou os olhos, sorrindo na sua direção. Uma aura de confiança parecia irradiar daquele sorriso.
Ela respirou fundo algumas vezes e se acalmou. A passos velozes e finalmente confiantes, a dona dos cabelos dourados entrou na recepção e colocou um pequeno sorriso no rosto, enquanto a recepcionista erguia seus olhos claros na direção da moça. Ela usava um terninho preto com lenço verde preso em seu pescoço. A pele branquíssima contrastava com os cabelos negros. O crachá prata em seu peito revelava que seu nome era Maya.
— Bom dia, eu…
— Senhorita Griffin, não é? — apesar de surpresa, Clarke assentiu, confusa — O doutor Jackson está esperando no escritório dele. Segundo andar, terceira sala à direita.
A moça agradeceu e continuou seu caminho até a sala indicada. Enquanto subia no elevador, a loira arrumava o cabelo, girava incansavelmente o relógio, examinava cada botão do painel e mordiscava sua bochecha. Quando as portas de metal se abriram e ela seguiu corredor abaixo até a sala que procurava, ela parou, respirou profundamente mais uma vez e bateu na porta com os nós dos dedos. A Griffin precisou segurar um suspiro surpreso ao ver o melhor amigo de sua mãe abrir a porta com um sorriso.
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