Atirador no prédio
1 Atirador no prédio
Notas iniciais
— Qual é? Você realmente não sabe imprimir um relatório? — Júlia debochou com um sorrisinho torto nos lábios.
Júlia estava com o traseiro escorado no balcão da recepção, onde seu computador ficava instalado. Igor, sentado na cadeira giratória, fez um muxoxo ao ouvir a provocação da amiga. Eles estavam ali fazia meia hora, com Júlia fazendo piadinhas a seu respeito, enquanto ele não conseguia imprimir aquele maldito relatório. Na verdade, ele desconfiava que nem ela sabia como fazer aquilo.
— Por que você não me mostra como faz? — Igor bateu com a mão na coxa começando a ficar irritado — Eu só estou aqui há uma semana, não sei de tudo ainda. Além do mais, é você quem está me treinando, não é?
— Exatamente. E é por isso que vou deixar você descobrir sozinho, assim você nunca mais esquece. — Júlia cruzou os braços satisfeita com sua fala.
Júlia tinha vinte e três anos e era a funcionária mais antiga daquela unidade. A empresa na qual trabalhavam tinham várias filiais espalhadas pela cidade, e aquela unidade era uma das mais importantes. A empresa era um grupo de laboratórios de análises clínicas, onde as unidades realizavam a coleta de sangue e enviavam as amostras para o Núcleo Técnico Operacional localizado junto à matriz no centro da cidade.
Portanto, sempre que um novo funcionário entrava para trabalhar naquela unidade, era Júlia quem tinha a função de treiná-lo. Ela era responsável por ensinar a usar o sistema onde realizavam os atendimentos dos pacientes, e no momento estava forçando Igor a lembrar de tirar o relatório, como ela havia ensinado no dia anterior. Porém, Igor se mostrou muito mais lento do que imaginava, e uma simples atividade era uma quimera de dez cabeças para ele.
Igor estava olhando para a tela do computador à sua frente, usando todos os seus neurônios para lembrar onde deveria clicar com o mouse para tirar o relatório dos atendimentos do dia. Júlia suspirou começando a ficar entediada daquilo e olhou para o relógio de pulso. Estava quase na hora de irem embora e Igor ainda estava todo perdido.
Pelas janelas atrás do balcão de atendimento, Júlia conseguia ver o interior do prédio ao lado. As janelas eram tão perto umas das outras que ambos conseguiam se ver perfeitamente trabalhando cada um em seu prédio. Ali, da janela do segundo andar, Júlia via algumas mulheres em seus uniformes verdes com o logotipo da empresa onde trabalhavam andando pelo escritório, realizando suas tarefas rotineiras, assim como todos os dias.
Vez ou outra, Júlia cumprimentava suas vizinhas de trabalho, e ela ia fazer isso naquele exato momento, quando a mulher que ela ia cumprimentar pela janela se assustou com algo dentro do seu próprio andar. Outras funcionárias do edifício ao lado também se alarmaram com a mesma coisa. Elas estavam olhando para a mesma direção, mas Júlia não conseguia ver o que era, pois as outras janelas estavam fechadas, de modo que ela via apenas o vidro espelhado.
Um silêncio absoluto precedeu aquele momento, da qual Júlia não fazia ideia do que aconteceria.
Enquanto observava as mulheres do prédio ao lado andarem para trás lentamente, Júlia desencostou seu traseiro do balcão e andou em direção a janela para ver se conseguia uma visão melhor do que estava acontecendo. Ela esticou o pescoço para fora da janela aberta, mas ainda só via as funcionárias amedrontadas olhando na mesma direção.
— Desisto, Júlia. Por favor, me ensina de novo — Igor resmungou da cadeira giratória.
— Shhh, fica quieto — Júlia respondeu sussurrando com o olhar fixo no outro edifício, sinalizando silêncio com a mão para trás.
Igor, que não entendeu aquilo, tampouco quis entender, bufou baixinho e descansou o queixo na palma da mão.
Júlia estava concentrada na cena do outro prédio e olhava para suas colegas de janela questionando-as com o olhar. Uma delas olhou de volta para Júlia amedrontada e mexeu os lábios formando a palavra “socorro” sem emitir som algum. No momento seguinte, uma sombra atravessou uma das janelas do outro prédio e revelou uma pessoa. Era um homem com um dos braços esticados para frente, apontando uma arma para as mulheres.
— Tem um atirador no outro prédio — Júlia murmurou.
Ela andou para trás com as pernas ficando moles.
— O quê? — Igor perguntou, saindo de um devaneio, sem entender o que a colega havia dito.
Júlia estava prestes a repetir sua fala, mas não foi preciso, pois um estrondo invadiu cada centímetro do segundo andar de ambos os prédios. Igor caiu da cadeira e foi direto para o chão com os olhos arregalados e Júlia se jogou para trás, tropeçando em Igor estirado no chão.
— O que houve? O que houve? — as duas outras funcionárias do laboratório, que estavam em outro cômodo, vieram correndo desesperadas.
— Se abaixa! — Igor sussurrou berrando para as duas.
Pow!!!
Outro tiro.
Júlia se encolheu rápido quando ouviu o barulho. Seus olhos agora lacrimejando e o corpo todo tremendo depois de ter visto a funcionária do outro prédio, a que estava pedindo socorro, levar um tiro no meio da testa. Agora aquele furinho vermelho na cabeça da mulher não saía de sua mente.
Gritaria podia ser ouvido através das janelas e sons de objetos caindo no chão.
Júlia engatinhou pelo laboratório e foi até a porta de entrada, do lado oposto do prédio onde estava acontecendo o tiroteio.
Pow, pow, pow!
Júlia olhou para trás com um grito preso na garganta. Igor a encarou por debaixo do balcão da recepção. Ele estava feito uma bolinha toda encolhida no chão.
Ela virou-se novamente e atravessou a porta de entrada. Ela olhou para a porta da clínica ao lado, mas eles já haviam encerrado o expediente duas horas atrás, só haviam eles ali naquele andar.
Júlia ficou no pequeno espaço de entrada do segundo andar, entre os dois elevadores e a porta branca que levava à escada de emergência. Ela andou até um dos elevadores e apertou o botão para chamá-lo até aquele andar. O painel em cima da porta do elevador indicava que ele estava no décimo andar, descendo vagarosamente até ela.
Pow!
Júlia virou o pescoço bruscamente na direção do tiro e ficou em silêncio.
Aquele tiro parecia ter vindo de tão perto. Por um segundo, seu corpo petrificou. Ela não sabia se deveria se mexer ou não.
O elevador estava próximo agora.
5...
4…
3…
Então, repentinamente, as luzes do painel apagaram e o elevador parou. As luzes do segundo andar também haviam se apagado e Júlia estava no escuro agora. A claridade de fora batia nas janelas foscas do segundo andar e iluminava vagamente o ambiente, de modo que ela enxergava apenas a silhueta das estruturas.
Júlia voltou até a porta do laboratório e avistou os colegas de trabalho em pé no meio da recepção olhando-na, como se ela fosse responder todas as suas perguntas. Afinal, eles tinham-na como uma líder,já que estava ali havia tanto tempo e conhecia as coisas melhor do que eles.
Passos foram ouvidos através da porta branca à sua direita. Portanto, Júlia foi nessa direção, esperando encontrar ajuda. Quando ela abriu a porta, se deparou com várias pessoas correndo escada abaixo em meio a escuridão. Ela ouvia vozes assustadas e choramingos de pavor. Júlia retornou ao laboratório e chamou seus colegas com a mão, temendo fazer qualquer barulho. Eles obedeceram a seu chamado e seguiram-na rumo às escadas. No entanto, novos tiros surgiram, desta vez vindo de dentro do prédio, e pelo eco estrondoso que sucedeu os disparos, vieram das escadas, mas Júlia não conseguiu identificar de qual direção, se de cima ou debaixo. Mas no momento seguinte, as pessoas começaram a correr escada acima novamente, gritando e empurrando umas as outras.
Júlia deu um passo para trás e fechou a porta branca novamente.
— Rápido, vamos para dentro do laboratório! — ela ordenou.
Eles correram de volta e fecharam a porta de vidro do laboratório.
— Jogue a chave pra mim, Denise! — Júlia pediu, enquanto Denise vasculhava a gaveta do balcão da recepção.
Júlia olhou com urgência da porta para Denise, até que sua colega encontrou a chave e a arremessou para ela. Ela trancou a porta e fez sinal com as mãos para que todos fossem para o outro cômodo, que levava à copa e ao DML. Eles entraram e fecharam a primeira porta com chave. Júlia parou ali, enquanto os outros correram para a copa e para o DML. Porém, Júlia refletiu por um segundo. Ali onde estava, que era a salinha da triagem das amostras, tinha uma janela. Se eles fossem para a copa ou DML, ficariam encurralados, pois não haviam janelas ali, eram recintos fechados, protegidos apenas por portas frágeis de MDF.
— O que está fazendo? Vem logo, Júlia — Igor sussurrou nervoso.
— Não, vamos tentar descer pela janela. Se a gente ficar aqui, vamos morrer.
— Mas a gente vai fechar a porta!
Um ruído veio da entrada do segundo andar, fazendo-os ficarem imóveis.
Igor chamou Júlia uma última vez com a mão, tentando convencê-la de entrar na copa e no DML com eles. Mas Júlia abriu a janela da sala de triagem, passando por ela, ao mesmo tempo que um tiro invadiu o laboratório, seguido por sons de estilhaços de vidro.
O atirador havia entrado no laboratório.
Júlia viu Denise puxar a manga da blusa de Igor com a expressão apavorada. Então Igor desistiu de Júlia e entrou para dentro da copa, fechando a porta logo em seguida.
Por sua vez, Júlia tirou o corpo para fora da janela, agarrada à beira do edifício, e fechou-a logo depois. Ela desceu os pés até tocarem na caixa de um ar-condicionado do andar de baixo, e ficou ali, escondendo a cabeça para que não fosse vista através da janela da sala da triagem.
Ela olhou para baixo, medindo se conseguiria pular sem se machucar, mas tinha quase setenta por cento de certeza de que se pulasse morreria ou ganharia várias fraturas.
Pow, pow!
Os tiros vieram de tão perto que ela sobressaltou-se e quase escorregou da beirada do edifício. Em seguida, o estrondo da porta da triagem sendo chutada anunciou a chegada do atirador. Júlia se encolheu o máximo que conseguiu, escondendo o corpo na lateral do prédio.
Sons de maçaneta e depois mais um chute, na porta de MDF da copa dessa vez.
Sons de passos.
Novamente sons de maçaneta e mais um chute, na porta da DML agora.
E sons de gritos. Gritos femininos ensurdecedores de suas colegas de trabalho e a voz de Igor tentando convencer o atirador de não atirar.
Pow, pow, pow, pow,pow!!!!
Júlia se espremeu e mordeu o lábio superior, suprimindo o grito e o choro.
Em seguida, um silêncio mórbido.
Júlia sabia que isso significava que todos estavam mortos dentro do DML. Ela não conseguiu evitar que as lágrimas empapassem suas bochechas.
Sons de passos.
E uma janela se abrindo acima de sua cabeça.
Júlia olhou para cima e viu o atirador encarando-a com o rosto parcialmente coberto por um capuz de casaco escuro.
— Aí está você. — ele disse com a voz sombria e grave.
Ele fez um movimento e Júlia sabia que ele iria atirar nela, por isso fez a única coisa que poderia salvar sua vida. Júlia soltou as mãos do parapeito e jogou o corpo para trás.
Enquanto caía no ar, ergueu a mão e mostrou o dedo do meio para o atirador.
Ele, por sua vez, soltou um urro de raiva e atirou contra Júlia. Mas os tiros pegaram de raspão. Um projétil passou zunindo pela orelha de Júlia, outro, rasgou a manga de seu uniforme e cortou milímetros de pele, produzindo apenas um arranhão.
Júlia ouviu outros disparos, mas ela não viu para onde foram, apenas não pegaram nela. Após uma queda rápida, Júlia caiu de costas em cima de um toldo, que ela sequer havia visto quando estava escorada no parapeito. Seu corpo deslizou pelo toldo macio no térreo e caiu de lado para fora dele. Júlia aterrissou de joelhos no chão frio e com as palmas das mãos arrastando no concreto, ralando sua pele.
Sem sequer olhar para cima novamente, Júlia correu pela lateral do prédio e alcançou a rua rapidamente. Ela estava chorando e arfando desesperada, mas não parou ali, correu pela rua, em busca de ajuda. Na tentativa de se distanciar o máximo possível do prédio onde o atirador estava, correu até o final da rua numa explosão de adrenalina. Só quando viu viaturas policiais passarem por ela em direção ao edifício, ela parou para respirar e percebeu que estava trêmula e fraca. Ela se debruçou sobre uma mureta e sua visão escureceu. Ela desmaiou no momento em que as sirenes das viaturas silenciaram ao chegar no edifício e pessoas na rua a socorreram.
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