At The Ballet
18 Recital de Outono
Notas iniciais
Santana e Brittany se prepararam lentamente para o ballet. Elas deixaram a biblioteca e foram até o quarto de Santana. Arrumaram suas coisas, num silêncio tão confortável que não viam a real necessidade de quebra-lo. Brittany desceu para tomar café enquanto Santana pediu um minuto para entrar no quarto de Elizabeth. Estava vazio. Seus pais não haviam chegado ainda. Ela não sabia mais o que esperar e então desceu, esperando que seus pensamentos se perdessem nas bobagens do dia-a-dia.
Brittany estava conversando com Anna quando Santana desceu. Ela entregou uma xícara de chá com leite para Santana que Anna havia preparado para as duas.
–Anna, mamãe ligou? Disse alguma coisa? -perguntou Santana se sentando a mesa.
–Ontem a senhora disse que era para eu cuidar de vocês. Felícia já levou Rachel para a escola. Acho que eu levo vocês hoje. Vocês sabem o caminho? Não tem problema, eu já chamei o John.
Santana deu uma risadinha.
Anna levou as duas na traseira do carro. Quando viraram a esquina e viram a Academia, as duas suspiraram aliviadas. Era como voltar a ter uma parte de volta. Um pedaço do caminho. O pedaço que as conectou.
–Vocês tem aula aqui? -perguntou Anna irada. Ela estava fascinada, tinha até um sorriso no rosto.
–Sim! É maravilhoso, não? -confirmou Brittany sorrindo.
–É sim. -confirmou Anna. -Meninas! Eu venho buscá-las assim que terminar. Eu mando algum recado se a senhora ligar, tudo bem Santana?
–Está ótimo, obrigada Anna. Adeus John! -disse Santana saindo do carro sendo seguida por Brittany que agradecia John e Anna. O carro virou a esquina e não o veriam tão cedo.
–Eu senti falta. -disse Brittany.
–Eu também. Principalmente dos comentários da professora Patrick sobre afinação. -disse Santana rindo enquanto atravessavam a rua.
–Sim! "Mais alto, por favor! Você consegue! Alguma taça quebrou, mas não foi por sua nota. Mais alto!" -disse Brittany imitando Daisy Patrick, professora de música. -Eu não sou boa com imitações.
–Foi ótima! Mas acho melhor não fazermos mais nada disso por enquanto.
Elas adentraram o hall de entrada e era a mesma visão, sempre. As bailarinas correndo, sentadas, saltando, pulando, conversando. Faziam tudo antes de serem subirem para as aulas. Brittany olhou para Santana que começou a rir. Era bastante barulhento, mas era tão caloroso. Era como se entrasse numa dimensão oposta e o mundo tivesse virado de cabeça para baixo.
Santana e Brittany entraram no vestiário para se trocarem e acharam umas meninas com quais compartilhavam as aulas. Faziam perguntas sobre o recesso, sobre o Recital de Outono. Principalmente para Brittany que sempre ganhava os solos. Santana parou de enlaçar o laço na panturrilha apenas para ouvir Brittany falar que não se importava tanto assim em conseguir solos. Ela parou só para admirar o brilho a mais que Brittany recebia quando estava naquele lugar. Brittany viu que ela olhava e sorriu de volta.
–Vamos, Sant. Termina o laço e vamos subir para nos aquecer. -disse Brittany que pegou nas mãos de Santana e começou a desfazer o laço e a refazer com as mãos de Santana debaixo das suas. Ela olhava para Santana que retribuía o olhar. As outras bailarinas nem se importavam, aquela cena era normal e inocente, mas elas não sentiam o que realmente estava acontecendo.
Elas foram as primeiras a chegar e começaram a se alongar pelo chão seguindo para barra e as outras bailarinas foram chegando. Samantha Smith, a professora de ballet, foi a última chegar. Ela adentrou ao estúdio com um homem meio desengonçado e engraçado.
–Muito bem! -disse srta. Smith batendo duas palmas seguidas fazendo com que as meninas ficassem lado a lado num círculo. -Podem sentar. Hoje, não vamos começar pela técnica. Vamos falar sobre um assunto mais importante. Recital de Outono. Como a maioria de vocês já sabem, nossa Academia fica, desde sua abertura, entre as cinco academias escolhidas para o Recital de Dança. Cada academia junta onze alunas exemplares com talentos natos para exemplificar e mostrar o que nossa academia tem feito. Ele acontece no Teatro Real de Londres, onde milhares de bailarinas já tiveram o prazer de dançar. Temos um talento conosco que ganhou os três últimos solos.
As meninas, e principalmente Santana, bateram palmas. Brittany corou e agradeceu.
–Continuando. São onze meninas de toda a academia que irão. Ninguém tira o lugar de ninguém. Sou eu própria que escolho. E quero que prometam que não vão estragar ou prejudicar de nenhum jeito a performance ou a pessoa escolhida para o Recital. Vocês prometem?
As meninas assentiram.
–Ótimo! É um Recital rentável e todo o dinheiro é guardado para uma instituição de caridade de cada Academia.
Uma meninas com cabelo preto e olhar verde levantou a mão.
–Sim, Margareth? -perguntou a srta Smith.
–Eu só queria saber sobre essas escolhidas.
–É fácil. Se eu requisitar sua presença no final da aula, vocês estão cotadas. Agora, o teste. -disse srta. Smith -Vocês devem ter percebido que eu trouxe o senhor Peter para tocar o piano. Enquanto ele toca, vocês vão reproduzir a dança que estávamos ensaiando. Outro lembrete, eu vou chamar as onze até o escritório da senhora Palender para designar as apresentações. Está tudo claro? Ótimo! Avanti!
As meninas começaram a dançar. A melodia saia pelo piano e os pés estavam igualmente perfeitos. Elas estavam por linha, então Santana guiava na segunda, enquanto Brittany a quarta. A srta. Smith passeava pelas meninas. Ela pediu para pararem de tocar o piano no momento que Santana e Alice estavam no ar.
–Santana, você poderia repetir esse Sissone?
Santana olhou rapidamente para as meninas enquanto concordava com a cabeça, a respiração um pouco ofegante. Ela refez o passo exatamente como tinha feito.
–Aham. Brittany, você pode dar o sissone três segundos depois.
Brittany concordou com a cabeça e fez exatamente o que havia feito antes.
Todas as meninas seguravam suas respirações. Quando srta. Smith pedia que repetissem um passo significava duas coisas: ou você está fazendo tudo errado ou estava tão certo que chegava a ser perfeito.
Santana deu seu salto e quando seus pés pousaram no chão os de Brittany abriram.
–Curioso. -disse srta. Smith. -Fazia anos que eu não ficava tão... impressionada com uma evolução! Você está fazendo sissones tão bem quanto a Brittany!
Santana agradeceu e voltou para sua linha e olhou para trás e Brittany sorria fazendo um dez com a mão. Samantha olhava ainda abobada para o ar onde as duas saltaram.
–Vamos lá, Peter! Estou gostando do que estou vendo. Meninas, voltem a fazer as piruetas. Avanti!
O ensaio durou todos os cinquenta minutos costumeiros. As meninas, nos dias normais, correriam para a próxima classe. Mas não, aquele não era um dia normal. Elas se sentavam e trocavam sapatilhas pelos sapatos pretos de sapateado, apenas esperando um breve: "Com licença, eu preciso falar com você." da srta Smith. Ela caminhou até Julie, uma menina ruiva que fazia tudo perfeitamente, e começou a conversar com ela. Pedindo finalmente para que ela fosse, no final do dia, até a sala da diretora. Santana e Brittany estavam conversando meio nervosas, mas apreciativas.
–Brittany, posso falar com você? -perguntou srta Smith. Brittany assentiu e virou para pegar sua maleta e olhou para Santana que batia palmas de leve, sorrindo. -Com você também, Santana.
Santana só não caiu, porque ela estava sentada. Ela olhava para Brittany e para Samantha como se perguntasse se era real. Elas estavam sendo realmente chamadas?
–Resto da classe, dispensadas. Vejo vocês na terceira aulas. -disse srta Smith que ficou na sala apenas com Santana e Brittany que puderam ouvir alguns choros pelo lado de fora. Samantha fechou a porta e caminhou até Peter.
–Você conseguiu! -disse Brittany abraçando a namorada e deu um giro com ela antes de botá-la no chão. E continuou a segurar as mãos de Santana.
–Nós conseguimos! -Santana disse e achava que era tudo que diria pelo momento.
–Brittany, posso falar com você sozinha antes de falar em conjunto? -perguntou Samantha.
Brittany caminhou até a professora, deixando Santana sentada nos bancos que tinham sob a janela.
–Brittany, eu sei que você tem três solos no nosso Recital e você é perfeita em todos os solos! -disse Samantha sorrindo. -Mas, eu queria perguntar se esse ano você queria fazer um dueto? Você não está caindo em nada, mas eu acho que seria bom para você se você fizesse o dueto.
–Tudo bem! Esse ano eu pediria mesmo, eu sempre quis saber como era dançar um dueto, sabe? Compartilhar a mesma energia e animação com alguém seria esplêndido. -disse Brittany que olhava de canto para Santana.
–Então, eu fiquei falando com a Julie para explicar a situação para ela.
–Você quer que eu faça o dueto com a Julie? -perguntou Brittany meio irônica. Julie era uma ótima dançarina, assim como Brittany. Só existia uma única, que era uma grande, diferença entre elas, Julie era obcecada pela perfeição. E Brittany dançava com alma e coração. E geralmente, as pessoas não queria ver passos que todo mundo aprende. Eles querem um toque único, algo que faça a diferença. Era isso que a senhorita Smith dizia em suas aulas.
–Não! Esse ano o solo é da Julie. Eu só queria perguntar se você faria o dueto com a Santana?
–Claro que sim! -respondeu Brittany sorrindo. Ela só precisou ouvir o nome de sua namorada para aceitar.
–Fico contente. Vocês são amigas tão próximas que achei fantástico por as duas juntas, principalmente depois daquele sissone! Vão caber exatamente num número que estou preparando! -disse Samantha. -Céus! Eu já estou animada! Santana, venha aqui.
Santana caminhou tentando sentir o clima da conversa. Ela viu que Brittany sorria muito. E sorriu também.
–Sim, srta Smith.
–Geralmente, eu não posso contar sobre os números, mas você vai fazer o dueto com a Brittany! -disse Samantha.
Santana olhou rápido para Brittany perguntando novamente com o olhar de isso está acontecendo e Brittany só balançou a cabeça em concordância.
Santana abraçou Brittany e depois Samantha que sorriu pelo contato e as três ficaram rindo.
–Se eu soubesse que ficaria tão animada, eu teria falado no começo da aula! -disse Samantha. -O número de vocês é baseado em opostos. Vão ser fantasias claras e escuras, que vão tentar se afastar mas não podem porque eles são complementares. No final, Santana que vai usar a fantasia escura vai pousar no chão e a Brittany vai pousar em cima. Como se mesmo que tentassem se separar, não poderiam. É genial, a minha ajudante Tiffany vai ajudar na coreografia que vocês vão aprender em um mês. Sei que vocês duas dançando vão deixar especial. Nem preciso falar que vão trabalhar muito, vocês serão dispensadas de todas as outras aulas apenas para focar nessa coreografia. É muito importante. Adeus meninas e me encontrem na sala da senhora Palender no fim do dia.
Samantha deixou a sala com Peter deixando as meninas sozinhas.
–Temos essa aula livre agora que somos parte do Recital. -disse Brittany sorrindo segurando a mão de Santana.
–Aula livre? -perguntou Santana olhando para Brittany com curiosidade.
–Sim, é só até a próxima aula de ballet. A srta Smith tem que escolher todas as alunas antes de nos juntarmos. Então as que já foram decididas, ficam andando pelas salas vagas ou se aquecendo nos estúdios.
–Eu ainda não consigo acreditar! -disse Santana sorrindo levando Brittany para até o banco. -Eu sabia que você ia passar, de toda a certeza! Você é maravilhosa!
–Obrigada. -disse Brittany corada. -Mas você conseguiu também. E o melhor: vamos dançar juntas!
–Eu sei! -disse Santana se virando para ficar de frente para Brittany. -Eu não poderia pedir nada melhor.
–Hã... -disse Brittany fazendo barulho com a garganta. -Eu consigo.
Brittany beijou levemente os lábios de Santana que não estavam esperando. Ela sorriu antes de puxar um pouco mais o corpo de Brittany antes de soltá-lo.
–Não podemos ficar nos beijando muito aqui. -disse Santana rindo.
–Eu sei, mas nem me importei. Desculpa. -disse Brittany acompanhando o riso de Santana.
–Não precisa pedir desculpas. Não por uma coisa que eu também quis fazer. -disse Santana sorrindo. Ela acariciou a bochecha de Brittany. -Vem, vamos até o banheiro.
Elas correram até o quarto andar. Elas riam baixinho para que não atrapalhassem as aulas. O banheiro estava ocupado por Julie que sorriu quando viu as meninas.
–Oi, Britt. Parabéns pelo dueto! -disse Julie.
–Parabéns à você! -disse Brittany se sentando num espécie de sofá redondo de encosto que ficava no centro.
–Obrigada, meninas. Eu vou descer. -disse Julie saindo.
–Ela é uma ótima bailarina. -disse Santana se sentando ao lado de Brittany.
–De fato. Uma das melhores. -disse Brittany sem se importar muito.
Santana acariciou os cabelos de Brittany. Ela sorria com o toque.
–Alguém já disse que você é perfeita? -perguntou Santana sorrindo. O seu sorriso mais sincero e tímido. Ele mexia com a cabeça de Brittany.
–Poucas vezes... -disse Brittany rindo ainda olhando para o sorriso de Santana.
–Bem, você é perfeita! -disse Santana.
–Não sou não. -disse Brittany. -Mas eu me sinto perfeita quando estou com você. Completa, na verdade.
–Completa... Eu gostei dessa palavra. -disse Santana. Ela beijou os lábios de Brittany, tão macios quanto poderiam ser.
Elas ficaram abraçadas até ouvirem barulhos e Brittany correr para o banheiro.
–Santana! -disse Margareth. -Parabéns pelo Recital!
–Obrigada, Margareth. -disse Santana.
–Acho que você vai fazer o dueto com a Julie. -disse Margareth lavando as mãos.
–É, quem sabe? -disse Santana sorrindo.
Brittany saiu do banheiro arrumando sua saia.
–Vamos, Sant? -disse Brittany pegando sua maleta.
–Vamos.
–Ei, Brittany! Parabéns pelo solo!
–Solo? Eu não vou fazer solo esse ano.
–Como assim?
–O solo é da Julie.
–Ah, querida! Você está bem? -perguntou a menina chegando perto de Brittany.
–Eu não importo. -disse Brittany sorrindo. -Estou feliz pela Julie, de verdade. Ela merece.
–Tudo bem. -disse Margareth. -Parabéns, então! Tenho certeza que eles vão te colocar no dueto.
–Torcendo! -disse Brittany rindo.
Santana e Brittany deixaram o banheiro indo para a sala de ballet.
–Por que as pessoas acham que eu fico mal quando eu não ganho um solo? -perguntou Brittany na sala de ballet sentada com Santana em pé à sua frente.
–Porque elas não te conhecem de verdade, Britt.
Após a reunião com a diretora Palender sobre o assunto que Brittany e Santana já sabiam, elas foram liberadas. Brittany viu Anna acenando e as duas acenaram de volta. Santana deu um abraço em Brittany e atrás dela estava Julieta, que Santana ainda não conhecia.
–Brittany, tem uma mulher olhando muito para nós. -disse Santana depois de abracá-la. Brittany se virou.
–É a minha tia. TIA! -chamou Brittany. Sussurrou para Santana. -Ela fala engraçado, mas ressalta.
A mulher caminhava de encontro à elas. Ela vestia um vestido roxa com um casaco preto até os joelhos. Ela estava fumando um cigarro e jogou-o na rua quando viu Brittany lhe chamando. Ela era alta e loira e seus olhos eram estranhos, eles eram azuis, mas passavam uma sensação estranha.
–Boa tarde. -disse Julieta.
–Tia, essa é a Santana. -disse Brittany. -Santana, essa é a minha tia.
–Prazer em conhece-la. -disse Santana estendendo a mão que ficou no ar enquanto Julieta a analisava e por fim apertou sua mão.
–Prazer, senhorita Santana Kutterin. É realmente libertador conhecer você, afinal. Brittany fala muito de você, já estava pensando que você não existia. -Santana nem respondeu. -Vamos Britt, querida! Tenho que preparar seu jantar. Seu pai foi resolver algo importante relacionado ao trabalho.
–Trabalho? -perguntou Brittany engolindo em seco.
–Papeis! Francamente! Você tem esse medo tosco de que seu pai vá e não volte. Você ainda vai me ter, querida. Não precisa ficar com medo! -disse Julieta como se acabasse de contar as moedas se seu bolso. Santana olhava preocupada para Brittany. Ela apertou sua mão que largou assim que Julieta focou o olhar irado para ali.
–Vai ficar tudo bem. -disse Santana sussurrando.
–Podemos ir, Britt? Você vai querer o que de jantar? Podemos fazer algo francês já que seu pai não vai estar. -disse Julieta.
–Espere! Eu esqueci minha sapatilha esquerda na sala de ballet. Santana, você me ajuda a procurar?
Santana concordou com a cabeça e mostrou os cinco dedos para Anna afirmando que voltava em cinco minutos. Elas subiram correndo e foram até a sala de ballet.
–Britt, eu sei que ela é sua tia e que eu não devia dizer isso, mas ela é muito estranha! -disse Santana. -Ela está errada sobre o seu pai. Ele está bem e ele vai ficar bem!
Brittany se sentou no banco com a respiração funda.
–Eu sei, Sant. Obrigada. Eu disse que ela fala engraçado, mesmo parecendo cínica.
As duas começaram a rir. Se abraçaram e encostaram o lábios. Aproveitando os segundos de liberdade que estavam provando.
–Brittany, você já achou sua sapatilha? -disse Julieta entrando no quarto e se deparando com a cena. Elas se afastaram rapidamente torcendo para que qualquer coisa que entrasse naquela cabeça com problemas fosse apagada. -Já encontrou?
–Já. -disse Brittany andando de cabeça baixa até sua tia.
Julieta sorria para si mesma quando sorriu para as duas meninas. Ela não estava sorrindo para aquela cena, de jeito nenhum. Ela não concordava em nada com aquilo! Ela tinha nojo! Mas é claro que ela não deixaria que soubessem. Ela ria. De raiva. Quando ela partiu de Paris, ela tinha uma única linha que a deixava consciente. Quando ela viu as duas bailarinas se beijando, ela se agarrou a mais uma linha. Agora eram duas, e ela iria usar as duas linha para sua total liberdade. Ela iria utilizar as linhas para tantas coisas, mas pelo momento ela só ia planejando nas linhas. Deixando que todos acreditassem no alguém que ela era. Alguém que ela não poderia querer ser novamente porque sua sanidade dependia de duas linhas. Duas linhas brilhantes.
Santana chegou em casa ainda atordoada. Ela sinceramente não sabia o que esperar. Catarina disse que se sentia mal perto de Julieta, o que é totalmente correto. Mas o jeito que ela tratou Brittany antes de ver o beijo e depois, algo não estava certo. Algo não ERA certo quando se tratava de Julieta e ela tentou esquecer, mas não conseguia. Sua mente parecia ficar alerta, como se a qualquer minuto ela pudesse aparecer. Ela ouviu a voz de sua mãe conversando com o médico da família e correu para copa.
–Mãe! A Elizabeth está bem certo? -disse Santana. -Desculpe! Boa noite, doutor Fierman.
–Olá, senhorita Santana. -cumprimentou.
–Ela está bem sim. -disse Joanne olhando para a filha.
–Eu vou subir! Ela está no quarto?
Joanne olhou para o médico e pediu licença levando Santana até a sala.
–Santana, sua irmã não vai adquiriu nada grave, mas ela vai ter que ficar sozinha durante duas semanas enquanto está tomando medicações. O que ela tem é contagioso. O Doutor Fierman disse ela pegou na St. Carmelite, enquanto divia a sala com outra turma. E a mania que ela tem de seguir seu pai enquanto ele fuma...
–Mãe! O que ela tem? -interrompeu Santana apreensiva.
–Tuberculose, mas ela estava no começo. Na fase de excreção de sangue. -disse Joanne se arrepiando com os detalhes. -Minha mãe é enfermeira, eu não. Mas ela vai ficar bem. Ela vai poder se envolver com pessoas em duas semanas.
Santana assentiu. Ela conseguia respirar melhor, mesmo com tudo que aconteceu, um suspiro ela deu.
O mês que as bailarinas usavam para ensaiar era totalmente atarefado. Ensaiavam em casa, ensaiavam todas as nove horas no estúdio ou qualquer lugar. Tudo para o que o Recital fosse não apenas perfeito, mas extremamente perfeito. As onze meninas ficavam em um dos estúdios e ensaiavam por partes. Primeiro as oito meninas, que dançariam sobre a evolução do homem. Assunto que ainda era questionável, mas mostraria a diversidade de opiniões da Academia. Julie teve seu solo criado especialmente. Ela dançaria um solo criado inicialmente para ser de Brittany, mas como eram bailarinas distintas trocaram sua coreografia inteira. Ela finalmente estava entendo o valor da emoção na dança. Santana e Brittany estavam entre a dança em grupo e o solo. Elas iam se apresentar com as outras duplas. Elas tiveram que esquecer qualquer problema que não fossem os saltos, as piruetas e as posições. Julieta havia se afastado das meninas. Elas não sabiam porque, mas achavam que ela não queria se envolver. Howard voltou no dia seguinte
que esteve fora pedindo milhões de desculpa por ter ficado fora sem avisar. Brittany apenas o abraçou e não disse nada. Elizabeth já podia ficar com outras pessoas no quarto e todos perguntavam se ela estava bem e ela contava a história de uma mulher que dividiu o quarto no hospital, também com tuberculose. Uma costureira visitou a Academia na terceira semana. Ela era especializada em roupas de espetáculo. Ela media todas as meninas e fazia brincadeiras, foi a única espécie de folga que tiveram.
Em umas das últimas semanas, Santana levou Brittany até a sua casa para ensaiarem. Usaram o estúdio da biblioteca que todos na casa já haviam descoberto, mas as meninas não podiam deixar que alguém visse a coreografia e tiveram a liberdade de trancar a porta. Elas faziam a dança que estava compassada, perfeita e em total sincronia. As duas pararam para descansar e tomar água. Elas não suavam pelo clima, mas suas respirações mostravam cansaço.
–Vamos parar por um momento, Sant? -pediu Brittany se sentando no chão do estúdio que estava vazio.
–Vamos! -concordou Santana se deitou com a cabeça latejando.
–Estamos muito bem, hã? -disse Brittany rindo.
–Eu concordo! -disse Santana se sentando. Brittany tirou as sapatilhas e seus dedos estavam um pouco amarelos e o mindinho sangrava. -Britt! Seu pé está sangrando.
–É normal, você nunca olhou para o seu? -disse Brittany rindo. -Ele vai parar. Só preciso colocar ele deixo de água morna e descansar. Ele só está dolorido.
Brittany beijou os lábios de Santana.
–Está bem mesmo? -perguntou Santana. -Eu vou pedir para que a Anna prepare um banho para você.
–Tudo bem. -disse para Santana. -Eu estou bem. Depois vemos isso, só vamos descansar e coloque o seu pé no meu colo.
Santana colocou os pés em cima do colo de Brittany sem entender. Brittany tirou a sapatilha de Santana e seu pé estava um pouco parecido com o de Brittany, só que seu dedão estava mais avermelhado. Brittany começou a massagear os pés de Santana que sentiu uma onda de prazer subir pela nuca. Parecia magia de tão rápido que a dor estava indo.
–Sabe, meu pai me colocou no ballet desde cedo. -disse Brittany. -Minha mãe queria que eu fosse bailarina. Ele me colocou no ballet e ali saíram minha figuras maternas. Eu tinha uma professora que pedia tudo de mim. Todo o esforço. No fim da aula, ela massageava meus pés e eu fazia a mesma cara que você está fazendo agora.
Santana sorriu. Ela escorregou até Brittany e lhe beijou os lábios macios.
–Eu tenho uma surpresa para você. -disse Santana. -Eu ia dar quando você fosse embora, mas minha mãe não gostou nada quando eu trouxe ela para cá.
–Ela? -perguntou Brittany curiosa.
–Não é "ela". Eu já volto. -Santana saiu abrindo a porta e fazendo um barulho enorme. Brittany podia ouvir seus passos na escada e depois desapareceram. Ela ficou brincando com os pés enquanto espera. Santana subiu as escadas correndo, virando a porta e a trancando. Ela se virou para Brittany que via tudo muito curiosa. Santana segurava uma caixa azul.
–O que é isso, Sant? -perguntou Brittany se levantando.
Antes que Santana pudesse responder, a caixa fez um barulho. Ela miou.
–Surpresa! -disse Santana rindo.
–Isso é um gato? -perguntou Brittany empolgada.
Santana abriu a caixa e uma pequena figura com pelos estava no centro. Brittany só não a esmagou porque ela era muito pequena. Ela beijou cada centímetro daquela gata.
–Sant! Muito obrigada! Ela é a gata mais linda que eu já vi! -Brittany ia falando enquanto esmagava Santana. Ela apertava as duas. A gata miava baixinho e Santana ria. Brittany beijou levemente os lábios de Santana.
–Você já escolheu um nome? -perguntou Santana se sentando ao lado de Brittany que estava brincando com a gata.
–Sim! O que você acha de Dorothy?
–Eu amei.
Howard não se importou com a presença de Dorothy quando foi buscar Brittany. Ele comentou depois com George que havia iluminado a casa, de um jeito que nem a rede elétrica era capaz de fazer. George ria de tudo que Howard fala e George sempre levava as novas ideias revolucionárias para que eles analisassem. Os dois haviam feito reserva no restaurante do Plaza para o dia do espetáculo e resolveram juntar as famílias novamente. Tudo estava ficando pronto para o dia do Recital. As meninas já haviam provado as roupas que eram uma segunda pele com vários tecidos. Os de Brittany era bancos com dois negros na região de seu estômago. Os de Santana eram ao contrário, roupa preta com os dois tecido brancos no estômago.
As reservadas de cadeiras já estavam sendo feitas. As bilheterias estavam vendendo até o último ingresso. Tudo estava exatamente como esperado. Bem, até que o dia do Recital.
No dia do Recital
Antonieta estava se preparando para o espetáculo que seria a principal. Ela ia ser a primeira bailarina, como chamavam as principais. Ela estava feliz porque "ela" estaria na plateia hoje. Antonieta a amava mais que tudo que respirava ou não se movia. Ela a amava tanto. Elas haviam terminado antes do círculo de espetáculos e haviam usufruido desse tempo para pensar. Antonieta fecharia seu círculo na Alemanha, coincidindo com onde "ela" estava morando. Ela recebeu uma carta na semana anterior que dizia que elas não poderiam mais ficar separadas. Porque elas se amavam e um amor assim não deveria ser desperdiçado. Elas se encontrariam no camarim no fim do espetáculo. "Ela", aquela que Santana tanto leu em seu livro, se chamava Eileen. Ela estava sentada no quarto de seu apartamento, escolhendo um vestido para a noite que viria a seguir. Antonieta estava em seu camarim arrumando sua sapatilha para conhecer o palco até que um homem entra e fecha a porta. Ele usava um uma espécie de pano vermelho costurado no braço.
–Eu posso te ajudar? -perguntou Antonieta se virando para o homem.
–Não... -disse o homem. -Eu realmente não quero ouvir sua voz. Você é uma pessoa intragável! Você está arruinando o mundo! Você tem ideia do que está fazendo? Você vai para o inferno...
Antonieta estava assustada, ela se levantou tentando contornar o homem. Ele a cercou na parede.
–Eu tenho pena, porque você é uma menina tão linda... Como você pode? Como você consegue dormir a noite?
Ela começou a gritar, mas poucas pessoas estavam no teatro. Ele tirou uma faca do bolso e pôs sobre a garganta de Antonieta. Ela só imaginava Eileen e o quanto a amava. Uma lágrima escorreu pela sua face.
–Quer saber como eu durmo? -perguntou Antonieta depois que levou a primeira facada no braço. Ela já não poderia fazer mais nada. -Eu durmo porque eu sei que existe uma pessoa no mundo que me ama. ELA ME AMA.
O homem se encheu de raiva e começou a enfiar a faca no corpo magro de Antonieta. Sem nem desviar o olhar. A cada gota de sangue que escorria era um sorriso de vitória na cara do desgraçado.
Inglaterra, algumas horas depois
Santana e Brittany já estavam se preparando para o espetáculo. Estavam rindo e brincando com as luzes. As onze meninas estavam muito ansiosas e não podiam ter contato com ninguém no camarim. Era apenas as onze e Samantha. Quando estavam todas prontas, com as fantasias bem presas e certificadas que seus pés não tremiam tanto elas foram liberadas para descer até as coxias. Vendo as apresentações em grupos de todas as cinco academias. Santana e Brittany estavam rodando e repassando partes da coreografia quando um alvoroço passou por elas. Meninas que já haviam se apresentado choravam. Meninas que seriam as próximas tentavam controlar as lágrimas, havia pais que foram liberados a subir para tentar controlar as situações e até eles choravam. Brittany sentia algo muito estranho no ar, quando Catarina apareceu com o rosto coberto por lágrimas e os ombros subindo e descendo. Ela com certeza era a mais emotiva de todas.
–Vocês sabem? -perguntou Catarina, ela queria que não soubessem porque elas se concentrariam na dança e não na notícia que estava abalando o mundo.
As meninas negaram assustadas.
–Ótimo, vocês tem que ficar concentradas na dança de vocês. Eu prometo que vou explicar, mas foquem nisso. Essas pessoas estão sendo liberadas para a plateia e aqui vai ficar calmo. Por favor, não fiquem curiosas. Só dancem e deem o melhor de si. -disse Catarina controlando o choro que voltou depois. -Quebrem a perna.
–Quebrem a perna. -disseram as duas baixinhos.
–O que foi isso? -perguntou Santana ainda assustada.
–Não foi nada. Vai ficar tudo bem. Eu prometo. -disse Brittany sorrindo confiante, mas com certo receio. -Vamos, vão subir daqui a pouco.
O tempo foi passando e a coxia estava mais calma. Algumas meninas ainda choravam, mas Santana e Brittany lutaram para não saberem o que era. Elas subiram no palco. Se posicionando em lados opostos com o holofote apagado. A orquestra começou pela melodia conjunta de um violino e outros instrumentos de cordas. O holofote caia sobre Brittany que girava e fazia as piruetas. Outro holofote focalizou Santana que repetiu os mesmos movimentos. Elas foram em passos rápidos para no meio saltarem o sissone. Os holofotes se encontraram e elas tinham que se olhar pela primeira vez e quando decidiam se tocar tinham que trocar e fazer uma pirueta tripla, como se expelissem. Mas não haviam desistido, tentaram mais uma vez. Brittany tinha que girar Santana puxando pela cintura. Se separaram novamente. No fim, Santana deitava no chão e Brittany delicadamente a olhava antes de deitar ao seu lado. As pessoas começaram a aplaudir em pé, o que fez as meninas sorrirem uma para outra e agradecerem. Elas fizeram a reverência e
saíram pelo lado direito. Na coxia elas se abraçavam e Brittany girou Santana mais uma vez que ria. Samantha foi até as duas e começou a pular e rir. Ela estava muito animada. As meninas ficaram até o fim do espetáculo, onde as representantes das academias iam receber os prêmios. As meninas foram liberadas pela Samantha e foram correndo até seus pais. Que as abraçaram e comentaram sobre os espetáculo. Catarina ainda estava abalada, mas ela parecia esconder. Só que ela não conseguia. Eles chegaram no restaurante e foram atendidos no momento em que pisaram o pé. As meninas estavam muito animadas, mas agora mais curiosas do que nunca. Santana olhava para Catarina perguntando se estava tudo bem. Ela dizia que não com a cabeça. Ela olhou para Brittany preocupada. As duas estavam nervosas! Ninguém lhes contava nada. Eles pediram seus pratos e Catarina pediu licença até o banheiro. Seguida de Santana e Brittany.
–Tia! O que está acontecendo? Por que você está chorando? -perguntou Santana se sentando no sofá que tinha no banheiro.
–Eu não quero que vocês estraguem a noite de vocês. -disse Catarina com a voz falha. -Voltem lá para dentro, por favor.
–Não, Catarina. Desculpa, mas você está nervosa e está nos deixando preocupada. -disse Brittany se sentando ao lado de Santana e segurando sua mão.
–Não era para vocês saberem... -disse Catarina. -Não agora.
–O que foi? O rei morreu por algum acaso? -perguntou Santana. -Está todo mundo chorando. Todos sabem.
–Foi a Antonieta... -disse Catarina.
As duas meninas sentiram um frio no estômago.
–Você está falando daquela bailarina? -perguntou uma mulher que estava retocando a maquiagem. -Eu soube que o homem a matou porque ela gostava de mulheres. Que horror! Disseram que até acharam um bilhete dentro da sapatilha para a a mulher que ela estava tendo um caso. Eu não acho certo, mas não precisa matar cada pessoa que é errada no mundo.
–Errada? -perguntou Santana que não soltou a mão de Brittany um segundo. -Me desculpe, senhora, mas a senhora acha certo que uma mulher morra por amor? Acha certo que esse seja o futuro a qual estamos condenados? Como sociedade? Isso é brutalidade e horroroso! Uma mulher morreu hoje sem justificativa!
Catarina olhava para Santana com os olhos lacrimejando. Brittany deixava que as lágrimas caíssem, ela não conhecia Antonieta, mas ficou assustada.
Um conjunto de mulheres se formou no banheiro para ouvir a conversa entre Santana e a senhora.
–Concordo com a menina! Depois vão querer matar toda a diferença. Isso é só o começo. Massacres como esse deveriam ser estudados. Esse comportamento não é normal. -disse outra mulher.
–Sinceramente, minha mãe me criou para casar com um homem e cuidar dos meus filhos. Isso pode ser errados, mas não é justificativa para matar uma mulher inocente! -disse uma mulher que estava lavando as mãos.
Brittany ficou desconfortável com o tumulto e saiu com Santana e Catarina daquele debate de mulheres que aos poucos foram saindo e voltando para seus jantares.
–Estou orgulhosa de você. -sussurrou Catarina.
Brittany segurou sua mão por de baixo da toalha branca e sorriu para ela, mesmo que seu corpo estivesse elétrico.
Elas não acreditavam quando deitaram para dormir e nem quando acordaram. O mundo havia perdido uma estrela. Ela morreu no sábado e Brittany dormiu na casa de Santana naquela noite. Ficaram abraçadas, apenas isso. Sem conversas. O que diriam? Elas estavam assustadas demais. No dia seguinte, Santana acordou antes de Brittany e desceu rapidamente para roubar o jornal de seu pai. Como esperava, Antonieta estampava a primeira página. "BAILARINA É BRUTALMENTE ASSASSINADA. SERÁ UM AVISO DA ALEMANHA NAZISTA?" Seguida de duas fotos. Uma dela viva e sorrindo. E a outra do bilhete que acharam em sua sapatilha.
"Ontem, dia 26, foi encontrado o corpo brutalmente aniquilado de Antonieta Scamender. A bailarina estava se preparando para o espetáculo que fecharia seu círculo de trabalho, quando um homem apareceu. Relatos contam que a bailaria gritou por ajuda, mas já era tarde. O homem ficou sentado em seu camarim esperando os policiais e imprensa para declarar: 'eu matei ela sim. E mataria novamente! Ela deve estar queimando no fogo do inferno.' O assassino foi levado para a cadeia de casos em Berlim, onde o descaso aconteceu.
Sua mãe e irmã ainda não declararam nada a respeito de sua morte. Elas não aceitavam o homossexualismo de Antonieta. Motivo, aparente, que levou Saymon, o assassino, a matar a vítima. A vítima morreu com 27 facadas pelo corpo, mas morreu apenas na terceira quando Saymon furou seu coração e continuou a esfaqueia-la. Dentro de sua sapatilha direita tinha uma carta para sua companheira: 'Eu a amo. Ela ilumina minha vida. Ela é alguém que eu quero para sempre amar. Ela não precisa estar aqui para que eu possa senti-la. Mas ela virá. Então, nossas vidas se misturarão de novo e novamente até que viremos uma coisa só. Um único círculo onde damos salto e pousamos no chão exatamente no mesmo tempo. Eu a amo! E finalmente eu poderei gritar para o mundo. EU A AMO'. Sua companheira não teve nada a declarar, também.
O jornal presta suas condolências a todos os familiares, amigos e admiradores desta grande bailarina. Informamos que as homenagens serão prestadas na Áustria, país natal de Antonieta. Onde ela descobriu seu amor pela dança. Nas páginas 29 e 30 falaremos mais sobre essa morte que está chocando o mundo e sobre todos os acontecimentos importantes na vida de Antonieta."
Santana parou de ler e ficou olhando para aquelas duas fotos.
–É tóxico, sabe? -disse George com um charuto na mão.
–Pai, eu agradeceria se deixasse suas teorias científicas para mais tarde.
–Não estou falando do jornal. Estou falando da notícia. A notícia é tóxica. Ninguém pode para-la quando ela já está lançada. Uma vez dita, para sempre repetida. Eu odeio ler as notícias de morte, mas elas são inevitáveis. Ver alguém morrer por um motivo tão besta chega a ser revoltante.
–Você acha?
–Acho. -disse George abraçando a filha. -Quando eu leio esse tipo de notícia eu só penso nas pessoas que estão por perto. Familiares, amigos. Como deve ser para eles ler esse maldito jornal. A notícia pode até não matar, mas ela quebra um pedaço de cada um de cada jeito.
Santana abraçou o pai forte e subiu correndo as escadas. Ela pegou o diário que era de Antonieta e escreveu na primeira página, junto com a caligrafia de Antonieta. Ela se sentou na penteadeira e pegou uma caneta. Brittany havia acordado pela claridade e viu Santana sentada olhando para a janela.
–Está tudo bem, Sant? -perguntou Britt se sentando ao lado de Santana.
–Sim. -disse Santana olhando finalmente para ela. -Você poderia me ajudar a escrever uma coisa?
Brittany concordou sorrindo carinhosamente. Ela enrolou os fios do cabelo de Santana em seu dedo e puxou-a para um beijo inocente.
Eileen não recebia visitas. Ela não via ninguém. Não respirava o ar direito. Metade de seu coração se fora a três semanas. E ela ainda chorava de noite. Ela ainda se odiava por ter deixado-a. Ela queria que seu corpo fosse definhando, ela já não se importava. Ela dormia abraçada ao travesseiro. Nada tinha o cheiro de Antonieta naquele apartamento. Ela nunca havia estado ali. Mas ela se lembrava tão bem do cheiro, do sorriso, da voz e da dança. Era com essas lembranças que ela ia até a porta pegar a correspondência e voltar para cama. Ela abria todos os cartões de melhoras e jogava-os por cima da mesa. Na terceira semana ela recebeu algo muito pesado e grosso para ser um cartão. Ela abriu e reconheceu. Ela havia dado aquele diário para Antonieta, mas foi a tanto tempo. Ou será que ela só se sentia assim? Perdida no tempo. Ela abriu e folheou, viu várias cartas e mensagens de amor em francês. Todas para 'ela'. Ela começou a chorar. Catarina deveria ter mandado, ela sabia que estava com Catarina, as duas não se
falavam a bastante tempo, mas sempre foram amigas. Catarina mandava cartas dizendo como estava Antonieta quando as duas estavam separadas. Ela queria poder abraçar Catarina e despejar tudo que sentia com alguém que confiava. Ela abriu a primeira folha e ficou um pouco surpresa com uma caligrafia diferente da de Catarina.
"Querida 'ela',
Nós não sabemos seu nome, mas sabemos que você é real. Digo nós porque somos duas meninas que estão lhe escrevendo. Uma é sobrinha de Catarina, antes que você se pergunte como conseguimos este diário. Nós queríamos agradecer. O amor de vocês foi tão real que se mostrou possível que duas meninas pudessem se amar. Nós. Seremos eternamente gratas!
Nós não sabemos como você está se sentindo e não temos nada a falar. Só sabemos que você perdeu uma parte de você. Esse diário me ajudou a aceitar que eu estava apaixonada pela minha melhor amiga. Ele ajudou quando tudo estava confuso. Então, pensamos que tudo esteja confuso para você e que seja o seu momento de ler o livro. Muito obrigada novamente!
E 'ela', ela amava muito você, não tenha dúvidas.
Com amor, Brittany e Santana"
Eileen se permitiu chorar novamente só que com um pequeno sorriso no rosto. Ela sorria porque ela poderia sentir as vontades de Antonieta e ela nunca ficaria feliz se ela estivesse triste. Eileen leu o diário várias vezes. Algumas vezes, algumas páginas. Ela focaria sua vida em defender essas pessoas que se escondiam com medo de ser quem são. E ela sempre agradeceria o amor de duas meninas que lhe escreveram.
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