At The Ballet
27 Conflito inicial do discurso indireto
Notas iniciais
Santana se recusou a sair do armário. Do armário de madeira, longe da escada. Sua mãe a deixou ali e eventualmente mandava Anna levar água e comida, mas se tornara o elo fraco do bom funcionamento da casa. Havia uns cinco copos de água cheios quando Santana deixou o armário. Não parou até chegar ao seu quarto, ignorando os chamados de sua mãe. George havia saído, mas num pulo estava em casa e por isso Joanne tentava deixar tudo calmo e singelo. Santana trancou a porta e escorregou pela porta de madeira. Juntou a cabeça nos joelhos e se habituou a chorar. Não era isso que queria, mas era apenas o que conseguia fazer. Ela ouviu as portas se abrindo e levantou a cabeça buscando a origem do barulho. Ouviu a voz de Amy, alta e clara. Repousou a cabeça e ouviu a escada rangendo enquanto Amy subia e Joanne dava a incrível desculpa dizendo que ela havia adoecido e não poderia participar das aulas. Pelo menos com isso ela havia se sensibilizado. Sua irmã saiu do quarto ao lado e seguiu Amy. Os pés arrastando pelo assoalho. Santana sentiu o frio entrar pela fresta da porta chegando até a sua bunda e se levantou indo em direção a cama. Não fazia ideia de que horas eram, se havia se passado minutos ou horas naquele armário e quando havia sido sua última refeição. Ficou alguns minutos na varanda de seu quarto e se virou em direção a cama. Viu a camisola de Brittany ainda sobre a cama, jogada pelo avesso, o que queria dizer que sua mãe não estivera ali. Buscou pela camisola e despiu a própria que usava e colocou aquela, muito parecida com a sua. Deixou a sua jogada no lugar onde Brittany havia deixado e se deitou cobrindo-se com cobertor até o pescoço. Olhou para a penteadeira no fim do quarto e algo reluzia à favor da luz. Era o prendedor. A cabeça tombou no travesseiro que encharcava de lágrimas.
Brittany seguiu o caminho em silêncio, colada na porta do táxi. Ela odiou cada segundo e seu peito ainda ardia, mas não como deveria. Não ardia de paixão ou alegria. Ardia de medo, medo de que aquilo não fosse a pior parte, medo que que a pior parte demorasse a chegar. Medo de que algo grave acontecesse com Santana e ela sentia que algo ia acontecer. Afinal, ela estava indo embora com Julieta e Santana estava com sua mãe capaz de qualquer coisa. Engraçado, pensou Brittany. As duas tinham nomes que começavam com a letra J e tentou se lembrar de todos os nomes de pessoas más que começavam com aquela letra. Conseguiu se distrair pelo caminho, mas o caminho não era eterno e muito menos colorido. Seu pai não estava em casa, Catarina não estava. Eram apenas ela e Julieta, como nunca haviam ficado antes.
–Eu não quis entrar enquanto seu pai estivesse fora. -comentou Julieta olhando para a porta e inclinou levemente. -Ele também não me deixou a chave...
–E o que estamos fazendo aqui? -perguntou Brittany impaciente e sem olhar para a mulher na sua frente. -Por que não vamos embora?
–Eu queria poder te levar para meu apartamento, mas minha fechadura não fecha muito bem.
–Eles realmente não deveria deixar animais a solta. -disse Brittany baixo, mas suficiente para que Julieta a ouvisse.
–Você é pouco agradecida, Brittany. -comentou Julieta se virando. -Mas eu entendo. Por isso, nesses meses juntas vou poder deixar você normal.
–Eu sou normal.
–Não, querida. Não é! Você acha que é, mas não é. -disse Julieta sorrindo e tirando as luvas de algodão da mão, deixando as mãos brancas nuas. -No fim do dia, percebi que seu pai deixava a chave no vaso de flores mortas.
Ela caminhou até o vaso de flores, que haviam sido replantadas pela Catarina, e puxou a folhagem do vaso fazendo com que poeira e terra se espalhassem por toda a varanda. Brittany tossiu e ela jogou a folhagem no meio da rua. Buscou a chave que estava apenas embaixo do vaso e abriu a porta, simplesmente. Ela entrou primeiro e Brittany ficou alguns minutos antes de ultrapassar a linha da porta e ser recebida por uma baforada de calor e cheiro de cinzas da lareira. O tempo não parecia ter passado naquela casa e ela podia ver partículas de poeira flutuarem. Ela pensou que não se sentia em casa na mansão dos Kutterin, mas nem tampouco ali. Lar era o lugar em que apenas pessoas especias estivessem com ela, e no momento, todas estavam longe demais. Ela caminhava em direção as escadas para tomar um banho e se deitar e ficar assim, vegetando, durante todo o tempo.
Julieta limpou a garganta e Brittany se virou.
–O que você está fazendo?
–Não é óbvio?
–Me desculpe, mas não.
–Eu vou tomar um banho e dormir.
–Mas você tem tarefas a cumprir.
–Tarefas? Que tipo de tarefas?
–Sim, tarefas como tirar o pó e limpar o seu quarto e tirar aquela planta horrorosa do meio do meu jardim.
–Mas foi você...
–Imprudência! Brittany, se você falhar comigo três vezes, você terá de arcar com as consequências.
–Vai fazer o que? Não vai deixar que eu veja minha namorada? Acho que estamos aqui por esse motivo. Vai... me matar? Eu não ligo.
Julieta agarrou o braço de Brittany com força e a sacudiu.
–Nunca mais fale essa palavra. Não na minha presença. E não finja que não sabe a dádiva da vida! Não sabe como é perder um filho!
–Achei que você tivesse matado seu filho. -Julieta a solta sem falar uma palavra que fosse ou a machucar. Brittany olhou para seu braço avermelhado e olhou para sua tia. Ela estava quieta e parecia não pensar em nada e em tudo. Ela sabia que Julieta ficava assim antes de "atacar" alguém. -Me desculpa.
–Aceitas. -disse Julieta se virando e indo em direção a cozinha. -Vá fazer o que eu lhe pedi, por favor.
Brittany foi em direção à porta mas foi impedida por Julieta que correr e se colocou na frente da porta.
–Não saia de casa, vá limpar seu quarto. Eu cuido da planta. -Julieta trancou a porta e deixou Brittany na sala. Sua primeira reação foi correr até o telefone. Discou o número dos Kutterin e ouviu a voz de Joanne e desligou rapidamente. Subiu até seu quarto correndo e chamou por Dorothy. A gata não miou, a gata não estava ali. Dorothy havia ficado com Santana. E era com quem deveria estar.
–Santana! -chamou Joanne na escada. Ela parecia um pouco furiosa mas completamente esquecida. -O que essa gata está fazendo aqui?
Santana destrancou a porta, segurou Dorothy nos braços e trancou a porta novamente.
–Você parece uma criança, Santana! Por que você não consegue entender que isso é para seu próprio bem?
–A senhora pode ir agora. Eu vou cuidar de Dorothy, pode ficar tranquila. Tenho certeza que ela tem medo da senhora. E acho que ela não é a única.
–Você não faz ideia! -Joanne saiu pisando fundo. Elizabeth saiu do banheiro quando ouviu a porta do quarto de sua mãe bater. Ela fez uma sequência de batidas na porta do quarto e Santana soube que era ela. Abriu a porta e Dorothy miou, meio desconfiada.
–Beth, hoje não é o melhor dia...
–Por que tudo que está acontecendo está acontecendo? O que você fez, Sant?
Santana respirou fundo. Ainda achava que era muito cedo para contar para ela, mesmo que pensasse que quanto mais cedo alguma criança soubesse, melhor ela entenderia. -Você não deveria estar com a senhorita Amy?
–Ela consegue se virar sozinha. Ela vai dormir em breve, se a mamãe não bater outra porta. -disse Beth sentando-se na cama. -O que está acontecendo? Você é a única que me fala o que está acontecendo, Sant. Ninguém mais faz isso.
–Mamãe e a tia da Britt, aquela que é meio esquisita, descobriram algo sobre nós. Algo que quase ninguém entende e eu não sei se você vai entender.
–Tente explicar.
–Eu não sei por onde começar... Ou o que fazer.
–Santana. -chamou Beth sorrindo. -Você nunca saberá a minha opinião se não me contar. Consigo seguir um ponto de vista com uma boa teoria.
–Eu e a Britt não somos amigas... -disse Santana calmamente. Olhou para Beth que parecia pedir que continuasse. -Quero dizer, somos... Mas não somos apenas isso. Eu e a Britt, Beth, somos namoradas. Como a mamãe e o papai foram um dia.
Beth a olhou estranho e sorriu. -Eu entendi a sua preocupação, mas mamãe está pirando apenas por isso?
–Ela acha que todo mundo deve ser igual. Que todas as histórias sejam contadas sobre um homem e uma mulher que se apaixonam. Ela não quer acreditar que uma de suas filhas é diferente.
–Ela provavelmente não é a única que pensa assim. -comentou Beth. -Eu nunca ouvi falar em duas mulheres que se apaixonaram, mas se você me falar que está apaixonada por outra mulher, eu vou acreditar. O fato de eu nunca ter escutado nada parecido, me preocupa. Quer dizer que ninguém fala sobre isso e se ninguém fala...
–As pessoas tem medo de amarem quem nasceram para amar. -disse Santana para a irmã. -Não por medo propriamente dito, mas medo pelo que pode acontecer se os outros descobrirem.
–Nossa, isso é triste. -disse Beth tristemente. -Aquele discurso de ódio, onde existe uma lista enorme de pessoas, vocês estão nela, não estão?
Santana confirmou com a cabeça, mas tão levemente como se sua cabeça estivesse mais pesada. -E eles existem, sabe? Não é como se fossem imaginados por alguém. NÓS vivemos e respiramos, mas por algum motivo as pessoas acham que não devemos mais respirar e viver. Elas tratam como se fosse uma escolha...
–E não é? -perguntou Beth docemente. Santana se deitou na cama e Beth ao seu lado.
–Ninguém escolhe sofrer, Beth. -disse Santana olhando para o teto de seu quarto. -E nem amar. Mas se fosse uma escolha, eu pediria que me apaixonasse pela mesma pessoa. Que me apaixonasse pela Brittany.
–Quando você fala não parece estranho. Não que eu ache estranho, mas nenhum livro de história trás pessoas gays.
–Acho que estamos apenas lendo a história errada. -disse Santana rindo suavemente.
Beth olhou para o teto e cruzou os pés. -Você acha que ninguém conta essas histórias pelo mesmo motivo de ninguém falar sobre gays?
–E qual é esse motivo?
–Aceitar que essas pessoas existem. E respiram como qualquer outra. E vivem como qualquer outra. E amam como qualquer outra.
–Acho, sim. -disse Santana depois de soltar a pressão na sua cabeça que ficava entre o pescoço e o queixo.
–Eu vou escrever essa história. -disse Beth depois de um tempo. -Uma história de duas princesas. De duas cavaleiras. De duas policiais. De duas artistas...
–Por que não de uma bailarina e uma atriz? -perguntou Santana e queria poder sentir a quentura colada ao corpo, mas fazia frio. E não o frio natural, era um frio que ia de dentro para fora.
–Pode ser, nada mal. -disse Beth rindo. -Eu não quero ficar aqui, Sant. Eu quero conhecer o mundo.
–E você vai. -disse Santana lhe beijando a testa. -Mas por enquanto você tem que me prometer ficar aqui.
–Eu prometo não fugir. -disse Beth rindo.
–Acho que as filhas Kutterin nasceram todas "erradas". -disse Santana.
–A Rachel parece normal o suficiente.
–Parecer não a faz aquilo. -disse Santana rindo. -Seria bom saber o que Rachel quer fazer.
–Não é óbvio? -perguntou Beth docemente. -Vocês crescem e esquecem dos mínimos detalhes. Rachel está trabalhando numa estação de rádio. Ela coloca o som abafado quando passa pela estação Bloom. Ela sinceramente espera que papai descubra. Ou a mamãe. Ela se sente sozinha, entretanto parece que apenas eu noto esse tipo de comportamento.
–Nunca cresça, Beth. Nunca.
–E eu não vou. -Beth sorriu para sua irmã antes de se levantar. -Eu vou voltar para meu debate inacabável com a Amy. Você vai ficar aqui?
Santana confirmou com a cabeça. -Obrigada por ter vindo, Beth. Eu precisava de alguém.
–Não tem problemas, Sant. -disse Beth. Fechou a porta e Santana se cobriu até a cabeça com o cobertor. Alguns poucos segundos depois ela ouviu um batido rápido e os pés insistentes de sua mãe.
–Abre essa porta, Santana. -Joanne mexia na maçaneta. Sua mãe parecia furiosa. Ela se levantou e ficou encarando a maçaneta. Abria ou não abria?
–Sant, abre por favor. -ela ouviu a voz de Beth assustada.
Santana abriu a porta, primeiro numa fresta e depois inteira. Beth estava assustada um pouco atrás de sua mãe, que estava bem na sua frente. As narinas se alargavam e estava tão vermelha que na aparência o sangue em suas veias parecia ter dobrado.
–Quem lhe deu o direito de dizer o que disse para a sua irmã? -perguntou Joanne num grito. -Você já pensou nas consequências? Apenas uma vez?
–Brittany! -Julieta chamou na porta do quarto. -Você já arrumou seu quarto?
Brittany ouviu a voz de Julieta e parou bruscamente o que estava fazendo. Julieta entrou inesperadamente e Brittany não conseguiu esconder, ela já havia visto.
–O que você está fazendo? O que é isso? -Julieta tomou a pequena bolsa das mãos finas de Brittany. -Você acha que vai fugir?
–Eu não ia fugir. -disse Brittany baixinho. Julieta a olhou, reprimindo-a. -Eu não vou fugir.
–Então, o que é isso?
–São algumas coisas que eu queria guardar. -disse Brittany baixinho.
Julieta olhou melhor para o que enchia a bolsa, como um prendedor brilhante e umas duas fotos. Uma das fotos era a de sua mãe com seu pai. Mas a segunda despertou algo terrível em Julieta. Era uma foto dela e de Santana. Não sabia como, mas os olhos pareciam brilhar e até mesmo ela conseguia enxergar esse brilho. As bocas numa curva feliz. Ela conhecia o prendedor também, mas se lembrava mais vagamente. Ela havia ouvido um comentário de Catarina. Rasgou a foto das meninas em quatro pedaços e jogou a outra em cima da cama. Pegou o prendedor e fez menção de o triturar com apenas um aperto de sua mão. O apertou e Brittany tentou lhe tirar.
–Eu não vou quebrar. -disse Julieta. -Algo bonito assim não deveria ser quebrado. Mas tão pouco você vai possui-lo, se era o que esperava.
Colocou o prendedor nos cabelos e sorriu para Brittany, que tinha uma lágrima escorrendo pelo rosto.
–Onde está aquela sua gata? Eu não gosto dela... -disse Julieta. Brittany ficou em silêncio encarando o prendedor. -Me responda!
–Ela não está aqui. -Brittany endureceu. Passou a mão nas pernas. -Ela também não gosta de você.
–É, certo. -disse Julieta e respirou, um pouco aliviada. -Você pode descer em dez minutos para me ajudar com o jantar.
Brittany assentiu e deixou que Julieta saísse do quarto. Tirou a chave da fechadura e levou consigo. Brittany juntou os quatro pedaços de fotos na mão, os lábios tremiam rapidamente. Colocou os pedaços dentro do travesseiro, entre as penas e o tecido. Dez minutos depois, desceu as escadas lentamente. Parecia ter correntes presas aos pés, chumbo nos calcanhares.
–Você já desceu? Tem muito o que fazer, menina! -disse Julieta rindo. -Corte as cenouras, tire os ossos do frango e corte ele em filés. Depois, descace e corte as batatas em cubos médios. Cozinhe tudo junto.
–Sim, senhora. -disse Brittany enquanto lavava as cenouras e as batatas.
Julieta estava sentada, olhando fervorosamente para Brittany. Para cada movimento, para cada possível movimento. Não fazia nada, se não ficar sentada e vigia-la como se a qualquer momento pudesse aprender a voar e sair pela janela. O barulho irritante do telefone começou a tocar e Brittany fez menção de ir atende-lo.
–Você não sai daqui.
–E se for o meu pai? Ele não vai gostar de saber que algo está errado.
–Nada está errado em nossa relação, minha querida. E seu pai não ligou para você, ou ligou? Por que ligaria agora? -Julieta foi rindo até o telefone e quando o atendeu desconfiou um pouco da voz apressada de uma moça. Ela dizia ser a secretária da "Royal Ballet, a academia especializada em faculdades profissionais". Queria dizer que Brittany não estava ou que não iria mais para essa academia, mas pensou por um segundo, quase esquecido, que quanto mais longe ela estiver mais longe ela estaria de pessoas, na sua concepção, inaceitáveis. Pediu para que a senhora aguardasse. Brittany segurou o telefone e conseguiu ouvir uma respiração nervosa e veloz.
–Tia Julieta, a senhora poderia me dar licença? Apenas para essa ligação.
–Não vejo motivos para te deixar sozinha para atender um telefonema com o valor que tem.
–Eu não quero que ninguém e principalmente você, ouça o que a academia tem a dizer. Dois minutos.
–Você tem dois minutos.
–Você está bem? -perguntou Brittany tampando a boca no telefone. A respiração persistente se soltou e um respirou foi escutado. A voz suave parecia um cristal quebrado. Parecia chorosa. -Santana. Aconteceu alguma coisa? Você está bem?
–Eu te amo, Britt.
–Eu também te amo, Sant. -disse Brittany num sorriso. A voz de Santana parecia mais cansada que o comum, mas quando a abria para dizer as palavras voltava ao normal, quase como a primeira vez que havia falado.
–Você sabe que podemos fugir ainda, não sabe?
Brittany deixou as lágrimas escorrerem e riu. -Eu sei, sim. Estou fazendo as minhas malas. Vamos fugir e nunca mais voltar?
–Queria tanto. -disse Santana num sussurro. -Vamos nos encontrar a onde?
–Num palco. -disse Brittany sabendo que apenas a ideia estava viva. Que não poderiam fugir, que não poderiam sequer sair para se verem. Que estavam fazendo isso para que a dor não doesse tanto. -Um holofote de luz branca e você irá com um vestido branco e eu com um vestido amarelo e nossas malas de couro ao lado e o tempo irá parar e nosso beijo será eterno.
–Eu te amo. -Santana ouviu as batidas pesadas de sua mãe. Ouviu os chutes na porte e chorou. -Eu te amo, você está ouvindo?
–Eu também te amo, Sant! -A linha do telefone foi cortada. Julieta estava com o fio do telefone cortado ao meio. Segurava a tesoura e estava ficando vermelha. Brittany colocou o telefone no gancho e engoliu o seco na garganta. Julieta puxou o telefone e o estraçalhou contra a parede. Trilhões de pedacinhos se chocaram contra a parede e se espatifaram no chão.
–Você irá ver as consequências, querida. E não irá gostar. Vai implorar para que estivesse comigo. Vai ver como eu vou sentir falta. -Julieta empurrou Brittany na direção da parede e o choque fez com que caísse ao lado do telefone. Passou por cima do corpo dolorido de Brittany. -Eu juro que irá!
No momento que Santana deveria tentar explicar o que havia acontecido, George chegou em casa e com o grito correu até elas. Levou Joanne para que se acalmasse, longe das meninas. Santana correu até o escritório do pai e trancou a porta. Não sabia quanto tempo tinha. Colocou um lenço do pai ao redor do telefone e tentou mudar sua voz ao máximo, já esperando que Julieta atendesse. Por pouco o nervosismo não a denunciara. Sua mãe não tardou a chama-la. Começou a bater e a chutar a porta. Santana ouviu as palavras de Brittany antes que a linha caísse, ou algo parecido. Ela destravou a porta e Joanne estava furiosa. Levou Santana até a sala. George, Elizabeth e Rachel estavam sentados, em silêncio.
–Joanne, o que você está fazendo? Largue a menina! -disse George. -Céus! O que a Santana fez?
–Cale a boca, George! -disse Joanne. -Ouça o que ela tem a dizer! Espere que ela mesma te diga! Eu nunca, nunca, conseguiria falar no que minha filha se tornou. Ela está enfeitiçado ou algo do tipo! Aquela menina... Eu quero a minha filha de volta!
Joanne sentia o controle, que sempre teve, indo embora em segundos.
–Eu não tenho mais medo de falar. -disse Santana num sussurro. -Eu já superei as minhas expectativas.
–Santana, não. -disse Rachel num tom baixo.
–Tudo bem, Rachel. -disse Joanne. -Fale!
–Eu vou falar, mas primeiro deixe eu falar algo antes. -disse Santana olhando para sua mãe. A junção dos dois pares de olhos que nunca mentem. -Você deveria me amar. Não importasse o que. Você deveria me amar.
–Eu tentei te ajudar.
–Isso não é ajuda. -disse Santana. -Você não gosta de ser a diferente. Aquela que todos apontarão. Isso se trata de você, sempre se tratou.
–Você está fazendo isso para chamar a atenção? -perguntou Joanne ignorando todos na sala com exceção de Santana. -Cresça! Se case! Seja o que você quiser, eu vou te apoiar. Mas não seja 'isso'.
–Mas é o que eu sou, mamãe. E é o que eu vou ser.
–Alguém explique sobre o que tudo isso se trata? -perguntou George se levantando.
–A Brittany é minha namorada, papai. -disse Santana se virando para ele. -Eu vou entender se quiser que eu me mude, que eu 'cresça', que eu me mate! Mas saiba que eu sempre vou ser a Santana, filha de vocês.
Joanne jogou sua mão no rosto de Santana com força. Fazendo-a cair no tapete persa num barulho oco. Um filete de sangue escorria do rosto de Santana. Ela segurou o rosto com a mão e levantou a cabeça. Beth se levantou e a ajudou. Joanne olhou para sua mão, parecia querer pedir desculpas mas não o fez.
–Eu ainda acho tão normal como qualquer outro casal. -disse Beth para os pais. George estava parado, num transe irreconhecível. Olhava para o nada. Joanne foi até Beth e olhou para seu rosto.
–Ela passou isso para você? -perguntou Joanne. -Ela passou?
Santana sentiu uma vontade imensa de vomitar, mas engoliu a ardência que subia pela garganta. Beth empurrou a mãe e explodiu, como se aqueles palavras a tivessem ativado.
–Você não está compreendendo-a! Há pessoas morrendo! Pessoas sendo queimadas! Pessoas desconhecidas querendo a morte de milhões de pessoas! Não há amor! E você a está negando isso? Você está favorecendo uma guerra? Isso que a Santana tem se chama amor e não é uma doença! Eu tive uma doença! Você quer isola-la do mundo! Quer que niguém saiba, mas olhe! Mamãe, a Santana achou o amor! Você não pode mais isola-la. Ela tem uma ligação com alguém. Milhões de pessoas estão perdendo pais, maridos e filhos e você está preocupada com um detalhe específico. Sua filha estava feliz. Até a inutilidade desse ato.
Joanne saiu da sala. Correu até o quarto e fechou a porta. Conseguiam ouvir móveis se arrastando e o baú pesado arranhando o assoalho. Rachel sentou seu pai, ainda imóvel no sofá e Beth levou Santana até o banheiro de uso geral no primeiro andar. Limpou o machucado em sua bochecha.
–Acho que vai ficar um pouco roxo. -disse Beth passando a mão levemente na bochecha de Santana. Ela correu até o sanitário e vomitou uma mistura amarelada. Beth caminhou até o corpo curvado e segurou os cabelos de Santana. -Você vai ficar bem, Sant. A mamãe está apenas nervosa. Ela foi criada achando que algo era normal e quando alguém que ela ama não faz parte desse todo, ela iria ficar em choque.
–Obrigada, Beth. -disse Santana olhando a irmã. -Por ter me defendido e por tentar fazer a mamãe entender.
–Tudo bem. -disse Beth sorrindo.
As duas ouviram uma batida na porta. -Santana, o papai quer falar com você.
–Me deseje sorte. -disse Santana baixinho.
–Boa sorte.
Rachel subiu as escadas e Beth não apareceu na sala. Santana estava olhou para o seu pai que estava de costas. Ele olhava a árvore ao lado pela grande janela da sala.
–O senhor queria me ver? -perguntou Santana alto suficiente para que ouvisse.
–Sente-se, Santana. -disse George. Ela se sentou e ele se virou, finalmente. -Eu fiquei horrorizado com o que você falou.
Santana abaixou a cabeça. -Me desculpe.
–Aceitas. -disse George. Ele olhou de cima para Santana. -Eu não fiquei surpreso com a sua revelação Santana, nem tão pouco horrorizado.
–Mas você disse que havia ficado...
–Por você achar que eu esperaria o pior de você. -disse George interrompendo-a. -Eu te amo, Santana. Você é e sempre será minha filha. Eu sei que a vertente que sua mãe tomou pode ter sido precipitada e enlouquecedora e assustadora!
–Pai, as mães sempre sabem. -disse Santana baixinho. -Elas sabem e mesmo assim, ficam furiosas.
–Dê um tempo para a sua mãe. -disse George num sorriso mínimo. -Deixe que ela entenda. Que ela compreenda. Eu ainda não consegui aceitar que minha filha tem uma... namorada. Mas não é pelo fato de ser Brittany, os céus sabem como eu adoro aquela menina, mas pelo fato de você namorar! Você deveria ser a minha menininha para sempre! Aquela menininha que não sabia ler e me pedia para contar histórias. Vocês não deveriam namorar antes dos trinta!
Santana riu contra a clavícula do pai, num abraço aconchegante. -Eu te amo, pai.
George ainda estava desnorteado, mas o abraço e aconchego não haviam mudado. "Essa é a minha filha." -Eu vou conversar com a sua mãe. E vá trocar de roupa. Depois nós iremos sair. George tentou dialogar com Joanne mas ela estava quieta. Não fala, nem gritava. Mal se mexia. Ele havia desistido de tentar falar com ela e saiu do quarto. A porta do quarto de Santana estava aberta e do corredor já era possível sentir o cheiro de seu perfume e ouvir a sua voz bem mais suave.
–Você até parece que acha que sabe para onde vamos.
–Talvez eu saiba. -disse Santana. Uma felicidade clandestina lhe enchia o peito.
–É. -disse George.
Eles deixaram a casa num silêncio absoluto, nem mesmo Rachel ouvia o rádio abafado. Todas estavam em seus quartos, incluindo Anna e Felícia que foram fazer compras e não pretendiam voltar tão cedo e presenciar um dilúvio do qual não faziam parte. Ele dispensou John e dirigiu o carro azul até o Parque central. Deixou o carro estacionado no parque e saiu. Santana não parecia triste, mas parecia um pouco desapontada.
–Você sabe como eu me tornei um banqueiro, Santana? -perguntou George enquanto caminhavam entre as árvores. -Eu não liguei para qualquer comentário ruim que as pessoas diziam de mim. Tudo bem que herdei o banco do meu pai, um dos únicos a sobreviver durante a recessão, e é claro que eu nasci aqui e fui criado, mas meu pai era espanhol. Um latino que nunca poderia ter o que quisesse, de acordo. Ele nunca escutou esses comentários. Você não deveria escutar esses tipos de comentário tão pouco, Santana.
Eles haviam saído do parque e atravessaram uma rua, onde se virasse a esquina poderia se ver a residência dos Grant. Santana sorriu, alucinada. George olhou para filha, imaginando-a como aquela pequena menina que roçava em sua perna quando tinha medo.
–Não tenha medo, Santana! -disse George virando a esquina com Santana ao seu lado. -Ninguém vive quando se tem medo.
Por tudo que acontecia, Santana se esqueceu de um pequeno enorme detalhe. Tocaram a campainha e Julieta atendeu a porta. Ela era o pequeno enorme detalhe.
–O que você está fazendo aqui? -peguntou Julieta olhando para Santana.
–Ela veio ve-la. -disse George. -Algum problema, senhorita?
–Todos os problemas! Essa menina transformou minha sobrinha. Como todas fazem! -disse Julieta entredentes. -Vá embora!
–Ela não vai embora. -disse George antes que Santana pudesse pensar. -Ela vai buscar a polícia. Você deve saber quem eu sou e a influência que eu tenho sobre as pessoas.
–Veja só! Você não criam a sua filha direito e a minha filha que paga. -disse Julieta cuspindo nos sapatos engraxados de George.
–Ela não é a sua filha. -disse Santana.
–E eu criei muito bem a minha filha! -disse George. -Pelo menos ela sabe o que é o amor! Diferente de um mulher maluca que acha que a vida gira em torno dela.
–E quem disse foi o homem mais influente do mundo! -Julieta soltou uma risada dramática. -Ela nem está aqui! Eu a mandei para um acampamento.
–Você mente mal. -disse George.
–Sua filha quebrou meu telefone! -Julieta gritou. George ficou intrigado, deu um passo para trás. Tirou do bolso esquerdo um maço de dinheiro e entregou na mão dela.
–Pelo telefone, agora deixe que minha filha apenas fale com ela.
–Ela deveria ter dito adeus quando teve oportunidade. -Santana endireitou a coluna.
–Onde ela está? -perguntou Santana suavemente.
Julieta focou seu olhar nela. Se abaixou para que ficassem na altura de Santana e caminhou até ela, bem devagar. -Em qualquer lugar que você não estiver. Vá embora!
Julieta fechou a porta e a trancou. Os dois ficaram ali. Seria patético, se não fosse triste. Era óbvio que não conseguiriam nada daquela mulher. O caminho de volta parecia mais curto. O tempo parecia passar com o dobro do natural. Quando entraram em casa, Santana queria apenas vestir a camisola de Brittany e dormir, mas novamente algo havia acontecido.
–Pai! -gritou Beth na ponta da escada. Ela correu até os recém-chegados e num tropeço falou tudo que a engasgava. -A mamãe foi embora.
Julieta subiu as escadas, Brittany estava trancada em seu quarto, chorando. Ela havia conseguido ouvir Santana e George. Ela havia ficado trancada desde o incidente do telefone. Sua cabeça enchia e esvaziava com frequência. Ela pensava em tudo e nada. Ouviu Julieta destrancando a porta e se sentou na cama. O prendedor nos cabelos de Julieta. Seria tão fácil. Apenas puxar dos cabelos. Apenas fazer com que deslizasse e caísse sem que ela percebesse. Mas ela perceberia. Ela percebe tudo. E aquele era o desastre. Algo tão notável e parcial.
–Você não me deixa escolhas, Brittany. Deixa-la aqui só piorará sua saúde mental. Você deve ir.
–Achei que você quisesse me consertar. -disse Brittany, o ódio crescendo em seu peito.
–Quando você não consegue consertar com as próprias mãos, você manda para um concerto. Está na hora de você ir. -disse Julieta. -O lugar não é agradável, mas me fez melhor. Me ajudou. Eu estou concertada!
–Concertada? -perguntou Brittany. -Você que não é normal.
–Claro que sou! E esse lugar vai ajudar você. -disse Julieta sorrindo e acariciando os cabelos de Brittany. Ela afastou aquela mão e se deitou. -Durma um pouco, enquanto tudo está quieto. Eu vou sair para dar um telefonema. Não pense em fugir, porque eu vou te encontrar e machucar qualquer pessoa que você diz amar.
Julieta trancou o quarto de Brittany e todas as portas. Foi até o seu apartamento e discou o número de emergência. Sabia que não poderia mandar Brittany para Paris, onde havia ficado, então demorou cinco minutos para encontrar, na lista telefônica, o número de um lugar com o nome razoável.
Catarina estava sentada na varanda da casa com a mão direita na barriga e a esquerda segurando uma xícara de café. Ela havia passado a manhã inteira sentada na varanda com aquela xícara. O café já estava frio. E o seu olhar focava o nada. Perto do horário de almoço, Howard estava subindo a pequena colina. Ela acenou e entrou em casa. Jogou o café na pia e havia percebido que não havia preparado nada para o almoço.
–Bom dia, querida! -disse Howard sorrindo. Segurou suas costas suavemente e beijou seus lábios.
–Howard, eu esqueci de preparar o almoço. -disse Catarina. -Eu esqueci, eu estou tão... Tudo acontecendo tão rápido! E sem notícias de ninguém!
–Eu já disse que as meninas estão bem! -disse Howard num sorriso. -E tudo bem, podemos comer uma torta que eu trouxe.
–Você não entende! -disse Catarina. -Eu nunca quis ser o modelo de mulher perfeita! Eu nunca esperei que fosse uma dessas mulheres.
–Você é a mulher perfeita, porque é o amor da minha vida. -disse Howard sorrindo. Beijou sua bochecha. -Eu nunca me apaixonei por você porque esperava que você fosse mudar.
Catarina o abraçou. -Eu estou pensando em voltar mais cedo, mais cedo do que planejávamos. Não acho esse lugar tão seguro.
–Eu entendo, querida. Mas não posso deixa-la ir sem que me diga se algo está perturbador ou errado ou fora de seus planos.
–Meus planos mudaram. -disse Catarina rindo. -Eu nunca fiz planos, de qualquer maneira.
Brittany ouviu a voz de sua tia, alta, mas nem tão clara. Ela se recusou a virar, mas achava que a tia estava falando sozinha. Tentou dormir, mas o som era alto. Ouviu mais de um par de pés na escada e levantou um pouco a cabeça, procurando ouvir qualquer detalhe.
–"Ela anda meio desnorteada, cabisbaixa." -conseguiu ouvir a voz de Julieta. -"Tudo por causa daquela menina da qual falei. Abusada."
–"Ela teve esse relacionamento. A senhora ouviu ou viu alguma coisa?" -perguntou uma voz monótona.
–"Se beijavam. E abraçavam. Eu não sei mais o que fazer com a minha filha. Diz que está apaixonada por aquela menina!" -Riu sozinha da ironia. -"Ajudem-na, por favor!"
–"Faremos o possível por sua filha, senhora Grant." -disse a voz monótona. Brittany fechou os olhos bem fundo, mas não escutou mais nada. Conseguia ouvir trechos de comentários, mas havia passado mais de meia hora quando a porta se abriu.
–Essa é a Brittany. -disse Julieta, numa simplicidade. Como se batesse bolo e cozinhasse o dia inteiro. -Querida, estes homens vieram lhe ajudar.
–Olá, Brittany! -disse a voz monótona. -Você tem um mãe que se importa muito com você para começar um tratamento especial.
–Tratamento? -Brittany se levantou da cama.
–Sim, existem tratamentos para pessoas como você. Que acham que amam alguém do mesmo sexo. Vamos levar você para esse tratamento e você sairá de lá normal e pronta até para se casar com um homem. Um menina tão bonita como você.
Brittany vomitou ao lado de seu colchão. -Você fez isso? -olhou para Julieta com lágrimas nos olhos.
–Sua mãe apenas deseja o melhor para você.
–Ela não é a minha mãe! -gritou Brittany. -Ela é uma maluca que era a minha tia.
–Mesmo assim, criança. -disse o senhor. -Ela pode querer curar você.
O senhor se virou para os outros homens que vestiam branco. -Nega a existência da mãe. Checar dados.
–Eu já disse que ela não é a minha mãe! -disse Brittany e num pulo arrancou o prendedor dos cabelos loiros de sua tia e tentou passar pela porta, mas uma agulha foi enfiada nas suas costas e ela adormeceu por um bom tempo. Quando acordou, estava num quarto minúsculo e branco. Tinha uma pequena janela e sua cama. A porta era de ferro fundido e ela usava uma roupa branca. Ela sentiu algo entre as mãos e era o prendedor com alguns fios de cabelo. Ela pôs os pés para fora e se sentou. Colocou o prendedor no colo e tentou se lembrar de todos os perfumes que gostava. O de cachimbo do seu avô, o de rosas da sua avó, o de cigarros do seu pai, o suave de Catarina, o de peixe de Dorothy e o único e inexplicável que era o de Santana. Ela ouviu o ferro sendo arrastado e alguém entrando no cubículo. Era uma enfermeira.
–Por favor, me diga onde estou. -pediu Brittany num sussurro.
–Você está no sanatório Prose. -disse a enfermeira. -Onde cuidamos dos casos mais preocupantes de homossexualismo.
(N/A) : É apenas uma observação histórica, antes dos anos 70 e alguma coisa, homossexualidade era considerado doença pelas pessoas. Em 197e alguma coisa, o termo homossexualismo foi mudado para homossexualidade. A diferença traz no final, porque "ismo" geralmente termina o nome de doenças. Para frente, sempre!
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