Notas iniciais
Olá pessoas!!! Eu notei que vocês preferem os capítulos compridos, então esse será o último "pequeno". E esse é como se fosse uma versão Grant do capítulo anterior. Espero que gostem, vai ter muita Britt aqui e espero que entendam tudo que acontece. Eu chorei... Espero que gostem e boa leitura!!!

–Acorde! -uma voz chamou Brittany pela porta de ferro. -Você precisa se alimentar antes da terapia.
–Eu já estou indo. -disse Brittany. Não achou que a enfermeira tivesse ouvido e ficou apenas esperando que ela esmurrasse a porta como um aviso de última chamada.
Brittany se levantou e tocou o sino que ficava ao lado de sua cama. O sino indicava quando as "pacientes" estavam de saída de um lugar para que estivessem sempre acompanhadas e, é claro, vigiadas. A enfermeira abriu a porta e segurou Brittany pelos braços. A levou até uma pequena área de convívio, onde comiam e tomavam seus remédios. A enfermeira empurrou Brittany até uma mesa qualquer e a deixou ali. Com uma bandeja de comida intragável e remédios saborosos.
–Você não deveria tomar os azuis. -disse a menina ao seu lado. -Eles te fazem enlouquecer ainda mais e ficar mais tempo aqui.
–Eu não sei o que fazer com...
–Me dê aqui. -disse a menina segurando o comprimido. Olhou para as enfermeiras e o mastigou, mostrou os dentes azuis esverdeados para Brittany. Ela não sabia mais em que sanidade ela deveria confiar. Ela balançou o sino e a enfermeira a conduziu até a sala de terapia. Era uma sala pequena, tinha duas poltronas e uma grande mesa ao fundo. Lotada de papeis, prontuários médicos e embalagens de chocolate. O terapeuta, senhor Marcus, estava devorando uma barra de chocolate quando ouviu a porta se abrir. Ele tentou enfiar a embalagem nas gavetas, mas em vão. A enfermeira a deixou ali e fechou a porta.
–Bom dia, senhorita Grant. -disse Marcus olhando um pequeno espelho que tinha em mãos. Ele usava um agasalho que o engordava ainda mais. Ele era calvo e usava óculos meia-lua. Estava muito além do peso ideal, e parecia ser solteiro. -Você parece melhor hoje.
Brittany se sentou numa das poltronas e esperou que ele apenas parasse de tentar ser engraçado e começasse logo a terapia. Ele se sentou na poltrona que sobrou e olhou para ela, profundamente.
–Olá, senhor Marcus. Podemos começar?
–Senhorita Grant, a senhorita já teve pensamentos impuros sobre mulheres? -Brittany não respondeu. Ela ficou imóvel na poltrona. -Senhorita Grant! O silêncio é apenas a afirmação não dita.
–O que vai acontecer, hã? Seu eu contar, vão me jogar na água. Se eu não contar, vão me jogar na água. Qual é o motivo, senhor? Não, qual é a diferença? Não é o meu corpo que vai descer na plataforma e que congela? Eu escolho o que devo falar. É a única coisa que posso controlar, porque até os meus pensamentos estão sendo tirados de mim.
Marcus anotava num bloco de papel e ditava em voz alta. -Tem problema com os tratamentos. -ele parou e olhou para ela. Brittany estava nervosa, mas tentava ficar calma. -Não exagere, senhorita Grant. Quero apenas ajuda-la a se tornar uma pessoa normal.
–Eu sou normal.
–Não, não é. Deveria agradecer a sua tia que quer cuidar de você e se importa o bastante para tratar de sua doença. Você acha que é normal porque ninguém lhe ensinou o contrário, mas aqui podemos...
–Você não acha que o começo de um bom tratamento é diferenciar doença de preferência? -Brittany o interrompeu. -Existem pessoas que apenas nasceram assim. LIDE COM ISSO!
–Tão corajosa e falante! Você não parecia tão corajosa perto da cadeira especial.
–Minha enfermeira falou que você precisa de um conselho especial para casos assim. Seja lá o que "casos assim" signifique. E uma assinatura de um parente e como eu sei que minha tia é imbecil o bastante para lhe conceder, eu espero apenas que o conselho seja sensato.
–Você é rápida, senhorita Grant. -admitiu Marcus, escrevendo no bloco de notas.
–Se fosse a sua vida, você também seria. -Brittany balançou o sino e a enfermeira apareceu. Continuou pelo corredor mesmo que Marcus a chamasse. Ela seguiu acompanhada como sempre.

–Mais uma dose, por favor. -pediu Julieta enquanto colocava seu casaco de inverno. O barista estranhou uma mulher tomando aquela quantidade de bebida pela tarde, mas colocou mesmo assim a dose no copo de cristal.
–Dia difícil? -perguntou o homem se sentando ao lado de Julieta.
–Você pode não falar comigo? -pediu Julieta num voz embargada e bêbada. -E sentar longe.
–Achando que pode mandar em um homem? -A voz arrastada num sotaque francês.
–Eu não mandei, eu pedi. Agora, por favor.
Ele pegou o copo de Julieta e jogou o resto da bebida em cima de seu vestido. Julieta fechou os olhos e se levantou. -Está feliz agora, senhorita?
–Eu estou ótima, senhor francês. -disse Julieta sorrindo. -A bebida estava um droga, mesmo.
Ela pegou a bolsa e deixou o bar. Andava na rua como uma marionete e o corpo estava desengonçado. Ela acendeu um cigarro francês e se sentou numa escada de uma casa qualquer. Ela podia ouvir os sussurros de indignação das pessoas que passavam por ela. Bem, ela sentia nojo de todos. Começou a achar que as pessoas necessitavam de certas atrações para seguirem com suas vidas miseráveis, mas Julieta nunca acreditou que pudesse ter uma vida miserável. E ela tinha. Ela tinha grandes sonhos que agora derretiam como neve na primavera. Apenas uma única vez, ela acreditou que poderia ser feliz. E pra cá do mundo, lá está ela. Fedendo a bebida barata e fumando seu inseparável cigarro.

–O que é isso na sua mão? -perguntou Linius para Howard quando estavam almoçando. -Um charuto?
–São dois, na verdade. -disse Howard. -Aceita um? São da melhor coleção de charutos que existe.
–A do Duvivier?
–Não, são do meu pai. -disse Howard rindo. Ele entregou um para Linius e e mordiscou o seu próprio, o gosto estava bom e acendeu-o.
–Você tem uma filha, não é? -perguntou Linius.
–Tenho, sim. -disse Howard sorrindo ao se lembrar do belíssimo sorriso de Brittany. -Está quase adulta. Mas continua sendo a pequena criancinha que segurei no colo pela primeira vez.
–Ela se parece som Catarina?
–Não, não. -disse Howard rindo. -Ela é filha da minha primeira esposa que teve complicações do parto.
–Sinto muito, senhor. -Linius limpou a voz. -O que acha que ela deve estar fazendo agora? A minha deve estar aprendendo a falar.
–Bem, ela ficou com a irmã de Catarina, que é uma doce mulher, e seu marido, que é um homem genial. Acho que ela deve estar rodopiando e saltando para os treinos de ballet.
–É horrível ter que deixa-las, não é? -exclamou Linius. -Um dia você a deixa e no outro ela já está falando. Crescem muito rápido.
–É horrível, sim. Mas pelo menos sei que está segura.

Havia colocado Brittany para outro tipo de terapia. Prenderam-na com uma camisa de força e a deixaram numa sala forrada por colchões. A sala era clara. Tinha essa parede que fora derrubada e substituída por janelas com barras de ferro. Brittany ficava sentada, olhando para janela até que seus braços doessem e adormecessem. Atrás das barras de ferro e da janela de vidro, ela imagina Santana correndo pelo campo. Com um vestido branco. Correndo e rindo. Havia vezes em que sonhava alto e se imaginava na rua com ela. Podia sentir o vento nos cabelos e as mãos suando por estar segurando as mãos de Santana. Conseguia ouvir seu riso, o seu perfume e até o gosto de seus lábios na sua boca. Ela havia perdido a conta de quantas vezes tentara arranjar um vilão para situação. Mas Santana sempre seria sua heroína e pedia para qualquer voz que a escutava. "Não chore."

Julieta acordou com um jato de água nas pernas. Algumas crianças saíram correndo quando viram ela abrir os olhos. Julieta havia dormido na escada onde havia apenas sentado. Sua meia-calça estava cheia de buracos pelas cinzas do cigarro que caiam e queimavam a meia. Ela estava sendo julgada por todos os olhos que passavam por ela. Se levantou e tentou andar com o máximo de dignidade que conseguia arranjar. Tirou os sapatos e jogou numa lixeira. Começou a correr. A meia calça era o única textura entre a rua e o seus pés. Ela correu pela avenida principal. Desviava dos carros. Chorava, pela primeira vez, ela sentia um sentimento lhe ocupando de verdade e inteiramente. A tristeza. Corria sem rumo e sem jeito. Corria para onde seus pés a levassem. Eles a levaram até onde a luz não conseguia chegar, onde a alegria estava proibida, onde a dor era seu único acompanhante. No fundo, ela conseguia ouvir risadas e promessas. Ela rodava e não conseguia parar. Ninguém iria parar por ela. Até que parou. E tudo se acalmou por um simples segundo. Até que ela sentiu seu corpo coberto de luz. Até que a dor que sentia fosse embora. E o seu corpo, jazia imóvel sobre uma poça de sangue. De seu próprio sangue.

–Grant. Brittany Grant. -disse Marcus quando chegou no prontuário de Brittany. -Um pequeno resumo da minha experiência com ela. Maluca. Completamente.
–Pode ler o prontuário, senhor Marcus? -pediu Melissa com uma certa impaciência. Ela era a única mulher entre os cinco médicos do conselho do sanatório Prose. -Não podemos definir uma paciente apenas pela sua experiência com ela. Existem outros fatores muito mais preparados e estudados.
–Parece que alguém está sangrando hoje. -disse Marcus como uma piada. Nenhum dos médicos riu. Enquanto Marcus ria, parecia um porco grunhindo. -Não é?
–Talvez o fato de que eu tenha um doutorado pela Universidade de Oxford tenha intimidado você, senhor Marcus, que mal possui uma faculdade. Todavia, meu ciclo menstrual não deveria ser o tópico principal dessa conversa, já que nosso trabalho deveria se resumir aos pacientes. E aos pacientes somente.
–Grant. Brittany Grant. -disse o médico ao lado de Marcus, pegou o prontuário das mãos gorduchas dele. -Os exames nem foram feios nessa paciente. Por que você a trouxe para o conselho, Marcus?
–Porque ela é uma lunática homossexual.
O prontuário foi passado para Melissa. -Marcus. Essa menina não tem dezoito anos, o que ela está fazendo aqui?
–Está no prontuário. -disse Marcus sorrindo.
Melissa buscou pela folha que todos deveriam preencher para colocarem seus filhos no sanatório. -A tia dela? Isso não significa parente de segundo grau? Ela ainda possui os dois pais?
–A tia a declarou como extremamente agressiva e perturbada. Diz que tinha inventado uma namorada. Diz que...
–Marcus! -exclamou Melissa. Ela colocou o prontuário no colo. -Você trouxe a possível ideia de colocar uma pessoa sem avaliação para o tratamento de choque. A menina não possui a maioridade penal. E usamos apenas o tratamento de choque em casos irrecuperáveis. Você deveria saber disso! Se está difícil para você saber diferenciar os doenças, terei que comunicar a direção.
–Por que não vão ver a menina? -indagou Marcus transtornado. -Se acham que não sei identificar uma maluca quando vejo uma...
–Eu nunca disse que sabia, e pelo jeito não sabe. -disse Melissa se levantando com o prontuário em mãos. -Você faz a ficha familiar dela. Ligue para os pais dela. Para a tia, em segunda ordem. Eu vou ver a paciente. E até lá, Marcus, torça pelo seu emprego.
Brittany estava sentada nos colchões, olhando para além das barras de ferro. Melissa entrou no quarto, duas enfermeiras a acompanhavam. Brittany sussurrava baixinho. Era incomum que os médicos fossem até os pacientes nas salas de terapia "intensificadas". Melissa se abaixou perto da Brittany.
–Olá, Brittany. -disse Melissa sorrindo. -Você está bem?
Havia uma coisa que Brittany havia aprendido nessas semanas intermináveis. Os adultos se obrigam a ouvirem o que querem ouvir. Que se ela disser que não é louca. Eles não iriam acreditar. Que se gostasse de meninas, o que de fato acontecia. Eles não iriam acreditar. Especialmente ali, no sanatório Prose. Ela olhou para Melissa e conseguia ver seu semblante transparecer.
–Estou sim, obrigada. -disse Brittany. Melissa se levantou e sussurrou algo para as enfermeiras. Alguns minutos depois, Brittany podia sentir seus braços livres e molengas.
–Muito melhor. -disse Melissa. -Escute, Brittany. Eu preciso que você me diga toda a verdade que está por trás do seu caso.
Brittany olhou para seus pés e respirou fundo. A garganta estava seca e parecia que havia sido cortada. Num silêncio profundo, ela considerou o que ia fazer. O que iam fazer com ela caso abrisse a boca. Acreditariam nela? Ou fariam com que apodrece ali?
–Minha tia me mandou para cá. Ela tem esse distúrbio de personalidade que a faz...
A porta da sala de abriu e uma enfermeira nervosa entrou. Ela suava pela roupa branca e tinha a mão no peito.
–Doutora Melissa. -disse a enfermeira cansada. -Temos uma emergência sobre a senhorita Grant.
–Sim, eu sei. -disse Melissa. Ela se levantou. -Estou tentando resolver esse problema no momento.
–Não, a doutora não entende. A mãe dela está chamando todos os médicos na recepção. Ela diz que houve um engano horrível, se referia à Brittany Grant. Você foi solicitada.
–Minha mãe morreu quando eu nasci. -declarou Brittany.
Melissa olhou para Brittany. Ficou de cócoras e olhou nos olhos de Brittany. -Eu vou fazer o possível para ajuda-la. Algum aviso de última hora?
–Tome cuidado com uma senhora de cabelos loiros. -disse Brittany. -Apenas com ela.
–Levem a Brittany para seu quarto, com cuidado. -ordenou Melissa, sendo acompanhada por uma das enfermeiras.
Melissa seguiu o corredor até a sala da recepção. A primeira coisa que notou foi a moça que não era loira. Isso já foi um alivio.
–O QUE VOCÊS ESTÃO FAZENDO COM A MINHA FILHA? -gritou a moça para os médicos. Para todos que a ouviam. -Isso é um terrível engando. TIREM-NA DAÍ!
–Me desculpe, mas a senhorita não se identificou. -disse o recepcionista. Ele tremia. -Não podemos fazer nada até que a senhorita se acalme e relaxe.
–Eu sou Catarina Carmel. -ela disse numa soprada só.
–Me desculpe, mas ainda... -disse o homem tremendo atrás de sua mesa.
Melissa arrastou sua voz, chamando a atenção para ela. -Brittany comentou que sua mãe havia morrido.
–A mãe biológica dela, sim.
–QUEM É A SENHORA? -gritou o homem, impaciente e medroso.
–Eu sou casada com Howard Grant, pai da Brittany. E ela está num sanatório sem o nosso consentimento. -Catarina levou a mão até a barriga e a cariciou.
–Faremos o possível, senhorita Carmel. -afirmou um dos médicos, estava até envergonhado pela situação.
–O possível não é suficiente. -disse Catarina entre dentes. -E é senhora Grant.
–Senhora Grant, poderia me acompanhar? -pediu Melissa. -Acho que devemos conversar sobre o ocorrido. E explicar a situação que não foi compartilhada com todos.
–Absolutamente. -disse Catarina seguindo Melissa até uma sala silenciosa onde as enfermeiras conversavam.
As duas mulheres ouviram e se explicaram com feições aterrorizadas. Não faziam ideia do que se passava. Um simples contato entre elas e tudo teria sua diferença. Mas não havia acontecido. Alguns minutos depois, Catarina foi chamada. Melissa a acompanhou. Ouviram portas de ferro sendo abridas pelos corredores ocos e chaves virando nas fechaduras. Quando a última porta foi aberta, Brittany saiu acompanhada de sua enfermeira. O sino nas mãos e ainda utilizava roupas brancas. Apenas no cabelo, ela usava o prendedor. Catarina correu até ela e a segurou. A esmagou, chorando. Brittany demorou alguns segundos para reconhecer o cheiro de Catarina e quando o fez, levantou os braços numa saudade descomunal.
–Não chore. -disse Brittany baixinho.

Notas finais
Então, eu tive que correr porque não aguentei ver a Britt sofrendo. Se ficou dúvidas, ela passou alguns meses no lugar indesejado. Então... Próximos capítulos serão maiores! E espero que tenham gostado! Comentem!! Beijos e até o próximo!