Até você voltar
26 O Quebrar do Silêncio (Continuação)
O tempo no hospital não parecia seguir uma lógica normal.
Minutos viravam horas.
Horas viravam um tipo estranho de vazio que eu não conseguia preencher com pensamento nenhum.
Eu ficava alternando entre acordada e meio perdida, como se minha mente não conseguisse decidir se voltava ou não de vez para o corpo.
Ane continuava ali.
Às vezes sentada.
Às vezes andando de um lado para o outro.
Às vezes apenas me observando em silêncio, como se tivesse medo de qualquer palavra quebrar alguma coisa dentro de mim.
E talvez tivesse mesmo.
— Você quer água? — ela perguntou em algum momento.
Assenti devagar.
Minha garganta queimava.
Cada movimento era lento, pesado, como se eu estivesse dentro de algo mais denso que o próprio ar.
Quando ela me ajudou a beber um pouco, fechei os olhos por alguns segundos.
E foi suficiente.
Porque quando fechei os olhos, ele voltou.
Bernardo.
Não inteiro.
Em fragmentos.
A mão dele no jardim.
A voz baixa.
O olhar quando me viu.
Aquele segundo de culpa que eu não consegui ignorar.
E junto dele… a mulher.
A frase dela ecoando como se ainda estivesse acontecendo.
“Você falou que me amava.”
Minha respiração travou de novo.
Ane percebeu imediatamente.
— Beca, acorda — ela disse, firme, mas suave.
Mas eu já estava lá.
Não era escolha.
Era queda.
Quando finalmente me transferiram para o quarto, o movimento ao redor diminuiu.
Menos luz.
Menos barulho.
Mais silêncio.
Mas o silêncio não ajudava.
Só ampliava tudo dentro de mim.
Ane saiu por alguns minutos para falar com a equipe médica, e eu fiquei sozinha pela primeira vez desde que acordei.
Sozinha de verdade.
Olhei para o teto branco.
Depois para a janela.
Depois para as minhas mãos.
Estavam com pequenos arranhões.
Nada grave, segundo eles.
Nada que explicasse o que eu sentia por dentro.
E talvez fosse isso que mais incomodava.
Por fora, tudo parecia “ok”.
Por dentro, eu não sabia onde me encaixava.
A porta abriu de leve.
Achei que fosse Ane voltando.
Mas não era.
Era uma enfermeira.
— Como você está se sentindo, Beca?
Demorei um segundo para responder.
— Cansada… — minha voz saiu baixa.
Ela assentiu com gentileza.
— Isso é esperado. Você sofreu um impacto forte, mas seus exames estão estáveis. Você teve um apagão após o acidente, o que é comum em situações de estresse e choque.
Apagão.
A palavra ficou rodando na minha cabeça.
Como se explicasse algo.
Mas não explicava tudo.
Porque o que tinha acontecido antes do acidente… ainda estava inteiro em mim.
Ela saiu depois de alguns minutos, me deixando com o silêncio de novo.
E foi nesse silêncio que eu finalmente deixei acontecer.
Sem tentar evitar.
Sem tentar empurrar para longe.
Bernardo.
A festa.
O jardim.
A mulher.
A mão dele.
E então… Derick.
Sempre Derick.
Como se meu cérebro insistisse em ligar tudo aquilo ao mesmo ponto final.
Fechei os olhos com força.
Mas dessa vez não veio só a dor.
Veio uma sensação diferente.
Raiva.
Baixa.
Confusa.
Misturada com tristeza.
Não era só sobre ele.
Não era só sobre ela.
Era sobre mim.
Sobre o jeito que eu sempre chegava no mesmo lugar.
Sobre como, de alguma forma, eu sempre terminava assim.
Sozinha, dentro de uma história que parecia estar indo bem… até não estar mais.
— Você não pode continuar fazendo isso consigo mesma… — sussurrei para mim, sem perceber.
A porta abriu de novo.
Ane voltou.
E quando me viu acordada e quieta demais, parou na hora.
— Ei… — ela disse baixo. — Você tá aqui ou tá longe?
Olhei para ela.
Demorei para responder.
— Eu tô… tentando entender.
Ela sentou ao meu lado de novo.
— Você não precisa entender tudo agora.
Fiquei em silêncio.
E então a pergunta escapou antes que eu pudesse impedir.
— Ele estava lá mesmo?
Ane sabia exatamente de quem eu estava falando.
Não precisou perguntar.
Ela respirou fundo.
— Estava.
Pisquei devagar.
— Ele viu?
— Viu.
Meu peito apertou.
— E?
Ane hesitou.
E essa hesitação doeu mais do que qualquer resposta direta.
— Ele ficou… destruído, Beca.
Engoli seco.
Destruído.
Essa palavra não combinava com o Bernardo que eu conhecia no trabalho.
O controlado.
O firme.
O que sempre parecia saber exatamente o que fazer.
— Ele tentou ir atrás de você — ela continuou. — Mas você já tinha saído da festa.
Fiquei olhando para um ponto fixo na parede.
Como se aquilo pudesse organizar alguma coisa dentro de mim.
Mas não organizava.
Só bagunçava mais.
— Eu não vi ele… — falei baixo.
Ane segurou minha mão.
— Você estava em choque.
Assenti devagar.
Mas a verdade era que aquilo não resolvia nada.
Porque, no fundo, eu não sabia o que era pior.
Não ter ouvido a explicação.
Ou ter ouvido demais.
Naquela noite, quando o hospital finalmente ficou mais silencioso, eu não consegui dormir.
Toda vez que fechava os olhos, eu via o mesmo cenário.
O jardim.
A voz dela.
A mão dele.
E, no meio disso tudo, eu.
Indo embora.
Sempre indo embora.
E então vinha Derick de novo.
Como uma lembrança que não pedia permissão para existir.
“Eu não posso mais.”
A frase dele parecia colada na minha memória.
Como se todos os términos tivessem a mesma forma.
Senti uma lágrima escorrer, mas não limpei.
Não tinha força.
Nem vontade.
Só uma sensação estranha de cansaço profundo.
Não físico.
Mas emocional.
Como se eu tivesse carregado muita coisa por muito tempo.
A porta abriu bem devagar.
Ane já tinha ido descansar.
Mas não era ela.
Era uma enfermeira apenas verificando os aparelhos.
Ela percebeu que eu estava acordada.
— Quer algo para dormir? Posso chamar o médico.
Pensei por alguns segundos.
E neguei com a cabeça.
— Não… tá tudo bem.
Ela hesitou.
— Se precisar, me chama.
Assenti.
Quando ela saiu, o quarto voltou ao silêncio.
E, pela primeira vez naquela noite, eu não lutei contra ele.
Deixei vir.
Bernardo.
Não como imagem distorcida.
Mas como memória inteira.
O jeito que ele me olhava.
O cuidado escondido nos detalhes.
As mensagens simples.
O silêncio entre nós que nunca era vazio.
E a última imagem dele na festa.
Não o momento do jardim.
Mas o olhar dele quando me viu saindo.
Não era culpa apenas.
Era perda.
E isso me atingiu de um jeito inesperado.
Porque, de alguma forma, aquilo não parecia um fim.
Parecia uma interrupção.
E essa diferença… doía mais do que eu queria admitir.
Fechei os olhos de novo.
E dessa vez, não vi só Derick.
Nem só a dor.
Vi também algo que eu ainda não sabia nomear.
Algo entre medo e saudade.
E, pela primeira vez desde o acidente, uma pergunta ficou presa dentro de mim sem resposta.
Se eu tivesse ficado… o que teria acontecido depois?
O hospital tinha um jeito estranho de apagar o tempo.
As luzes nunca mudavam muito.
Os sons vinham abafados.
E a sensação era de que tudo estava acontecendo atrás de um vidro grosso, distante demais para eu alcançar.
Eu acordava, fechava os olhos, acordava de novo.
E em todas as vezes, a mesma coisa acontecia: minha memória não voltava inteira.
Ela vinha em pedaços errados.
Deslocados.
Como se alguém tivesse misturado páginas de uma história que eu não conseguia mais ler direito.
Ane estava sempre ali.
E isso era a única coisa que parecia real o suficiente para eu confiar.
— Beca… você lembra do que aconteceu? — ela perguntou em um desses momentos, sentada ao meu lado.
Demorei.
Muito.
Porque eu queria responder certo.
Mas não tinha certeza de nada.
— Eu… saí da festa. — falei devagar. — Fui embora.
Ane assentiu, com cuidado.
— E depois?
Pisquei algumas vezes.
A cabeça doía quando eu tentava forçar lembranças.
— Eu… eu dirigi. Acho que… — parei, sentindo um vazio. — Não lembro direito.
Ela respirou fundo, como se já esperasse isso.
— Você sofreu um apagão, Beca. É normal depois de um impacto forte.
Apagão.
A palavra voltava o tempo todo.
Mas ela não explicava tudo.
Porque tinha algo mais faltando.
Algo importante.
Algo que eu sabia que deveria estar lá… mas não estava.
Fechei os olhos com força.
E foi aí que veio a única memória clara.
Derick.
Sempre Derick.
Não com detalhes bonitos.
Mas com aquela sensação antiga.
Pesada.
Conhecida.
A voz dele, distante:
“Eu não consigo mais.”
A expressão cansada.
O fim.
Sempre o fim.
Abri os olhos de novo, respirando mais rápido.
— Eu… só lembro dele. — falei baixo.
Ane ficou em silêncio por um instante.
— De quem?
Engoli seco.
— Do Derick.
O nome dele parecia firme na minha memória.
Como se fosse a única coisa que ninguém tinha conseguido apagar.
— Você terminou com ele há muito tempo, Beca… — Ane disse com cuidado.
Franzi a testa.
— Eu sei.
Mas não parecia “há muito tempo”.
Parecia recente.
Parecia o último evento real da minha vida.
E isso me confundia ainda mais.
Os dias seguintes foram um tipo estranho de reconstrução que nunca parecia completa.
Os médicos falavam comigo com calma.
Ane tentava explicar o acidente.
A empresa tinha sido avisada.
Tudo parecia organizado no mundo externo.
Mas dentro de mim… nada fazia sentido.
Eu lembrava do carro.
Da estrada.
Da sensação de perda de controle.
E depois… nada.
Um buraco.
Um intervalo sem explicação.
— Você teve um estresse muito forte no momento do acidente — o médico explicou em uma das visitas. — Isso pode causar apagões temporários de memória, principalmente relacionados a eventos recentes.
— Recentes? — repeti.
Ele assentiu.
— Sim. É comum o cérebro “bloquear” o que foi emocionalmente intenso.
Olhei para ele, tentando entender.
— Então… eu posso lembrar depois?
— Pode. Ou pode voltar aos poucos. Ou não voltar completamente.
Aquilo não ajudou muito.
Na verdade, só deixou tudo mais confuso.
Porque havia algo dentro de mim insistindo que estava faltando uma peça grande demais.
E eu não sabia qual.
No terceiro dia, Ane trouxe algumas roupas limpas e meu celular.
— A empresa perguntou de você — ela disse, tentando soar leve.
Assenti, sem muita reação.
— E… o Bernardo também.
O nome veio simples.
Mas meu corpo reagiu antes da minha mente.
Um aperto no estômago.
Um desconforto imediato.
Franzi a testa.
— Bernardo…?
Ane parou por um segundo.
— Sim… ele é seu chefe.
Fiquei olhando para ela.
Esperando a continuação.
Mas não veio nada mais.
— Eu… não lembro dele — falei, confusa.
Ela piscou, surpresa.
— Não lembra?
Balancei a cabeça devagar.
— Não.
Silêncio.
Um silêncio estranho.
Pesado.
Como se aquela resposta tivesse mudado alguma coisa que eu ainda não conseguia ver.
— Beca… — Ane começou, cautelosa. — Ele estava na festa.
— Eu sei. — respondi. — Você falou.
— E ele… te viu sair.
— Tá.
— E ele foi atrás de você.
Parei.
Essa parte não encaixava.
— Por quê?
Ane hesitou.
— Porque vocês… eram próximos.
A palavra “próximos” parecia vaga demais.
Insuficiente.
— Próximos como? — perguntei.
Ela respirou fundo.
— Vocês estavam… envolvidos.
Pisquei.
Uma vez.
Duas.
E então nada veio.
Nenhuma imagem.
Nenhum sentimento associado.
Nada.
Só um vazio.
— Não… — falei baixo, confusa. — Eu não lembro disso.
Ane me encarou com mais atenção agora.
— Não lembra mesmo?
Neguei devagar.
E foi aí que a expressão dela mudou.
Não era surpresa simples.
Era preocupação.
Profunda.
— Você lembra de mais alguém da festa? — ela perguntou.
Pensei.
Forçando a mente.
Barulho.
Luzes.
Música.
Rostos sem nitidez.
E só.
— Não… — respondi. — Só lembro de ter saído… e depois o acidente.
Ane ficou em silêncio por alguns segundos longos demais.
— E o Derick? — ela perguntou de novo, com cuidado.
— Lembro dele. — falei automaticamente.
— Como?
Pisquei.
— Do término.
Minha voz saiu firme.
Clara.
Como se aquilo fosse a única coisa organizada dentro de mim.
E talvez fosse.
Naquela noite, sozinha no quarto, eu fiquei olhando para o teto por muito tempo.
Havia algo errado.
Não no ambiente.
Em mim.
Era como se minha mente tivesse selecionado o que manter.
E o resto tivesse sido apagado.
Mas por quê?
Peguei o celular com dificuldade.
Havia mensagens antigas.
Algumas de Ane.
Algumas de Bernardo.
Algumas do trabalho.
E outras… que eu não reconhecia.
Conversas curtas.
Sem contexto.
Sem emoção.
Apaguei a tela.
Não ajudou.
Porque mesmo sem lembrar, havia uma sensação estranha insistindo dentro de mim.
Como se alguém tivesse sido importante.
Muito importante.
Mas agora não existia mais.
Respirei fundo.
E sussurrei para o quarto vazio:
— Por que ele estava lá?
A pergunta não tinha resposta.
Bernardo.
O nome ainda não tinha forma dentro da minha memória.
Mas o vazio que ele deixou… sim.
E isso era o mais assustador.
Porque eu não sabia o que era pior:
não lembrar de alguém que supostamente significava algo…
ou sentir falta de algo que eu nem sabia que tinha perdido.
O quarto do hospital estava mais silencioso naquela tarde.
A luz entrava pela janela em um tom pálido, quase cinza, como se o céu também estivesse cansado de ser claro demais.
Ane tinha saído para resolver coisas com a empresa.
E eu estava sozinha.
Pela primeira vez, o silêncio não parecia só vazio.
Parecia espera.
Eu não sabia pelo quê.
Até a porta abrir.
Devagar.
Sem pressa.
E então ele entrou.
Bernardo.
Eu soube o nome dele naquele instante, não porque minha memória me entregou, mas porque Ane já tinha repetido antes. Chefe. Empresa. Festa.
Mas ainda assim… não havia conexão.
Era só informação.
Ele parou ao me ver acordada.
Por alguns segundos, não disse nada.
Só me observou.
Como se estivesse tentando reconhecer alguma coisa que já não existia.
— Beca… — ele disse, baixo.
O nome soou estranho na voz dele.
Ou talvez estranho em mim.
Assenti de leve, educada, como se ele fosse um visitante comum.
— Oi.
Ele pareceu travar por um instante.
Como se essa resposta não fosse a que ele esperava.
Aproximou-se devagar até a cadeira ao lado da cama.
Sentou sem pressa.
E só então falou:
— Como você está se sentindo?
Pensei antes de responder.
— Cansada.
Ele assentiu, olhando para minhas mãos.
Silêncio.
Um silêncio que não era confortável.
Era cheio.
Mas eu não sabia do quê.
— Você… me conhece? — perguntei, direta.
A pergunta pegou ele de surpresa.
Ele piscou.
Uma vez.
Depois outra.
— Eu… — ele começou, mas parou.
Respirou fundo.
— Sim.
A resposta veio simples.
Mas havia algo quebrado nela.
Franzi a testa.
— Eu não lembro de você.
O ar no quarto mudou.
Não de forma visível.
Mas eu senti.
Ele ficou mais rígido na cadeira.
— Você não lembra de nada? — ele perguntou, tentando manter a voz firme.
— Lembro de poucas coisas. — respondi. — Da festa… de sair… do acidente.
Pausei.
— E do Derick.
O nome saiu com naturalidade.
Como se fosse a única âncora intacta.
Bernardo desviou o olhar por um segundo.
— Do Derick… — repetiu, baixo.
— Ele era… importante pra mim. — falei, tentando organizar a própria lembrança.
Bernardo ficou em silêncio por tempo demais.
E esse silêncio começou a me incomodar.
— Você estava lá também? — perguntei.
Ele levantou o olhar imediatamente.
— Eu estava.
— Por quê?
A pergunta pareceu simples para mim.
Mas para ele… não foi.
Ele respirou fundo antes de responder.
— Porque você saiu da festa e sofreu um acidente.
Assenti devagar.
— Você me trouxe aqui?
Ele hesitou.
— Sim.
Olhei para ele tentando encontrar alguma coisa.
Qualquer coisa.
Mas não havia nada.
Só um vazio educado entre dois desconhecidos.
— Obrigada. — falei, sincera.
Ele piscou novamente, como se aquela palavra doesse de um jeito diferente.
— Você não precisa me agradecer.
Ficamos em silêncio por alguns segundos.
Então ele falou de novo, mais baixo:
— Beca… você não lembra mesmo de nada entre nós?
Franzi a testa.
— “Entre nós”?
Ele assentiu lentamente.
Eu pensei.
Procurei.
Forcei a memória.
Mas não havia nada ali.
Só o acidente.
Só o Derick.
Só as conversas do celular que não me ajudavam a lembrar.
Só um buraco onde algo deveria existir.
— Não. — respondi, honesta.
Bernardo passou a mão no rosto, devagar, como se estivesse tentando organizar algo dentro dele mesmo.
— Tudo bem… — ele disse, mas não parecia tudo bem.
Eu o observei com mais atenção.
Havia algo nele que não combinava com “apenas chefe”.
Não combinava com “desconhecido”.
Era como se ele estivesse segurando alguma coisa que eu não conseguia ver.
— A gente… era o quê? — perguntei, mais uma vez.
Ele demorou.
E quando respondeu, escolheu palavras simples demais.
— A gente se conhecia.
Assenti.
Mas dentro de mim… nada mudou.
— E por que você me achou? Quanto tempo você ficou comigo? — perguntei
— Fiquei o quanto pude.
— Por quê?
Ele me olhou direto agora.
E por um segundo, pareceu que ia dizer algo mais profundo.
Algo que explicasse tudo.
Mas não disse.
— Porque você precisava de ajuda.
Engoli seco.
Aquilo fazia sentido.
Mas não explicava o peso estranho no ar.
Nem o jeito como ele me olhava como se estivesse perdendo alguma coisa naquele exato momento.
A porta abriu atrás dele.
Uma enfermeira entrou.
— Preciso fazer alguns exames rápidos, tudo bem?
Bernardo se levantou imediatamente.
Antes de sair, ele me olhou mais uma vez.
Mais longo.
Mais silencioso.
— Se você lembrar de alguma coisa… — ele começou.
Parou.
Engoliu o resto da frase.
E apenas completou:
— Me avisa.
— Eu li nossas conversas no celular . — falei antes dele sair.
Ele saiu.
E o quarto voltou a ficar silencioso.
Mas agora o silêncio não era vazio.
Era cheio de algo que eu não conseguia nomear.
E, pela primeira vez desde que acordei no hospital… eu senti que havia uma parte da minha vida que tinha sido apagada de mim.
E que alguém tinha acabado de confirmar isso sem dizer exatamente como.
Minha mãe veio ficar comigo esses dias no hospital, Ane ajudava ela e Bernardo também ficava no hospital, ele me visitava enquanto dormia. Eu acordava com o cheiro do perfume dele no quarto.
— Por que ele só vem quando estou dormindo? — perguntei minha mãe
— Ele fica comigo no turno da noite. E normalmente quando ele chega você já adormeceu, filha.
— Tudo bem.
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