Até você voltar
25 O Quebrar do Silêncio
Enquanto a música mais calma rolava, eu trocava alguns olhares com Bernardo. Ele tinha voltado para o grupo dos diretores, mantendo aquela postura impecável de sempre, como se nada nele pudesse escapar do controle.
Eu e Ane estávamos conversando sobre coisas aleatórias, tentando aproveitar a noite.
Foi quando vi um dos diretores sorrindo enquanto uma secretária se aproximava e chamava Bernardo para dançar. Ele aceitou sem hesitar.
Eles começaram a dançar no meio de outras pessoas.
Por algum motivo, aquilo me incomodou mais do que deveria.
Não era sobre eles.
Era sobre algo dentro de mim que eu não conseguia nomear.
Desviei o olhar.
— Tá tudo bem? — Ane perguntou, percebendo na hora.
— Tá… só vou pegar um ar.
Não esperei resposta.
Saí antes que a sensação virasse algo maior.
Fui até o banheiro.
Ajustei o vestido.
A dificuldade de fechar o zíper sozinha me atrasou alguns minutos. Retoquei o batom com calma, tentando recuperar a compostura.
Quando saí, a música já tinha mudado.
E o Bernardo não estava mais lá.
Ane também tinha sumido.
Franzi a testa.
Voltei para dentro da casa, mas o ambiente já parecia diferente. Mais distante. Mais barulhento.
Sem pensar muito, fui até a varanda.
O ar da noite era frio.
E foi então que ouvi.
A voz dele.
Bernardo.
Mas não estava sozinho.
Havia uma mulher com ele.
Fiquei parada no topo da escada que levava para a parte inferior do jardim, sem ser vista. A voz dela era baixa no começo, mas logo ficou clara.
— Você não me quer mais? — ela perguntou. — Estou sentindo sua falta.
Meu corpo ficou rígido.
— Eu precisei me afastar… estava ficando perigoso. — ele respondeu.
Perigoso.
A palavra ecoou em mim de um jeito estranho.
— Por que perigoso? — ela insistiu, chegando mais perto. — É muito mais gostoso assim, não é?
— É sim… — ele respondeu depois de um segundo. — Mas não podemos mais.
Senti meu estômago afundar.
Ela segurou a mão dele.
E tentou se aproximar para um beijo.
Eu não vi o rosto dele nesse momento.
Mas vi o gesto.
E isso foi suficiente para algo dentro de mim quebrar.
— Você falou que me amava. — ela disse, a voz já mais baixa, quase desesperada. — Eu te amo também. Vamos contar para as pessoas… quem nunca se apaixonou no trabalho?
Meu coração começou a bater alto demais.
Alto demais.
Como se tudo ao redor tivesse ficado em silêncio.
Não esperei ouvir a resposta.
Não queria ouvir.
Nem precisava.
Desci as escadas antes mesmo de pensar.
Cada passo parecia mais pesado.
Quando cheguei perto, ele virou o rosto.
E o olhar dele encontrou o meu.
Por um segundo.
Só um.
E foi o suficiente.
Aquela expressão que eu conhecia tão bem… ficou diferente.
Não era surpresa.
Era culpa.
E aquilo me destruiu de um jeito silencioso.
— Beca… — ele começou.
Mas eu já estava indo embora.
— Não fala comigo agora. — minha voz saiu baixa, mas firme.
Passei por ele sem olhar de novo.
Nem para ele.
Nem para ela.
Nem para nada.
Atravessei o jardim rápido demais, como se o ar estivesse faltando.
Ou talvez estivesse mesmo.
Entrei no carro sem perceber como.
As mãos tremiam.
— Não… não… — murmurei sozinha, apertando o volante.
Liguei o motor.
O espelho mostrava a casa ficando para trás.
As luzes.
A música distante.
As pessoas.
Tudo parecia distante demais.
Como se não fosse comigo.
Dirigi sem rumo por alguns minutos.
Até que a respiração começou a falhar.
O peito apertou.
E a lembrança veio sem pedir permissão.
Derick.
Outra mulher.
Outra noite.
A mesma sensação.
“Eu não posso mais fazer isso com você, Beca.”
A voz dele.
Fria.
Definitiva.
A rua pareceu embaçar.
Pisquei rápido.
— Para… para… — eu repetia, mas não funcionava.
O carro desviou levemente.
O som do impacto veio antes da compreensão.
Metal.
Freio.
Algo quebrando.
E depois… silêncio.
Tudo girou.
O mundo perdeu o eixo.
E então… apagou.
Quando voltei a abrir os olhos, não sabia onde estava.
O cheiro era forte.
Hospital.
As luzes eram brancas demais.
O corpo pesado demais.
E tudo dentro da minha cabeça parecia distante.
— Ela acordou… — uma voz disse.
Tentei me mexer, mas o corpo não respondia direito.
E então veio.
Sem aviso.
Sem contexto.
Sem piedade.
Derick.
Indo embora.
Sem olhar para trás.
E eu fiquei ali.
Sozinha.
De novo.
Quando voltei a abrir os olhos, não sabia onde estava.
O cheiro era forte.
Hospital.
As luzes eram brancas demais.
O corpo pesado demais.
E tudo dentro da minha cabeça parecia distante.
— Ela acordou… — uma voz disse.
Tentei me mexer, mas o corpo não respondia direito.
Um leve incômodo na cabeça. Um zumbido constante no ouvido. Como se eu estivesse voltando de um lugar onde não deveria ter ido.
— Beca… consegue me ouvir?
Piscar foi o máximo que consegui responder.
Algumas silhuetas se aproximaram.
Uma delas ficou mais nítida.
Ane.
O rosto dela estava pálido, os olhos vermelhos, como se tivesse chorado por muito tempo.
— Meu Deus… — ela soltou em alívio. — Você me matou de susto.
Tentei falar, mas minha garganta não saiu som.
Ela segurou minha mão com cuidado.
— Você sofreu um acidente… mas está fora de perigo, tá? Só fica calma.
Acidente.
A palavra parecia distante.
Como se fosse sobre outra pessoa.
Olhei ao redor tentando entender onde eu estava, mas as imagens vinham falhas.
Fragmentadas.
E então… como um estalo.
Bernardo.
O jardim.
A voz da mulher.
A mão dele sendo segurada.
“Você falou que me amava…”
Meu peito apertou de uma vez.
A respiração falhou.
— Beca, olha pra mim — Ane disse rápido, percebendo minha mudança. — Respira.
Mas eu não conseguia.
O ar parecia pesado demais.
E a imagem veio inteira, sem filtro, sem piedade.
Ele.
Ela.
O toque.
O silêncio dele quando me viu.
E eu indo embora.
Sem esperar explicação.
Sem ouvir resposta.
— Não… — minha voz saiu quebrada pela primeira vez. — Não…
Uma lágrima escorreu antes mesmo de eu entender o que estava sentindo.
Ane apertou mais forte minha mão.
— Você bateu o carro, Beca. Foi sério. Mas você está bem agora.
Mas eu não estava ouvindo isso.
Eu estava presa naquela cena.
Naquela sensação.
Naquela mesma dor antiga que eu conhecia bem demais.
E então veio outra lembrança.
Derick.
Mais uma vez.
Como se minha mente não soubesse diferenciar passado e presente.
“Eu não sei mais o que fazer com você.”
A voz dele ecoou tão forte que eu fechei os olhos com força.
— Para… — sussurrei, quase sem som.
Ane passou a mão no meu cabelo.
— Tá tudo misturado na sua cabeça agora, tá? É normal. Você levou uma pancada forte. Não tenta organizar tudo agora.
Mas como não tentar?
Porque tudo que eu via… era perda.
Sempre perda.
Eu tentando entender.
Eu ficando.
E alguém indo embora.
Senti um nó na garganta crescer de novo.
— Bernardo… — consegui dizer, finalmente.
Ane hesitou por um segundo.
Só isso já foi suficiente para eu entender que algo estava errado.
— Ele… ele te trouxe até o hospital. Ele achou estranha sua saída, ficou preocupado e achou seu carro virado. Ficou aqui até pouco tempo atrás.
Engoli seco.
— Ele…?
Ela assentiu devagar.
— Ele estava desesperado, Beca. Mas teve que sair porque a polícia e a empresa chamaram.
Minha respiração falhou de novo, mas dessa vez por outro motivo.
Desespero.
Essa palavra não combinava com a imagem que eu tinha dele agora.
Ou talvez combinasse demais.
E isso me confundia ainda mais.
Fiquei em silêncio.
Olhando para o teto branco.
Como se ali tivesse alguma resposta.
Mas não tinha.
Só lembranças quebradas.
E a sensação de que, de algum jeito, eu tinha voltado para o mesmo lugar de sempre.
O lugar onde alguém fica.
E alguém vai embora.
Fechei os olhos de novo.
Mas dessa vez, não consegui escapar de nada.
Nem da festa.
Nem do acidente.
Nem dele.
Nem de mim.
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