Até você voltar

21 O Lugar Onde Eu Me Escondi


Os dias seguintes passaram em câmera lenta.

Pedi home office logo na manhã seguinte.

Inventei uma desculpa qualquer sobre crise de ansiedade, enxaqueca, indisposição.

Ninguém questionou.

Principalmente porque Ane claramente percebeu que eu estava destruída.

E talvez porque Bernardo não deixou ninguém insistir.

Mas ele tentou.

Meu Deus.

Como ele tentou.

Mensagens.

Ligações.

Áudios.

Flores na portaria.

Comida que eu não toquei.

Até Jeff começou a me olhar com pena.

— Ele parece mal, Dona Beca.

Eu apenas forcei um sorriso triste.

Porque eu também estava.

Mas algumas dores precisam ser atravessadas sozinhas.

Então eu voltei para o meu antigo modo de sobrevivência.

O automático.

Acordar.

Trabalhar.

Responder e-mails.

Fingir normalidade.

Dormir cansada o suficiente para não pensar.

E repetir tudo outra vez.

Sem sentir.

Sem esperar.

Sem sonhar.

Mas era impossível não pensar nele.

Em tudo.

No jeito que ele ria.

No jeito que me olhava.

Na forma como segurava minha mão como se eu fosse algo importante.

Aquilo me destruía aos poucos.

Porque pior do que descobrir a gravidez…

Era saber que ele provavelmente tinha sido sincero comigo.

E mesmo assim, não mudava nada.


Duas semanas depois.

Duas semanas inteiras evitando o escritório.

Duas semanas fugindo dele.

Duas semanas sobrevivendo.

Eu estava terminando uma reunião online quando ouvi batidas na porta.

Franzi a testa.

Não esperava ninguém.

Quando abri, meu coração disparou.

Bernardo.

Os olhos cansados.

A barba começando a crescer.

E uma expressão tão abatida que quase acabou comigo na mesma hora.

Fiquei imóvel.

Ele também.

Por alguns segundos, nenhum de nós falou.

Então ele respirou fundo.

— Você sumiu.

Minha garganta apertou imediatamente.

— Eu precisava.

Ele assentiu devagar.

Como alguém que odiava entender.

— Você não respondeu nenhuma mensagem.

— Porque eu não sabia o que responder.

O silêncio caiu entre nós.

Pesado.

Cheio de saudade.

Cheio de dor.

Ele passou a mão pelo rosto, nervoso.

— Eu só queria te ver.

Desviei os olhos.

Porque vê-lo ali doía mais do que eu imaginava.

— Você não devia ter vindo.

— Eu sei.

Meu coração apertou outra vez.

Ele parecia quebrado.

E aquilo era injusto.

Porque eu queria odiá-lo.

Queria colocar toda culpa nele.

Mas não conseguia.

— Como ela está? — perguntei baixo.

Bernardo ficou em silêncio.

E aquela pausa me assustou.

Levantei os olhos lentamente.

Então ele respondeu:

— Ela não está grávida.

Meu cérebro demorou alguns segundos para processar.

— O quê?

Ele soltou uma risada amarga.

Sem humor algum.

— Ela mentiu.

Senti o ar faltar.

— Como assim mentiu?

— Ela inventou tudo porque não aceitou o término.

O mundo pareceu girar devagar.

Meu coração acelerou violentamente.

Raiva.

Alívio.

Dor.

Tudo ao mesmo tempo.

— Você… tem certeza?

Ele assentiu.

Os olhos fixos nos meus.

— Tenho.

Levei a mão até a boca sem conseguir organizar os pensamentos.

Então toda dor das últimas semanas virou outra coisa.

Uma raiva profunda.

Porque eu tinha sofrido.

Ele tinha sofrido.

Nós dois tínhamos nos destruído por causa de uma mentira.

Bernardo deu um passo na minha direção.

Cauteloso.

Como se ainda tivesse medo que eu fugisse.

— Beca…

Mas eu já estava chorando outra vez.

Porque no fundo…

A pior parte era perceber que eu fui injusta com ele. Eu estava mal comigo mesmo, me cobrando. Me sentindo uma má pessoa.

Ele me olhava como se estivesse com medo de se aproximar demais e eu desaparecer outra vez.

E talvez eu desaparecesse mesmo.

Porque meu coração estava uma bagunça impossível de organizar.

Passei a mão pelo rosto tentando secar as lágrimas, mas era inútil. Eu estava cansada demais emocionalmente.

Cansada de sofrer.

Cansada de sentir.

Cansada de amar alguém e imediatamente esperar o pior.

Bernardo permaneceu parado perto da porta, mantendo distância.

Como se quisesse me respeitar.

Como se tivesse entendido que eu precisava de espaço mesmo quando tudo dentro dele parecia querer correr até mim.

— Eu descobri no dia seguinte. — ele falou baixo. — Ela entrou em contradição várias vezes… então eu pedi exame, pedi consulta, pedi qualquer coisa que comprovasse.

Fechei os olhos sentindo outro aperto no peito.

— E ela admitiu.

A dor na voz dele era tão real que me desmontou mais.

Porque aquelas semanas não tinham sido um inferno só pra mim.

Ele parecia acabado.

Mais magro.

Mais cansado.

Mais triste.

Olhei para ele outra vez.

— Por que ela faria isso?

Bernardo soltou uma risada amarga.

— Porque algumas pessoas confundem amor com posse.

Aquilo bateu em mim de um jeito estranho.

Porque eu entendia a dor de Julia.

Mas nunca conseguiria entender a crueldade.

O silêncio caiu novamente.

A chuva começava a bater fraca nas janelas do apartamento, exatamente como naquela noite em que tudo desmoronou.

E talvez fosse por isso que parecia tão difícil respirar.

— Eu te procurei todos os dias. — ele confessou.

Desviei os olhos imediatamente.

Porque ouvir aquilo doía.

— Eu sei.

— Não… você não sabe.

A voz dele falhou pela primeira vez.

Levantei os olhos devagar.

E Bernardo parecia realmente destruído.

— Eu dormia pensando se você tinha comido, se estava chorando, se estava sozinha… — ele respirou fundo. — E o pior foi perceber que eu não podia fazer nada.

Meu peito apertou violentamente.

Porque eu também tinha pensado nele todas as noites.

Também tinha sentido falta.

Também tinha pegado o celular mil vezes antes de desistir.

Mas o medo sempre falava mais alto.

— Eu fiquei com raiva de você. — falei baixo.

Ele assentiu.

— Eu sei.

— Fiquei com raiva de mim também.

A expressão dele mudou imediatamente.

Mais suave.

Mais dolorida.

— Beca…

— Porque eu me deixei acreditar de novo. — minha voz começou a falhar outra vez. — E quando aquilo aconteceu… parecia confirmação de tudo que eu sempre pensei.

Ele franziu a testa devagar.

— Do quê?

Respirei fundo antes de responder:

— Que no final ninguém fica.

O silêncio entre nós ficou pesado.

Denso.

Cheio de coisas que nunca tínhamos dito em voz alta.

Bernardo me olhava agora de um jeito diferente.

Como se finalmente estivesse entendendo partes minhas que eu tentava esconder.

— Foi isso que fizeram com você a vida inteira? — perguntou baixo.

Senti os olhos queimarem de novo.

Dei de ombros tentando minimizar.

— As pessoas sempre vão embora.

Ele negou com a cabeça imediatamente.

— Eu não fui embora.

Meu coração tropeçou.

Porque ele tinha razão.

Mesmo depois de eu ignorá-lo.

Mesmo depois de fugir.

Mesmo depois de mandá-lo voltar pra outra mulher.

Ele ainda estava ali.

Na minha porta.

Com os olhos cansados e o coração aberto.

Por mim.

As lágrimas começaram a cair outra vez, mais silenciosas agora.

Bernardo hesitou por alguns segundos antes de perguntar:

— Posso chegar perto?

Aquilo quase acabou comigo.

Porque ninguém nunca perguntava.

Ninguém nunca tinha tanto cuidado comigo.

Assenti devagar.

E ele veio.

Lento.

Como se eu fosse algo frágil demais.

Quando parou na minha frente, senti o cheiro do perfume dele outra vez e meu coração apertou de saudade imediatamente.

Meu Deus.

Como eu senti falta dele.

Bernardo levantou a mão devagar e tocou meu rosto como se estivesse confirmando que eu realmente estava ali.

Viva.

Com ele.

— Eu senti sua falta todos os dias. — falou baixinho.

Fechei os olhos imediatamente.

Porque ouvir aquilo depois de semanas tentando esquecê-lo era cruel.

E maravilhoso ao mesmo tempo.

Quando abri os olhos outra vez, ele estava perto demais.

Os dedos ainda acariciavam meu rosto com cuidado.

— Eu fiquei com medo de te perder. — confessou.

Minha respiração falhou.

— Você quase perdeu.

A dor atravessou os olhos dele na mesma hora.

Mas ele assentiu devagar.

— Eu sei.

O silêncio ficou entre nós mais uma vez.

Mas dessa vez não parecia um fim.

Parecia aquele instante exato antes de alguma coisa recomeçar.

E então, com a voz baixa e carregada de sentimento, Bernardo perguntou:

— Você ainda consegue me amar depois disso tudo? Ou tentar?

Senti meu coração quebrar inteiro dentro do peito.

Porque a resposta sempre foi a mesma.

Mesmo na raiva.

Mesmo na dor.

Mesmo tentando fugir.

— Sim. Eu vou tentar.

As lágrimas continuavam caindo silenciosamente enquanto ele me olhava daquele jeito vulnerável que desmontava qualquer defesa minha.

Mas, pela primeira vez, eu não queria fugir.

Eu só estava cansada.

Cansada de tentar parecer forte o tempo inteiro.

Bernardo ainda mantinha a mão no meu rosto quando os olhos dele começaram a passear devagar pelo apartamento.

E então eu percebi.

Percebi o estado da casa.

E o meu também.

O apartamento estava escuro, iluminado apenas pela luz amarelada da cozinha e pela chuva refletindo nas janelas. Havia canecas de café espalhadas pela sala, uma manta jogada no sofá, documentos abertos na mesa de jantar e roupas acumuladas numa cadeira.

O ar parecia pesado.

Parado.

Sem vida.

Meu cabelo estava preso de qualquer jeito num coque bagunçado, com fios soltos caindo pelo rosto. Eu vestia um moletom enorme e uma calça larga, claramente usando as mesmas roupas emocionais dos últimos dias: invisibilidade.

Nada em mim lembrava a mulher que ele conheceu naquele final de semana.

A mulher que ria.

Que provocava.

Que sonhava.

Agora eu parecia só alguém tentando sobreviver.

Bernardo olhou em volta lentamente outra vez.

E eu ri sem humor.

— Bonito, né?

Ele franziu a testa imediatamente.

— Beca…

Afastei devagar a mão dele do meu rosto e dei alguns passos para trás.

— Olha isso aqui. — falei baixo, abrindo os braços pela sala. — Essa sou eu.

O silêncio dele começou a me esmagar.

— Eu me fechei pro mundo faz muito tempo, Bernardo.

Minha voz saiu calma.

Mas carregada demais.

— Eu vivo aqui. Nesse apartamento. Nesse automático. Trabalho, volto pra casa, sobrevivo… e repito tudo de novo.

Ele me observava sem dizer nada.

Porque talvez estivesse finalmente vendo quem eu realmente era.

Sem maquiagem emocional.

Sem piadas.

Sem charme.

Só a verdade.

Passei a mão pelos cabelos bagunçados tentando controlar a vontade de chorar outra vez.

— Quando você apareceu… tudo ficou diferente de repente. — continuei. — E isso me assustou.

Minha garganta apertou.

— Porque eu comecei a querer coisas de novo.

Bernardo abaixou os olhos por um instante, claramente sentindo o peso daquilo.

— Você me fez querer sair daqui. — falei olhando ao redor. — Me fez querer viver alguma coisa além dessa rotina vazia.

O apartamento ficou silencioso.

Só a chuva preenchia o espaço entre nós.

— E aí tudo aconteceu… — minha voz falhou. — E eu voltei pra cá.

Apontei em volta outra vez.

— Pro único lugar onde eu sei existir sem me machucar.

Bernardo respirou fundo.

Os olhos dele estavam brilhando agora.

Cheios de culpa.

Cheios de tristeza.

— Você acha que está vivendo… mas você só está se escondendo. — ele falou baixinho.

Soltei uma risada fraca.

— Exatamente.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos antes de se aproximar outra vez.

Mais devagar dessa vez.

Como alguém que entendia que qualquer movimento brusco poderia me quebrar.

— Quando eu olhei pra você naquele escritório pela primeira vez… — ele começou — eu enxerguei uma mulher forte pra caramba.

Balancei a cabeça negativamente.

— Não sou forte.

— É sim.

— Não. — meus olhos encheram de lágrimas de novo. — Pessoas fortes não têm medo de tudo.

Bernardo se aproximou mais um passo.

— As mais fortes geralmente têm.

Meu coração apertou.

Porque ele dizia aquelas coisas olhando diretamente pra partes minhas que eu tentava esconder até de mim mesma.

Ele observou meu rosto cansado, os olhos inchados, o cabelo bagunçado, o moletom enorme.

E mesmo assim… ainda me olhava como se eu fosse bonita.

Como se eu fosse importante.

Como se valesse a pena.

— Você desapareceu aqui dentro, Beca. — ele falou olhando ao redor da casa. — E eu acho que você nem percebeu quando isso aconteceu.

Aquilo me atingiu em cheio.

Porque era verdade.

Eu tinha desaparecido de mim mesma fazia anos.

E o pior era perceber que ele tinha notado isso em tão pouco tempo.

O silêncio ficou entre nós depois daquelas palavras.

Pesado.

Íntimo.

Dolorido demais.

Eu olhei em volta do apartamento outra vez, como se estivesse vendo tudo pela primeira vez. As luzes apagadas. A bagunça acumulada. As cortinas fechadas mesmo durante o dia. Os sinais silenciosos de alguém que parou de viver aos poucos sem perceber.

E talvez Bernardo tivesse razão.

Talvez eu tivesse desaparecido dentro daquela rotina triste muito antes dele aparecer.

Ele se aproximou devagar novamente.

Sem pressa.

Sem tentar invadir meu espaço.

— Eu não quero te salvar. — falou baixo.

Franzi a testa, surpresa.

— O quê?

— Porque você não precisa disso.

Os olhos dele não saíam dos meus.

— Mas eu queria ficar enquanto você se reencontra.

Meu coração apertou de um jeito quase insuportável.

Porque ninguém nunca tinha ficado.

Ninguém nunca olhou pras partes quebradas de mim e escolheu permanecer mesmo assim.

As lágrimas desceram outra vez.

Bernardo segurou minha mão com cuidado.

— Eu sei que estraguei tudo quando escondi a ligação. — confessou. — Sei que te machuquei.

Assenti devagar.

— Machucou.

A dor atravessou o olhar dele imediatamente.

Mas ele não desviou.

— Mesmo assim… eu ainda quero tentar.

Fechei os olhos por um instante.

Porque aquela era a parte mais difícil.

Permitir.

Confiar.

Acreditar outra vez.

Quando abri os olhos, ele ainda estava ali.

Esperando.

Sem me pressionar.

Sem fugir.

Só… ali.

Respirei fundo.

E pela primeira vez em muito tempo, percebi uma coisa:

Eu estava cansada de sobreviver.

Queria viver.

Mesmo que desse medo.

Mesmo que pudesse doer.

Mesmo que amar alguém fosse a coisa mais assustadora que eu já tivesse feito.

Aproximei-me devagar dele.

Bernardo ficou imóvel, como se tivesse medo de que qualquer movimento quebrasse aquele momento.

Então levei minha mão até o rosto dele.

E senti ele fechar os olhos por um segundo ao tocar minha pele.

— Eu ainda estou com medo. — sussurrei.

Ele segurou minha mão imediatamente.

— Eu também.

Aquilo me fez sorrir no meio das lágrimas.

Um sorriso pequeno.

Mas verdadeiro.

E talvez fosse exatamente assim que as coisas começassem de novo:

Não perfeitas.

Não resolvidas.

Só duas pessoas machucadas tentando aprender a ficar.

Bernardo encostou a testa na minha devagar.

— Não foge mais de mim.

Fechei os olhos sentindo a respiração dele perto da minha.

E dessa vez…

Eu não fugi.