Até você voltar

9 Entre a Madrugada e o Silêncio


— Eu posso ir embora. — ele falou baixo, ainda me olhando.

Balancei a cabeça rapidamente.

— Não… por favor. Eu fico preocupada.

Bernardo sustentou meu olhar por alguns segundos antes de responder:

— Eu tô bem.

Soltei uma risada fraca, cansada.

— Eu sei. Sei que você está acostumado a sair tarde, dirigir sozinho, voltar de madrugada… mas infelizmente eu não consigo ser egoísta a esse ponto.

Ele abaixou os olhos sorrindo de canto.

— Entendi. Seu sofá parece ser muito confortável.

Acabei rindo.

— Ele é. Eu passo bastante tempo nele.

Bernardo caminhou até a sala e sentou no sofá como se realmente estivesse analisando aquilo seriamente. Afundou levemente no encosto e ergueu as sobrancelhas.

— Ok… você tinha razão.

Cruzei os braços sorrindo.

— Viu?

— Definitivamente confortável.

Pela primeira vez naquela noite, o clima pareceu leve de verdade.

Sem tensão.

Sem medo.

Só duas pessoas tentando fingir normalidade depois de quase desmontarem emocionalmente uma na frente da outra.

— Vou pegar umas cobertas e um travesseiro pra você.

Fui até o quarto tentando ignorar o jeito que meu coração ainda batia acelerado. Abri o armário, peguei um cobertor macio e um travesseiro com uma fronha limpa que ainda carregava cheiro de amaciante.

Por algum motivo, aquilo me deixou nervosa.

Como se pequenos detalhes começassem a parecer íntimos demais.

Voltei para a sala e entreguei as coisas para ele.

— Se quiser tomar banho, tem toalha limpa no banheiro… e uma escova de dente extra também.

Bernardo pegou o travesseiro devagar.

— Tudo bem. Obrigado, Beca.

A forma como ele dizia meu nome bagunçava alguma coisa dentro de mim.

Sorri sem graça.

— Boa noite, Bernardo. Qualquer coisa me chama.

Ele assentiu.

— Boa noite.

Apaguei as luzes da sala e fui para o quarto.

Fechei a porta devagar atrás de mim.

E imediatamente senti o silêncio.

Deitei na cama e fiquei olhando para o teto escuro do quarto.

Respirei fundo.

Uma vez.

Duas.

Três.

Mas minha cabeça não desligava.

Os pensamentos rodavam sem parar.

O elevador.

A mão dele no meu rosto.

A voz rouca dizendo que sentia minha falta.

O jeito que ele me olhava.

O jeito que me enxergava.

Fechei os olhos tentando dormir.

Inútil.

Meu coração parecia inquieto demais para descansar.

Olhei para o celular.

03:00 da manhã.

Soltei uma respiração frustrada.

Sábado era justamente o único dia em que eu gostava de dormir até tarde. Mas naquele momento parecia impossível.

Virei de um lado para o outro tentando encontrar uma posição confortável enquanto minha mente insistia em voltar para ele.

Para Bernardo dormindo na minha sala.

Na minha casa.

Depois de tudo que aconteceu.

Passei a mão no rosto e ri baixo de nervoso.

Aquilo parecia loucura.

Completei meses tentando me reconstruir depois do fim do relacionamento. Tentando reaprender a ficar sozinha. Tentando organizar a própria vida.

E então Bernardo apareceu.

Bagunçando tudo.

Mas de um jeito assustadoramente bonito.

Suspirei fundo outra vez.

Foi então que ouvi um som vindo da sala.

Uma respiração pesada.

O sofá rangendo levemente.

Fiquei imóvel por alguns segundos prestando atenção.

Depois ouvi novamente.

Como se ele também estivesse acordado.

Meu coração acelerou imediatamente.

Mordi o lado interno da bochecha tentando ignorar a curiosidade absurda que surgiu dentro de mim.

Não funcionou.

Levantei devagar da cama e caminhei em silêncio até a porta do quarto.

Abri apenas uma fresta.

A luz fraca da cidade atravessava a varanda e iluminava parcialmente a sala.

Bernardo estava deitado no sofá.

Dormindo.

O braço apoiado sobre os olhos, a respiração agora mais tranquila, o cobertor jogado de qualquer jeito sobre o corpo.

Fiquei parada observando por alguns segundos.

E meu peito apertou de uma forma estranha.

Porque ele parecia… em paz.

Muito diferente do homem intenso, impulsivo e emocionalmente atravessado que estava comigo dentro daquele carro horas atrás.

Ali, dormindo no meu sofá, Bernardo parecia apenas cansado.

Humano.

Real.

Dei mais alguns passos sem fazer barulho.

O cobertor havia escorregado parcialmente para o chão. Me abaixei devagar e puxei novamente sobre ele.

No instante em que meus dedos encostaram no tecido perto do peito dele, Bernardo segurou meu pulso automaticamente.

Meu coração disparou.

Ele abriu os olhos lentamente, claramente desnorteado por alguns segundos.

Até me reconhecer.

E então relaxou.

— Desculpa… — murmurou com a voz rouca de sono. — Achei que estava sonhando.

Meu ar falhou por um segundo.

Porque ele ainda segurava meu pulso.

E porque o jeito que ele me olhava naquele momento parecia perigosamente íntimo. Eu me afastei lentamente.