Até você voltar
15 Entre a Chuva e a Saudade
O caminho até a casa da minha mãe foi tranquilo. A chuva tinha diminuído um pouco, deixando o céu cinza e as ruas brilhando molhadas. Ele dirigia calmamente, enquanto uma música baixa tocava no rádio.
De vez em quando, eu percebia que ele me olhava rápido, como se ainda estivesse tentando acreditar que aquela manhã tinha acontecido.
— O quê? — perguntei, segurando o sorriso.
— Nada.
— Você está me encarando.
— Posso admirar você em paz?
Revirei os olhos, rindo.
— Você é impossível.
— E você fica linda quando tenta fingir que não gosta.
Balancei a cabeça, olhando pela janela para esconder o sorriso bobo que insistia em aparecer.
Quando chegamos na frente da casa da minha mãe, ele estacionou o carro devagar. O cheiro de chuva entrava pela janela entreaberta, junto com o vento fresco da tarde.
Desafivelei o cinto, mas antes que eu abrisse a porta, ele segurou minha mão.
— Que foi? — perguntei.
— Vou sentir sua falta hoje.
Soltei uma risada baixa.
— Você vai jogar futebol com os seus amigos. Acho que sobrevive.
— Não é a mesma coisa.
Olhei para ele por alguns segundos, sentindo aquele friozinho gostoso no peito outra vez. Era estranho como, em tão pouco tempo, ele tinha conseguido ocupar espaço demais dentro de mim.
— Minha mãe nem imagina que você está me trazendo na casa dela. — falei divertida.
— E é melhor continuar assim por enquanto.
— Concordo.
Ele aproximou o rosto do meu devagar.
— Então… tenho direito a um beijo de despedida?
— Você é muito dramático.
— Tenho ou não tenho?
Sorri antes de beijá-lo. Um beijo lento, calmo, daqueles que parecem durar mais do que realmente duram. Quando me afastei, ele ainda manteve a testa encostada na minha.
— Vai logo antes que eu desista de te deixar ir.
Ri baixinho.
— Tchau.
— Me manda mensagem quando chegar lá dentro.
— Você literalmente vai me ver entrando.
— Mesmo assim.
Abri a porta do carro ainda sorrindo. Antes de fechar, me virei mais uma vez para olhá-lo.
E ele continuava me olhando daquele jeito intenso que bagunçava tudo dentro de mim.
Entrei pelo portão tentando parecer normal, mas era impossível esconder o sorriso no meu rosto.
— Finalmente apareceu! — minha mãe falou da cozinha assim que entrei em casa. — Achei que tinha fugido.
— Quase isso. — respondi rindo, tirando os sapatos molhados.
— E esse sorriso?
Parei por um segundo.
— Que sorriso?
Ela apareceu na porta da cozinha me olhando desconfiada.
— Beca.. eu te conheço.
Meu coração acelerou imediatamente.
— Mãe, para de criar teoria.
Ela estreitou os olhos, divertida.
— Hm… sei.
E naquele momento, percebi que esconder aquilo talvez fosse mais difícil do que eu imaginava. Mas eu não queria falar nada, queria manter aquilo em segredo. Sem risco. Sem julgamentos. Sem opiniões.
Meu telefone tocou assim que subi para o meu quarto para deixar a bolsa. Atendi sorrindo antes mesmo de colocar o celular no ouvido.
- Ei, você não me avisou que chegou. — ele reclamou, soltando uma risadinha no final.
Fechei a porta do quarto devagar.
— Ops… fui interrogada no segundo em que entrei em casa. Desculpa.
— Opa… então fomos descobertos pela sua mãe? — perguntou, divertido.
Ri baixo, me jogando na cama.
— Ainda não.
— “Ainda” não? Isso não me tranquiliza.
— Você não faz ideia do quanto ela percebe as coisas.
— Então estou correndo perigo.
— Muito.
Ele riu do outro lado da linha, e só ouvir aquela risada já era suficiente para me fazer sorrir de novo.
- Bom jogo. — falei.
- Obrigado. Vou fazer um gol em sua homenagem.
— Que cafona.
- E você gosta.
Não respondi. Porque ele tinha razão.
- Depois me manda mensagem. — ele falou.
— Mando sim.
— Promete? Porque você já esqueceu uma vez hoje.
— Vai jogar seu futebol.
— Tá bom, mandona.
Desliguei a ligação ainda rindo sozinha.
- Está falando com quem? — minha mãe perguntou alto da cozinha.
Quase dei um pulo.
-Com uma amiga! — tentei disfarçar
- Sei… — ela levantou uma sobrancelha
Respirei fundo, tentando parecer natural antes de descer.
A mesa já estava posta, e o cheiro da comida me trouxe aquela sensação confortável de domingo em família. Minha mãe terminou de colocar a travessa sobre a mesa enquanto me observava discretamente.
— Você está diferente hoje.
— Diferente como?
— Mais leve.
Sentei na cadeira tentando disfarçar.
— Acho que só dormi bem.
Ela arqueou uma sobrancelha.
- Dormiu ou não dormiu?
- Mãe!
Ela começou a rir da minha reação.
Passamos o almoço conversando sobre coisas simples. Trabalho, rotina, fofocas de família e histórias aleatórias que ela sempre gostava de contar nos domingos. Mas, em vários momentos, eu me pegava olhando o celular sobre a mesa.
Esperando uma mensagem dele. E ela veio.
“Acabei de chegar. Ainda dá tempo de fugir do almoço e vir comigo.”
Balancei a cabeça sorrindo.
“Vai jogar futebol.”
“Só porque você mandou.”
Guardei o celular rapidamente quando minha mãe me olhou.
- É sério… tem alguém aí. — minha falou
- Você está paranoica. — eu juro que eu tentei disfarçar
— Beca, eu sou sua mãe.
Ri sem graça, tomando um gole de refrigerante para fugir do assunto. Depois do almoço, ajudei ela a organizar a cozinha. Ficamos conversando enquanto secava a louça, e pela primeira vez em muito tempo, eu me senti tranquila. Leve.
Talvez feliz demais.
No final da tarde, a chuva voltou mais forte. Me joguei no sofá da sala com uma manta enquanto minha mãe assistia televisão. Meu celular vibrou outra vez.
“Sobrevivi ao jogo.”
Sorri automaticamente.
“Milagre.”
“Fiz um gol.”
“Mentiroso.”
“Tenho testemunhas.”
“Não confio nos seus amigos.”
Ele demorou alguns segundos para responder.
“Estou com saudade.”
Meu coração apertou daquele jeito bobo e inesperado. Olhei rapidamente para minha mãe, que continuava concentrada na televisão, respondi:
“Você me viu faz poucas horas.”
“E mesmo assim.”
Mordi o canto do lábio tentando conter o sorriso. Conversamos até o começo da noite. Sobre coisas sem sentido, piadas idiotas e provocações bobas que me faziam rir sozinha igual uma adolescente apaixonada.
E talvez eu estivesse mesmo. Quando o relógio passou das nove, resolvi ir embora. Minha mãe insistiu para que eu dormisse ali, mas no dia seguinte eu precisava trabalhar cedo.
Ele se ofereceu para me buscar no meio da conversa por mensagem.
“Estou indo aí.” — Bernardo falou
“Não precisa.” — respondi, com medo.
“Precisa sim.” — ele é insistente.
“Está chovendo.” — tentei fugir
“E?” — insistiu mais uma vez
Ri sozinha antes de responder:
“Você realmente não liga pra chuva.” — falei
“Nunca liguei. Tendo carro facilita a vida.”- uma piada para aliviar um pouco.
Cerca de vinte minutos depois, ele estacionou em frente à casa da minha mãe. Me despedi dela rapidamente e saí correndo por causa da chuva fina.
Entrei no carro molhada e rindo.
- Obrigada por ter vindo. Mas não precisava. — falei sem jeito
Ficamos alguns segundos em silêncio, apenas nos olhando. Então ele aproximou a mão do meu rosto, afastando uma mecha molhada do meu cabelo.
- Senti sua falta hoje. — ele sorriu,
Meu coração acelerou outra vez. E naquele instante, dentro daquele carro, com chuva caindo lá fora e aquele olhar preso no meu, eu soube que já estava envolvida muito mais do que deveria.
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