Até você voltar
10 Depois Que Você Entrou
A noite parecia minha inimiga.
Eu não conseguia dormir. Não conseguia relaxar. Meu corpo estava cansado, mas minha mente continuava desperta, girando em pensamentos que eu não conseguia controlar.
Era estranho.
Estranho ter alguém ali novamente.
A última pessoa que tinha dormido na minha casa havia sido Derick. E lembrar disso fez meu peito apertar de uma forma diferente. Não por saudade. Talvez pelo contraste.
Porque com Bernardo tudo parecia intenso rápido demais.
E isso me assustava.
Eu me perguntava como aquilo estava acontecendo tão rápido. Como alguém conseguiu atravessar minhas defesas em tão pouco tempo.
Virei de um lado para o outro até finalmente pegar no sono.
Mas até dormindo meu corpo parecia inquieto.
Sonhos confusos.
Sensações embaralhadas.
E então, lentamente, comecei a despertar.
Primeiro senti o cheiro.
Café.
Depois ouvi pequenos sons vindos da cozinha. Louças. A cafeteira. Passos leves.
Abri os olhos devagar.
A luz cinza de um dia nublado atravessava as cortinas do quarto, deixando tudo com aquele aspecto silencioso de manhã chuvosa.
Fiquei alguns segundos encarando o teto, tentando entender se aquilo era real.
Bernardo estava na minha casa.
Levantei lentamente, passei a mão pela testa e caminhei até o banheiro. Escovei os dentes ainda sonolenta, soltei o cabelo bagunçado do coque da noite anterior e lavei o rosto tentando despertar de verdade.
Meu coração acelerou discretamente antes mesmo de sair do quarto.
Quando caminhei até a sala, o sofá já estava vazio.
Segui o cheiro de café até a cozinha.
E encontrei Bernardo ali.
De costas para mim.
As mangas da camisa ainda dobradas, o cabelo bagunçado de sono, mexendo distraidamente em alguma coisa no fogão como se aquilo fosse normal.
Como se ele já pertencesse àquele espaço.
Meu peito apertou sem aviso.
Ele virou ao ouvir meus passos.
E sorriu imediatamente.
— Bom dia, Beca.
Meu coração odiava o efeito que aquele sorriso tinha em mim logo cedo.
— Bom dia. Dormiu bem?
Bernardo apoiou uma mão na bancada e riu baixo.
— Dormi. Consegui descansar.
Os olhos dele desceram rapidamente pelo meu rosto ainda amassado de sono.
— E eu me atrevi a fazer café em forma de agradecimento. Inclusive… mexi na sua geladeira.
Acabei rindo.
— Não precisa pedir desculpas.
Observei a mesa parcialmente arrumada. Café, pão, frutas, algumas coisas simples que ele tinha encontrado.
E aquilo parecia íntimo demais.
Perigosamente íntimo.
— Obrigada. Vamos comer?
— Claro.
Ele me ajudou a terminar de levar as coisas para a mesa.
E, por alguns minutos, tudo pareceu absurdamente normal.
Tomamos café juntos enquanto o dia cinza deixava o apartamento ainda mais silencioso e aconchegante. A chuva ameaçava cair lá fora, e o cheiro de café fresco misturado ao som distante da cidade criava uma sensação estranha de paz.
Conversamos pouco.
Mas não era um silêncio ruim.
Era confortável.
Talvez confortável demais.
Em alguns momentos eu pegava Bernardo me olhando discretamente por cima da xícara.
E toda vez que isso acontecia, meu coração reagia da pior maneira possível.
— Eu já vou embora. — ele falou depois de algum tempo.
Levantei os olhos imediatamente.
— Já?
Bernardo sorriu de leve.
— Preciso ir. E também não quero incomodar mais.
Franzi a testa automaticamente.
— Você não me incomoda. Para com isso.
Ele abaixou os olhos rindo baixo.
— É engraçado… eu ficava imaginando como seria te ver acordando.
Meu rosto esquentou imediatamente.
— E descobriu que eu sou horrível de manhã.
Bernardo soltou uma risada verdadeira.
— Não fala isso nem brincando.
Os olhos dele me encontraram outra vez.
Calmos.
Sinceros.
— Você é incrível, Beca.
Meu coração apertou tão forte que precisei desviar o olhar.
Porque ele falava aquelas coisas como se fossem simples.
Como se não desmontassem tudo dentro de mim.
Bernardo levantou da cadeira, levou os copos até a pia e pegou o celular e a carteira sobre a bancada.
E eu senti aquela sensação estranha de novo.
Como se a presença dele estivesse deixando marcas pela casa.
Pela cozinha.
Por mim.
— Obrigado. — ele falou ao se aproximar.
Balancei a cabeça devagar.
— Eu te acompanho até a porta.
Caminhamos juntos pelo apartamento em silêncio.
Abri a porta e segurei a maçaneta tentando ignorar o aperto inesperado no peito.
Bernardo parou por alguns segundos me olhando.
Como se também estivesse adiando a despedida.
— Volte sempre. — falei tentando soar leve. — Até segunda.
Ele sorriu de canto.
— Você não faz ideia do quanto eu queria ouvir isso.
Meu coração acelerou outra vez.
Antes que eu tivesse coragem de responder, Bernardo se aproximou lentamente.
E por um segundo achei que ele fosse me beijar.
Meu corpo inteiro percebeu isso.
A respiração falhou.
O coração disparou.
Mas ele apenas encostou a mão de leve no meu braço.
Um toque rápido.
Cuidadoso.
Como se ainda respeitasse meus limites mesmo querendo atravessá-los.
— Tchau, Beca.
— Tchau.
Fechei a porta devagar.
E fiquei parada ali.
Sentindo como se ele ainda estivesse do outro lado.
O silêncio do apartamento parecia diferente agora.
Mais cheio.
Mais vivo.
Esperei alguns segundos até ouvir o elevador fechar.
Então caminhei rapidamente até a varanda.
Bernardo estava entrando no carro quando olhou para cima.
E me viu.
Sorri sem perceber.
Ele sorriu de volta imediatamente.
Ergueu a mão num aceno leve antes de entrar no carro.
E eu fiquei ali observando enquanto ele ia embora.
Com aquela sensação estranha crescendo no peito.
Como se, sem perceber, eu já estivesse começando a sentir falta dele.
Fale com o autor