Até você voltar

1 Como tudo começou…


O nosso amor nunca foi simples.

Sempre fomos feitos de extremos: dias quentes demais, frios demais, intensos demais. Éramos feitos de reencontros depois de despedidas, de promessas feitas no meio da madrugada e de silêncios que machucavam mais do que qualquer grito.

Mas, ultimamente, só existiam dias cinzas.

Dias confusos.

Dias em que o amor parecia cansado demais para continuar lutando.

Eu costumava olhar para nós como quem olha para uma fênix. Achava que sobreviveríamos a qualquer coisa. A qualquer briga, qualquer distância, qualquer palavra mal dita. Achava que o amor que construímos era forte o bastante para renascer toda vez que o mundo desabasse sobre nós.

Mas não sobreviveu àquela última noite.

À última discussão.

Ao último abraço.

Ao último beijo que talvez nem tenha existido de verdade.

Nosso amor morreu devagar, como alguém que perde o ar aos poucos, tentando respirar mesmo sabendo que já não consegue mais.

E o pior é que eu lembro de tudo.

Ou quase tudo.

Porque existem memórias que a dor embaralha.

Às vezes volto para aquela sexta-feira tentando reorganizar os detalhes, como se entender exatamente onde tudo desmoronou pudesse mudar alguma coisa. Mas não muda.

Foi mais uma briga boba.

Mais uma conversa sem freio.

Mais algumas palavras ditas no impulso.

Mais algumas ações impensadas.

Naquela noite eu cozinhei para nós dois. Conversamos na cozinha como fazíamos nos dias bons, e por algumas horas parecia que tudo tinha voltado ao normal. Assistimos a um filme longo no sofá, dividimos o mesmo cobertor e o mesmo silêncio confortável de antes.

Mas eu não consigo lembrar do toque dele.

Não lembro se ele me beijou naquela noite.

Não lembro se dormimos abraçados ou afastados.

Não lembro se aquela foi nossa despedida sem que soubéssemos.

Na manhã seguinte, acordei ao lado dele sentindo aquela velha contradição que sempre existia dentro de mim: metade queria correr para seus braços; a outra metade queria fugir para longe.

Ele me acompanhou até a academia. Conversamos pouco. Falamos sobre cansaço, sobre mágoas acumuladas, sobre quantas vezes já tínhamos tentado recomeçar depois de nos quebrarmos.

E enquanto ele falava, tudo que eu conseguia pensar era:

Por que eu ainda insistia em curar alguém que sempre parecia preparado para me ferir?

Naquela noite de sábado, a chuva caía devagar do lado de fora. O frio deixava a casa silenciosa demais. Existia alguma coisa estranha no ar, alguma sensação sufocante que eu não conseguia explicar.

Parecia que algo precisava ser dito.

Algo estava fora do lugar.

Talvez fosse nós dois.

Talvez o amor já tivesse ido embora e só nossos corpos ainda não tivessem percebido.

Adormeci em seu abraço naquela noite. Ou acho que adormeci. Nem disso tenho certeza. Só lembro de um sonho confuso e da sensação estranha de que aquela não seria uma manhã comum.

E não foi.

Acordei com o som do telefone dele vibrando. Virei para o lado, ainda sonolenta, tentando ignorar aquela inquietação dentro do peito.

— Vamos tomar café? — perguntei baixinho.

Ele nem me olhou.

— Está tarde. Prefiro almoçar.

A indiferença na voz dele doeu mais do que deveria.

Fiquei observando enquanto ele permanecia perdido no celular, distante mesmo estando ao meu lado. E, pela primeira vez em muito tempo, senti que talvez nós já tivéssemos acabado antes mesmo daquela conversa começar.

Preparei o café sozinha.

Coloquei um lugar para ele na mesa.

Ele não veio.

E foi naquele domingo frio, entre uma xícara de café esquecida e palavras afiadas demais, que nosso amor finalmente chegou ao fim.

— Você precisa amadurecer — ele disse, sem sequer me encarar direito. — Você age sem pensar. Faz tudo girar em torno de você.

Cada frase atingia meu peito como se ele estivesse tentando destruir tudo que um dia existiu entre nós.

E talvez estivesse.

Porque eu também estava cansada.

Cansada de amar alguém que nunca sabia permanecer.

Cansada de implorar por reciprocidade.

Cansada de transformar migalhas em prova de amor.

Então, pela primeira vez, eu disse em voz alta aquilo que já me destruía em silêncio havia meses:

— Amar você está me adoecendo.

O silêncio que veio depois foi cruel.

Ele apenas me olhou e disse, frio:

— Você pode ir embora. Eu vou sofrer, mas não vou morrer.

E foi ali que algo dentro de mim se partiu de vez.

Comecei a recolher minhas coisas lentamente, tentando ignorar a dor absurda que existia em colocar uma vida inteira dentro de algumas bolsas.

Cada roupa dobrada parecia um adeus.

Cada objeto guardado parecia arrancar um pedaço meu.

Mas ele continuou ali.

Parado.

Frio.

Indiferente.

Como se estivesse assistindo alguém partir de um lugar onde já não queria mais ficar.

Quando o carro chegou, respirei fundo pela última vez naquele apartamento.

Olhei para ele tentando encontrar qualquer sinal de arrependimento.

Qualquer pedido para que eu ficasse.

Mas não havia nada.

Só silêncio.

Só distância.

Só o vazio entre duas pessoas que um dia juraram se amar para sempre.

— Essa foi a última vez que eu tentei — falei com a voz quebrada. — E também vai ser a última vez que você vai me ver.

Ele tentou ajudar com as malas.

Eu neguei.

Desci as escadas sentindo o coração mais pesado do que qualquer bagagem que carregava nas mãos.

E quando entrei no carro, olhei pela última vez para a janela.

Ele estava lá.

Parado.

Me observando ir embora.

E aquela foi a última vez que vi seus olhos.

A última vez que senti a ausência do seu abraço.

A última vez que pertencemos um ao outro, mesmo sem saber.

Porque hoje… eu já não lembro do gosto do seu beijo.

Nem do som da sua risada.

Nem do seu cheiro.

Mas ainda lembro da dor de partir.