Até você voltar

4 Coisas Que Não Dizemos


Na manhã seguinte, cheguei mais cedo na empresa.

Cedo o suficiente para evitar o movimento do escritório. Cedo o suficiente para evitar Bernardo.

Ou pelo menos era isso que eu tentava convencer a mim mesma.

O andar ainda estava silencioso quando entrei. Algumas luzes permaneciam apagadas, o cheiro de café recém-passado tomava conta do ambiente e, pela primeira vez em muito tempo, senti paz ao sentar na minha mesa.

Liguei o notebook e tentei focar no trabalho.

Tentei.

Porque, no fundo, eu sabia exatamente o motivo de ter chegado tão cedo.

Eu queria respirar sem sentir aqueles olhos me procurando.

Sem precisar controlar cada sorriso.

Sem precisar fingir que nada estava acontecendo.

— Você realmente está fugindo dele.

Levei um susto ao ouvir a voz da Ane atrás de mim.

— Meu Deus, garota! — falei levando a mão ao peito. — Quer me matar?

Ela riu enquanto colocava a bolsa na cadeira.

— Você chegou antes até do pessoal da limpeza praticamente. Isso não é normal.

— Só acordei cedo.

— Uhum.

Revirei os olhos sorrindo.

Ane se aproximou da minha mesa apoiando os braços nela.

— E aí? Vai continuar fingindo que não está mexida?

Desviei o olhar para a tela do computador.

— Não estou fingindo.

— Então você admite?

Soltei uma risada curta.

— Ane…

— Beca, eu trabalho com você faz tempo. Eu sei quando alguma coisa mexe contigo.

Suspirei.

Ela estava certa, e eu odiava isso.

— Eu só… não quero complicar minha vida.

— E gostar de alguém complica?

— No trabalho? Sim.

Ela ficou em silêncio por alguns segundos.

— Você gosta dele?

A pergunta veio calma. Sem brincadeira dessa vez.

E, pela primeira vez, eu não tive resposta imediata.

Porque gostar era uma palavra grande demais.

Mas negar também começava a ficar impossível.

Antes que eu pudesse responder qualquer coisa, ouvimos vozes vindo do corredor.

O pessoal começou a chegar aos poucos.

Inclusive Bernardo.

Meu corpo inteiro percebeu sua presença antes mesmo de eu olhar.

Ele entrou conversando com dois amigos, mas seus olhos encontraram os meus quase imediatamente. E, por alguns segundos, o resto do escritório desapareceu.

Ele sorriu.

Fraco.

Contido.

Como se ainda estivesse tentando entender qual era o espaço que eu permitia que ele ocupasse.

Sorri de volta por educação e abaixei a cabeça rapidamente.

Ane me olhou de canto.

— Vocês têm uma tensão absurda.

— Para.

— Estou falando sério.

Ignorei o comentário e comecei a responder alguns e-mails. Mas meu foco durou pouco.

Poucos minutos depois, senti alguém parar ao lado da minha mesa.

Levantei os olhos.

Bernardo.

— Bom dia.

— Bom dia. — respondi tentando parecer normal.

Ele colocou um copo de café ao lado do meu notebook.

— Você chegou cedo. Imaginei que ainda não tivesse tomado café.

Olhei surpresa para o copo.

— Não precisava.

— Eu sei. — respondeu com um pequeno sorriso.

Meu coração teve a coragem de acelerar naquele exato momento.

Ele ficou parado ali por alguns segundos, como se quisesse dizer mais alguma coisa. Mas não disse.

Apenas assentiu de leve e voltou para a mesa dele.

Ane imediatamente girou a cadeira na minha direção.

— Ah, não. Isso aqui já virou romance corporativo.

Comecei a rir, escondendo o rosto.

— Para de exagerar.

— O homem praticamente trouxe café com sentimento.

Balancei a cabeça rindo, mas peguei o copo mesmo assim.

E odiei perceber o quanto aquele gesto simples tinha mexido comigo.

O restante da manhã passou relativamente tranquilo. Trocamos poucos olhares, algumas conversas rápidas sobre trabalho e nada além disso.

Mas o silêncio entre nós parecia carregado de coisas não ditas.

Na hora do almoço, eu decidi ficar no escritório.

Precisava terminar algumas demandas atrasadas. Pelo menos essa foi a desculpa que dei para Ane.

Na verdade, eu só queria um pouco de paz mental.

O escritório ficou vazio aos poucos, até restar apenas o barulho do ar-condicionado e dos meus dedos no teclado.

Ouvi passos se aproximando algum tempo depois.

Nem precisei olhar para saber quem era.

Bernardo puxou a cadeira ao lado da minha mesa.

— Você não foi almoçar?

— Estou sem muita fome.

Ele me observou por alguns segundos em silêncio.

— Você está me evitando?

A pergunta veio direta.

Sem sorriso. Sem brincadeira.

Levantei os olhos lentamente.

— Não.

Ele inclinou a cabeça de leve, claramente sem acreditar.

— Parece que está.

Suspirei baixo.

— Eu só estou tentando manter as coisas normais.

— E isso significa fingir que nada aconteceu?

Não respondi.

Porque eu não sabia responder.

Bernardo passou a mão pelo rosto, soltando um riso fraco de nervosismo.

— Eu não queria te deixar desconfortável.

— Você não deixou.

— Deixei sim.

Finalmente cruzei os braços, encarando-o de verdade.

— Bernardo… eu só não sei lidar com isso.

Ele sustentou meu olhar por alguns segundos.

— Comigo?

A pergunta saiu tão baixa que quase doeu.

Balancei a cabeça devagar.

— Com o que eu sinto quando estou perto de você.

O silêncio que veio depois pareceu parar o mundo inteiro.

Ele não desviou os olhos.

Nem eu.

E, pela primeira vez, não parecia mais que estávamos fugindo daquilo.

Mas antes que qualquer um dissesse mais alguma coisa, ouvimos vozes vindo do corredor.

O pessoal estava voltando do almoço.

Nós dois nos afastamos rapidamente, quase no automático.

Como se tivéssemos sido pegos fazendo algo errado.

E talvez estivéssemos mesmo.

Bernardo levantou da cadeira devagar.

— Depois a gente conversa. — falou baixo.

Assenti em silêncio.

E observei ele voltar para a própria mesa enquanto meu coração batia forte demais para alguém que ainda insistia em dizer para si mesma que aquilo não significava nada.