Até você voltar

5 Barulho do Silêncio


Eu nunca implorei tanto para o tempo passar.

Naquele dia, os ponteiros do relógio pareciam se arrastar de propósito, como se o universo tivesse decidido me torturar lentamente. Tudo acontecia devagar demais. As horas não andavam. As notificações não chegavam. As pessoas falavam comigo e eu precisava fingir atenção enquanto minha cabeça estava longe.

Muito longe.

Eu estava mais inquieta que o normal. Mais sensível. Mais cansada.

E o pior de tudo eram os pensamentos.

Minha mente parecia uma sala cheia de vozes falando ao mesmo tempo. Perguntas, medos, lembranças, possibilidades. Meu coração insistia em criar cenários que eu tentava destruir antes mesmo de existirem.

“E se isso sair do controle?”

“E se alguém perceber?”

“E se eu estiver confundindo tudo?”

“E se ele realmente gostar de mim?”

Respirei fundo pela milésima vez naquele dia.

Decidi me afundar no trabalho para ocupar a cabeça. Respondi chamados, organizei planilhas, revisei documentos antigos, qualquer coisa que impedisse minha mente de voltar para Bernardo.

Funcionou por alguns minutos.

Depois não funcionava mais.

Quando percebi, o escritório já estava quase vazio. As luzes de algumas mesas haviam sido apagadas e o silêncio do andar começava a tomar conta do ambiente.

Ane apareceu ao lado da minha mesa colocando a bolsa no ombro.

— Você ainda vai ficar?

Olhei rapidamente para o relógio.

Já passava do horário fazia tempo.

— Vou terminar umas coisas aqui.

Ela me encarou por alguns segundos, como se tentasse ler meus pensamentos.

— Você sabe que pensar demais nunca te ajudou em nada, né?

Soltei uma risada fraca.

— Obrigada pelo conselho terapêutico.

— É sério. Às vezes você transforma tudo em um problema antes mesmo das coisas acontecerem.

Ela tinha razão.

Mas eu odiava quando as pessoas tinham razão sobre mim.

— O Bernardo foi encontrar uns amigos num happy hour. — ela comentou casualmente. — Então pode respirar tranquila.

Aquilo deveria ter me aliviado.

E, de certa forma, aliviou.

Porque eu sabia que não teria que lidar com olhares demorados, conversas desconfortáveis ou aquela tensão silenciosa entre nós.

Mas junto do alívio veio outra sensação.

Uma pequena decepção.

E isso me irritou profundamente.

— Bom, agora você faz o favor de ir embora logo também. — Ane falou apontando o dedo para mim. — Você não mora aqui.

Sorri.

— Já estou indo.

Ela se despediu e entrou no elevador, me deixando completamente sozinha no andar.

O silêncio ficou maior depois que ela saiu.

Encostei na cadeira e fechei os olhos por alguns segundos.

Talvez eu realmente estivesse exagerando.

Talvez Bernardo só estivesse encantado pelo momento, pela proximidade, pela convivência diária. Talvez aquilo fosse passar rápido se eu continuasse colocando limites.

Era o mais racional.

O mais seguro.

Então por que meu peito pesava toda vez que eu pensava em me afastar de verdade?

Abri os olhos lentamente e peguei o celular.

Nenhuma mensagem.

Nem dele.

Nem de ninguém importante.

Ri sozinha da própria expectativa.

— Ridícula. — murmurei para mim mesma.

Desliguei o notebook e comecei a guardar minhas coisas devagar. Sem pressa de ir embora. Sem pressa de chegar em casa e ficar sozinha com os próprios pensamentos.

Peguei a bolsa e caminhei até o elevador.

O andar inteiro estava silencioso, exceto pelo som dos meus passos no corredor.

Apertei o botão do elevador e fiquei esperando em silêncio.

Até ouvir passos atrás de mim.

Meu coração reconheceu antes da minha cabeça.

Virei devagar.

Bernardo.

A gravata estava frouxa, as mangas da camisa dobradas até os antebraços e havia um cansaço leve no rosto dele. Mas seus olhos continuavam exatamente iguais quando encontravam os meus.

Intensos.

— Você ainda está aqui? — ele perguntou surpreso.

— Você também. — respondi automaticamente.

Ele soltou uma risada baixa.

— O happy hour acabou mais cedo.

Assenti em silêncio.

As portas do elevador abriram, mas nenhum de nós entrou imediatamente.

E aquilo parecia perigoso.

— Você está fugindo de mim. — ele falou de repente.

Fechei os olhos por um segundo, cansada daquela pergunta.

— Bernardo…

— Não, tudo bem. Eu só queria entender se eu fiz alguma coisa errada.

O jeito calmo que ele falou era pior do que se estivesse bravo.

Porque parecia sincero.

Suspirei baixo.

— Você não fez nada errado.

— Então por que parece que toda vez que eu me aproximo você dá um passo para trás?

Desviei o olhar.

Porque eu sabia a resposta.

E talvez ele soubesse também.

— Porque isso me assusta.

O silêncio entre nós ficou pesado.

Bernardo me observou por alguns segundos antes de perguntar, mais baixo dessa vez:

— Eu te assusto?

Balancei a cabeça lentamente.

— O que eu sinto quando estou perto de você.

Ele respirou fundo, como se aquelas palavras também tivessem atravessado algo dentro dele.

Por alguns segundos, ninguém falou nada.

O elevador já tinha fechado de novo.

E nós continuávamos ali.

Parados.

Presos naquele espaço entre o certo e o que parecia inevitável.