Até que o Apocalipse nos Separe
16 Inferno!
Notas iniciais
Que droga!, pensei enquanto me movia pela centésima vez na cama. Nada de sono! Nem um pouquinho! Até parece que as poucas horas que dormi com Daryl foram o necessário para recarregar minha bateria! Virei-me mais uma vez e forcei a cara no travesseiro. Ah, Deus, por favor. Não te peço muitas coisas, mas, por favor, me dá um pouco de sono. Que eu estava passando do nível de sanidade, disso eu tinha certeza. Eu só preciso sonhar com aquilo outra vez! Uma última vez! Fechei os olhos com força e esperei. Nada!
Desisto! Viro-me outra vez, passando a encarar a parte inferior da cama de cima. Olho para a porta e finalmente vejo um pouco da escuridão da noite sumir. Está amanhecendo! Suspirei de alívio e decidi abandonar minha cama, já que deitar e esperar não estava servindo de nada. Parei um pouco e pensei no que estava fazendo. Raciocinei por alguns segundos e senti uma imensa vontade de chorar. Isso não é certo, isso não é certo! Repeti com profundo desgosto.
Sentei e cocei os olhos. Passei brevemente as mãos nos cabelos e sem querer voltei meus pensamentos para Daryl. Durante boa parte da noite me perguntei se o que eu estava fazendo com ele era certo. Digo, em relação ao meu sonho. O sonho que me fez pensar o resto da noite num homem que não era ele! Isso é certo? Oh, Deus. Não escolho os meus sonhos. Queria ter sonhado com qualquer outra pessoa, mas agora já é tarde de mais! Afinal, apresento indícios de estar apaixonada por um cara morto! E Daryl não está morto! Ele está aqui! E eu não vou esperar ele morrer para finalmente me apaixonar.
Preciso esquecer Joe! Esquecer de vez! Ter um ex-namorado morto na sua cola não é bom para um suposto recém-relacionamento. E eu quero que esse dê certo.
Continuo com tais pensamentos até escutar um barulho vindo do térreo. Assusto-me. Pareciam ser várias panelas caindo no chão. Coloco rapidamente meus sapatos e corro para as escadas, descendo-as como se minha vida dependesse disso. Imediatamente chego onde ocorreu o barulho.
– O que aconteceu? – Pergunto antes mesmo de chegar. Para minha surpresa, me deparo com Beth apanhando umas panelas no chão.
– Ah, perdão se acordei você. Estava meio escuro, não as vi direito... – Ah, fala sério. Meu coração está incrivelmente acelerado.
– Você me deu um susto. Pensei que tivesse acontecido alguma coisa – Digo meio chateada enquanto coloco uma das mãos no peito.
– O que foi isso? – Rick aparece em outra porta com mais uma de suas armas à mão.
– Perdão, eu não queria assustar ninguém – Beth diz em tom de arrependimento, colocando as panelas em seus devidos lugares logo em seguida.
Rick suspira – O que faz aqui? – Pergunta e logo baixa sua arma de fogo.
Beth suspira também — Estava sem sono e com sede, e acabei batendo sem querer nas...
– Você não – Rick a interrompe e desvia o olhar para mim com a mesma seriedade de sempre.
Reviro os olhos – Não é óbvio? Escutei o barulho também! – E cruzo os braços. Nossa, confiança à mil aqui.
– Tudo bem... – Ele coloca alguma coisa sobre a mesa e olha para Beth – Fez o que tinha que fazer? Preciso de sua ajuda lá fora.
– Ah, sim – Beth afirma com a cabeça e logo ela e Rick saem pela porta por onde ele entrou.
Patéticos, penso com raiva enquanto volto ao meu quarto. E antes de subir no primeiro degrau me deparo com Daryl no topo da escada, terminando de vestir sua camisa. Meu coração volta a acelerar e logo me sinto livre da raiva. Sorrio para ele e começo a subir os degraus. Ele continua sério, mas não me incomodo com isso. Afinal, ele tem esse jeito mesmo. Finalmente chego ao seu lado e sorrio mais uma vez.
– Que barulho foi esse? – Pergunta secamente, parecendo dar mais atenção à camisa do que a mim. Meu sorriso aos poucos some.
– Beth derrubou algumas coisas lá em baixo... – Respondo, olhando fixamente em seus olhos que insistem em desviar dos meus.
– OK – Diz enquanto afirma com a cabeça, aparentemente impaciente e irritado.
– Algum problema? – Pergunto meio desconfiada. Aquela frieza de alguma forma machucava meu coração.
– Não – Responde rapidamente. Curto e grosso.
– Então porque não está olhando nos meus olhos? – Pergunto outra vez, já cruzando os braços. Não com raiva, mas magoada, decepcionada, assustada... Oh, Deus! Fiz alguma coisa errado ontem? Será que fiz algo que ele não gostou? Sou assim tão ruim de cama?
Ele suspira e fecha com força os olhos antes de me encarar – Satisfeita? – Seus olhos eram tão penetrantes, mas, infelizmente, eu não estava sentindo o mesmo amor de ontem. Ele é tão lindo. Para o meu dia começar bem eu só precisaria de um beijo...
Aproximo-me dele e fico na ponta dos pés para beijar sua boca. Mas assim que chego bem perto, ele dá um passo pra trás.
Meu queixo cai, chocada – Você recuou de mim? – Pergunto totalmente confusa.
Ele coloca as mãos no rosto por um momento e logo parece arrependido, numa mistura de raiva e insatisfação – Desculpa – Ele diz enquanto recua mais alguns passos.
– Qual é o problema? – Pergunto ainda mais chocada. Ele não responde. Apenas tira as mãos do rosto e deixa à mostra uma expressão extremamente confusa. Espero uns segundos, pensando que talvez ele estivesse pensando no que falar, mas nada ocorre – Daryl... Só iremos resolver isso se você conversar comigo.
Ele olha brevemente pra mim e logo em seguida para o chão. Respira fundo e quando olha pra mim novamente sua expressão já não é mais a mesma. Dessa vez ele realmente aparenta estar chateado. Chateado comigo. Espero mais alguns segundos, e ainda assim ele não fala nada.
– Daryl... – Insisto.
– Quem é Joe? – Ele pergunta de vez e logo sinto meu coração parar. Como ele sabe do Joe? Como isso é possível?
– Como você...? – Gaguejo enquanto deixo totalmente à mostra o meu espanto.
– Você deixou isso bem claro quando dormiu comigo e do nada começou a gemer o nome dele! – Ai, meu Deus.
Coloco brevemente a mão na boca – Eu posso explicar – Digo com a voz trêmula. Pelo amor de Deus, Lyanna, não chore agora!
– Não precisa explicar nada – Ele diz mais seco do que antes e logo começa a descer os degraus.
– Daryl, por favor! – Agarro seu braço, fazendo-o parar, e puxo-o para longe da escada – Deixe-me explicar!
– Você me acha idiota, por acaso? – Ele me empurra e pela primeira vez sinto medo dele – Saiba que a única idiota aqui é você! Pensa que sou uma opção reserva, mulher? Que pode transar comigo quando o namoradinho ou seja lá o que for não estiver por perto? – Eu já não estava aguentando. Lágrimas desembestadas escorriam pelas minhas bochechas – Eu cansei de você – Seus olhos mostravam raiva, decepção e arrependimento ao mesmo tempo – Sinceramente? Espero que esse otário canse de você também.
Logo eu já não sentia amargura. Sentia raiva. Penetrei meus olhos nos seus, meus olhos ainda vermelhos e cheios de lágrimas, e o empurrei da mesma forma que ele me empurrou – Quer saber? Eu daria qualquer coisa, qualquer coisa, pra ele me dar um fora agora. Poderia ser o pior fora de todos. O fora do século. Mas não vai dar, sabe por quê? – Empurro-o mais uma vez – Porque ele está morto! Um zumbi igual a você, idiota e sem noção, o comeu vivo! E o único motivo pra eu gemer seu nome enquanto durmo é porque ele foi o único homem que amei de verdade! – Termino as últimas palavras em prantos – Sempre que precisei, pra qualquer coisa que fosse, ele sempre, sempre, estava lá. Então quem é você pra chama-lo de otário, ham? – Dou mais um empurrão – Você não é ninguém comparado a ele, então cala a droga da sua boca e vê se começa a procurar em algum lugar desse inferno a sua dignidade, seu idiota! – Eu já não enxergava quase nada por causa da imensidão de lágrimas, mas enxergava o suficiente pra notar o seu choque. Seus olhos revelavam o quanto ele estava destruído por dentro. E eu não sei se foi por que o ofendi ou por que contei do que aconteceu com Joe. Quem se importa? Foda-se Daryl.
– Eu não fazia a mínima ideia... – Ele diz entre suspiros e logo sinto meu coração apertar.
– Claro que não fazia! – Digo alto, mas alto o suficiente só pra ele escutar. Limpo com raiva o meu rosto e o encaro fervorosamente – Fique longe de mim.
– Lyanna! – Agora ele parece realmente espantado – Eu não sabia! Perdão!
– Foda-se você! – Grito – Foda-se o que você pensa! Joe foi mais homem em 20 minutos do que você foi a vida inteira! – Deus, será que falei de mais?, penso meio nervosa, mas ainda assim tomada de raiva! Ah, claro que não!
Então sua expressão passa de desesperado e arrependido para irritado e ameaçador – O quê? – Ele diz rigidamente – Ótimo então! – Diz alto e da forma mais irônica possível – Fique com seu namorado morto, já que você quer tanto! Como serão os encontros? Em seus sonhos?
Meu queixo cai mais uma vez – Ótimo! Pelo menos assim ele não vai tentar me asfixiar com suas mãos enormes!
– Mas se eu não fizesse isso você... – Ele grita de raiva e soca algo imaginário à sua frente – Não importa! Você é uma idiota!
– Você que é, seu desgraçado!
– Filha da mãe!
– Caipira!
– Necrófila!
Meu queixo cai mais uma vez e agora é pra valer – Necrófila? Eu nunca transei com um morto, imbecil! – Empurro-o novamente, mas sou surpreendida pelos seus braços.
– Mas não era isso que você queria? – Ele diz, baixo e seriamente. Falou de tal modo que até me deu calafrios. Puxo os meus braços e afasto-me dele.
– Ótimo! Vamos ver se ele é melhor que você na cama!
Ele já estava vermelho de raiva – Ótimo!
– Ótimo!
– Ótimo! – Ele diz uma última vez e desce rigorosamente as escadas.
Cruzo os braços e volto para o meu quarto. Ainda chorando, mas chorando de raiva. Chuto tudo que encontro pelo caminho, puxo meus cabelos, soco as paredes. Daryl Dixon idiota! Idiota, idiota, idiota, idiota, idiota!
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