Até que a morte os una - (EM REVISÃO)
10 Dead Memories - Parte 3
Notas iniciais
Curiosamente, aquele mesmo copo arroxeado, o qual mantinha em mãos, havia sido arremessado bruscamente em direção ao chão, caindo no solo ruidosamente e rolando por intermináveis segundos sobre os ladrilhos monocromáticos, enquanto considerável quantidade do líquido carmesim, que o preenchia anteriormente, escorria por entre as pequeninas valas existentes naquele piso já manchado por tantas colorações de vermelhos diferentes.
Tão semelhante a sua própria situação.
.
O pequeno corpo debatia-se fortemente.
Os rubis, evidentemente saltados para fora, quase totalmente apagados, perdiam seu brilho gradualmente, a face, assolada em um puro desespero, e o sangue, jorrava em tal quantidade que o menino chegava a sentir fortíssimas vertigens apenas com a visão dos vários litros do líquido carmesim escapando de dentro de seu pescoço quase arrebentado, como se não bastasse a sensação dolorosa de ter pontas soltas de arame farpado perfurando sua pele impiedosamente.
Impaciente com toda sua movimentação incessante, o homem que o agarrara por trás colocara mais força no aperto em volta de seu pescoço, obrigando-o a parar de remexer-se tanto, pois se não o fizesse, machucaria-se mais ainda, o que funcionara, já que o pequeno parara de se agitar quase completamente quando sentiu o sangue subindo por sua garganta até a boca, obrigando-o a cuspi-lo pra fora, manchando seus delicados lábios, que, outrora, eram beijados suavemente, mas que agora eram manchados com o vermelho vivo, que ao ser eliminado escorria até próximo à região onde era enforcado.
Com o tempo, sua voz morrera completamente, tanto graças à quantidade desmedida do fluído magenta que se acumulara onde suas cordas vocais localizavam-se, quanto pelo fato de não lhe restar mais forças para dizer qualquer coisa, sendo praticamente impossível produzir qualquer som além dos incógnitos murmúrios e gemidos de lamentação extrema, como se implorasse num último suspiro para que aquilo se encerrasse o mais rápido possível, para terminar logo com seu sofrimento.
Estava muito perto de perder a batalha para a inconsciência, não conseguiria aguentar mais muito tempo, seus olhos estavam começando realmente a pesar, sequer movia-se mais, qualquer esforço seria inútil, seus membros e seu torso pareciam simples extensões inúteis de si mesmo, já que sequer os sentia, na verdade, eles assemelhavam-se mais a pedaços de uma criatura morta ao serem arrastados morbidamente por seu assassino pelo extenso corredor, como um verme rastejando-se para sobreviver.
Agora, fazia esforço unicamente para manter-se acordado, pois era a única coisa que podia fazer de qualquer maneira.
As fortes mãos enluvadas, em certo ponto, afrouxaram-se, finalmente, de maneira considerável, passando a puxar somente os arames que se penduravam em seu pescoço, para conduzir o pequenino corpo já extremamente pálido e sem vida pelo corredor sombrio e arrepiante. Até que, em dado momento, uma das palmas soltara-se do instrumento afiado, apenas para empurrar vagarosamente a porta enferrujada e velha que dava acesso à sala denominada apenas como: ‘’Partes e Serviços’’.
Foxy, que ainda se encontrava estirado ao chão, conseguiu sentir-se pior ainda.
Seu olhar, estático. Seu corpo, paralisado. Desde que focara sua visão naquela cena sangrenta simplesmente não se mexera um centímetro, parecia ter esquecido-se de como se respirava. Seu mundo havia parado de um instante para outro, e, agora, ele assistia de camarote a prematura morte de seu amigo, uma crueldade que não fora sequer capaz de impedir.
Sentia-se impotente, sentia-se um fracassado, um perdedor, alguém que não podia proteger o próprio companheiro do desencarne certo. Como pudera errar tanto? Se tivesse ido atrás dele naquele dia, toda essa tragédia que recaíra sobre eles talvez pudesse ter sido evitada, e hoje, estariam um ao lado do outro, vivos, crescendo e aprendendo, não residindo em carcaças robóticas maltratadas e desgastadas, enquanto cada um se encontrava, não em lados opostos do mesmo palco, mas sim, em palcos diferentes, o que era ainda mais solitário, principalmente para a raposa, sempre isolado de tudo e todos dentre suas cortinas arroxeadas.
Era possível... Que não pudesse interferir naquilo? Tudo estava escrito e nada poderia ser mudado jamais? Era um erro completamente irreparável? Uma fatalidade?
De qualquer maneira, todos eles já estavam mortos há anos, não havia nada a se fazer com relação a isso, a menos, que descobrisse um método de ressureição eficaz, algo que era impossível em sua condição atual.
Impressionantemente, o palpitar em seu peito, o qual ele acreditava não possuir mais, começara a ritmar em uma velocidade surpreendente, enquanto seu olho ardia e começava a lacrimejar, ansiando por derramar as lágrimas que ele sabia que viriam novamente, para expressar fisicamente tamanho sentimento de perda e dor que o envolviam mais intensamente a cada segundo que se passava.
Seu corpo estremecia como se um frio aterrador o invadisse, seus pensamentos estavam embaralhados de tal maneira, que o raciocínio da raposa simplesmente não conseguia processar mais nada desde o brutal enforcamento vislumbrado fixamente pelo único globo áureo, tudo o que podia fazer era desmanchar-se em seu próprio pranto, quase de maneira automática, enquanto, lentamente, encolhia-se mais ainda em posição fetal, protegendo-se, ou mesmo, confortando a si mesmo ao se cobrir em parte com sua longa cauda de pelugem ruiva e albina. Seu olho ainda esbugalhado, e parecendo fitar um nada em particular.
Levou a mão ao próprio peito, agarrando ali fortemente. Era como se tivessem acertado uma faca diretamente em seu coração, seu peito doía de verdade, um sofrimento indescritível dominava-o por inteiro lentamente, e ele simplesmente não conseguia fazer nada além de chorar e abraçar-se, era como se não estivesse ali, como se sua mente estivesse em um grande vazio onde só havia escuridão, e somente seu corpo se encontrasse daquela maneira, praticamente jogado naquele piso engordurado e monocromático daquele restaurante detestável.
A humanidade restante em seu coração gritava de dor.
Sua respiração — que ele sequer lembrava-se de que já tivera, assim como várias outras funções de seu original corpo humano- começara a pesar severamente, fazendo o ruivo novamente inspirar e expirar o oxigênio com grande dificuldade, quase nervosamente.
Com sua audição extremamente sensível e apurada, depois que aquela porta se fechara, emitindo um ranger incômodo e ao mesmo tempo escondendo as figuras de seu assassino desprezível e seu melhor amigo desfalecido, pudera ouvir uma risada abafada e um som vago de carne sendo dilacerada por alguma espécie de lâmina, não pudera discernir exatamente o tipo, mas isso também não importava, pois sua expressão contornou-se em horror ao cogitar o que aquele homem poderia estar fazendo com o pequeno corpo já fraco de seu companheiro, a imagem que se formara em sua mente fazendo seu suposto estômago revirar-se e o sentimento de aversão completa o dominar, um grito embargado escapando de sua garganta, enquanto o pirata levava a mão e o gancho a seus ouvidos tentando desesperadamente tapá-los com força para que os sons agoniantes não os alcançassem, para ao menos poupá-lo daquilo.
Revirou-se no chão inquieto, sua sanidade parecia prestes a esvair de si mesmo, sentia de alguma maneira todas as sensações de um ser humano novamente, a garganta parecendo entalada, o ardor nos olhos de tantas lágrimas derramadas, o remexer inconveniente de seu intestino, a mão suando em quantidade exorbitante e exagerada assim como seu rosto, seus pulmões parecendo oprimirem-se ao ponto que não tinham mais capacidade de alojar nenhum tipo de ar, a tremedeira constante de todo o seu corpo, a vista embaçada e confusa distorcendo todas as figuras e imagens ao redor, tudo voltando mais uma vez para mergulhá-lo numa velha nostalgia angustiante e quase traumática, lembrando-o de como há muito era seu corpo infantil masculino.
Não é como se odiasse essas lembranças, elas apenas deixavam-no extremamente entristecido e amargurado, pensando em como sua vida se encerrara tão incrivelmente cedo, fazendo-o lamentar a sua condição atual de um ‘’morto-vivo’’.
Aquilo tudo era o quê? Uma espécie de purgatório? Uma punição por crimes que nunca cometera? Talvez jamais soubesse a resposta, deveria ter se conformado há muitos anos com o fato de que suas milhares de perguntas sempre teriam ou receberiam respostas vazias, não importava como fosse.
Permaneceu na mesma posição, até que em certo momento aqueles mesmos sons, os quais esvaiam de dentro daquela sala — que inclusive pareciam cortar seus ouvidos como navalhas — simplesmente pararam subitamente, fazendo um silêncio assustador se apossar do corredor novamente, tendo agora apenas os barulhos e vozes providos do público do salão principal para invadir-lhe, servindo como uma espécie de trilha sonora abafada para aquele cenário de filme de terror, depois de longos minutos o fatídico ranger novamente soando de maneira torturante, o arrastar vagaroso e sem pressa da porta de metal fazendo a raposa sentir um arrepio subir por sua espinha, enquanto observava a figura animatrônica dourada surgir ensanguentada aos poucos do portal estreito com um aspecto um tanto cansado, espirando algumas vezes com força, levemente agachado, apenas para depois de instantes levantar o rosto gradualmente e sorrir macabro, um riso sádico escapando em baixo volume de seus lábios manchados da substância avermelhada tão conhecida por si, a espessa textura apática e escura que se recobria sobre as íris arroxeadas chegando a amedrontar Foxy, que se perguntava mais uma vez se aquele monstro era sequer capaz de sentir alguma empatia pelas outras pessoas ao seu redor, indagando-se incrédulo se aquele ser dentro daquela fantasia de revestimento dourado era mesmo humano, ou um monstro sem sentimentos.
Aquela visão era simplesmente bizarra, a tal figura sinistra do nada estava saboreando com prazer o sangue alheio que havia espalhado por toda a vestimenta que trajava, lambuçando os dedos com o líquido carmesim e levando-os a boca para provar do gosto metálico e para ele agradável, parecendo apreciar o odor também, pois inspirava o suposto cheiro característico da substância rubra profundamente, e o fazia revirando os olhos em deleite, parecendo tudo entretenimento para ele.
Uma raiva descomunal invadiu o ruivo, o ódio por aquele assassino miserável crescia dentro de si e maculava seu coração sem dó, escurecendo- o com ideias abomináveis de vingança ao mesmo tempo em que privava mais uma vez sua consciência da clareza e de seus velhos ideais moralistas, bondosos e ingênuos por vezes, pois no final, sua mentalidade ainda era um tanto infantil. Porém naquele momento, esta mesma, estava sendo manchada por pensamentos sanguinários que não recebiam um mero resquício de um fator denominado ‘’reflexão com relação às consequências das próprias ações’’.
A única coisa que importava agora era devolver o que aquele homem fizera a ele e a seus amigos na mesma moeda, não havia nada mais a ser considerado ou dito, tudo o que lhe interessava naquele momento era afundar impiedosamente seu gancho dentro do peito do dito cujo sádico até que pudesse banhar-se completamente em seu sangue, sem dúvidas, frio.
Consumido pela cólera e alimentando-se do sentimento de remorso e rancor desmedidos, conseguiu tirar forças de sabe-se lá onde para se levantar com muito esforço, apoiando-se em seus braços e pernas para se colocar de pé, murmurando palavras de baixo calão pela dor que se alastrava por seu corpo a cada mínimo movimento que era praticamente obrigado a realizar, movendo-se então lentamente, para tornar o processo menos agonizante, a expressão sôfrega e furiosa sendo bem evidente nas feições levemente sardentas de seu rosto, que eram acompanhadas da única auréola amarelada visível, estando tão intensamente brilhante, parecendo estar preenchida por labaredas de fogo em seu centro, aparentando prontidão inquestionável para acabar com a raça daquele desgraçado a sua frente sem dignidade o suficiente para utilizar a carcaça de ‘’FredBear’’.
Começou um caminhar lento e dificultoso, tropeçando nos próprios pés por vezes e tendo de se apoiar na parede a sua esquerda com seu gancho por breves momentos, ainda assim, seguindo sem hesitar, os dentes a mostra cerrando-se ferozmente, demonstrando claramente toda a raiva e ânsia que possuía de arrancar fora as tripas daquele homem sem a menor piedade, porém, quando estava pronto para supostamente desferir algum golpe na figura que se encontrava descontroladamente eufórica pelo privilégio de provar daquele líquido carmesim e vivo em primeira mão, sentiu uma sensação estranha manifestar-se simultaneamente em diversas áreas de sua estrutura corpórea, o que o fez institivamente interromper a investida que faria contra aquele assassino, seu braço, que tinha como terminação o famoso gancho de pirata, ficando parado no ar como se a raposa não conseguisse movê-lo além daquilo, estando a centímetros da aberração em pose no momento de ‘’Golden Freddy’’.
Levantou o olhar para seu antebraço para buscar o que estaria o mantendo naquela posição, e sua íris dourada expandiu-se assustada e surpresa, vendo aqueles tentáculos negros e pegajosos envoltos em seu membro superior, segurando-o como se quisesse parar-lhe antes que pudesse fazer qualquer coisa para mudar o curso dos fatos já escritos há tanto tempo, parecendo fazer uso de uma força sobre-humana para colocá-lo daquela maneira quando nem sequer sua consciência o despertava para a realidade.
Seu semblante se redesenhou em pavor ao perceber que não só seu braço, como a maior parte de seu corpo já estava sendo envolvido rapidamente por aquela espécie de massa negra dominadora, apagando suas cores com seu tom obscuro penetrante, e o transformando em sua própria sombra ao cobrir-lhe a maior parte do torso e membros inferiores com sua consistência um tanto supérflua, apesar da enorme força exercida para não permitir com que o pirata se movesse um milímetro sequer.
Praguejou inconformado, já entrando em verdadeiro desespero quando as sentiu subirem até perto de seu pescoço, o pirata começando, então, a revirar-se insistentemente de todas as maneiras possíveis, tentando livrar-se da gosma pegajosa que se apoderava de seu corpo rapidamente, porém, somente conseguindo entrar mais em pânico quando percebera que não conseguia mais mover qualquer músculo que já tivesse sido tomado pela substância negra.
Rangeu os dentes com tanta força que machucara o interior de suas bochechas, mas não deu a mínima importância para a quantidade quase insignificante de sangue que começara a escorrer da lateral de sua boca, seus sentimentos estavam torturando-o o suficiente para se incomodar com tão pouco, era uma mistura tão intensa e indescritível de ódio e pura desesperança, que não era mais capaz de agir com a devida perspicácia ou discernir o certo do errado, os resquícios de humanidade que ainda restavam em sua alma estavam o matando por dentro, estavam o cegando para a situação em si e ele não podia fazer nada digno para contornar a situação.
Em seguida apenas murmurou palavras incógnitas e xingamentos silábicos com a pouca voz que ainda lhe restava, mas, isso logo se cessando também quando o conteúdo obscuro alcançara seu rosto, contornando seus olhos e alguns poucos orifícios, privando a raposa de certa quantidade de ar ao tapar sua boca de maneira bruta, no entanto, deixando as distintas cavidades que regiam seus outros sentidos ainda à mostra, como os ouvidos e o nariz, junto de seu olhar, que se encontrava tão penetrante, tão morto, de modo que um único vislumbre daqueles orbes dourados apagados — semelhantes mais a duas manchas pintadas por tons acinzentados — faria qualquer um estremecer na base, apiedando-se intensamente da figura pirata e enxergando seu pedido mudo de socorro com mais clareza do que nunca.
Bom, pelo menos para uma pessoa que fosse capaz de sentir empatia pelos outros, o que não era o caso de ninguém a sua volta, muito menos alguém que pudesse o enxergar, estava sozinho mais uma vez, Brian não estava lá para salvá-lo, assim como Alex não esteve lá pelo companheiro quando ele mais precisara de sua ajuda.
Começou a lacrimejar novamente, não mais apenas pelas dilacerantes sensações que o invadiam, mas também pela agonia de ter aquela ‘’criatura’’ negra envolvida em todo o seu corpo, não o permitindo controlar a si mesmo e o privando do livre-arbítrio.
Lançou um olhar enfurecido para seu assassino, só desejava dilacerar- lhe a carne! Era pedir demais ter o privilégio de vingar os seus companheiros daquele homem desprezível?!
Com o desejo incontrolável de desmembrar cada parte daquele psicopata o dominando de maneira animalesca, começou a se contorcer intensamente dentro das diversas camadas da substância negra que havia em volta de si, tentando cortá-la, forçando seu gancho e seus dentes contra a mesma, porém, isso serviu somente para irritar (supostamente) ainda mais a entidade dominadora presente ali, que aparentemente tinha alguma consciência, já que rapidamente tornou assustadoramente maior o aperto de seus tentáculos pretos nos membros e tronco da raposa, fazendo-o parecer um cadáver mumificado.
Completamente imobilizado, tudo o que pôde fazer fora dirigir um nojo e ódio descomunais para aquele homem a sua frente, que se retorcia em puro êxtase com o gosto luxurioso de sangue.
No entanto, depois de alguns minutos ele simplesmente paralisara do nada, encarando fixamente em suas mãos enluvadas os resquícios do líquido que anteriormente corria por veias infantis, observando a substância como se aquilo o hipnotizasse por um momento.
As pupilas negras contornadas por tons púrpuras estavam incrivelmente dilatadas, provavelmente pelo dono das mesmas estar imerso em um incrível deleite, afinal, aquilo era um dos maiores prazeres da vida para si.
Esboçou pequeno sorriso no canto dos lábios finos, formando uma expressão que parecia se tornar mais arrepiante a cada instante, e então, uma risada pausada escapou ligeiramente de sua boca, como a pesada brisa que sopra os sinos de vento, denunciando a tempestade que se aproxima.
Seus olhos estreitaram-se e a gargalhada sádica tornou-se mais alta, mas, aparentemente, restringiu-se a um volume em que somente a raposa conseguisse ouvi-lo, o assassino, parecendo ter todo o cuidado para que os sons que eram efetuados ali não esvaíssem para fora daquele corredor, testemunha sombria de toda aquela insanidade, no entanto, aquilo não parecia uma risada maluca de alguém que acabara de assassinar uma criança, mas sim, uma risada divertida, como de alguém que anseia por ir ao parque de diversões, e finalmente chega lá.
As luvas de couro, que eram aparatos clássicos de ‘’FredBear’’ ainda revestiam suas mãos, e ele as encarava com certo desgosto pelo fato das mesmas não permitirem com que o sangue pudesse acariciar diretamente a palma de sua mão e/ou seus alongados dedos, então, retirou-as sem mais nem menos, lambendo o líquido carmesim ainda não seco no tecido levemente dourado, e tentando passá-lo para sua palma ao esfregar parte deste ao longo da extensão da extremidade de seu braço.
A vontade de vomitar de Foxy só piorava com aqueles longos minutos — que mais pareciam horas — com ele sendo obrigado a assistir aquela cena, o que só aumentava o seu ódio por aquele homem a sua frente, ainda mais por ele estar se deliciando descaradamente com o líquido que circulava anteriormente pelas veias de seu melhor amigo.
Logo, o mais velho cansou-se daquela situação, precisava de outro entretenimento, e, ao constatar isso, lembrou-se de que ainda estava com aquela máscara idiota em sua cabeça, revirou os olhos em descrença, e em seguida, com todo cuidado, retirou-a sem fazer muitos movimentos bruscos, como se aquilo pudesse o machucar. Ao observar esse mínimo detalhe, o ruivo ao lado reparou finalmente que dentro de toda aquela vestimenta, o outro procurava severamente não se mexer muito abruptamente ou rispidamente, como se algo realmente ruim pudesse acontecer com ele se o fizesse, assim sendo, Foxy passou a encará-lo com ar calculista e mais frio ainda, procurando algo que pudesse ser seu ponto fraco, no entanto era e é, no mínimo, difícil manter-se dessa maneira e não perder o controle quando se é comtemplado gratuitamente com o verdadeiro rosto do seu assassino em carne e osso, com um semblante tão ridiculamente feliz e perturbadoramente sádico.
Encarar aquela expressão trazia-lhe sensações aterradoras, lembrava-se fortemente do dia em que vira aquele semblante desprezível pela primeira vez.
As memórias daquele mesma face sorrindo maleficamente em meio as poças de sangue e as partes de corpos estirados ao chão notoriamente era a mais memorável, já que era uma com a qual tinha pesadelos até os dias atuais, uma das quais mais lhe torturavam em seu subconsciente.
Isso, na verdade, era um dos motivos pelos quais a ‘’fatídica mordida’’ acontecera.
Seus amigos não se lembravam de nada que tenha ocorrido antes de terem sido afastados a força de seus corpos carnais, ou seja, eles sequer se lembravam de seus nomes ou qualquer coisa sobre suas vidas anteriores, quanto muito menos do rosto de seu assassino, provavelmente talvez algum deles tivesse alguma lembrança vaga desse ocorrido, mas não o suficiente para reconhecê-lo apenas de vista, Foxy até mesmo duvidava que seus companheiros realmente tivessem tido o ‘’privilégio’’ de vislumbrar aquele rosto pálido e um tanto arroxeado assim como ele, já que durante a maior parte das execuções, o mesmo — pelo que pudera deduzir — utilizara a máscara metálica de ‘’Golden Freddy’’, deixando visível apenas os seus olhos e uma pequena parte de sua boca, acobertando quase completamente seu semblante, mas no final, o pirata só tinha certeza de conhecer o rosto daquele assassino por causa daquela única memória traumática que possuía do dia de sua morte.
Afinal, não abandonaria sua atração pirata para perseguir e dar a devida lição a quem ele não tivesse a certeza de que fosse o responsável por ele e sua família estarem naquela situação atualmente, não mesmo.
— Merda, preciso de mais... – começou a resmungar descontente, enquanto analisava o quanto de sangue ainda restava em suas roupas para ele aproveitar –... A esta altura o sangue dentro do corpo dele já deve ter ficado fora do ponto – murmurava xingamentos entre uma palavra e outra –... É uma pena, eu queria ouvir gritos de verdade... E ter súplicas de misericórdia soando desesperadas aos meus ouvidos... – cantarolou as últimas palavras silabicamente antes de suspirar de maneira pesada, encostando-se a parede — talvez... Eu precise de outro... – deduziu sem sequer prestar atenção no que falava, no entanto, ao perceber o que havia acabado de dizer, os cantos de seus lábios expandiram-se até quase cruzarem totalmente o rosto medonho – é isso! Outro, claro! Eu posso fazer o sacrifício, afinal, é só mais um! – começou a rir sem proporções, mordendo os lábios com força, até que teve uma ideia ainda mais brilhante – e mais... Já sei quem será! Vai ser um combo perfeito! Esse garoto frágil não pode ficar sozinho não é mesmo? – prosseguiu, rindo sem nenhuma suavidade, a alegria sendo expressa doentiamente em suas feições.
O olhar de Foxy arregalou-se de imediato, o pânico corroeu-o rapidamente por dentro, ele sabia do que aquele homem estava falando.
O maníaco por roxo encarou seu reflexo silenciosamente na máscara de metal pouco espaçosa, sorrindo estranhamente ao vislumbrar suas feições desajustadas, seus pensamentos divagando por um momento, a face refletida na superfície do objeto deixando bastante clara a imensa satisfação presente ali, a satisfação daquela aberração de poder finalmente descontar tudo o que ele vinha guardando para si nos últimos anos.
Em seguida, colocou a ‘’cabeça’’ em sua própria com muito cuidado, e ao abrir os olhos novamente, o ruivo ao lado sentiu um arrepio subir por sua espinha ao testemunhar aqueles globos púrpura sendo tomados novamente pelo brilho homicida, um brilho assustador, que de maneira inusitada o aterrorizava, e isso, graças às cenas e lembranças que invadiam sua mente sem permissão, desencadeadas pela imagem daquele olhar.
Sentiu-se ainda mais desorientado, uma forte vertigem tirando-lhe o resto das forças, fazendo-o cair de leve para frente, sendo sustentado apenas pelos tentáculos negros, enquanto as ondas intensas de memórias vinham à tona com ele sendo incapaz de processá-las nem que de maneira minimamente eficaz, torturando-o mais a cada instante, quando se dera conta, o assassino com intenções nada bondosas já estava cruzando a saída daquele corredor macabro, e por consequência, seu desespero crescera a níveis desproporcionais, Foxy sabia quem ele iria buscar agora.
Como um flash rápido, uma mensagem subliminar que poderia passar despercebida facilmente sem a devida atenção, aquela lembrança em específico retornou à sua linha mental sem aviso prévio, impactando-o mais do que qualquer outra, sua única pupila visível reduzindo a um minúsculo ponto negro no apagado círculo dourado que preenchia seus olhos, e ele estagnando por um instante — que parecia ter durado horas — tentando processar a situação, podendo jurar que suor escorria de sua testa em exorbitante quantidade.
‘’Merda... MERDA, MERDA, MERDA!’’
Agora sim, tinha todos os motivos do mundo para tentar se desvencilhar daquela gosma negra que o envolvia e obrigava-o a manter-se naquele lugar, sob hipótese alguma poderia deixar com que o Alex ‘’daquele momento’’ pudesse vir a ter tal cena registrada de maneira tão marcante e traumática em sua mente assim como a si, tudo bem que a criança era literalmente ele, e que poderia estar dando relevância demais a situação levando em conta o fato de que talvez realmente merecesse ter esse essa imagem gravada em seu subconsciente para sempre, para poder se lembrar para o resto de sua vida o quanto ele falhou em proteger o amigo da morte certa naquele dia, mas....
Mas? Mas e o quê...? Mas e o quê?
Se Brian já estava morto mesmo, do que adiantaria tentar literalmente se proteger? Mesmo que conseguisse e assim mudasse alguma coisa em sua história, faria sentido continuar vivendo uma vida normal quando não tinha mais o arroxeado a seu lado?
Não.
Preferia a morte junto dele, a vida sem ele.
O conflito interno dera-se como iniciado, questionava-se se deveria sequer tentar interferir na situação, já que isso simplesmente não resultaria em nada, ou quem sabe até geraria circunstâncias piores para si e para seu companheiro.
No entanto, subitamente, sua consciência resolvera agir, e um fator que provavelmente poderia decorrer-se por consequência de todas as ações desencadeadas até aquele momento acabou por alcançar sua linha de raciocínio, e ele se surpreendeu mais uma vez, aquele detalhe minúsculo fazendo-o repensar em toda a situação a sua volta, e arrepender-se de cogitar a hipótese de ficar parado sem fazer nada, apenas observando dolorosamente os fatos se desenrolarem.
E o detalhe era: seus outros companheiros.
Se fosse levado para fora do salão sem mais, nem menos, é claro que alguém repararia em sua ausência e sem dúvida iria atrás de si, ou mesmo de Brian. E quem eram os mais perspicazes, mais preocupados, e que mais conviviam com eles para dar importância ou reparar nisso antes de todos? Exatamente. E, com certeza, estes, ficariam de frente com seu assassino mais cedo ou mais tarde, no final, tendo o mesmo final trágico que os próprios Brian e possivelmente Alex.
Em outras palavras, tinha de ao menos tentar fazer alguma coisa, no mínimo, impedir com que Amy, Fred ou Lance fossem procurá-los.
Parando para pensar, será que não fora por isso que os mesmos haviam sido mortos assim como ele e Bonnie? Por que resolveram ir atrás de ambos? Por que correram a seus socorros?
Sua cabeça girava tentando chegar a um consenso sobre o que deveria fazer, ou pelo menos tentar fazer, levando em conta aquela criatura negra e misteriosa que o segurava naquela posição sem motivo aparente, já estava ficando sem tempo para pensar em qualquer coisa melhor, então, simplesmente inspirou profundamente, tentando reunir um pouco de força e fôlego para, em seguida, investir contra as espécimes de cordas obscuras que o envolviam com tudo o que tinha, abocanhando-as energicamente, tentando perfurá-las de alguma maneira, sentindo seus músculos serem espremidos ainda mais e dores agudas o atingirem em certos lugares ao longo do corpo, mas a raposa fazendo esforço para sequer dar importância a isso, logo, fazendo uso também de seu gancho para se libertar, depois de alguns minutos o cansaço dominando-o lentamente e sua respiração ficando mais pesada, de tanto empenho que colocava naquilo, poderia perder a batalha para a inconsciência a qualquer instante se aquela gosma preta não cedesse ao menos um pouco a si logo.
Enquanto isso, a figura dourada e medonha espreitava pequenos cantos escuros do estabelecimento sorrateiramente, como uma verdadeira sombra, observando seu próximo alvo com fixação, este, que se encontrava sentado sobre uma piscina repleta de bolinhas de plástico coloridas, parecendo fitá-las já entediado.
Em um momento completamente aleatório, o garoto simplesmente encarou-as com ódio e depois de inflar as bochechas irritado, deferiu-lhes um golpe repentino, afundando parte de seu corpo pequenino dentro da imensidão multicolorida e espalhando várias das esferas em questão pelo espaço da piscina, em seguida, virando-se, deitando de barriga para cima, aparentemente com uma expressão frustrada e triste ao mesmo tempo, observando o alto do lugar como se fosse a coisa mais interessante do momento.
— Que droga, Brian! – esbravejou irritadiço em volume considerável, lançando com fúria uma das bolas da pequena piscina para o alto, a qual rebatera no teto e rapidamente voltara em sua direção, acertando-o em seu nariz – AI, DROGA! – xingou ainda mais zangado, segurando desesperadamente com as duas mãos o seu diminuto órgão que era responsável por um dos cinco sentidos, choramingando um pouco pela dor do impacto, deslizando seu corpo para o lado, sendo guiado pelas ondas de bolinhas abaixo de si – poxa, que saco! Cadê você Brian?! Já demorou demais seu imbecil! Venha já pra cá! – exclamou inconformado, querendo que o amigo aparecesse em sua frente naquele exato instante apenas por birra -... não tem graça isso aqui sem você... – sussurrou deprimido depois de breve pausa.
Sua face redesenhou-se em uma melancolia alarmante ao vislumbrar a cena que passara a conseguir observar graças ao fato de ter deitado o tronco sobre o ombro esquerdo, naquela posição podia ver quase perfeitamente (através dos fios de náilon) Foxy cantando outra canção para as várias crianças no local – inclusive Frederick, Lance e Amy, apesar de os dois irmãos não apresentarem tanta animação assim — exclusivamente para melhorar seus ânimos após ter contado sua primeira história de pirata do dia, era notável o seu entusiasmo e energia em todas e quaisquer situações em que estivesse envolvido, afinal, era um robô no final das contas, era programado para isso, nada daquilo era verdadeiro e mesmo assim todos gostam dele, era o favorito das crianças.
Revirou-se um tanto incomodado, lembrando-se do dia em que ficara sozinho em seu próprio aniversário, ouvindo aquela mesma história.
Não queria se recordar disso naquele momento, não naquele.
Levantou parte de seu torso para frente, ficando sentado desta vez, logo, agarrando suas pernas com os finos braços e colocando seus membros inferiores praticamente rentes a seu peito, em seguida, passando o único olho disponível por todo o salão de maneira analítica, procurando a silhueta alegre daquele que já ansiava tanto por ver novamente.
— Cadê você seu idiota? E se eu sair daqui e depois todos já tiverem entrado e feito fila até o outro lado? Nós vamos ficar sem poder brincar, sabia...? O tempo que eu fiquei aqui vai ter sido uma perda de tempo e eu ficarei triste! – justificou frustrado e ainda bravo, seu tom soando até um tanto embargado, logo, suspirando com ar de derrota, semicerrando a íris dourada e encarando qualquer canto aleatório do lugar -.... você ficará triste... – concluiu com um fio de voz. Tudo bem que estava com raiva do companheiro, mas isso não queria dizer que deixava de se preocupar com ele, só o queria ali consigo, nada mais.
Bufou entristecido, afundando o rosto entre os braços pálidos que rodeavam suas pernas, escondendo sua face e deixando apenas o emaranhado de cabelos ruivos visível, esperando naquela posição com que seu amigo resolvesse parar de se esconder alguma hora.
— É assim mesmo que funciona, garoto – pronunciou-se de repente o senhor anterior que abrira o brinquedo para si, não desviando os olhos (escondidos sob os óculos vermelhos) do jornal que matinha em mãos.
— Huh? –murmurou em dúvida o ruivo, levantando a cabeça para encarar o moço que havia falado consigo.
— Uma hora eles estão aí do seu lado, te fazendo companhia, trocando turnos contigo, ficando sempre perto demais de você, conversando de maneira suja com você, enchendo o seu saco! – o homem parecia falar em um tom de ira maior a cada palavra pronunciada, revirando os olhos várias vezes, espasmos involuntários acontecendo do nada em seu globo ocular esquerdo, enquanto ele também passava a amassar mais e mais o jornal em suas mãos sem piedade à medida que cada situação era descrita, provavelmente sem perceber – e é só você querer fazer o seu trabalho, ser o vigia ‘’certinho’’ e atender a porcaria do telefone que eles vão embora e te largam pra se virar por conta própria, ou correm atrás de um rabo de saia por aí descaradamente quando deveriam estar TRABALHANDO NA MERDA DA PIZZARIA COM A QUAL ELES PARECEM NEM SE IMPORTAR! – esbravejou o homem em pura cólera, o olhar parecendo arder de tanto ódio presente ali, no final, tendo rasgado os papéis das principais matérias do dia ao meio, e, ao perceber o que havia dito e feito, começando a encarar o nada em choque, e depois se envergonhando rapidamente, já que todos os adultos e adolescentes do local encaravam-no agora ou estarrecidos ou em estranhamento.
Alex, principalmente, não sabia se o encarava com medo ou surpresa, o que aquele cara estava dizendo? Melhor, por que ficou tão enfurecido ao falar daquilo? Sem perceber, havia se movido um pouco para o lado oposto do mais velho.
O funcionário de cabelos negros procurou esconder o próprio rosto completamente corado atrás das folhas já praticamente despedaçadas do que já fora uma gazeta de notícias, tentando ignorar a situação e mentalmente amaldiçoando-se por perder o controle sendo que Vincent sequer estava ali, mal sabia ele, que, escondido nas sombras do local, o mesmo encontrava-se dentro de certa fantasia dourada, enquanto tentava em desespero conter o riso que se apoderou de si após testemunhar aquela cena toda, sem dúvida essa era uma das melhores partes de seu dia.
As outras pessoas no local logo pararam de lhe encarar e voltaram a realizar as pequenas atividades que já faziam antes de todo o alvoroço do vigia do momento, ele, no entanto, ainda sentia-se muito constrangido, tanto que estremecia um pouco, ainda tinha o coração acelerado e pigarreava várias vezes tentando parar de vez seu desconforto com tudo aquilo, mas foi rapidamente interrompido em sua tortura mental pela dócil voz de Alex.
— É... senhor?... – chamou-lhe a atenção o ruivo ao lado — Eu não entendi muito bem o que você quis dizer agora... – revirou os olhos um tanto desentendido, levando uma das mãos ao pescoço e coçando a região, um tanto envergonhado com as circunstâncias daquela conversa – mas, meu amigo não é assim sabe? Eu não sei bem o que você queria me explicar com tudo isso, na real, eu nem faço ideia, mas Brian não faz nada do que você disse... a gente tá’ sempre junto...e quando nos separamos é pra dar um pouco de atenção pros outros do grupo... – explicava, enquanto brincava com os dedos das mãos, não querendo encarar o moço que aparentava ter por volta de vinte e cinco anos – e... e-eu gosto de ficar junto com ele!... E acho que ele também... tudo bem que às vezes eu encano com alguma coisa e ele briga comigo, diz que sou teimoso, mas eu acho que é ele que perde a cabeça com pouca coisa! – exclamou franzindo um pouco a testa -... eu... sinceramente...às vezes acho que sou um incômodo pra ele...quero dizer, ele parece gostar de mim, mas... ele pode ser amigo de quem quiser. Ele é legal, divertido, tem um cabelo mó´ da hora, é tão gentil com todo mundo... – divagou lembrando-se das qualidades e peculiaridades genuinamente encantadoras do companheiro, porém, logo voltando com a expressão um tanto frustrada -... mas... ele anda com o garoto mais largado da rua, o garoto que nem tem um dos olhos e sempre anda com machucados e calos por aí, o garoto que muitas vezes nem pode nem sair de casa por culpa de um braço quebrado, ou algum outro problema de saúde como sempre... – listou algumas de suas características com uma auto-depreciação impressionante — que vive triste... trancado no quarto...– estancou por um instante, sentindo o peito doer de repente, suspirou – e que nem tem uma mãe... – concluiu com o tom de voz baixo e penoso, demonstrando claramente a sua desolação repentina.
Nunca contara nada disso a Brian, já que acreditava que o amigo fosse o achar dramático demais ou o reprovaria dizendo que não deveria pensar assim, mas, sentia-se inseguro apesar de tudo, podia ser enérgico, imperativo e raramente externar sentimentos deprimentes na frente de outras pessoas (tirando o amigo predileto e seu pai), no entanto, estava perdido, a perda de sua mãe fora o grande baque em sua vida, e por pouco também não se fora junto dela, se tivesse a impedido de ir trabalhar naquele dia, se tivesse a impedido de pegar aquele ônibus, talvez tudo fosse diferente agora, e ele não se sentiria como se tivesse sido abandonado sem mais, nem menos.
E agora, ele pressentia que alguma hora todos iriam deixá-lo pra trás e ignorar sua existência. Tinha medo de que o próximo fosse o arroxeado, ou seu pai, ou mesmo seus companheiros, tornando-se um tanto paranoico e se questionando toda hora se não estava importunando alguém, ou se realmente merecia tudo aquilo que lhe doavam de coração, como o carinho que Brian insistia em transparecer, os cuidados velosos de seu pai, e o companheirismo e entretenimento puro de seus colegas mais próximos.
Temia agora a solidão mais do que tudo, temia não ter ninguém a quem recorrer, temia não ter ninguém para lhe dar apoio, temia não ter ninguém para dormir de mãos dadas consigo para lhe acalmar durante a noite, temia não ter alguém para cuidar de si, temia não ter mais um melhor amigo.
Mas, temia exclusivamente, perder alguém precioso novamente, fosse por sua imprudência ou descuido, não se perdoaria jamais, já se martirizava todos os dias pela partida de sua genitora, talvez não pudesse suportar mais nada, estava prestes a quebrar-se em milhões de pedaços.
— Garoto – o homem chamou calmamente, porém, ainda um tanto enérgico, tirando o pequenino de seus pensamentos bruscamente e desta vez fitando-o intensamente, parecendo querer parecer sério e ao mesmo tempo solidário e consolador, retirando, em seguida, os óculos avermelhados que se penduravam em seu rosto, colocando-os no bolso da camiseta social branca para poder encarar diretamente o menino perdido e certamente infeliz, posicionando também a gazeta de notícias já despedaçada abaixo do braço esquerdo, virando a cadeira giratória na direção do outro com as costas curvadas, o olhar parecendo cansado devido às olheiras evidentes – escute, você sabe para que servem os amigos? – indagou paciente o mais velho.
— Huh, bem... – revirou os olhos tentando pensar em algo — eles servem pra... – tentou assimilar a questão, tropeçando nas próprias palavras e não sabendo realmente o que responder ao outro – eu acho... que eles servem pra ficar do nosso lado? – afirmou em tom de dúvida –... meus amigos costumam estar junto comigo sempre que conseguem, pelo menos um deles. Raramente me deixam na mão... – tentava listar alguns aspectos de amizade que possuía com os colegas mais próximos, para encontrar ou elaborar uma resposta plausível — costumamos nos encontrar pra brincar na rua ou no campinho, coisas assim... às vezes durmo na casa de um deles e às vezes um deles na minha casa... conversamos sobre várias coisas e... eles parecem gostar de mim, mas eu não sei... – apertou os olhos, ainda perdido em sua busca pelos termos que mais se encaixassem em suas sentenças – eles servem pra... – tentou alguma terminação para a frase, no entanto, paralisou repentinamente, seu olhar arregalando-se, indo vagorosamente em direção ao homem que dialogava consigo -... nos fazer companhia...? Pra... nos entender? – indagou lentamente, percebendo, finalmente, à que o outro estava tentando chegar.
Costumava ser bom em dar lições de moral e justificativas profundas e belas para as outras pessoas (sem sequer perceber, mesmo com sua pouca idade) quando estavam desabafando ou reclamando consigo de algo, mas, aquela era uma questão de seu próprio íntimo, não estava aconselhando alguém, não estava ouvindo outra pessoa esbravejar as próprias situações e questões que as incomodavam, estava analisando sua própria amizade com seus colegas e vizinhos para responder à aquilo, estava se analisando, e não era bom em lidar consigo mesmo, quando o envolvia demais, era complicado demais.
— Bingo! – pronunciou depois de estar estalar os dedos de maneira ligeira, constando internamente que o menino com certeza era perspicaz pelo retruco que lhe dera – então, você sabe o que um amigo de verdade faz em uma situação como a sua? – arqueou uma sobrancelha — Você diz que seu amigo aparentemente gosta de você, não é? – indagou com olhar um tanto astuto, o pequeno respondendo-lhe com um aceno positivo de cabeça e um brilho nas íris que denunciava sua admiração por si – então, se ele gosta mesmo de você, por que te largaria? As pessoas não nos amam pelo que somos por fora, e se dizem nos amar pela nossa aparência ou posses, acredite, é mentira, pois isso sequer é amor, não de verdade, é apenas interesse. O amor é algo que você sente pelos que você menos espera às vezes, e não depende se a pessoa não tem um olho – apontou para o tapa-olho médico da criança — se vive cheio de calos e machucados... – lançou um olhar evidente para as ataduras nas mãos e parte dos braços de Alex -... ou... se tem alguém importante da família que já tenha ido para longe – disse com expressão suave e voz branda, semicerrando as íris carmesim levemente, enquanto tentava transmitir serenidade e boas sensações para o outro através da simples troca de olhares, o que pareceu ter funcionado um pouco, já que as feições vazias pareceram ter se esvaído de leve dos traços do rosto infantil, apesar de ainda serem predominantes mesmo após o discurso feito pelo mais velho, provavelmente pela menção a aquela que o concebera no mundo em meio às frases que tentavam consolá-lo.
— O que importa, é o que uma pessoa é por dentro, e não por fora, tenho certeza de que sua mãe já te disse isso alguma vez – deduziu, já que sua própria mentora falava muito isso para si quando era pequeno, e não duvidava que mesmo na geração atual elas ainda dissessem isso aos filhos, pois, era uma lição um tanto fundamental, que todo mundo conhecia, mas que ninguém se lembrava dela quando passavam por uma situação como a de Alex- não é? – indagou, reforçando a frase anterior.
O ruivo surpreendeu-se, era verdade, lembrava-se das vezes que chegara a casa quieto e com semblante desanimado, e, quando sua mãe lhe perguntava o que tinha, ele nada respondia, quando podia, omitia, querendo não revelar a situação que passava no primeiro ano do primário em sua escola, desejando guardar a dor para si, tentando não incomodar os outros, e principalmente, não preocupar sua querida mãe.
Mas um dia, simplesmente desabara.
Adentrou o lar completamente desolado, e como seu pai ainda não estava em casa devido à hora extra que tivera de cumprir no trabalho, e sua mãe havia se atrasado (pois havia passado no mercado tarde demais e ficado presa no trânsito) correu para seu quarto, largando a mochila em suas costas pelo caminho, jogando-se na cama, deixando as lágrimas correrem livremente, enquanto encolhia-se entre os lençóis coloridos em posição resguardada, não se importando com mais nada, acabando por adormecer naquela posição, sendo desperto somente quando sua mãe chegara também à própria casa e vira a bolsa com os cadernos do filho lançada de qualquer jeito ao solo, indo, portanto, atrás do garoto, encontrando-o em seu quarto naquela mesma posição, percebendo que havia algo a mais em toda aquela situação, sentara-se a seu lado, acordando-o finalmente e perguntando o que estava acontecendo de verdade, não poderia segurar mais a questão só para si e contou tudo: havia crianças maldosas em sua escola que zombavam de si por não possuir um de seus olhos, e lhe dirigiam os mais desagradáveis apelidos, que preferiu não mencionar.
Sua genitora repreendeu-o por não contar nada a ela, mas também o consolou, dizendo que não importava o que havia em seu exterior, mas sim o que havia em seu interior, quem ele era como pessoa. Depois, pedindo para que não se importasse com este tipo de situação e que jamais agisse como aquelas crianças que o magoavam sem escrúpulos, transformando-lhe em alvo de brincadeiras de mau gosto sem dó alguma.
Concordou em silêncio e, logo, sua mãe tratou de resolver aquele problema com a direção da escola. Curiosamente, naquela época, ainda não conhecia Brian, somente Amy, a qual no período em questão, já morava em sua rua, mas o garoto também sequer falava muito com a mesma, aproximara-se mesmo dela depois de conhecer os irmãos Miller, que já andavam bastante com a pequena loira.
Emocionou-se ao relembrar tais circunstâncias em que se metera, das quais sua mãe tivera que lhe salvar.
Segurou-se para a saudade não o dominar, e deteu o choro que provavelmente viria.
— É... verdade! – retrucou um tanto admirado pelo mais velho ter conhecimento daquele fato – como...você sabe? – perguntou curioso, tentando disfarçar a nostalgia tocante.
— Eu... meio que chutei – respondeu um tanto constrangido – mas enfim, o que você tem que parar para pensar é no quão confiante você é, você tem que ter mais fé nas outras pessoas, se você sente que seu amigo gosta de você, e se ele prefere você a outras amizades, então porque você ainda se pergunta se ele se incomoda com você? Se ele gostaria de estar com outras pessoas? Você não deve duvidar de uma amizade assim, tem mais é que se sentir feliz por ter algo assim com alguém! Se seu amigo nunca se preocupou com sua aparência ou com o que você tem ou não tem, e simplesmente está contigo, significa que ele se importava com você de verdade, e que ele realmente gosta de você como você é! – exclamou um tanto entusiasmado, como se quisesse fazer suas palavras soarem absolutas, para que aquela criança a sua frente não duvidasse delas jamais.
Alex encarou-o realmente fascinado dessa vez, e a seguir guardou aquelas sentenças em sua mente como se fosse um futuro mantra a ser recitado, para sempre poder lembrar-se daquilo quando duvidasse do bem estar de seus amigos com relação a ele novamente.
— Obrigado, Senhor! – exclamou grato o diminuto garoto, que finalmente abriu um sorriso genuíno, com direito a olhos fechados, exprimidos em uma expressão quase completamente livre da aflição de outrora.
O mais velho fez o possível para retribuir o belo curvar de lábios meninil, sentindo-se incrivelmente satisfeito e contente consigo mesmo por ter alegrado aquele ser ainda nos primórdios de sua existência.
— Por nada! – devolveu um tanto corado.
Levou o olhar de soslaio para a esquerda, enxergando rapidamente a peça branca de porcelana onde colocava seu café, e só nesse momento percebeu a sede em sua garganta.
— É... Me dá uma ‘’licencinha’’? – pediu acanhado, apontando para o copo sobre a mesa ao lado, desejando saboreá-lo, mas, também não querendo demonstrar-se rude com o menor, interrompendo a conversa apenas por aquilo, felizmente, o menino sardento não se importou e simplesmente meneou a cabeça em confirmação – Obrigado! — girou a cadeira, buscando por sua caneca alva, que tinha sido dado a si por Vincent em seu aniversário, a qual, inclusive, possuía uma mensagem evidente inscrita: ‘’passivo do ano’’, provando não só como aquilo provavelmente havia sido comprado em uma lojinha de camelô barata, como também que o colega de trabalho não tinha o menor pudor ou vergonha na cara, e muito menos ideias boas para presentes, mas a questão era que Scott nunca tivera contato com esse tipo de linguagem, e, pelo seu vocabulário, aquela frase era referente a alguém tranquilo e paciente, o que ele certamente era pelo fato de suportar aquele maníaco por roxo todos os dias, então, aceitara de bom grado, sem perceber as risadas discretas de Vincent toda vez que olhava para aquele objeto.
Segurou o item esbranquiçado em mãos e tentou bebericar um pouco de seu líquido, mas logo percebeu que não tinha mais nada dentro dele, e, após achar-se ridículo por tal ato, levantou-se de sua cadeira com o copo em mãos, dizendo a Alex rapidamente:
— Olha, você vai ficar mais tempo aí ou vai sair? É que eu vou ter que buscar mais café na cozinha, e não vai ser legal te deixar preso aí dentro – alertou com semblante levemente preocupado.
— Não, tudo bem, pode ir, eu quero esperar Brian por aqui mesmo – respondeu sem pensar muito na questão.
— O.K, eu já volto – retrucou e saiu andando distraidamente em direção ao corredor em que se localizava a sala onde era feita a comida do lugar, rezando interiormente para que ainda tivesse pó de café nas dispensas, e que os cozinheiros não o rechaçassem da cozinha por entrar lá sem mais, nem menos, eles detestavam que alguém visse como faziam os pratos do cardápio.
Agora sim, era a oportunidade perfeita.
Curiosamente, mesmo sendo de dia, aquele restaurante era muito mal iluminado, pelo simples fato de a grande maioria das janelas serem muito desgastadas e enferrujadas, o que fazia com que ninguém se desse ao trabalho de mexer muito nelas, nem mesmo os funcionários do lugar — os quais não davam tanta importância a esse fato – e, apesar de algumas estarem abertas, e as próximas da entrada serem de vidro panorâmico, ainda proporcionavam uma iluminação um tanto insignificante, tornando a fonte luz predominante ali, os holofotes em volta dos palcos dos animatrônicos, junto de uma ou outra lâmpada evidentemente fraca pendurada no teto repleto de infiltrações, portanto, as sombras e cantos escuros no local eram fortemente presentes, e poderiam, inclusive, disfarçar figuras bem chamativas, ou mesmo torná-las de cores diferente de seu original, enganado os olhares mais atentos possíveis.
As circunstâncias mais perfeitas possíveis para os crimes daquele homem.
O garoto encarou o mar de bolas de plástico abaixo de si pensativo, parecia realmente refletir sobre as palavras anteriores do funcionário que lhe dera atenção, e, distraído, mal percebera a figura silenciosa aproximando-se do brinquedo onde ele se encontrava, só sentindo verdadeiramente a presença da criatura quando a mão humanoide enluvada em couro amarelado e levemente manchada por tons carmesim agarrou-se suavemente em uma das grades de Náilon a seu lado, o rosto sorridente observando-o com olhar fixo, e não deixando nem um pouco discretas as pupilas evidentemente saltadas, o outro braço dobrado atrás das costas e as madeixas loiras descendo por sua face sinuosamente, como que emoldurando a expressão quase sádica, mas que para uma inocente criança, era nada mais, nada menos, que um curvar de lábios completamente amável.
Alex vislumbrou-o surpreendido, arregalando os olhos, espantado com a aparição repentina.
De onde ele veio? Eu nem o vi chegando perto!
— Olá, garotinho!— cumprimentou com ar alegre, ao mesmo tempo em que espremia suas duas ametistas oculares ainda mais, acentuando a expansão de seu sorriso ao deixar os dentes um pouco mais a mostra – Tudo bem? Hehehe— indagou divertido, rindo discretamente.
E, num puxão inconsciente em suas memórias, Alex lembrou-se daquelas feições a sua frente pairando em algum momento na canção de parabéns de Lance, o animatrônico inusitado tendo iniciado a própria música em questão, e também desaparecido do nada, o que provocara uma inquietação notável pela parte de Frederick, mas Alex preferiu não comentar nada na hora, não tinha necessidade, mesmo que ele próprio nunca tivesse visto um Freddy dourado transitando pelo local.
Deveria ser só um animatrônico reserva e Fred estava sendo paranoico novamente.
— Uoah! Você é aquele animatrônico bizarro! – exclamou entusiasmado, seu olhar parecendo ter sido preenchido instantaneamente por um brilho estelar, enquanto encarava a figura com admiração, aproximando-se do mesmo com um pouco de dificuldade graças à superfície inconsistente, em seguida, encostando-se a rede de Náilon, rente ao ponto onde o outro se colocara.
— Sim, sou eu, pequenino— respondeu calmamente com o timbre rouco característico, contrastando drasticamente com a repentina euforia do menor.
— Cara, que animatrônico é você? – indagou levantando uma das sobrancelhas – você é tipo um segundo Freddy de outra cor? Por que eu nunca te vi antes? – mal dava tempo para a criatura responder-lhe entre um questionamento e outro, só fazia pergunta atrás de pergunta, não estava se aguentando de curiosidade – e por que você só apareceu na hora do parabéns? Você é um robô que só canta música de aniversário? – prosseguiu ininterrupto, até sentir a mão do loiro em sua boca com rapidez, censurando sua voz bruscamente, mesmo que com suavidade. As pontas dos dedos alongados roçando em seus lábios cor de mel delicadamente.
— Shhhh...— emitiu o pequeno ruído com um semblante estranhamente sereno, levando o indicador de sua outra palma até seus próprios lábios, pressionando-os superficialmente, num gesto implícito que pedia pelo silêncio do garoto ruivo – eu responderei tudo que você quiser, mas uma pergunta de cada vez... – sussurrou ao pé do ouvido da criança, após curvar-se em sua direção, sua aproximação apenas minimamente restringida pelos fios artificiais que o separavam do outro.
Levantou seu torso novamente, e um sorriso de canto surgiu em sua expressão. Por alguns instantes, encarou o outro intensamente, enquanto o mesmo observava-o atônito, um tanto petrificado pelo olhar severo que cai sobre si, e, ao mesmo tempo, completamente imóvel, esperando a criatura a sua frente pronunciar-se, já que não queria que ele ficasse falando desesperadamente.
Fechou seus olhos vagorosamente, levando um palmo ao queixo e segurando-o como que para dar apoio. Prosseguiu:
— Bem, primeiramente, você pode me chamar de ‘’Golden Freddy’’, se quiser, eu particularmente prefiro esse nome— afirmou, virando seu rosto um pouco de lado e rindo discretamente.
Aquilo era realmente divertido, brincar com uma criança sempre foi e sempre será realmente divertido, simplesmente um prazer sem tamanho para ele, fazia-o sentir-se quase como se uma fosse uma novamente.
— Segundamente: — disse, levantando dois dedos de sua mão anteriormente presente na parte inferior de seu rosto – sim, eu tecnicamente sou Freddy, na verdade um Freddy, afinal somos idênticos, não? – riu — Quanto ao meu esquema de cores, o fizeram assim para eu poder me diferenciar de meu irmão mais novo, na verdade, nossos criadores que me fizeram dourado e resolveram fazer Freddy de marrom... Já que eu vim primeiro, mas enfim...— desviou o olhar para o chão, de maneira nada discreta.
Alguns de seus movimentos eram quase nervosos, sem contar em suas gesticulações.
— Terceiramente!— sobressaltou-se depois da pequena pausa, desta vez, indicando três dedos – você nunca me viu antes porque eu sou... Digamos... Especial... – mordeu os lábios, tentando conter qualquer palavra fora de contexto – E sim! Só apareço em festas de aniversário, mas sei cantar as mesmas músicas que os outros! Apesar de não ser sempre que apareço... – dissimulava teatralmente, apesar da expressão totalmente distorcida e perdida entre a malícia e a falsa simpatia — sequer para cantar... então, sinta-se privilegiado! Você está na presença de um raro animatrônico aqui! – deu calma e pacientemente as respostas que o ingênuo garoto tanto desejava, um sorriso que transmitia pouca segurança estampado na face, mas o menor estava praticamente cego por seu deslumbramento ao vê-lo, então, provavelmente nem repararia.
Não teria como ele não engolir sua história de qualquer maneira, era uma criança inocente e sem discernimento o suficiente para muitas coisas, era fácil de enganar.
Alex exprimiu uma expansão de lábios maior ainda, se é que isso era possível, seu corpo assumindo uma pose e expressão que exibiam perfeitamente toda a sua felicidade e contentamento em estar diante de um robô, da famosa Freddy FazBear, o qual poucas pessoas já haviam testemunhado. Estava prestes a dar pulos de alegria, sentiu-se simplesmente muito especial.
— Isso é tão... Legal! – exclamou enérgico, levantando os punhos em empolgação, no entanto, depois de poucos segundos, a posse enérgica desfez-se lentamente, e seu semblante voltou para a chateação de outrora repentinamente, seus pequeninos dedos passando a apertar de leve os fios trançados em volta do brinquedo onde residia.
O homem fantasiado reparou nesses detalhes.
Sempre procurava analisar o máximo possível as feições e reações das outras pessoas, já que isso era parte essencial das suas indevidas atividades de entretenimento próprio, tinha de estudar obrigatoriamente o comportamento de suas vítimas cuidadosamente, para que soubesse como seduzi-las de maneira apropriada até suas armadilhas, e isso tudo, unicamente com o poder das palavras, para ele, o artificio mais poderoso do ser humano.
Estranhou, levantando uma das sobrancelhas automaticamente.
— O que foi garoto?— o tom gentil pareceu sumir de repente.
O ruivo levou o olhar em direção ao seu e encarou-lhe timidamente, logo, desviando a pupila tímida e tomando coragem para falar:
— Uma fez... Meu aniversário foi aqui, e ninguém apareceu pra ficar comigo, eu estava só com meu pai... Não tenho nenhum parente além dele agora – seu cenho franziu, mas não de raiva, e sim de uma tristeza e culpa indescritíveis, que por algum motivo, faziam uma estranha revolta invadir-lhe – então, a maior parte do tempo foram os animatrônicos que ficaram comigo... – jogou seu olhar para o outro novamente, semicerrando os cílios — você diz aparecer só em aniversários, mas não apareceu no meu... por quê? Eu não sou bom o suficiente? – indagou rispidamente, observando o mais velho com ansiedade.
Sério?
Tinha mesmo de submeter-se a aquilo? Quase suspirou, mas manteve a compostura.
— Alex, como já expliquei, não é sempre que apareço, depende da ocasião, provavelmente eu não estava em funcionamento no dia, entende? Você não é menos bom por causa disso, relaxe— apaziguou calmamente, se a criança se magoasse com ele tudo iria por água a baixo.
— Hum... O.K – concordou meio insatisfeito.
Vincent pensou um pouco e teve uma ideia.
— Ei, que tal se eu te fizesse algo como um pedido de desculpas? Hum?— perguntou, apertando os olhos e inclinando-se um pouco para frente, tentando aparentar uma simpatia que estava longe de sentir. Aquele menino era mais difícil de conquistar do que pensara.
— Tipo o quê? – animou-se um pouco, levantando uma das sobrancelhas com curiosidade.
— Deixe-me ver...— fingiu cogitar algumas hipóteses, quando na verdade, já tinha bolado um ótimo plano em poucos segundos, seu raciocínio era incrivelmente rápido, e sua interpretação era impecável, até porque, não poderia falhar, não a aquela altura do campeonato – você está esperando por um amigo aí dentro, não está?— deduziu, mesmo já sabendo a resposta.
Sorriu de lado. Suas tentativas de induzir o garoto a um jogo de diálogos sem volta tornavam-se cada vez mais ardilosas, perguntava-se até onde poderia chegar.
O olhar de Alex arregalou-se de imediato.
— Como você sabe? – devolveu incrédulo.
— Beeeem...— disse demoradamente, revirando as íris roxeadas de maneira distraída, ainda com uma expressão ridiculamente alegre a dançar falsamente em seu rosto, o homem disfarçado, agora, com as mãos unidas atrás das costas – digamos que eu sou observador... Vi quando você e seu amigo dos cabelos roxos se despediram, eu sou mais inteligente e perspicaz do que os outros, o resto, é apenas dedução...— respondeu simplesmente, tentando captar atentamente a impressão que o pequenino estava tendo de si.
— Você estava nos observando? – indagou espremendo o olhar.
Estranhou o fato, achando um tanto mórbido, mas outro detalhe que lhe correu sobrepujou-se a esse sentimento rapidamente.
— Espera! Isso significa... Você viu onde Brian se meteu? – jogou o seu, repentinamente, esperançoso e levemente surpreendido único globo dourado para a criatura de mesma coloração, colocando seu corpo mais rente à rede de Náilon, a qual, na mente doentia de Vincent, curiosamente, era como uma verdadeira teia de aranha, uma armadilha quase despercebível e estruturalmente perfeita, tendo uma dedicação absurda imposta em sua tecelagem! Oh, sim! Tão semelhante a seus próprios estratagemas seduzentes! Que lhe traziam uma satisfação tão extrema...! Por breves instantes, perdeu-se nesses pensamentos, mas, logo, procurou voltar à realidade, sentindo mais uma vez a voz um tanto desesperada alcançar seus ouvidos -... Ele disse que ia pegar ponche, mas eu não o vejo mais! E não vou quebrar nossa promessa! Eu vou ficar aqui, esperando por ele! Nem que esteja se escondendo de mim! – exclamou descontente e inconformado, fazendo inúmeros gestos para enfatizar mais sua situação, estava começando a realmente ficar impaciente com toda aquela demora do amigo, se estivesse brincando consigo, iria ver só depois! – se isso for uma brincadeira, ele já deveria ter parado! – reclamou para completar. Era quase cômico vê-lo bravo e, até mesmo, angustiado daquela maneira, levando em conta toda sua aparência, certamente, fofa.
— Você chegou aonde eu queria chegar! Sim! É claro que eu vi para onde ele foi! Parecia um tanto estressado quando o vi, mas enfim, aparentemente ele se escondeu em uma sala restrita, o que é errado! Acho que queria se esconder de algo. E como eu sou responsável pela segurança das crianças aqui, eu o segui e vi onde se escondeu!— retrucou, desta vez sorrindo tanto por dentro quanto por fora, o garoto dera a maior parte da desculpa! Finalmente estava colaborando consigo! – se ele fez isso é porque não se importa se você quebrar essa pequena promessa! Então, não se contenha! Você pode ir procurá-lo, afinal, acredito que é isso que ele quer... Não?— instigou implicitamente de novo, não teria mais como ele escapar de si depois disto! Só precisava convencê-lo a sair dali.
— Mas... – suas feições murcharam até uma melancolia repentina, e seu olhar foi perdendo o característico fulgor lentamente.
Então era assim? Brian realmente queria que ele quebrasse com uma de suas promessas? Sem mais, nem menos? O que isso queria dizer? Ele não dava a mínima para nada do que eles haviam jurado um ao outro? Nada? – Brian não... – não conseguiu conjurar as palavras, sentia-se decepcionado e certamente traído, podia parecer que aquilo não era uma justificativa boa o suficiente para tal tipo de sentimento, e que estava exagerando, porém, para ele, quebrar um pacto era o pior dos pecados, não queria acreditar nisso.
— E-ele... Nunca... – gaguejou, não sabendo mais o que pensar, estava confuso.
— Te faria quebrar uma promessa? – completou com expressão séria, encarando o menor, agora, friamente – garoto, você pode ser uma criança, mas é esperto o suficiente, certo? Duas pessoas podem ser o quão amigas quiserem, mas é impossível não cometerem nenhum erro uma com a outra ao longo da vida, serem amigos não quer dizer que jamais mentirão um pro outro ou que estarão sempre do mesmo lado— disse sem expressar emoção alguma no tom de voz, nesse momento, pareceu realmente um robô – é uma fantasia acreditar que serão eternamente fiéis um ao outro, as pessoas não funcionam assim, o ser humano não funciona assim, então não faça essa cara, e principalmente, não fique surpreso por tão pouco— encerrou rispidamente, tendo se ajoelhado para ficar da altura do ruivo, olhando-o fixamente. Era certo que precisava que o garoto criasse certa afinidade consigo para seu plano ter sucesso, mas não suportava pessoas com aquele tipo de ideologia, a qual o menino claramente possuía, e, mesmo que estivesse na primeira década de sua vida, o que tornava esse fato justificável, pois deveria ser bem ingênuo ainda para compreender isso, não lhe custava nada contar a dura realidade a ele, era até um prazer, mesmo se não valesse de mais nada daqui a alguns minutos.
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Alex observou o chão abismado, sua íris remexia-se inquieta, e ele agarrava com mais força a rede avermelhada a sua frente a cada segundo que se passava, tentando entender o que o outro estava lhe dizendo, enquanto a imagem de Brian e todos os momentos que tivera com o mesmo passavam por sua cabeça rapidamente. Naquele momento, certas coisas passaram a parecer uma mentira para ele, achava que confraternidade era algo puro e inquebrável, mas, isto estava longe de ser verdade no mundo real.
Sentiu-se comovido. Não tinha mais capacidade de pronunciar um murmúrio sequer.
No entanto, repentinamente, ele lembrou-se das palavras anteriores do funcionário que lhe auxiliara psicologicamente, e estancou. Já estava cansado de não ter confiança em si próprio e nem nos sentimentos das outras pessoas com relação a ele, sentia-se farto de todos os seus pensamentos que insistiam em dizer que era inferior aos outros e que teria de tomar tudo o que as outras pessoas dissessem como verdade absoluta. Se dissessem que era fraco, acreditava. Se dissessem que seus amigos não gostavam de si verdadeiramente, acreditava. Se dissessem que ele não valia de nada para ninguém, acreditava.
Não suportava mais ser o brinquedo sensível e maleável que todos moldavam como bem entendiam.
Devolveu o olhar para o outro, mas, ao contrário da opacidade e frieza das ametistas, os seus áureos pareciam estar em chamas, transbordando de maneira gritante seus sentimentos mais profundos. Sem saber de onde tirar a própria voz, tentou contestar:
— C-.... como você sabe disso? – indagou, tentando aparentar firmeza, apesar do tom quase choroso. Tinha dificuldade em se mostrar imponente para aquela figura – você sequer é humano! Como poderia saber de uma coisa assim?! Como espera que eu acredite em você?! – suas unhas praticamente afundavam dentro dos fios trançados que cercavam o brinquedo, enquanto teimosas lágrimas brotavam na lateral de seus olhos, os quais se cerravam com força, tentando contê-las. A revolta era evidente em sua fala rancorosa.
Não se surpreendeu, no entanto, achou curioso, afinal, uma criança naquela idade, com aquela mentalidade, questionando veemente suas concepções sobre o mundo em que viviam?
Assumiu olhar superior, cruzando os braços.
Normalmente, elas são perfeitamente manipuláveis, e não param pra pensar em como a vida funciona, em razões da existência ou mesmo em morais éticas, nada disso, já que estavam nos primórdios de suas existências, não teriam nem porque cogitarem assuntos assim em suas mentes imaturas. O que passavam por suas cabeças, comumente, eram coisas superficiais, principalmente no caso das de perfil semelhante à daquele pirralho. Ele deveria ser o mais fácil de convencer devido à personalidade aparentemente explosiva e consideravelmente bipolar que possuía, sem falar na falta de autoestima, junto à dificuldade para ver-se melhor que os outros à própria volta... Mas, então, por que o estudante resolvera contestar uma figura como a si? Justo aquela criatura jovem?
Na perspectiva de Vincent, e, pelo que pudera captar até ali, provavelmente o garoto era mais alegre em outros tempos, e consequentemente, deixava os sentimentos mais à flor da pele nessa época, para que todos o vissem de maneira quase transparente, para que todos vissem o seu interior. No entanto, alguma tragédia deve ter ocorrido em sua vida, e certa culpa veio de acompanhamento, o que o fizera chegar naquele estado, com a autoconfiança em um nível consideravelmente baixo e o medo quase absoluto de prejudicar ou decepcionar os outros...
Não era difícil concluir coisas do tipo quanto ao menino sardento quando se levava em consideração: aquilo que ouvira de sua primeira vítima naquele dia, algumas deduções lógicas, e uma análise detalhada junto a observações constantes do comportamento daquele mini sósia de Foxy. Definir um histórico de vida para o menor não era tão trabalhoso, assim como, estabelecer sem dificuldades, um padrão para sua personalidade.
Riu cinicamente e, em seguida, voltou-se para o garoto mais uma vez.
— Eu posso não ser humano, mas isso não significa que eu não observo como vocês agem. Dezenas de pessoas passam por aqui todas as semanas, é oportunidade o suficiente para conviver e aprender sobre vocês — jogou os dizeres sem mais, nem menos, enquanto tentava suavizar a carranca apossada de seu rosto, para não parecer tão frio diante da criança – eu já entendi que é assim que vocês funcionam, se não confiassem tanto uns nos outros, tenho certeza de que se decepcionariam bem menos, encare isso agora, e sofrerá menos depois— disse por experiência própria, o olhar imponente, e o tom de voz mesclado entre a diversão parcialmente contida e a seriedade não desejada.
Alex franziu as sobrancelhas e lançou a visão para o chão com a pálpebra semicerrada, deixando somente pequeno espaço de sua retina visível, a qual tremeluzia incansavelmente, de maneira indescritível. Seus dedos decerto já estavam brancos devido à falta de circulação causada pela absurda pressão realizada no material artificial o qual contornava completamente aquele brinquedo, seus dentes ficando automaticamente à mostra, deixando evidentes os caninos mais afiados que o comum, os cabelos cor de fogo parecendo resguardar-lhe a única íris, e uma fúria e descrença preencherem-lhe o âmago de maneira ardente. Naquele momento, mais do que qualquer coisa, queria provar para aquele robô que o que dizia era mentira, que estava equivocado, e que não eram assim que funcionavam os relacionamentos humanos, que eram melhores do que ele alegava! E disposição, com certeza, não lhe faltava!
Acreditava piamente que a afinidade, a qual possuía com seus amigos, fosse algo único e verdadeiro, não iria renegar esse conceito depois de todo o perrengue para convencer-se disto, tinha de provar para aquele animatrônico que era ele quem tinha a razão.
A qualquer custo.
— Me leve até ele – pronunciou-se depois de vários segundos angustiantes em silêncio, não devolvendo mais a mirada para o mais velho, continuando a vislumbrar o mar de bolas coloridas como se aquilo fosse a coisa mais interessante do mundo. O expressivo reluzir em seu globo ocular, por um instante, melancólico.
— Huh? – retrucou confuso.
— ME LEVE ATÉ ELE! – repetiu praticamente aos gritos, o semblante irritadiço e os dentes rangendo – você disse que ele se escondeu porque parecia querer fugir de algo, não é? – repetiu a fala anterior do outro, quase cuspindo os dizeres raivosos — Pois bem! Tenho certeza de que foi algo do momento! Ele não se esconderia assim de mim depois de conversarmos o que conversamos! Ele não está se escondendo de mim e eu sei que ele tem uma ótima explicação pra me dar! – exclamou, certo do que afirmava, apontando de maneira um tanto acusatória para o loiro, finalmente, resolvendo encará-lo nos olhos.
Sorriu de canto.
— Heh, como tem tanta certeza, garoto? – retrucou com ar de deboche.
Aquela íris áurea passou a transmitir um sentimento realmente intenso e completamente indecifrável naqueles longos segundos, ainda assim, não abalando a postura firme do assassino, mesmo que ele insistisse em negar internamente que aquilo o encantasse.
— Simples – deu de ombros – eu conheço Brian, e sei que ele não faria isso, deve ter outra coisa acontecendo... Eu sinto... – devolveu convicto, franzindo o cenho e desviando o olhar por um instante, observando o entorno do local, como se procurasse por algo, a expressão suavizando aos poucos, e ele passando a cogitar hipóteses do que poderia ter ocorrido, mas a irritação retornando rapidamente e ele acabando com o discurso sem mais interrupções repentinas – e então? Vai me levar até ele ou não? – a impaciência e a rispidez eram evidentes.
Não respondeu.
A expansão de lábios ampliou-se e os globos oculares brilharam em uma ansiedade e satisfação assustadoras, parecendo duas joias amaldiçoadas. Teve de morder o lábio inferior para conter sua excitação, enquanto seus cílios semicerravam-se e um formigamento tomava conta de suas mãos.
Apesar de ser tratado daquela maneira, certamente, mal educada, Vincent não se importava, já tinha o que precisava, nada poderia abalar seu bom humor agora.
Expirou pelo nariz, aproximando-se mansamente das amarras feitas no brinquedo onde a criança estava, as quais formavam a passagem de entrada para a piscina infantil, em outras palavras a porta em si, o mais velho desfazendo os nós sem dificuldades. Digamos que Scott não era o melhor em fazer aquilo, então, desatar aqueles laços bagunçados era uma tarefa consideravelmente fácil, levando ainda em conta o fato do homem debaixo daquele traje antigo e desgastado trabalhar naquele estabelecimento e estar acostumado com situações do tipo.
Fez uma abertura grande o suficiente para o menino poder passar, em seguida, com um curvar de lábios sereno, ofereceu-lhe a mão esquerda para que tivesse apoio ao sair dali, mas o menor apenas encarou com desgosto a palma estendida e a repeliu sem pensar duas vezes, fechando os olhos com força, tentando reter a irritação, atravessando por conta própria os fios artificias de mesma coloração que seu cabelo.
Os tênis surrados saltaram para o chão, e o garoto esperou o mais velho fechar a dita cuja passagem que havia feito, enquanto batia os pés de maneira ansiosa.
Um detalhe interessante era que, o animatrônico não estava bravo com seu comportamento, pelo contrário, parecia sorridente até demais, o que o fez estranhá-lo, mas resolveu ignorar, achando que ele deveria ter os próprios motivos para estar daquela maneira.
O mais alto voltou para a posição ereta e aproximou-se do menino, parando a seu lado com as mãos entrelaçadas atrás das costas, em seguida, inclinando-se para frente, apenas para pairar a cabeça bem a sua direita e dar-lhe um singelo sorriso (digno de dentes), junto a uma expressão, infantilmente, caída de lado, o ruivo, somente virando a cara, juntando as sobrancelhas.
— Vamos?— indagou compassivamente.
— Já demorou! – retrucou ainda insatisfeito e irritado, cruzando os braços.
O loiro suspirou, sem diminuir a expressão contente.
— Então, siga-me— pediu com um tom vagamente diferente do anterior, tomando a dianteira rapidamente na curta caminhada e esperando que o menor viesse atrás de si.
Algumas pessoas encaravam a dupla com ar de curiosidade, observando-os moverem-se pelo salão durante breves instantes, ainda que, somente os rostos mais maduros lhes seguissem com o olhar, já que as crianças não lhes doavam a mais mínima atenção por estarem distraídas com Foxy, que para muitos era o favorito, o qual, inclusive, estava até o atual momento a apresentar-se calmamente, apenas cantando uma música menos agitada, quase lenta, com aquele típico sotaque rouco, sinônimo dos antigos viajores dos mares.
Somando tudo isso, somente alguns poucos indivíduos repararam no evidente mau humor e insatisfação de Alex, e logicamente, estranharam. Ele deveria estar feliz por ter o privilégio de interagir pessoalmente com um animatrônico daqueles, certo?
Mas, de qualquer maneira, ninguém parava para pensar nisso mais do que insignificantes instantes de seus tempos, logo, cada um voltando-se para suas atividades anteriores, deixando de lado a cena incomum, mesmo que um robô parte urso, parte homem de vestimentas amareladas nunca tivesse sido anunciado ou sequer mencionado em algum cartaz promocional exageradamente exibicionista daquela mal cuidada pizzaria, ou numa propaganda meia-boca da mesma que fosse transmitida nas televisões de tubo, junto às enxurradas de panfletos.
Em breves passos, já estavam cruzando a fatídica abertura estranhamente disfarçada, a qual dava para o restrito corredor, a dupla sendo, finalmente, encoberta pelas sombras sinuosas que se formavam com facilidade ali. Alex, que seguia mais atrás, sentiu quase instantaneamente uma sensação horrível invadir-lhe só de colocar os pés naqueles ladrilhos engordurados que – diferente dos do salão principal — necessitavam urgentemente de uma limpeza. Um cheiro estranho invadia suas narinas, mas a princípio ele não sabendo dizer o que era, e nem de onde vinha.
Levou a canhota até a boca e a destra a barriga, sentindo seu estômago revirar-se com aquele odor e seu olfato arder com a intensidade do mesmo naquele escuro corredor, semicerrou sua pálpebra, franzindo – com visível nojo — as sobrancelhas inconscientemente, o seu globo único ocular começando a lacrimejar devido à atmosfera podre. Hesitou por um momento, dando dois passos para trás, ainda sem abandonar o negrume arrepiante, que parecia engolir toda e qualquer figura que tivesse o desejo de penetrá-lo.
O suposto ‘’robô’’ mais a frente percebeu suas passadas oscilantes, interrompendo também sua caminhada devido a isto, virando-se para si mais uma vez, a mirada terrivelmente intimidante, e a postura autoritária.
Não...
Agora, faria diferente.
— O que está fazendo...? – indagou inconformado — O quê? Pretende desistir agora? Qual é Alex?! Cadê aquela disposição e autoconfiança?— falou debochado, fazendo o menor prestar-lhe a atenção com olhar de puro desprezo — Só por causa de um cheiro ruim vai desistir de me provar o que você tanto quer? É sério?— indagou sarcástico, pronto para rir descontroladamente. O ruivo desviou o rosto em incontestável asco, não querendo que o maior visse sua expressão de fraqueza evidente, em seguia, apoiando-se rapidamente na parede de estado tão satisfatório quanto o piso.
— Cala a boca... – murmurou ácido, tossindo entre uma palavra e outra – eu... só preciso de um tempo... – avisou, fechando definitivamente os olhos, encostando a testa na divisão mofada onde também colocara seu braço anteriormente.
Odiava aquilo, odiava o fato da sua condição física ser tão instável e sensível, qualquer coisa que acontecesse, ele já estava prestes a adoecer.
Apesar da situação, Vincent não deixou de sentir-se contente, gostava de ver crianças sofrendo, fosse da forma mais letal, fosse da mais simples.
E então, mais uma ideia surgiu.
Ficou praticamente rente ao menino sardento, e tão logo, curvou-se até ficar ao pé d’ouvido do mesmo.
— Vai desistir fácil assim de Brian?— ditou consideravelmente rouco, enquanto estalava a língua no céu na boca, fazendo um som de desaprovação, meneando negativamente com a cabeça, o olhar, completamente insano – que decepção, eu esperava mais dessa sua convicção— contou no mesmo tom por fim.
Afastou-se lentamente da criança, pôde vislumbrar com clareza a mudança de postura quase instantânea.
Reergueu-se rapidamente da parede, obrigando-se a assumir um semblante determinado, e em seguida, segurando disfarçadamente a respiração efetuada pelo olfato, numa tentativa desesperada de impedir o odor torturante de cruzar suas narinas, passando a inspirar pela boca, e a piscar inúmeras vezes para reter as lágrimas, ignorando o revirar incessante de sua barriga, praticamente menosprezando-se para se concentrar em seu objetivo.
Sua íris brilhava como nunca.
— Tá esperando o quê?! Continue! Eu estou ótimo! Vamos, vamos! – tentou apressar o outro, fingindo estar bem.
‘’Golden Freddy’’ sorriu de canto mais uma vez, de maneira arrepiante.
— Claro— determinou, e sem mais nada a ser dito, prosseguiu em direção ao final do corredor com seus passos medianamente lentos, regulados, como se não quisesse aparentar tanta pressa, mas ainda assim, tentando ser rápido o suficiente para que sua ansiedade não o dominasse. Se deixasse sua pouca sanidade esvair mais do que ele já estava permitindo, seus planos poderiam sair completamente de órbita.
Precisava ser saciado, logo.
Curiosamente, em certo ponto do tenebroso lugar, Alex pôde perceber uma poça de alguma espécie de líquido rubro derramado pelo chão, e, ao pisar sobre a substância, sentindo a textura pegajosa misturar-se a certa parte mais dissolvida, notando também as intercalações dos tons de vermelho. Hora mais escuro, hora mais claro e transparente. E, por cima daquela reunião de variações do carmesim, não foi difícil enxergar, mesmo que de soslaio, o copo arroxeado de plástico caído de qualquer maneira sobre os ladrilhos monocromáticos. Estreitou os olhos em desconfiança para o cenário montado ali, achando estranho, mas deduziu que era apenas um pouco de ponche que alguém sem educação havia jogado fora, então, em seguida, procurou esquecer-se desse pequeno detalhe. Aquele recipiente frágil não deveria pertencer a seu companheiro, provavelmente era apenas coincidência, ele não largaria algo assim por aí sem mais, nem menos.
Mais a frente, Foxy, impressionantemente, ainda se encontrava praticamente na mesma situação, sustentado somente por aqueles mesmos tentáculos negros provavelmente advindos do próprio inferno, os quais o cercavam por todos os lados. Parecia um parasita querendo engoli-lo a todo custo. Já estava pronto para se render a inconsciência, os olhos pesados, a visão turva, a dor de cabeça intensa, as vertigens dolorosas que vinham de momento em momento para piorar seu estado físico e mental, mas a preocupação não o deixando dar-se por vencido. Tamanho eram o cansaço e fraqueza, causados exclusivamente pelo esforço terrivelmente exaustante feito para se livrar daquelas extensões negras e invencíveis, que ele chegara ao ponto de não saber mais se estava acordado, dormindo, morto, ou os três, ficava oscilando entre aquele mundo e o imaginário de seus sonhos, seu censo de discernimento estava realmente prejudicado.
O máximo que conseguira naquele meio tempo fora fazer a própria entidade trocá-lo de posição: os braços, agora, puxados para acima da cabeça, agarrados pelos pulsos, e o resto do corpo quase inanimado, pendurado no ar, o rosto, pendendo para frente. Cairia no chão, não fosse aquela criatura teimando em tratá-lo como uma verdadeira marionete, como se fosse um brinquedo em suas mãos.
No entanto, seu estado miserável ainda não havia censurado completamente seus sentidos, os quais, finalmente, resolveram atuar a seu favor, sua orelha direita começando a dar pequenos espasmos de repente, captando um som que se diferenciava dos demais constantemente emitidos nos últimos minutos, o barulho dos passos calculados ecoando por todo o cômodo, profanando aquela trilha sonora formada a partir das vozes exultantes advindas do salão, combinadas, ainda, com as canções de seu ‘’eu’’ daquele ‘’tempo’’, o que lhe despertou a atenção no mesmo instante, seu único globo dourado abrindo-se abruptamente e as pupilas desviando-se rapidamente para aonde acreditava ser a fonte do familiar ranger de sola de um velho sapato de couro, a urgência e pânico imediatamente expressos em seu olhar.
Pôde avistar sem dificuldades a figura já conhecida de seu assassino disfarçado, e, junto dele, aquela figura inocente e incrivelmente infantil, com um semblante destemido e postura firme, apesar da tremedeira visível em todo seu corpo. Encarou-o comovido, mais lembranças de o que o havia levado até seu própria morte invadindo sua mente como uma avalanche de emoções, e ele, caindo novamente na tentação de desmanchar o pouco que restava de si em lágrimas, seu coração passando a palpitar rapidamente, temendo presenciar o que sabia estar por vir. Teria de testemunhar tudo mais uma vez? Com a única diferença de não ser mais do ângulo daquela pequena criança outrora imaculada?
Questionava-se se isso era pior, ou no mínimo, menos torturante, porém naquele momento não soube julgar perfeitamente, estava ocupado demais se aterrorizando internamente com as antigas memórias mortas, que agora se repetiam cruelmente, bem diante de seus olhos.
Sua íris -assim como todo seu corpo- remexia-se inquieta, reduzida a um tamanho inacreditavelmente minúsculo. Não queria de maneira nenhuma, testemunhar as próximas cenas.
Cerrou o olhar com força, pressionando a pálpebra para baixo rigidamente, recusava-se a continuar assistindo àquela insanidade.
Entretanto, para seu desgosto e horror, a criatura negra que o amordaçava parecia querer realmente colocar seu sofrimento no máximo, pois, do nada, simplesmente agarrara a pele protetora de seu único globo ocular sem delicadeza alguma, e em seguida, arregaçou-a em um ato desprovido de qualquer piedade, deixando a íris dourada novamente exposta, obrigando a raposa a manter-se vislumbrando o seguinte show doentio, sem direito a recusa, sentindo como se a carne unida a seus cílios fosse rasgar a qualquer instante, agora, era visível até mesmo o contorno carmesim de seu olho e as raias rubras geradas por culpa do choro incessante.
Somente mais alguns passos repercutiram pelo espaço vazio antes que Vincent interrompesse a caminhada novamente, colocando-se de frente para o garoto ruivo sem demora com um girar de calcanhares ligeiro, no processo, o mais novo quase colidindo consigo pela parada brusca.
— Podia avisar quando for parar do nada, né?! – reclamou, o tom raivoso já parecendo permanente em sua voz infantil.
— Desculpe— pediu com aquele mesmo sorriso que agora não lhe abandonava a face de maneira alguma – mas, é que nós já chegamos...— seu tom soava levemente eufórico, e suas pupilas pareceram dilatar de um momento para o outro.
Após a fala repercutir, o animatrônico levou uma das mãos extremamente pálidas em direção a aquela porta com os fatídicos dizeres: ‘’Partes e Serviços’’, empurrando-a suavemente, o ranger do portal de metal chegando a doer os ouvidos dos presentes, mas o curioso, é que para Foxy, parecia ter-se feito um silêncio terrível enquanto aquele ruído irritante era emitido, como se mais nenhum som pudesse vir junto deste.
O ruivo mais velho começou a gritar com todas as forças, em desespero, como se tivesse visto uma assombração, mesmo que fosse limitado pela criatura negra, que cobria também sua boca, mas não se importou com a mesma.
Não queria ver aquilo de novo, não queria.
Alex voltou-se para frente, cruzando os braços impaciente, estava pronto para dar um sermão dos longos em Brian. Aos poucos, com o deslizar da porta engordurada e suja, a terrível imagem ia se formando diante de seus olhos.
A princípio, sentiu-se em dúvida, não compreendo porque o robô dourado não adentrava o cômodo de uma vez e o mostrava onde havia visto seu amigo, mas não se importou muito em contestar isso, a confusão permanecendo com os primeiros rangidos ecoados pelo corredor, o garoto não conseguindo distinguir muita coisa pela pouca brecha de espaço para ver o que havia dentro daquela sala.
Quando seu censo de discernimento começou a entender o que estava bem ali, próximo da entrada do seguinte recinto, um susto atingiu-o inevitavelmente, mas som algum escapou de sua boca, devido à petrificação que atingiu todo seu corpo, enquanto sua íris parecia oprimir sem dó alguma sua pupila, pois a mesma diminuía em uma velocidade espantosa. Achou que fosse uma brincadeira, e com o pensamento de estar sendo enganado em mente, ele obrigou-se a acreditar que era uma pegadinha, não querendo ter fé no que sabia ser provável.
Sua expressão perdeu-se em meio a aquele sorriso nervoso cheio de incerteza e o cenho franzido debilmente, indicações do quanto estava tentando fingir que aquilo não era real. Traços de descrença e perdição, junto a uma surpresa quase palpável, juntavam-se numa mistura angustiante que passara a moldar sua face sardenta assolada em estarrecimento, empalidecendo a tal ponto, que a sensação de que iria desmaiar a qualquer momento já fosse gritante, a garganta já estava extremamente seca, e o menino acreditava que jamais estivera tão absurdamente trêmulo em todo o seu curto período de vida, tanto interior quanto exteriormente. O incontrolável bater de dentes doía-lhe e a quantidade exorbitante de suor descia por sua testa lentamente.
Deu dois passos para trás com muita dificuldade.
Lá estava ele, mais sem vida do que nunca. Era uma visão horrível, dava-lhe uma tremenda vontade de vomitar e a aversão extrema era inevitável.
Estava pendurado como verdadeiro animal morto, semelhante a aqueles nos açougues presos a ganchos de carne. O pescoço cortado até a metade, ainda jorrava sangue, uma espécie de parte do que já fora uma cerca de arame farpado afundava-se em sua garganta profundamente, amarrada ao teto, o que deixava o diminuto corpo indefeso suspenso no ar, girando mínima e vagorosamente para diferentes direções, tendo sido executado pelo velho e temido método de extermínio da idade média, o enforcamento.
Os pequenos sapatos de velcro haviam abandonado os, delicados e, agora, maltratados pés. As roupas pareciam trapos, completamente desfeitos e rasgados. Os cabelos, bagunçados e despenteados. As mãos já sem unhas, tinham cortes fundos, indicações de que aquele garoto tinha lutado até o fim para sobreviver.
E o efeito mais evidente, era que, toda a coloração original, a qual antes revestia Brian, quase não era mais visível. Tudo estava manchado pelo precioso magenta encarnando, o mesmo que respingava por todo o chão e mesclava-se horrorosamente à palidez inacreditável do garoto morto, junto a suas madeixas, vestes e pele, perdidas em meio a tantos tons de vermelho.
Os olhos cerrados pareciam até serenos, mesmo que nunca mais fossem se abrir novamente. Os rubis, secretados, como se alguém tivesse pego um pincel e usado das cores daquele magnífico olhar para pintar vulgarmente a aquela criança por completo.
As lágrimas secas ainda estavam ali.
Por fim, a parte mais cruel de todo aquele espetáculo de atrocidade humana, era a fatídica faca banhada em todo aquele sangue — que já doía os olhos do ruivo -, cravada perfeitamente no centro do diminuto peito, que não mais subia e descia graciosamente, o que indicava a vida da criança, mas sim, permanecia morbidamente imóvel.
As orelhas de coelho estavam caídas no chão, precisamente, abaixo do corpo pendurado ao teto.
— B-... Brian... – sussurrou inconscientemente, a face redesenhando-se em uma mistura tão intensa de sentimentos.
Sentimentos horríveis.
Seu amigo estava realmente...?
— I-isso... isso... É brincadeira, n-né? – indagou aos gaguejos em voz alta, embora o questionamento não fosse dirigido a Vincent, ou a qualquer indivíduo em específico.
As emoções conflitavam internamente, a expressão tentava esboçar um sorriso, procurando graça naquela piada de mau gosto consigo, no entanto, tudo o que surgiu foi um torto curvar de lábios e inquietos movimentos nervosos que se iniciaram na pálpebra solitária, piscando somente até a metade do possível. O semblante, incapaz de especificar uma única emoção em seus traços. Não parecia mais tão são de si naquele momento.
Não era mentira.
Brian estava morto, não importava o quanto se negasse a acreditar nisso, era real demais.
Seu maior medo havia se concretizado.
As lágrimas correram abundantes, molhando o rosto pálido de terror, a sensação de perda e dor sendo as primeiras a despontarem em seu âmago, um padecimento latente crescia e se estendia ao longo de todo o seu ser, sentia-se ser corroído lentamente por dentro, como se algo tivesse quebrado dentro de si.
Queria correr até o outro, queria pedir ajuda, queria gritar com todas as suas forças, queria pedir desculpas mil vezes a aquele corpo desfalecido, mas, então, porque suas pernas não se moviam?
Seu companheiro... Havia partido para outro plano, abandonando-o. Era sua responsabilidade? Deveria tê-lo seguido? Deveria ter impedido com aquilo? Quem era o culpado? Quem faria algo assim a uma criatura tão frágil e ingênua como Brian?
Uma sensação sufocante tomou conta de seu peito, a respiração desregulou-se rapidamente, fazendo o garoto sentir como se não houvesse oxigênio o suficiente no ambiente, a inspiração e a expiração mesclando-se uma a outra confusamente, pesadas, difíceis de serem efetuadas.
Agarrou seus cabelos com força, deixando-se ir ao chão, os joelhos jogando-se sobre a imensa poça de sangue, fazendo o líquido espalhar-se ainda mais, lambuzando também suas roupas e pele, mas ele não se importou com isso. Dores indescritíveis alastravam-se por ele mental e fisicamente, o que não o permitia prestar atenção em qualquer outra coisa a sua volta mesmo se quisesse. O peso da culpa parecia um fardo insuportável, e seu olhar, completamente perdido e nublado, gritava o que não soava por sua voz perdida, implorando por auxílio e uma explicação plausível.
Devido à grotesca cena diante si e a pressão que o deixava desequilibrado emocionalmente, sua barriga revirou-se e o refluxo subiu pela garganta, o garoto desesperadamente levou a mão à boca e a tapou, engolindo as substâncias que seu corpo queria colocar para fora, sentindo o gosto detestável dominar sua língua.
Estava pronto para ter uma crise a qualquer momento, seu mundo estava simplesmente desabando.
Esquecera-se de tudo, a realidade tornara-se torturante e vazia, parecendo uma neblina confusa, ele não queria vivê-la naquele momento, então, é claro que não vira quando aquela mão esquelética e alva abandonou sua posição na porta de metal, deslizando lentamente até permitir com que a divisória enferrujada se movesse livremente mais uma vez, também não fora capaz de perceber quando os passos inconstantes afastaram-se de si quase silenciosamente, com certa graciosidade até, e depois de intermináveis segundos retornaram tão incrivelmente vagarosos, vindo em sua direção calma e pacientemente, porém agora, junto do barulho incômodo que emitiam as solas do velho sapato de couro, havia também um ruído terrível, que chegava a machucar seus ouvidos, semelhante à de unhas raspando em um quadro negro, ou mesmo de uma faca sendo afiada.
Tapou as orelhas com força, pressionando as mãos fortemente nas mesmas e fechando os olhos com vigor, não queria nada que fosse do exterior, não se importava com mais nada, nem com as pérolas lacrimosas que escorriam por sua face, apenas as deixava deslizar por sua expressão de desamparo sem fazer absolutamente nada.
Os longos dedos repousaram sobre seu ombro esquerdo de repente, um calafrio terrível correu por sua espinha ao sentir o toque frio e suave dedilhar sem pressa sua pele, arranhando parte de seu pescoço delicadamente.
Procurou ignorar, levando uma das palmas ao único olho e o vedou como se aquilo dependesse de sua vida, não queria olhar para o rosto de quem ele sabia estar ali. Mesmo que fosse ‘’Golden Freddy’’, sentia que não conseguiria fazer contato visual com ninguém naquele momento.
Encolheu-se, ainda aos prantos e completamente desamparado, esperando pelo que se sabe lá o animatrônico teria para lhe dizer.
Sentiu o hálito fresco aproximar-se por trás e acariciar sua orelha.
— Não se preocupe, eu tenho certeza de que você vai para o céu junto dele...
...
Por que tudo pareceu ficar em câmera lenta?
Seu olhar arregalou-se, e o medo lhe invadiu como nunca antes, o coração despedaçado parecendo falhar uma batida.
De repente, tudo parara, não havia o passado, não havia o futuro, só havia o presente, só havia aquela presença desesperadora da morte no recinto obscuro.
Percebeu o outro afastar-se mais uma vez.
Estático, virou o rosto para trás lentamente, sentindo o corpo estremecer, a hesitação era soberana, o olhar implorando por socorro era alarmante, o bater de dentes era evidente, e o temor assombroso era incontestável.
E naquele momento, a cena que pôde presenciar sentenciara-se eternamente em sua mente, aquela expressão macabra e sádica mergulhada em um mórbido prazer, encarando-lhe como se fosse lhe engolir por completo, o sorriso de satisfação completamente expandido, provocando calafrios, o brilho intenso irrompendo no olhar maligno, os braços levantados no ar, segurando aquele pesado instrumento em mãos, permitindo-lhe vislumbrar com clareza o reluzente esplendor ameaçador e o cabo de madeira talhada antes de a lâmina amedrontadora descer em sua direção rapidamente.
E, finalmente, enquanto o metal cortante tornava-se cada vez mais próximo de si, tudo foi se tornado um grande borrão sinuoso, até não restar nada além da escuridão avassaladora e da dor insuportável.
.
O som de carne sendo dilacerada era incrível, tinha de admitir.
Aquela avermelhada essência da vida havia se espalhado por todo lado, respingando exorbitante quantidade, inclusive, em seu rosto, colorindo a feição insana que lhe tomara conta da face, o curvar de lábios arrepiante permanecendo mesmo após o golpe brutal ser efetuado.
Infelizmente, o machado fora além do limite cogitado, já era difícil segurá-lo, quanto mais desferir um ataque daquela magnitude com controle perfeito, mas pouco se importou, estancando por alguns segundos em seguida, encarando com vislumbre o cenário de carnificina que montara com tanto carinho e dedicação.
Retirou as duas mãos da parte inferior da ferramenta — feita para propósitos que com certeza não se encaixavam na atividade a qual estava exercendo -, deixando o machado cravado no chão, em seguida, dando poucos passos até um de seus maiores triunfos.
Curiosamente, a cabeça decapitada ainda rolava pelo piso imundo quando a pegou em seus braços carinhosamente, minando-a como se fosse um bebê, praticamente banhando-se em tal quantidade alarmante de sangue, passando, também, a mirar ternamente a expressão completamente sem vida, junto a aquele olhar apático, agora, já morto, exilado do brilho dourado que outrora, expressava perfeitamente a puridade infantil pertencente ao garoto inocente e protetor.
— Você foi um bom menino. Espero que os anjos cuidem bem de você, isto é... Se eles existirem...
.
Fale com o autor