Até que a morte os una - (EM REVISÃO)
6 Capítulo 6
Notas iniciais
– Vincent? — chamou o menor pelo moreno de cabelos tingidos.
– O que foi? — respondeu-lhe com outra pergunta o mais velho, enquanto este conferia se todos os cadeados das janelas do pequeno estabelecimento se mantinham trancados. Eles eram quase sempre os últimos a ficarem ali, somente para fecharem o local.
– Você sabe se já conseguiram alguém para ficar no turno da noite? — indagou o menor, enquanto se mantinha de costas para o outro, no lado oposto do salão, vasculhando o pequeno ambiente com uma lanterna, para ter a certeza de que não havia mais ninguém além deles no exíguo restaurante.
Vincent fixava seu olhar na cena que observava através das janelas, o sol já se encontrava se pondo lentamente no horizonte, enquanto o firmamento azul aos poucos era colorido pelos diferentes tons de laranja, que se originavam da gigantesca estrela, as multi colorações um tanto semelhantes àqueles que o brilhante astro normalmente exibia durante o dia em seu centro.
– Não estou sabendo de nada — disse simplesmente, sempre parecendo expressar um estranho tom de ironia em suas palavras.
– Ugh, esquece, você nunca sabe de nada mesmo não é? — retrucou o mais novo.Vincent nunca fora um exemplo de empregado regular então já era de se esperar que não fosse alguém realmente atualizado sobre o que acontecia na pizzaria, as vezes parecia mais que trabalhava ali apenas por hobby
– Posso não saber muito sobre o que acontece aqui, mas posso te garantir que sei muito bem sobre você — sem qualquer aviso o moreno o abraçou rapidamente por trás, sussurrando as palavras em seu ouvido vagarosamente.
´´Como ele chegou aqui tão rápido?´´ se perguntou mentalmente, corando quase no mesmo instante em que o contato repentino se fizera presente, sentindo um estranho arrepio percorrer todo o seu corpo enquanto sua mente tentava processar a situação na qual ele se encontrava, logo em seguida reprovando o ato do outro, o afastando rapidamente de si com uma das mãos.
– O que pensa que está fazendo? perguntou, se irritando drasticamente com as ações do mais velho, ainda sentindo o rubor fluir em suas bochechas.
– O que? agora é proibido dar um abraço em seu colega de trabalho? — perguntou com uma inocência claramente fingida, seu tom de voz cada vez mais lento.
Suspirou, não era a primeira vez que ele fazia algo do tipo.
– Você é impossível, sabia? — mais afirmou do que perguntou, já deveria ter se acostumado com esse tipo de comportamento vindo dele.
– Sabia — respondeu simplesmente, estreitando levemente os olhos, como se estudasse a maneira de agir do outro, porém sem permitir com que o tom de ironia e o sorriso um tanto maquiavélico lhe abandonasse a face e a voz.
Não houve tempo para o menor ter alguma reação, ouviu-se rapidamente o que parecia ser o som de um toque de um telefone de discagem preencher o cômodo serenamente.
Ao reconhecer a música que o pequeno aparelho eletrônico exibia, o mais novo dirigiu-se rapidamente para a direção do mesmo, que se encontrava do outro lado do salão, sobre uma mesa aos fundos, pertencente aos funcionários vigilantes do turno da tarde.
Correu de encontro ao objeto que exibia tal melodia, se afastando do outro rapidamente, deixando-o a conversar com as paredes.
Atendeu o pequeno aparelho em poucos segundos, enquanto rezava para serem boas notícias as que o aguardavam do outro lado da linha.
– Alô? — foi o máximo que Vincent conseguiu entender da conversa, se desconectando do mundo real em seguida, se sentando na cadeira mais próxima de si, e sacando um de seus cigarros pertencente à uma marca qualquer — na realidade sequer se importava com esse detalhe-, acendendo o mesmo agilmente com um isqueiro, colocando-o nos lábios no momento seguinte, e inspirando o aroma pouco filtrado diversas vezes.
Depois do que pareceram horas para si, ele viu o outro desligar o telefone vagarosamente, colocando o objeto de volta em sua pequena caixa discadora, porém, assim que o mesmo se virou, o mais velho pode ver a expressão de espanto e um tanto preocupante estampada em seu rosto.
– Tá, tudo bem com você? — perguntou ao de cabelos negros, enquanto elevava uma das sobrancelhas. Raramente se preocupava com questões da vida alheia, já que estes nunca realmente lhe interessaram, mas achava que talvez o mais novo pudesse merecer algum privilégio nesse caso.
– Eu... acho que sim... mas... talvez não, Roy — respondeu depois de algum tempo, se virando de costas para o avermelhado aparelho eletrônico que usara anteriormente, apoiando as duas mãos sobre a pequena mesa de madeira, ainda sem dirigir o olhar para o maior.
– Uh? — apenas murmurou algo rapidamente, enquanto expelia o ar industrial que o cigarro em suas mãos produzia para o ambiente à sua volta.
– Era ele no telefone... não parecia estar muito bem... me disse que veio aqui de manhã e... ele e um dos nossos principais chefes de marketing tiveram uma discussão ´´séria´´ sobre as últimas coisas que vem acontecendo por aqui... — ditou vagarosamente as palavras, esperando relatar tudo o que ouvira de seu chefe ao telefonema para o outro.
– E aí? — perguntou, sem na realidade se importar muito com o que o menor lhe informava.
Percebeu rapidamente o desinteresse do mais velho no assunto que ele tentava ditar para o mesmo, mas resolveu apenas ignorar aquilo e prosseguir.
– Parece que a inspeção sanitária vai vir aqui conferir a nossa situação... mas, Scott não tem uma previsão de quando vai ser isso — falou tentando não expressar temor diante da recente notícia na frente do outro, sabia que ele poderia conseguir motivos de sobra para caçoar de sua cara se quisesse.
– E qual é a grande notícia? Já passamos por eles sem problemas uma vez, podemos fazer isso de novo — falava divertido, como se tudo aquilo fosse simplesmente uma brincadeira para si, aquele sorriso típico voltando a tomar-lhe parte da face.
O menor rangeu os dentes.
– Será possível que você não leva nada a sério?! — Falou quase se exaltando, se aproximando do outro a passos firmes, logo estando a frente do mesmo, em seguida agarrando seu colarinho com as duas mãos, puxando bruscamente o maior para mais próximo de si, para confirmar se havia algum resquício de sanidade naqueles dois globos púrpuras e profundos, que estranhamente, pareciam sempre esconder algo de tudo e de todos.
Talvez até mesmo dele próprio.
E então, quando esperava que pudesse ter tido algum impacto sobre o outro, ele o viu simplesmente permanecer com a mesma fisionomia de antes, como se o desafiasse a lhe arrancar outra expressão que não fosse aquela.
O menor cerrou os olhos com força.
Detestava quando ele fazia aquilo, detestava a falta de reação diferenciada e preocupação que aquele cara sempre tinha diante de praticamente tudo.
Era realmente possível que ele não desse o mínimo para nada? Nem mesmo com o seu próprio emprego estando em risco?
Depois de algum tempo, o menor suspirou profundamente e largou o colarinho do uniforme arroxeado do outro, se afastando em seguida do mesmo, sem lhe dirigir mais o olhar. Seus cabelos negros encobrindo seus olhos rubros, não permitindo mais com que outra pessoa os enxergasse.
– Vincent... eu estou cansado de ter que ficar atendendo esse maldito telefone quase todos os dias e não receber uma única boa notícia...! É sempre tragédia atrás de tragédia... eu... eu não aguento mais... eu estou cansado disso... agora nós estamos em risco de sermos fechados, se não formos aprovados pela inspeção sanitária... será possível que você realmente não se importa com isso?! Será realmente possível que você não dâ a mínima pra esse lugar aonde você já trabalhou tantos anos?! — perguntou em um tom rígido, que estranhamente, mesclava tanto a sua indignação por culpa das ações do outro, quanto a sua preocupação com a atual situação daquele lugar. Enquanto a sua raiva, acompanhava os demais sentimentos de maneira quase escancarada, esperando que o outro tivesse ao menos alguma reação diante do que ele dizia.
Piscou algumas vezes para confirmar se ainda se encontrava no mundo real, aquilo estava realmente acontecendo? Poderia jurar que havia visto aquele sorriso que o outro sempre sustentava simplesmente se desfazer de uma hora para outra, depois do que ele dissera.
Seguidamente ao que pareceram horas para si, ele viu o mais velho se levantar da cadeira a qual se encontrava sentado anteriormente e jogar o cigarro que acendera a poucos minutos no chão e ainda pisar sobre o mesmo com visível força, em seguida o maior vindo a caminhar em sua direção a passos rápidos, sua expressão agora um tanto...
´´Vazia?´´
Porque se assustou com a reação dele?
Relutante e perdendo a pouca coragem que possuía, apenas sentiu seu coração acelerar dentro de seu peito rapidamente, enquanto ele começava a dar passos para trás, quanto mais o maior se aproximava de si.
Se afastava o máximo que conseguia, ainda sem desviar seus olhos da figura do outro, até que sentiu suas costas atingirem a parede de concreto atrás de si. Sentiu um calafrio percorrer toda a sua espinha quando seu cérebro finalmente processou o fato de que agora ele não possuía mais nenhum lugar para onde poderia andar para se afastar do outro.
Engoliu em seco, rezando interiormente para aquilo se tratar simplesmente de mais uma das diversas brincadeiras do outro, porém, seus olhos carmesim tremeluziam de maneira quase desesperada, denunciando a sua apreensão um tanto aparente.
Segundos depois ele viu o moreno o alcançar.
Os cabelos tingidos de roxo chegaram a roçar em seu rosto pálido quando o mesmo dobrou rapidamente um dos braços acima de sua cabeça, recostando o membro superior na parede atrás de si com um dos punhos cerrados, encarando a si com os olhos levemente serrados, e com corpo levemente definido praticamente rente ao seu próprio.
– Vincent? — perguntou, esperando que o outro justificasse a ação que cometera naquele momento.
– Escute bem ´´cara do telefone´´, você na verdade não está errado, só é... um tanto petulante. Sim, eu não dou a mínima pra esse lugar, na verdade faz muito tempo que eu realmente adoraria que esse lugar simplesmente explodisse... — falou em um tom que quase fez com que o outro estremecesse, utilizando o apelido dado pelos funcionários a si no processo, provavelmente como um artifício para provocá-lo.
O de cabelos negros arregalou os olhos diante das afirmações do moreno.
O que ele estava dizendo? Desde quando ele odiava tanto assim aquele restaurante, a tal ponto que chegasse a desejar que o mesmo simplesmente explodisse?
– Desde quando você odeia tanto esse lugar, Vincent? — perguntou um tanto temeroso pela resposta que o outro poderia lhe dar, porém desejava agora mais do que tudo, poder cessar as vozes em sua cabeça que lhe indagavam estranhamente isso o tempo todo, este percebendo em seguida que havia utilizado um tom que demonstrava visivelmente tanto a sua preocupação simultânea por diferentes circunstâncias, quanto o espanto e temor que possuía diante do que o outro informava para si.
O maior se aproximou do ouvido do mais novo, sua respiração chegando a fazer-lhe cócegas de tão próxima que se encontrava de si.
– Desde 83 — falou simplesmente, porém, com a amargura sendo carregada com pesar em sua voz, lembranças infelizes o atingindo rapidamente.
O outro levou o olhar ao chão, se perguntando como não se lembrara daquele fato antes.
´´Droga! Eu sou muito estúpido mesmo!´´ se repreendeu mentalmente, pensando no que poderia dizer ao mais velho depois de ter cometido aquele erro drástico.
– Vin-Vincent... m-me desculpe! Eu... eu me esqueci disso... — tentou se explicar, utilizando um tom audível somente para o moreno a sua frente. Sabia que para aquilo não havia justificativa plausível, mas isso não o impedia te tentar se desculpar com o outro.
– Todos tentam esquecer, até hoje — falou, quase inexpressivo... talvez até mesmo... vazio — meu filho pagou o preço pelas falhas daqueles malditos animatrônicos dourados, e agora o mesmo aconteceu com aquele garoto com esses novos em 87, você realmente acha que eu não tenho motivos de sobra para odiar esse lugar? — perguntou friamente, completamente fixado no mais mínimo movimento que fosse do outro, soando lentamente a pequena frase que aparentou ter se apresentado quase como uma pequena tortura para o menor, suas pupilas negras quase reduzidas a nada.
– Não... — respondeu temeroso o menor, seus olhos se estreitando pela dor que invadia sua mente — eu... só... não imaginava que você ainda guardasse tanto rancor assim, de tudo isso — ditou em voz alta finalmente o que tanto queria dizer para o moreno. O outro nunca havia realmente aparentado ainda guardar para si todo aquele ódio, deveria admitir que ele sabia como encenar uma boa fachada.
– Muito mais do que você imagina — falou por fim rente ao ouvido menor, se afastando um pouco do mesmo em seguida.
Logo que pôde ver a expressão de espanto do outro, aquele mesmo sorriso de antes voltou a brotar-lhe nos lábios, estava aos pucos retornando a sua costumeira fisionomia.
Apesar do menor nunca realmente ter se agradado muito com aquela expressão, se sentira estranhamente aliviado ao ver toda aquela falta de expressividade abandonar a face do outro.
Se espantou um pouco. Como ele conseguia mudar de expressão tão rapidamente?
Sentiu o calor subir-lhe as bochechas fracamente quando vislumbrou aquele sorriso, que na visão de alguns poderia se tratar até mesmo de algo sádico, mas para ele aquilo significava simplesmente...um bom sinal, uma boa notícia.
Afinal, essa era a verdadeira maneira de agir do outro.
Suspirou, era realmente daquilo de que estava necessitando nos últimos tempos.
O maior se afastou de si em seguida, dando-lhe as costas, caminhando na direção de uma das mesas de centro, em específico, uma que se encontrava próxima do palco principal, aonde repousavam varias combinações de chaves, pertencentes as diversas portas que existiam no estabelecimento, penduradas e unidas em uma única argola.
Sacou os pequenos objetos reunidos rapidamente, levando-os em uma das mãos, sem demonstrar muito interesse na pequena atividade que realizava. Dirigiu seu olhar ao outro repentinamente, porém o mesmo ainda se encontrava estranhamente na mesma posição de antes, como se ainda não tivesse se recuperado totalmente do choque anterior, estando quase completamente alheio as ações do maior.
Deu-lhe apenas um sorriso, enquanto balançava uma das mãos em frente ao rosto do menor, tentando chamá-lo a realidade, o outro finalmente percebendo o que o mais velho o indicava.
Bufou em desgosto, afastando a mão do moreno de perto de si, dando um tapa de leve na palma do mesmo rapidamente.
– Posso usar óculos, mas não sou nenhum cego — ditou quase como se repreendesse a pequena ação do outro, estreitando os olhos de leve no processo.
– Não é o que aparenta, sua cabeça devia estar bem longe daqui — retrucou o mais velho, seu sorriso agora um tanto mais alargado.
Riu sonoramente, no seu típico tom de ironia e talvez até mesmo... malícia.
Cruzou os braços, dirigindo seu olhar para qualquer outra direção que não fosse a do maior.
Depois de alguns segundos em silêncio, o de cabelos tingidos de roxo percebeu finalmente que o sol já havia cedido o seu lugar no céu para aquela cortina de escuridão que sempre se fazia presente à noite, acompanhada das estrelas que pareciam bailar unidas em sua extensão negrume, juntas do satélite pedregoso da terra, que tomava o lugar mais alto no firmamento obscuro.
Porém, talvez ele sequer tivesse reparado nesse pequeno detalhe se não tivesse cometido o ato de desviar rapidamente seu olhar do outro, e vislumbrasse de soslaio uma das janelas localizada na lateral do estabelecimento.
Já fazia tanto tempo assim que eles estavam ali?
– Vamos? — perguntou repentinamente ao menor, estendendo-lhe a mão que carregava as chaves, balançando-as na ponta dos dedos, possivelmente o pequeno ato se tratando de uma tentativa de provocar o outro.
Franziu as sobrancelhas rapidamente, elevando fracamente os ombros, era óbvio que eles teriam de ir embora, então qual era a necessidade de perguntar aquilo?!
Deveria ser mais uma das diversas maneiras que o outro possuía de irritá-lo... sim, com certeza se tratava disso!
Tomou-lhe a chave das mãos rapidamente, ainda com o outro exibindo aquele mesmo sorriso que só lhe faltava ser permanente, de tanto que utilizava aquela expressão desconcertante.
Em seguida desviou sua atenção que anteriormente dirigia ao maior para as portas da saída principal do pequeno estabelecimento, caminhando em seguida na direção das mesmas, sendo seguido pelo outro.
Poderia até mesmo parecer na visão de outras pessoas, que ele deveria possuir alguma espécie de transtorno de bipolaridade ou talvez até mesmo algum transtorno comportamental, de tão repentinamente que alterava a sua maneira de agir diante de determinada situação, mas... passava longe disso a sua realidade, na verdade, ele não costumava se comportar muito daquela maneira, pelo menos não em público.
Falando assim ele até se assemelhava ao mais velho.
Achava estranho admitir isso, mas, todo aquele transtorno que o atingia possuía um culpado, curiosamente esse alguém sendo sempre a mesma pessoa.
Por vezes ele poderia jurar que conseguiria se quisesse, bradar para o mundo que odiava com todas as forças aquele cara arroxeado, o mesmo que parecia ter uma estranha fixação em todas as tonalidades do roxo, afinal, aquela coloração recebia um destaque um tanto exagerado em praticamente todas as suas roupas, até mesmo nas que se tratavam de seus uniformes de trabalho, o mais velho chegando a tingir seus cabelos morenos — um tanto compridos — com a incomum tonalidade.
Porém não o faria jamais, sabia que as vezes o maior possuía a capacidade de lhe tirar realmente do sério, mas... isso não era o suficiente para o punir de alguma maneira mais severa, por mais que suas brincadeiras de mal gosto nunca o agradassem.
Deveria se contentar com o fato de que trabalhava quase com um maníaco obsessivo por roxo.
Mas apesar disso, o menor fora um dos poucos que não vira apenas um sorriso próximo da insanidade estampado no rosto do outro. Não, ele sabia que o moreno guardava sentimentos muito além daqueles dentro de si, só era preciso despertá-los.
E ele era testemunha disso.
Parou somente quando se encontrou do lado de fora da pizzaria, em frente a entrada principal, enquanto esperava o mais velho sair para poder fechar as portas. Porém, quando seus caminhos se cruzaram sentiu um arrepio repentino percorrer- lhe o corpo.
´´O que foi isso?´´
Girou a cabeça negativamente no ar algumas vezes na tentativa de ignorar a estranha sensação anterior. Se aproximou do par de portas um tanto enferrujadas para conferir o estado de suas fechaduras e trancá-las em seguida, o outro o observando na calçada com os braços cruzados, sem ter muito interesse no que o menor fazia.
Em um momento totalmente aleatório, o mais novo dirigiu o seu olhar uma última vez naquele dia para dentro do pequeno estabelecimento antes que pudesse selar as portas de entrada e saída principais. Aquele local lhe parecendo um tanto assombroso sem a luz do dia para lhe preencher com sua luminosidade.
– O que foi? — perguntou o moreno ao perceber que o menor havia interrompido o que fazia anteriormente, fixando seus olhos escarlates em algum ponto dentro daquele local fúnebre, pelo menos em sua opinião.
– A-Ah, não... é nada — respondeu arrastado, finalmente percebendo o hipnotismo que o havia dominado durante alguns segundos.
O maior deu de ombros, já tomando vagarosamente seu caminho para a casa.
Logo que o outro terminara de fechar o pequeno local, o mesmo o seguiu, os dois andando praticamente no mesmo ritmo na calçada revestida por pedras de basalto, sendo iluminada somente e fracamente pelos postes de luz, ajudando-os a se guiarem na escuridão que já caía sobre a região.
– Vincent — chamou o menor, tentando voltar a atenção do outro para si.
– O que foi? — indagou um tanto impaciente o maior, sem dirigir o olhar ao mais novo.
– Você... nunca achou que a Pizzaria fosse... meio estranha as vezes? — questionou depois de algum tempo, se perguntando internamente se ele era realmente o único a sentir aquela sensação um tanto perturbadora lhe afligir quando se encontrava dentro do local aonde trabalhava.
Ou talvez fosse apenas mais uma de suas desconfianças desnecessárias?
Enquanto esses pensamentos lhe rodeavam, ele observava de soslaio o pequeno estabelecimento ao qual sua mente se centrava, a atmosfera daquele lugar sempre lhe parecendo um tanto assombrosa durante à noite.
–Estranha? -ainda sem diminuir o ritmo dos paços que eram dados, o maior lhe dirigiu o olhar um tanto intrigado, desviando uma das íris arroxeadas pela lateral da esfera albina, como que encurralando o outro somente com a visão.
O menor poderia jurar que sentira uma vertigem quase lhe abalar diante a maneira como o mais velho o observava.
– S-sim! Digo... você nunca sentiu uma sensação um tanto... perturbadora, quando estava lá dentro? — perguntou inocentemente, enquanto esfregava gradualmente as próprias mãos que já se encontravam gélidas em seus braços distendidos, cobertos pelas compridas mangas do uniforme que utilizava em serviço, em sua mente nem lhe passando superficialmente o que aquelas palavras realmente significavam para o moreno.
´´Ele não estava lá naquele dia, nem em 83. Não tem como ele saber mais do que o necessário.´´
– Acho que não, deve ser só mais uma das suas paranoias... — falou com certo ar de provocação, esperando receber em troca mais uma das típicas reações do outro.
–O-o que?! Paranoia?! Rá! Olha só quem fala! Você é um obssesivo por roxo! — respondeu, se impacientando rapidamente com o outro. Aos poucos se estressando novamente, unicamente por culpa das ´´brincadeiras de mal gosto´´ do maior, que pareciam existir apenas para lhe tirarem do sério.
– É... você tem razão... eu amo roxo — respondeu sem alterar o tom de voz, não aparentando dar alguma relevância ao fato de que o menor usara a expressão ´´obsessivo´´ para se referir a si. Entendendo isso a sua própria maneira.
– Ah? Não foi isso que eu....! Esquece, é impossível conversar normalmente com você — pronunciou por fim, tomando a dianteira na caminhada, porém não indo muito a frente do outro. Enquanto uma de suas mãos repousava sobre seu rosto, pálido e de expressão marcante, devido ao tapa que desferira na própria testa anteriormente, em sinal da estupidez que cometera em tentar dialogar de uma maneira mais civilizada com o moreno.
Este apenas riu fracamente diante a ação repentina do mais novo, unicamente pelo fato de ele ser um dos poucos telespectadores que possuíam o direito de observar o menor em suas cenas mais cômicas.
Suas reações eram cada vez mais um meio de entretenimento para si.
E assim seguiram a caminhada pela extenso calçamento, envoltos pela escuridão que a noite sempre trazia consigo, sem trocarem mais nenhuma palavra um com o outro, o silêncio se estabelecendo permanentemente entre aqueles dois distintos rapazes, até o momento em que os mesmos alcançaram suas residências mais tarde, os colegas de trabalho quebrando a estanha atmosfera que se fizera presente há tempos entre eles somente com uma sútil despedida.
Porém o que o de cabelos negros não havia percebido naquela noite foi que depois que ele havia se distanciado um pouco do maior, indo em sua frente, o mesmo havia direcionado o seu olhar rapidamente para o local aonde eles trabalhavam, assim como si.
Mas... com certeza o brilho que o maior exibia em seu olhar naquele momento era totalmente distinto do do mais novo.
´´Eu realmente odeio esse lugar´´
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