Até que a Morte nos Una
30 Yuugen (Epílogo)
Notas iniciais
Todo aniversário era aquele mesmo sentimento incógnito. Nunca era fácil aceitar que se passara mais um ano desde a partida de meu irmão. Não importava o quanto os números cresciam e acumulavam, um pequeno arrepio já familiar me acompanhava com a inevitável memória do dia em que Sasuke demorou demais para se unir a Izumi e eu para o café da manhã e o motivo, descobrimos, era que ele simplesmente não se levantaria mais.
O médico já havia cogitado, mas muito por cima, da possibilidade de uma complicação tardia causada pela bala que ficou alojada no cérebro dele desde quando ele sobreviveu ao sequestro. O pseudoaneurisma que se formou na artéria foi sorrateiro, escondido pela própria bala durante os exames de rotina. Todos fomos pegos de surpresa.
Foi doloroso ver meu irmão tão jovem, ainda no início da faculdade – e eu no final –, com tantos planos ainda a concluir, ser retirado do mundo de forma tão abrupta.
Depois de superar a depressão engatilhada pelo trauma do sequestro, Sasuke se mostrou uma pessoa praticamente viciada em viver. Não havia quinzena em que não tivesse alguma atividade com os amigos que fez na escola de Tokyo e ele se tornou mais interessado em assistir filmes comigo, levantando até sugestões de novos títulos – mesmo que alguns entrassem muito mais em consonância com o gosto de Izumi.
Quando ainda estava na escola, ele se juntou a vários programas de voluntariado, ajudando desde animais de rua até no cuidado de idosos. Nunca vou esquecer o dia em que o vi no noticiário, numa multidão formada por estudantes na rua que protestavam contra as mudanças climáticas. Quem diria, meu irmãozinho estava se tornando um revolucionário.
Após o término da escola, entendi o motivo dele ter arrumado um trabalho de meio-período no último ano: ele estava juntando para tirar um ano sabático. O planejamento de viagem pelo Japão e outros países não chegou a durar um ano completo, ele não queria perder o período de matrícula da faculdade ou ficar tanto tempo assim distante de casa. Ele voltou bem a tempo de testemunhar quando finalmente pedi a Izumi em casamento, o que ele, como o bom sacana que era, comemorou até além da conta.
Mesmo assim, os oito meses fora de casa o fizeram envelhecer o triplo. Meu irmão voltou como um jovem adulto, pronto para se aventurar por novos caminhos com um brilho no olhar que eu talvez só tenha visto nele quando ainda era criança.
Talvez o fato de ter testemunhado tão de perto o quão apaixonado pela vida Sasuke era me fez ressentir ainda mais a morte dele. Foi um período difícil de se passar, quase perdi o último semestre da faculdade, não fosse por Izumi me motivando a não desistir.
Mas o que de fato me trouxe da reclusão de volta à vida foi testemunhá-la novamente: Izumi descobriu que havia ficado grávida poucos meses depois que perdi o último membro da minha família.
Ver a barriga de minha noiva crescendo foi uma experiência além de qualquer outra. A cada novo exame, novas imagens do corpinho que se formava e crescia, novos chutes que sentia pela pele de Izumi, uma nova luz se formava também dentro de mim. Eu estava construindo uma nova família após ter perdido a minha. O milagre da vida se montou pouco a pouco diante dos meus olhos.
Sayuu nasceu no mesmo dia da morte de Sasuke, tal como os meus pais haviam morrido no meu aniversário. Existia essa conexão incompreensível entre a vida e a morte na família. Sempre que pensava nisso, aquele sentimento profundo demais para ser dissecado aparecia no fundo de meu peito. Essa consciência bela e misteriosa do universo, yuugen, me visitava a cada novo aniversário que era marcado no calendário.
A pequena Sayuu nasceu na primavera, bem quando as flores de cerejeira estavam completamente desabrochadas. Isso sempre me fazia refletir sobre a transitoriedade das coisas, como a vida era efêmera, tal como as flores róseas que duravam pouco, mas eram tão belas que marcaram uma estação inteira, apesar de sua curta existência. A vida de meu irmão foi assim.
Como por ironia do universo, uma cerejeira que não havia sido plantada no jardim já começava a crescer assim Izumi e eu nos mudamos com a nossa bebê para a antiga casa de meus pais em Nakai. Gostava de me sentar na varanda de casa e contemplar aquela árvore crescendo de pouco em pouco, bem como fiz com Sayuu. Aquela primavera em questão era a primeira em que a cerejeira dava flor, enchendo o jardim com o seu aroma e pintando o chão com as suas pétalas, que eram carregadas pelo mesmo vento que tocava o sino do fuurin pendurado na varanda.
Pintado de rosa também estava o ninho de um jovem falcão solitário que vivia sempre pelo jardim. Ele parecia gostar particularmente daquela árvore e, quando ela tomou um bom tamanho, ele não tardou em construir seu ninho nela, onde permanecia até mais tempo do que o normal. Esperava que Sayuu não estivesse deixando nenhuma comida para ele, afinal, era importante que ele saísse para caçar.
— Papa! – Foi o único aviso que tive antes de sentir o pequeno corpo se jogar contra as minhas costas e se segurar pelo meu pescoço. Pequenos gestos de amor de criança que beiravam a violência.
Peguei os bracinhos que me envolviam e a trouxe à minha frente. Sayuu ria com o movimento e esticou os membros assim que a coloquei no chão.
— Olha o meu kimono, papa! – Ela rodopiou para os lados, atenta para não pisar no recipiente de nanquim que estava repousado do meu lado.
A roupa nova carregava sua estampa favorita, de flores de cerejeira. Sayuu não aceitava qualquer outra estampa para o seu aniversário.
— Poxa, parece uma princesa! – Elogiei em meio a sorrisos.
— Já estamos prontas. – Ouvi Izumi chamar da porta e Sayuu disparou para ela com toda energia e capacidade que seus quatro anos lhe davam.
Virei de leve para ver minha esposa. Ela também vestia um kimono, mas sua estampa era azul com linhas que pareciam formar penas de pavão. Havia duas princesas naquela casa, afinal. Sorri para ela, que levantava Sayuu com cuidado para não apoiá-la em sua barriga proeminente. Na verdade, talvez fossem três princesas.
— Já vou, eu vou só finalizar esse haiku. – Pedi a ela, que entendeu que eu só precisava de mais um instante sozinho para começar a celebração daquele dia.
Izumi foi para dentro da casa e me deixei mergulhar na sensação proporcionada pela brisa nem quente e nem fria da primavera, pelo tilintar do fuurin que continuava a tocar, anunciando a revoada de pétalas pelo jardim que espalhava seu perfume no ar.
Tomei meu tempo para observar como o falcão se comportava em seu ninho: ele esfregava o bico contra os galhos secos, o que fazia com que as pétalas róseas penetrassem a estrutura do ninho, como se quisesse que elas fizessem parte do alicerce de seu lar. Ele realmente nutria uma apreço especial por aquela cerejeira,mas ainda mais agora, quando estava em flores.
Meus dedos enlaçaram o pincel, quase hipnotizados, e escreveram no longo papel esticado diante de mim os poucos versos que montam um haiku. Era a forma de tentar projetar um pouco daquele sentimento, yuugen, que me preenchia também quando olhava para aquela interação incomum entre ave e árvore.
Tudo é uma grande história que envolve vida e morte, terra e céu… Todos os opostos estavam ali, na minha frente, dançando com o destino e o universo… Novamente, yuugen.
Enfim, o falcão
na cerejeira acha
lar para ficar
Afinal, toda história de morte fala de vida.
Fim.
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