Até que a Morte nos Una
29 Finalmente
Notas iniciais
Foi difícil entender a comoção que se deu depois que o tiro me acertou. Enquanto os gritos dos policiais se aproximavam, eu só conseguia olhar para Sakura e tentar focar em respirar em meio àquela dor. Ia me manter vivo por ela, custe o que custasse.
— Pro chão!
Nós dois nos encolhemos em reflexo quando um dos policiais vociferou já ao nosso lado. Quando olhei, ele já estava em cima do homem que atirou em mim, torcendo seus braços para trás com rapidez.
— Menino, qual o seu nome? – A outra policial já estava ajoelhada ao meu lado, de frente para Sakura. Os olhos dela eram firmes em mim e ela não parecia vacilar nem um pouco, passavam confiança.
— S-Sasuke… – Consegui dizer.
— Sasuke. – Ela sorriu. – Eu vou te ajudar. Tente não dormir, os paramédicos já estão a caminho. – Apenas assenti de leve com a cabeça, falar não era uma boa opção no momento. – Vou abrir a sua roupa, ok?
Ela avisou, não pediu. Logo em seguida, já ouvia o som de pano rasgando e a maresia fria da noite encontrou a minha pele.
— Oh.
A policial soltou e senti ansiedade borbulhar em mim, estava em dúvida entre querer saber ou não o motivo daquela reação. Olhei para Sakura em busca de alguma pista e ela estava com os olhos arregalados, uma mão sobre a boca aberta. O que elas estavam vendo?
Antes que eu pudesse unir coragem para perguntar, ouvi diversos passos apressados contra o chão de cerâmica do mercado.
— Sasuke! – A voz estridente de Naruto era inconfundível e foi até mesmo um certo conforto.
— Não cheguem perto! Precisamos de espaço para ajudar o seu amigo. – Uma voz comandante acompanhou passos rápidos que se aproximavam. – O que temos aqui?
— Vítima de arma de fogo. – A policial que estava comigo olhou para cima. – Mas… – A voz dela se perdeu ao tentar explicar o porém, o que só me causou mais apreensão.
A paramédica já estava ajoelhada no meu outro lado, onde Sakura estava, e examinou com olhos de águia o meu peito. Suas sobrancelhas se ergueram imediatamente e mal pude registrar quando a policial deu lugar a um segundo paramédico. Ela abaixou o rosto até ficar com a lateral em paralelo ao meu peito, sem encostar, e pareceu se concentrar por poucos segundos, como se tentasse ouvir algo, e então se ergueu novamente.
— É Sasuke, não é? Vou fazer só uma palpação, ok? Isso pode doer. – E ela não esperou uma resposta, igual à policial, e colocou as mãos firmes sobre o meu tórax.
No momento em que aquelas palmas tocaram minha pele, meu corpo inteiro se contraiu com a dor que parecia ter se multiplicado de um instante para o outro. Um gemido alto de dor escapou por entre meus dentes e a paramédica logo recolheu as mãos. Por trás do zumbido que se criou em meus ouvidos, dava para ouvir um pouco da voz de Naruto e dos outros chamando por mim. Queria dizer que estava tudo bem e acalmá-los um pouco, mas era absolutamente impossível.
— Você é um menino de sorte. – A paramédica disse em um sorriso. – Algum outro lugar dói além do seu peito?
Se eu não tivesse ficado tão confuso com aquela constatação e conseguisse falar normalmente, provavelmente daria uma resposta ácida, mas sendo a situação como era, apenas neguei com a cabeça.
— Ótimo. – Ela sorriu de novo e olhou para o parceiro à sua frente. – Pode mandar trazer a maca. – E ela começou a mexer em uma grande bolsa ao seu lado. – Tem alergia a algum medicamento?
A mulher era como um furacão e eu estava perdido entre dor e confusão, mas ela parecia saber o que estava fazendo, então só neguei com a cabeça novamente. Olhei para Sakura outra vez, procurando por alguma resposta, mas ela continuava congelada numa expressão de incredulidade.
— Vou aplicar um analgésico na sua veia e essa dor já deve melhorar bastante. – Foi tudo o que tive de aviso antes de sentir uma espetada no braço e uma ardência me fazer entender exatamente onde era aquela veia que recebia o medicamento.
Foi questão de segundos até a dor começar a diminuir consideravelmente e a respiração ficar mais confortável. Se não tivesse medo de causar alguma outra dor súbita, suspiraria em alívio.
— O que aconteceu? – Consegui perguntar quando o outro paramédico já abaixava a maca ao meu lado e começava a imobilizar meu pescoço com um colar de plástico.
— Você provavelmente fraturou uma ou duas costelas. Vamos ver isso melhor no hospital.
A resposta só me deixou ainda mais desnorteado. Pisquei algumas vezes, atônito. Eu havia me confundido quando vi aquele homem com uma arma apontada para mim? Era ao menos uma arma o que ele tinha na mão? Eu não conseguia conectar um ponto ao outro.
— Quê? Eu não levei um tiro? – Perguntei de forma débil.
A paramédica sorriu de novo e apalpou minha overshirt. Do bolso, ela retirou um pequeno embrulho de seda vermelha, que me fez arregalar os olhos quando o reconheci como sendo o meu omamori.
— Você levou um tiro, sim. Mas olha onde a bala parou. – Ela apontou para a moeda amarrada à ponta da cordinha que fechava o amuleto. Cravada nela, estava a imagem distorcida do que seria uma bala pequena. – A moeda parou a bala e a madeira de dentro do seu amuleto distribuiu o impacto. Não foi nada bom pras suas costelas, mas provavelmente salvou sua vida. Você tem sorte, não disse?
Meu queixo só não caiu mais porque eu estava deitado. O omamori que meus pais deram para o meu irmão e eu quando éramos pequenos acabou me salvando de um tiro? E um dado logo pelo homem que tirou a vida deles? Meu coração palpitou no peito diante daquela constatação.
— Agora vamos pra prancha. Tente não se mexer. – Mais um aviso antes da ação que logo em seguida foi realizada rapidamente.
Não fiz mais perguntas à paramédica. Fiquei perdido no choque da notícia do omamori. Apertei a peça em meus dedos e senti pedaços que antes não existiam dentro do saquinho de seda de moverem. Parece que a madeira se partiu com o impacto do tiro. Também, pudera. Engoli em seco. Aquele amuleto era um pequeno pedaço dos meus pais e de seus desejos em relação a mim e ao Itachi. Era como se eles próprios tivessem me protegido, mais uma vez.
Depois de firmado contra a prancha, já estava na maca e a caminho da ambulância, que estava do lado de fora do mercado.
— Sasuke! – Ouvi Naruto chamando novamente quando a maca já estava em movimento.
— Cara, você tá bem?! – A voz de Suigetsu soou logo em seguida.
Por conta do pescoço travado, só consegui seguir as vozes com o olho. De canto, vi Naruto e os outros se movendo em conjunto, acompanhando o rolar da minha maca. Mesmo com a dificuldade de ver em detalhes, não era difícil ver a tensão neles, o quanto pareciam preocupados. Não pude conter um pequeno sorriso de canto que se formou por me sentir querido por eles.
Tendo os braços também imobilizados, só pude levantar uma mão e erguer dois dedos num gesto de paz para eles, sinalizando que estava tudo bem. Tudo ficaria bem.
Os procedimentos no hospital aconteceram em um borrão. Entre exames, testes e milhares de perguntas, quando me dei conta, já estava instalado em um quarto. Tentei não me aborrecer por estar novamente enjaulado em um quarto de hospital, mas foi quase impossível conter a ansiedade que meu corpo produzia já quase por reflexo ao encarar todo aquele branco opaco que compunha do cômodo.
— Que bom que pelo menos não te colocaram na enfermaria com um monte de estranhos. – Sakura conseguiu levantar um ponto positivo de se estar preso em um hospital.
Observei o modo como Sakura caminhava de forma despretensiosa pelo cômodo e olhava os arredores da mesma forma que o faria se estivesse numa galeria de arte. Seus dedos se enlaçaram atrás do corpo, mas os braços não balançavam para trás e para a frente, como o usual, e os dedos não estavam frouxos, e sim rígidos. Algo não parecia estar certo com ela.
— Sakura… – Chamei antes que pensasse demais e me acovardasse. – Você sabia o que eles queriam fazer comigo.
Os ombros de Sakura saltaram com a constatação que levantava muitas perguntas, tal como muitas dores. O porquê eu já tinha praticamente certeza, mesmo que isso me doesse na alma, mas como?
Sakura tomou seu tempo e não tirou os olhos da parede por um certo período de tempo. Não conseguia ver seu rosto de onde estava, então só me restou observar como seus dedos foram perdendo a tensão e balançaram com suavidade para se juntarem novamente na frente do corpo de Sakura. Ela se virou e sua expressão parecia de alguém bem mais velho, que já viveu muito.
— Seu celular ainda tem carga? – Ela perguntou apenas um pouco mais baixo do que o normal.
Ergui uma sobrancelha em estranhamento, mas, àquela altura, eu já estava acostumado às aleatoriedades de Sakura e confiava nela, então, ao invés de questioná-la, estiquei com cuidado o braço até a escrivaninha e apanhei o aparelho. Ao desdobrá-lo, as mensagens e chamadas perdidas foram mais chamativas do que o indicativo da bateria, mas busquei foco naquela conversa, que de trivial nada tinha. Acenei com a cabeça para a garota em minha frente.
— Pode entrar na sua conta do Mixi? – Ela deu um passo para mais perto, um pouco suave demais na fala.
— No Mixi? Mas eu nem uso mais. – Não pude deixar de expor minha confusão e ela só balançou a cabeça.
— Tudo bem, isso não é problema.
Pisquei algumas vezes para ela, empurrando com todas as forças a frustração que queria se formar ali, e tratei de navegar até abrir a tal página inicial da minha rede social abandonada já há um ano. Não havia qualquer novidade lá ou detalhe fora do normal, era a mesma coisa desde a última vez que acessei o site, quando procurei o perfil de Sakura na noite em que descobri como ela morreu – bem, em parte.
— O que tem? – Perguntei, tentando conter a ansiedade, mas deixando transparecer desorientação.
— A última atualização.
Ela apontou para a tela do celular, mais especificamente para a simples publicação de uma localização… em Tokyo, um ano atrás.
Quando notei a data, 9 de junho, meu sangue congelou em minhas veias. Foi o dia do aniversário do Itachi, quando fomos sequestrados e tudo aconteceu. O plano inicial era apenas ir a um show com o meu irmão e, como na época eu publicava cada suspiro que dava, compartilhei minha localização para que meus amigos pudessem acompanhar minha viagem para a capital.
— Eu morava em Tokyo na época, lembra? – Sakura começou a falar. – Quando vi que você estava indo para lá, pensei que aquela era uma oportunidade única de te ver e talvez… – Ela olhou para o lado e passou a acariciar um dos braços, tensa. – Talvez mostrar o omamori que você me deu e finalmente me declarar.
Sensações ruins se enroscaram em meu peito ao ouvir aquilo. Já começava a entender para onde aquilo caminhava.
— Quer dizer que você seguiu a minha localização do Mixi e… – As palavras morreram na minha boca, não tinha qualquer resquício de coragem para continuar aquela sequência de acontecimentos.
Só conseguia sentir pavor por aquela Sakura ainda tão jovem, tão inocente, tão viva, achando que iria se encontrar com o amor e apenas encontrou a morte.
— Eu cheguei quando aqueles homens tinham acabado de abandonar o carro de vocês. O que encontrei foi… – Ela olhou para baixo e suspirou pesadamente. – Foi horrível. Eu pensei que estavam todos mortos, até que você… – A mão dela circulou de cima para baixo na frente de seu rosto, com clara dificuldade de como descrever o que muito provavelmente era quando eu estava me engasgando com o meu próprio sangue. Um pouco rígido, acenei com a cabeça para indicar que havia entendido para que ela continuasse. – Eu te arrastei para fora do carro para conseguir te ajudar de alguma forma.
Então, era como eu suspeitava e a pessoa que eu lembrava de ter me socorrido para que eu não morresse afogado em sangue não era minha mãe, mas sim Sakura. Eu estava tão fora de mim que não tinha consciência o bastante nem para me mover ou enxergar direito. Não é à toa que associei o socorro e o cuidado à minha mãe, que eu sabia que estava ali.
— Mas um deles voltou. – Relembrei aquelas imagens obscuras que circulavam minha mente e Sakura assentiu.
— Não sei se ouviram algo ou se só quiseram verificar se tinham finalizado tudo, mas eles voltaram, e foi logo depois que te tirei do carro, ainda tentava te estabilizar. Não tive nem tempo de chamar por ajuda. – Os olhos dela se perderam na memória, assombrados pelo pavor daquele momento. Apertei o lençol da cama sem perceber, como se eu estivesse observando aquela cena de uma adolescente tentando salvar a vida de outro enquanto um homem armado se aproximava para acabar com os dois. – Eles não queriam pontas soltas e você ainda respirava e eu estava lá. – Os dedos dela torceram a barra da blusa. – Mal consegui implorar pela sua vida. Ele me empurrou para que eu não ficasse na sua frente e nem hesitou em atirar em você inconsciente, no meu colo.
A mão levemente trêmula de Sakura se ergueu até tocar de leve em sua própria cabeça, na mesma área onde eu carrego uma cicatriz. A covardia mostrada ali era tanta que me embrulhava o estômago. De repente, era como se uma corrente fria passasse pelo quarto, mas a porta e as janelas estavam fechadas. Os olhos dela já carregavam o brilho de lágrimas.
— Eles me arrancaram de você e… lembro deles falarem que não queriam deixar vestígios para trás. – Ela passou rápido a mão sobre os olhos ao fazer uma pequena pausa e me encarou. – Dava para ouvir o rio correndo de lá, então eles tiveram essa ideia.
E, apesar de parecer impossível, meu coração se apertou ainda mais. Minha mente foi direto na odiosa matéria que li de quando encontraram o corpo de Sakura quase uma semana após sua morte. Fiz o maior esforço possível para não lembrar dos detalhes descritos. Apertei ainda mais o lençol até minhas juntas reclamarem, desesperado para me manter ancorado ao presente.
— Eles me levaram para lá. Estava tudo tão escuro, eu estava apavorada, suja com o seu sangue e eles ainda apontavam a mesma arma para mim. – A visão que tinha de Sakura começou a embaçar, e então notei que aquele relato estava sendo demais para eu poder me controlar. Mordi o interior da boca e foquei numa respiração lenta para tentar retomar a compostura. – Quando chegamos ao cercamento da margem do rio, eles me seguraram, taparam minha boca e nariz e não soltaram mais.
Um frio intenso percorreu toda a minha espinha. Meu estômago estava tão torcido que eu poderia vomitar a qualquer momento. O ar era espesso para respirar quando pensei minimamente em como deve ter sido para Sakura. Eu também quase passei pelo mesmo que ela poucas horas antes. Depois de inconsciente, eles iriam me jogar no mar para eu me afogar e não carregar rastro deles. Foi por isso que acharam que Sakura havia cometido suicídio, essa era a intenção deles desde o início.
O horror e o pesar deram espaço à raiva e ao rancor. Por um instante, me arrependi de não ter puxado o gatilho contra todos aqueles covardes. Se bem que havia um que eu atingi sem querer e não sabia como estava. Era uma dualidade forte querer vingança e não querer me colocar no mesmo lugar que aquelas pessoas desprezíveis.
E pensar que Sakura estava certa quando disse que foi assassinada quando conversamos por meio do Ouija naquela vez em que tudo era tão diferente.
Foi tanto tempo divagando, questionando sobre como havia sido a morte de Sakura, e ela estava justamente ligada à minha própria tragédia pessoal, e pior, estava apagada disso. Por todo esse tempo, família, amigos e desconhecidos pensaram que ela havia se matado por amor.
Na verdade, ela morreu por amor.
— Eu… nem sei o que dizer, Sakura. – Disse para as minhas mãos, mas me forcei a erguer a cabeça para fazer contato visual e não soar tão frouxo como eu sentia que estava. – Sinto muito pelo que você foi forçada a passar. – E por minha causa, ainda por cima.
Sakura continuava com seu semblante melancólico, mas abriu um sorriso que não mostrava seus dentes.
— Pode me agradecer também. Eu salvei sua vida, afinal. – Ela colocou a mão na cintura e olhou para cima, como se estivesse se lembrando de algo. – Ou foi o omamori que te manteve vivo? Vai saber. – Ela acrescentou e deu de ombros.
— Como assim?
— Eu queria te mostrar o omamori, lembra? – É um pouco difícil esquecer que Sakura queria levar um adorno referente a quando nos conhecemos na infância para se declarar. – Eu consegui deixar ele com você, para que te protegesse.
O único contato que lembrava de ter com um omamori recentemente foi só a partir de quando estava de mudança com Itachi e Izumi e eu encontramos o amuleto do meu irmão em uma caixa de cacareco dele. Não tive mais contato com os pertences que estavam comigo naquele dia. Não havia me interessado ou ao menos lembrado, de tanto que tentava me afastar daquelas lembranças.
Se eu tivesse coragem o bastante antes, talvez já teria encontrado o meu omamori e desvendado o mistério da morte de Sakura há tempos.
— Eu… eu não sabia. Nunca recuperei as coisas que estavam comigo naquele dia. Fiquei muito tempo no hospital depois. Talvez Itachi saiba onde estão. – Minha mão foi ao omamori que estava esquecido no meu colo. A bala distorcida contra a moeda de adornaria era ainda um detalhe surreal que foi agregado à peça. – Esse omamori que está comigo é dele.
— Sasuke! – Ouvi o chamado logo antes da porta do quarto quase ser arrancada de tão rápido que abriu.
Em um piscar de olhos, Itachi já estava em cima de mim, mas suas mãos não ousaram me tocar, hesitantes sobre onde poderiam pegar sem me machucar. O semblante de Itachi parecia assombrado mas ao mesmo tempo aliviado. Lágrimas eram claras e impudentes em seus olhos e aquilo me tirou do eixo: só teve outra ocasião em que vi meu irmão daquela forma.
— Nii-san…
Eu tinha que admitir também que era um alívio tão imenso que quase sobrecarregava poder encontrar o meu irmão depois de achar que nunca mais o veria de novo. Que não veria mais ninguém.
— Você está bem! Que bom… – Ele engasgou de leve nas palavras. – Quando soube do que aconteceu, eu não consegui acreditar. – E suas mãos finalmente encontraram um lugar seguro em meu rosto. Seus olhos eram rápidos ao percorrer cada milímetro de meus olhos, tão parecidos com os dele, mas agora tão diferentes. Repousei minhas mãos sobre as dele, também ansioso pelo contato. – Você tomou mesmo um tiro?!
Ele me olhou de cima a baixo tão rápido que não sei como ele não teve vertigem.
— Sim, quer dizer, mais ou menos. Mas só fiquei com duas costelas quebradas. – Apontei para a região do tórax, bem em cima do local que estava repleto de esparadrapos escondidos por baixo da roupa.
Itachi ficou em silêncio por um instante, apenas franzindo o cenho enquanto encarava a área para onde apontei.
— Como assim você foi baleado mas só saiu com as costelas quebradas? – Ele entortou um pouco a cabeça para o lado, obviamente confuso.
Não fosse eu sentir muita dor por isso, riria da cara dele. Tive que me contentar com um sorriso um pouco sacana que ele sequer notou de tão focado que estava no assunto.
— Foi o seu omamori. – Mostrei a palma da mão que ainda segurava o amuleto. – Ele parou a bala e dispersou o impacto. Só doeu pra caramba na hora, mas com medicação fica aturável.
Itachi contemplou o pequeno objeto por um tempo. Seus olhos brilhavam como se observassem algo divino e, devagar, estendeu a mão para apanhar o omamori. Ele o analisou de ponta a ponta, mas prestou uma particular atenção na moeda deformada por uma bala.
— Quer dizer… que isso aqui impediu de você levar um tiro no peito? – Ele perguntou sem ar, sua voz saindo quase num sussurro.
— Pois é. Ainda bem que você me deu o seu omamori.
Itachi finalmente parou de encarar o amuleto e olhou para mim.
— Na verdade, eu só devolvi o seu. – Ele me corrigiu com a mesma naturalidade de sempre.
Dessa vez, ergui uma sobrancelha em estranhamento. De onde ele tinha tirado essa ideia?
— Não, Izumi pegou ele no seu quarto. Você me deu o seu.
Mas Itachi apenas balançou a cabeça.
— O meu está em Nakai. Encontrei ele lá quando fui arrumar a casa depois daquele seu quebra-quebra de meses atrás. – Ele ergueu as sobrancelhas rapidamente para mim, provavelmente ainda me julgando por não tê-lo ajudado na arrumação da minha própria bagunça. Ops. – Esse que você pegou estava junto com as suas coisas que o hospital me entregou quando você estava em coma. Aquela época foi uma loucura, e só esqueci num canto qualquer porque não pensei que umas roupas manchadas de sangue teriam alguma relevância. Se não tivesse esquecido, talvez teria até jogado fora. – Ele retornou o olhar para o omamori, agora carregando um sorriso de gratidão. – Bom, ainda bem que esqueci. O omamori acabou te salvando.
— Oh. – Sakura, que estava quieta até o momento, reagiu.
Olhei de canto para ela, apenas para confirmar que ela tinha os olhos arregalados e a mão tapando a boca aberta. Sabia exatamente como ela estava, porque eu me sentia da mesma forma.
Então, foi o omamori que Sakura me devolveu na noite em que ela foi morta que acabou impedido desse capítulo ser finalizado com mais uma tragédia. Graças a ela, o ciclo de mortes causado por aqueles homens teve o seu fim. Meus dedos e rosto formigam pela sensação causada pela constatação dessa peça montada pelo destino.
— Você tem razão. – Concordei com o meu irmão. – No dia em que tou-san e kaa-san nos deram os omamoris, você disse que ele recebe toda a má sorte por nós. Ainda bem que esse omamori voltou pra mim. Sou grato por isso.
Esperava que Sakura entendesse o agradecimento. De qualquer forma, em outro momento eu iria agradecê-la de forma mais apropriada. Ela merecia.
— Eu também. – Itachi disse com um sorriso afável estampando seu rosto. – E fiquei sabendo que você deu um tiro em um daqueles homens também. – De repente, ele era o irmão responsável. – É verdade isso?
— Foi autodefesa! – Disse levantando as mãos. Eu não queria de verdade atirar, apesar daquele cara com certeza merecer, mas precisei agir por instinto: era ele ou eu. – Ele… está vivo? – Perguntei temeroso pela resposta.
Tinha uma forte impressão de que aquilo não teria acabado bem para o homem da faca borboleta. O jeito que ele caiu no chão tão imediato, sem mover um músculo, não era bom sinal.
— Sim, e parece que está estável. – Foi como se eu pudesse respirar novamente. Eu não era um assassino, afinal. – Mas você ainda vai ter que prestar depoimento, obviamente. – Encolhi os ombros ao entender que ainda sofreria um processo legal ou algo do tipo, afinal, eu havia usado uma arma de fogo e machucado alguém. – E pensar que você teve que pegar numa arma para lutar por sua vida. – Estava tão distraído com os meus futuros problemas que não notei a mudança na expressão de Itachi para uma pesarosa. – Desculpa por não estar lá por você.
— Não tinha como você saber, ou qualquer um. – Falei rápido e com firmeza para que ele entendesse que eu não tinha qualquer ressentimento ou culpa. – Os errados nessa história são aqueles caras.
Não tinha como culpar ninguém além daqueles homens. Eu passei muito tempo procurando motivos para me culpar pela morte dos nossos pais, não deixaria Itachi se meter nesse mesmo buraco por algo que passei.
Itachi piscou algumas vezes para mim, processando as minhas palavras. Seu semblante se iluminou um pouco.
— Você tem razão. – Ele parecia até grato. – A culpa é toda deles. Falando neles, a polícia já conseguiu identificar todos os três. – Ele tirou o celular do bolso e começou a ler algo. – Eles não são yakuzas, mas parece que têm alguma ligação com eles. Por isso as armas.
— Ah, faz sentido. Nunca entendi de onde eles haviam tirado as armas (N/A: no Japão, é muuito difícil ter acesso a armas de fogo, é raro ver até mesmo policiais armados).
— Izumi veio comigo. – Ele fechou o celular com um estalo e voltou sua atenção totalmente para mim de novo. – Está lá fora comprando tempo com o policial para eu conseguir conversar um pouco com você antes. Quer contar o que exatamente aconteceu?
Tomei um ar – com cuidado – e olhei para Sakura. Para Itachi, eu devia estar apenas olhando para o nada e relembrando, ao invés de estar apenas tirando dela coragem para reviver um acontecimento que ainda estava tão fresco em meus nervos. Comecei a contar da caminhada na marina antes da ida ao parque com o pessoal, de como reconheci o homem com a cicatriz feita pelo nosso pai e fui direto para uma armadilha ao agir por impulso.
— Parece que eles estavam de olho em você para aproveitar o momento certo para dar o bote. – Itachi analisou, colocando a mão sobre o queixo. – Sabe-se lá se eles não estavam te rondando ainda em Tokyo e achávamos que eles eram apenas repórteres. – Os olhos dele se arregalaram, horrorizados.
Sabia que estava espelhando a expressão dele. Sentia arrepios pelo corpo inteiro só de pensar naqueles homens me vendo de longe enquanto ia para a escola ou saía com os meus amigos. Que perigo todos corremos e que bom que eles são covardes o bastante para apenas querer me pegar sozinho.
— Podemos levantar essa possibilidade com a polícia. Eles podem tentar ver isso. – Sugeri.
— Com certeza. – Meu irmão concordou. – Nossa, que bom que eles estão presos. – Ele passou a mão pelos cabelos, soando exasperado. – Bem, um está preso e os outros dois estão internados, mas já estão sob custódia da polícia. – Ele se corrigiu. – Como isso aconteceu?
Ok, um foi a minha culpa, mas o outro foi totalmente culpa da Sakura em seu “Modo Assombração”.
Infelizmente, tive que tirar os louros de Sakura e me fingir de desentendido ao explicar sobre o peixe gigante que despencou sobre um dos homens e como os outros surtaram ao ver alguma coisa que os fez começar um tiroteio unilateral pelo mercado. Pobres pessoas que teriam que limpar aquela bagunça de água, vidro quebrado e madeira agora decorada com buracos de bala.
— O que eles tentaram fazer com você é chamado de burking. – Itachi parecia ter congelado na parte em que quase fui sufocado e não deu muita atenção ao terror pouco justificado pelo qual os homens passaram no mercado. – É uma tática antiga de assassinato que não deixa vestígios, faz parecer com que a pessoa morreu de causas naturais. – Ele cruzou os braços, claramente desconfortável. – Se eles queriam forjar seu suicídio, provavelmente só te deixariam incosciente com esse método e te jogariam no mar para se afogar.
Aquele raciocínio me lembrou uma sequência de acontecimentos. De repente, foi como ver a imagem de um grande quebra-cabeça finalmente montado.
— Foi o que fizeram com Sakura. – A minha garganta apertou com a constatação e olhei para ela, que parecia ter chegado à mesma conclusão a partir da fala de Itachi.
— Sakura? – Itachi perguntou, confuso. – A menina que se matou?
Não tive nem como me impressionar com o fato de Itachi lembrar do nome de uma menina que foi correlacionada ao caso de nossos pais um ano atrás. Só consegui dar atenção a como meu sangue ferveu com a forma que ele a associou.
— Ela não se matou! – Quase me arrependi de me exaltar, as costelas rapidamente me lembraram que eu não podia me dar ao luxo. – Eles a mataram porque ela estava me ajudando!
Itachi me olhou perplexo. Sakura parecia acompanhá-lo por conta do meu rompante.
— Ajudando? – Ele perguntou.
— Eu me lembro dela. Eu sobrevivi àquela noite graças a ela. – A voz quis embargar, tentei afastar a culpa pelo que aconteceu com ela graças a isso.
— Espera, você não tinha me contado sobre isso. – Itachi se aproximou um pouco mais, intrigado.
— Eu lembrei depois disso tudo. Esse omamori é o meu, não é? – Ergui o amuleto na direção dele para enfatizar. – Eu o dei pra ela quando éramos pequenos e ela me devolveu naquela noite!
Isso não podia ficar em segredo. As pessoas tinham que saber que Sakura foi uma heroína, não uma donzela trágica. Ela merecia isso.
— Sasuke. – Itachi falou, abismado com as informações inesperadas. – Você a conhecia?
— Conhecia, mas não muito… É complicado. – Conheci bastante depois, mas isso eu não teria como explicar.
— Isso é muito sério. – Itachi ajustou sua postura, refletindo com sisudez. – A família dela por todo esse tempo vem achando que ela se suicidou. Sem contar que esse é mais um crime para aqueles homens serem responsabilizados. – Seus olhos me encararam banhados com convicção. – Temos que levar justiça a ela.
— Já falei que gosto muito do seu irmão? – Sakura perguntou, ainda ao meu lado.
Apenas sorri, tanto pela determinação de Itachi como pela admiração de Sakura, da qual eu sem dúvida compartilhava.
Meu irmão é o melhor.
— Otou-san! Okaa-san! – Sakura foi a primeira a notar a chegada dos pais no ponto em que marcamos no cemitério de Nakai.
Ela disparou em direção aos dois, e eu me ter me virado para acompanhar a movimentação dela chamou a atenção de Itachi, que acabou notando os dois que chegavam.
— Mebuki-san, Kizashi-san, agradeço imensamente por concordarem com este encontro. – Itachi fez uma reverência baixa ao casal. Tentei espelhar o movimento dentro de minhas possibilidades.
— Não precisa agradecer. É o mínimo que podemos fazer depois dos seus esforços com a polícia. – A mãe de Sakura, Mebuki, também fez uma reverência a Itachi. O homem que obviamente era o pai de Sakura, dados os olhos e o cabelo, a seguiu de imediato.
— Não temos como agradecer o suficiente por nos ajudar a entender o que aconteceu com a nossa filha. – Ele disse, ainda de cabeça baixa.
— Depois do que Sakura fez pelo meu irmão, qualquer esforço é válido. – Itachi respondeu de maneira solene.
Com todos devidamente cumprimentados, passamos a percorrer os caminhos empedrados que serpenteavam sotobas e sepulturas. A lápide da família de Sakura não era tão distante da lápide dos Uchiha. Apenas algumas dezenas de metros dividiam os pontos de descanso das duas famílias.
— Sakura ficava apreensiva com cemitérios desde quando perdeu o avô. – O pai de Sakura, Kizashi, comentou com um riso melancólico. Ele parecia ter um sorriso fácil. Imaginei como ele seria, então, antes de perder a filha. – É irônico virmos aqui falar dela, talvez ela fosse preferir passear no lago perto de casa.
— Tenho certeza de que ela está feliz que viemos visitar o túmulo dela. – Itachi ofereceu, sempre com as respostas mais certeiras na ponta de língua.
— Não tenho dúvidas. Com essa correria de reabertura do caso dela, ficamos sem tempo de vir aqui. – Mebuki riu consigo mesma, apesar daquele gesto parecer um pouco distante da leveza que deveria transmitir. – Sakura deve estar até chateada conosco.
— Okaa-san… – Sakura soltou, obviamente triste pela mãe.
Meu coração se apertou pela situação daquela família. Sakura estava bem ali e não tinha como alcançar seus pais para consolá-los. Eu não sabia o que dizer para os pais da garota que perdeu a sua vida por me salvar. Eu era um órfão por ter perdido meus pais, mas o que Mebuki e Kizashi eram após ter perdido a Sakura? Nem havia um nome para descrever o que eles eram agora, e duvido muito que conseguiria arranhar a superfície do que era o que eles passavam.
Ora, ao menos eu podia transmitir os sentimentos de Sakura para eles. Se eu tinha essa conexão entre os dois planos, qual seria a dificuldade de ser o mensageiro deles?
— Duvido um pouco. – Interrompi a trilha triste de pensamento de Mebuki. – Contanto que vocês a mantenham em seus pensamentos, acho que ela nunca se sentirá só.
Mebuki e seu marido me olharam surpresos, e então ela abriu um sorriso meigo que muito se parecia com o que Sakura me lançava às vezes.
— Ora, você é um rapazinho vivido, não é?
Dei de ombros. Se por “vivido” ela queria dizer que eu também sabia como era lidar com a perda de alguém próximo, então estávamos no mesmo barco.
— Demoraram meses até que eu viesse visitar o túmulo dos meus pais, mas eu sei que eles perdoaram a minha negligência. – Eu contei para os meus pais pelo que passei, com certeza foram compreensíveis comigo.
— Tenho certeza de que sim, cada um ao seu tempo. – Kizashi lançou um sorriso mais aberto que o da esposa. Também lembrava outros sorrisos de Sakura. – E ninguém sabe melhor disso do que um pai.
Eles pareciam ter sido ótimos pais para Sakura. Com certeza não mereceram o que o destino desenhou para a família. Meu peito se apertou ao me simpatizar por eles mais uma vez.
Quando me dei conta, já estávamos na frente de uma grande pedra retangular, recentemente polida. O nome “Haruno” estava em destaque, mas logo localizei o nome de Sakura esculpido em caracteres menores. Meu estômago reagiu de imediato à visão. Aquela era basicamente a primeira manifestação física do falecimento de Sakura. Estar junto a ela sempre me fez normalizar sua presença e afastar a ideia da morte, mas aquela lápide esfregava na minha cara a dura realidade.
— Oi, Sakura. – Mebuki disse, estendendo sua mão até o nome da filha. – Otou-san e okaa-san demoraram um pouco mais que o normal, desculpa.
— Trouxemos uma sobremesa pra você. – Kizashi disse numa sedosidade que se destacava. – É umeboshi, um dos seus favoritos. – Ele tirou um pote de dentro da bolsa da esposa e o abriu, logo o posicionando na pedra de base do túmulo destinada a oferendas. O cheiro característico do umê invadiu minhas narinas.
— Que cheirinho de casa! – Sakura abraçou a si mesma, os dedos apertavam forte seus próprios braços e tremiam um pouco. Imaginava como a nostalgia e a saudade bateram forte naquele momento.
— Que você esteja bem! – O pai de Sakura bateu as palmas das mãos para iniciar suas preces para a filha e todos nós seguimos o mesmo gesto, talvez só não com tanto afinco.
Era um pouco estranho fazer preces para uma pessoa que estava ali, bem na minha frente, mas busquei focar meus pensamentos no que desejava para Sakura, de qualquer modo. Não só isso, como nos meus sentimentos por ela. Olhando onde estamos e onde começamos, o laço que nos conectava ganhou elasticidade, complexidade e consistência. Ela foi da garota com quem me esbarrei por acaso na infância para a primeira coisa que procuro ao acordar. Era incrível a forma como ela me cativou e agora não conseguia pensar em minha vida sem a sua companhia.
E pensar nas coisas pelas quais ela já passou para me ajudar, mas acho que ela faria o mesmo por qualquer um, bastava lembrar do episódio do gato de quando nos conhecemos ou todas as vezes em que ela me ajudou a assistir alguém. Ela era uma pessoa altruísta por natureza. Era verdadeiramente lamentável o mundo tê-la perdido tão cedo, cabia a mim agora arrumar uma forma de continuar o seu legado.
— É uma pena não poder trazer o omamori de Sakura para vocês. A polícia o pegou como prova para o processo. – Praticamente me desculpei após todos finalizarem suas respectivas preces.
O omamori era uma lembrança da filha deles, afinal. Ela ficou com ele mais tempo do que eu.
— Não se preocupe com isso. A Sakura te devolveu, não foi? O desejo dela era que ele ficasse com você. – Mebuki pôs a mão sobre a parte de trás do meu ombro, os dedos esfregaram de leve sobre o tecido da blusa.
Era um toque carinhoso e quente, claramente maternal. Deixei que ela continuasse, afinal, não era sempre que se conseguia isso – e Sakura provavelmente não conseguiria mais., tal como a mãe de Sakura não poderia reproduzir mais qualquer gesto de carinho físico pela filha única. Minha garganta começou a doer com o nó que ali se formou.
— Sim, e eu só estou aqui graças à gentileza de sua filha. – Meus joelhos desceram mais devagar do que eu poderia para evitar desconforto nas costelas. Levei as mãos em paralelo ao chão e inclinei a cabeça até que a testa se apoiasse contra o piso de pedra. – Não há nada que eu faça numa vida inteira que possa pagar essa dívida.
Aquele era um gesto de respeito, humildade e gratidão. Era tudo que sentia em relação a Sakura e aos seus pais, que também tanto perderam. Necessitava que esses sentimentos chegassem a eles.
Uma sombra cobriu a pedra que ocupava minha visão. Senti a mesma mão de antes tocar meu ombro com delicadeza e me guiar para cima. Segui seu direcionamento e me deparei com o rosto da mãe de Sakura à minha altura: ela estava ajoelhada à minha frente. A mão dela subiu do ombro até o meu rosto e envolveu minha bochecha. O polegar deslizou suavemente sobre a pele e apanhou uma lágrima solitária que escorria sem eu perceber. Isso acontecia muito ultimamente, de uns tempos para cá.
Hizashi se ajoelhou ao lado da esposa e depositou em meu ombro uma mão firme e protetora, mas ainda assim afetuosa, como um pai que acolhe o filho.
— A sua vida era preciosa para a Sakura, então é para nós também. – Mebuki disse ao me puxar suavemente entre seus braços e me segurar em seu calor. Senti os braços do pai da Sakura me envolvendo também. – Pra mim, a sua vida é uma extensão dos sentimentos dela, de certa forma.
— E isso é muito mais do que poderíamos imaginar ter depois de perdê-la. – Hizashi declarou.
Cabelos róseos invadiram minha visão quando Sakura também se abaixou e envolveu nós três em um grande abraço. Apesar de ninguém poder senti-la, tive a impressão de que aquele contato ficou mais quente, aconchegante. Ergui meus braços para enlaçar os pais de Sakura também e retribuir o gesto deles.
— Obrigado. – Sussurrei a eles. Meus olhos encontraram os de Sakura, aqueles orbes verdes transbordavam tantos sentimentos que eu queria poder abraçá-la de verdade. – Significa muito.
— Sasuke, você não vem? – Itachi perguntou quando todos começaram a caminhar para sair do cemitério e eu continuei parado diante do túmulo da família Haruno.
— Vou depois. Quero ficar um pouco aqui. – Respondi sem tirar os olhos das inscrições na pedra escura.
— Tudo bem. Estaremos perto do cemitério caso precise de algo. Vamos ainda debater sobre o processo.
Ouvi os passos se distanciarem aos poucos, e o máximo que me permiti foi sentar no chão ali mesmo, de pernas cruzadas, mas não tirei os olhos da lápide que continua o nome de Sakura entalhado.
Não sei por quanto tempo fiquei ali, observando cada sulco feito na pedra. Os pensamentos rodavam entre a morte e a vida, o próximo e o distante, afinal, era ali onde as cinzas de Sakura estavam depositadas. Esse era o mais próximo fisicamente que eu poderia estar dela.
— Estando aqui, você consegue me sentir mais perto de você? – Perguntei a Sakura, mas ainda não deixava de encarar seu túmulo.
Não ouvi a resposta de Sakura de imediato. Ficamos apenas com o silêncio do cemitério, que por vezes era interrompido pelo chilrear de aves ou zumbidos de insetos típicos do verão. Não a pressionei e me deixei, enquanto aguardava, meditar sobre o que o túmulo de Sakura me invocava.
Em um dado momento, ouvi Sakura suspirar profundamente e caminhar poucos passos até o seu túmulo, à minha frente, onde me espelhou ao sentar no chão. Suas costas apoiaram contra a base da lápide, onde o umeboshi continuava intocado.
— Sasuke-kun. – Ela me chamou e seu semblante era pesado, o que me causou estranhamento, já que ela acabara de ter um momento com os pais. – Você disse que vai viver por nós dois… – Ah, então ela iria falar da promessa que fiz quando me declarei em Wakayama. – Você merece ter uma vida normal, casar, ter filhos… isso comigo é impossível.
Foi como se pedras de rio tivessem sido despejadas em meu estômago. Então, cá estava Sakura mais uma vez querendo se sacrificar por mim e abrir mão de seu tempo restante presa na terra – o meu tempo restante de vida – comigo.
Lembrei de quando eu achava injusto o fato de Sakura estar morta e eu estar vivo, de como talvez valesse a pena eu ao menos morrer para que Sakura pudesse transcender para o plano seguinte. Não que isso tenha tirado a melhor reação dela, mas a intenção que eu tinha era sincera e completamente altruísta. Pensando melhor, já fazia muito tempo que eu gostava dela a ponto de querer me sacrificar pelo bem dela também.
— Sakura, se eu fui capaz de chegar até aqui é porque você me faz acreditar que vale a pena morrer por você... – Ela chegou a abrir a boca para protestar, mas fui mais rápido para me completar. – E se eu tenho algo pelo qual morrer, quer dizer que tenho algo pelo qual viver. – A expressão dela metamorfoseou de indignação para choque de um instante a outro. Era o momento para eu cravar minha posição a respeito de nós dois de uma vez. – Desde quando começamos a conviver, eu não estou encontrando a paz só por ajudar os outros ou superar a morte de meus pais, eu encontrei a paz em você. Por isso, eu escolho você para fazer essa jornada comigo, seja lá quanto tempo ela dure ou o quão incomum ela seja. – Meu coração palpitava sem controle em meu peito. – Você aceita?
Já dizia o poeta que sempre lutamos por coisas proibidas e desejamos as que nos são negadas, não é mesmo? Não éramos exceções desses dito, muito pelo contrário.
As esmeraldas de Sakura aumentaram de tamanho ao se arregalarem. Era possível ver sua respiração desnecessária mudando de intensidade. Seu rosto foi ganhando coloração conforme ela processava minhas palavras e entendia o que eu de fato estava propondo naquele momento. Não consegui evitar de me sentir afetado também, com as expressões de Sakura tão transparentes na minha frente.
Ela então se levantou e se afastou do próprio túmulo, daquele lugar que não lhe pertencia. Seus olhos estavam vidrados em mim a todo momento e continuaram assim quando ela se agachou diante de mim. Suas mãos imateriais subiram ao meu rosto, tentando me acariciar sem sucesso, mas suas intenções ainda levantaram um calor dentro do meu peito e me inclinei contra o toque que não sentia. A intenção, no nosso caso, era somente o que contava.
— Uchiha Sasuke, você é a pessoa mais teimosa que já conheci, mas também é a mais gentil e nobre. – Sua voz embargou um pouco e seu sorriso aumentou. – Eu aceito, sim!
Sorri de volta para ela, contente que concordávamos em seguir juntos pelo mesmo caminho: eu, antes quase morto e ela, já morta, porém disposta a seguir vivendo comigo. Ambos tínhamos dançado com a morte à nossa maneira e isso também nos aproximava, e de forma única.
Dizem que, quando se está prestes a morrer, toda a sua vida passa diante de seus olhos. Mas isso não passa de uma grande mentira. O que passou na minha cabeça não foram os rostos das pessoas que eram importantes para mim, nenhuma lembrança apareceu como se fosse um filme, nenhuma frase ou palavra ecoou em minha cabeça. Não dá para pensar nessas coisas, é algo muito mais primitivo, intrínseco.
Eu apenas senti, foi de emoções que se encheu meu o corpo quando vi a morte prestes a me dar o seu beijo. E não era um sentimento de paz como também se costuma descrever – quem dera fosse. Era um turbilhão que talvez o mais exímio dos poetas consiga descrever um dia. Foi o medo, o desespero, ansiedade, angústia, horror, como nunca antes vistos, tão mais intensos e complexos, remoendo-se dolorosamente dentro do meu ser.
Nenhum ser vivo é mais o mesmo após experimentar tamanha sensação, uma vez que todos os outros sentimentos parecem ter se tornado, por analogia, entorpecidos.
Isso foi verdade na minha vida por muito tempo. Sakura estava certa quando disse que, quando nos apegamos ao passado, perdemos o futuro.
Bem, eu estava mais do que disposto a batalhar pelo meu futuro, e com Sakura ao meu lado.
— O Sasuke já pode sair?
— Naruto, eu não tenho 5 anos. – Revirei os olhos ao ouvir o diálogo que se iniciou ao Itachi atender a porta.
— É porque você tá machucado! – Naruto retrucou, esticando o pescoço para me ver atrás de Itachi.
— Então pergunte a mim! – Cruzei os braços, completamente indignado. – Não ao Itachi como se estivesse pedindo permissão.
— Você reclama que nem um velho! Nem parece que tá fazendo 15 anos, ttebayo. – Ele pousou as mãos sobre os quadris, soando ainda mais indignado.
— Então você pode ter 5 ou 85 anos? Realmente, nunca se sabe quando as pessoas falam suas verdadeiras idades. Principalmente namorados. – Sakura pôs a mão sobre o peito, fingindo estar chocada. Como sempre, uma traidora.
— Melhor não demorarmos muito, é uma viagem longa até Kawasaki. Os melhores fuurins podem acabar. – A Izumi apaziguadora e amante de sinos de vento entrou em ação.
O plano era fazer uma curta viagem para aproveitar o festival Fuurin-Ichi, no templo Kawasaki Daishi, que calhou de ser no período do meu aniversário. Não era nada que exigisse muito do físico e podia ser feito em grupo, então o evento caiu como uma luva.
— Pois é, não tem por que ficar enrolando. – Naruto balançou os braços numa gesticulação exagerada, como sempre. – O pessoal tá lá embaixo esperando pra dar o presente!
Um silêncio gritou no sala de estar, com direito a eco. De presente, eu não estava sabendo.
— Naruto... – Itachi bateu contra a própria testa e Naruto se encolheu de imediato, só então notando o que fez.
— Mas é óbvio que o Naruto é um empata-surpresa. – Sakura revirou os olhos tão forte que eles correriam risco de ficar presos atrás caso eles ainda fossem físicos.
Uma risada curta e forte escapou pelos meus lábios, mesmo eu os forçando fechados. Tentei tapar a boca para me conter, mas foi impossível me segurar com a visão de Naruto basicamente se desmanchando por dentro e o ímpeto de revolta de Itachi cada vez mais palpável.
— Bom, de qualquer forma, é melhor não deixar eles esperando. Tá um calor infernal lá fora. – Disse, já pegando as minhas coisas para sairmos, o que engatilhou Itachi e Izumi a fazerem o mesmo.
Izumi foi a primeira a sair e a se juntar a Naruto do lado de fora. No corredor do prédio, conseguia ouví-la reclamando algo com Naruto. Essa gafe provavelmente o seguiria por muito tempo.
— Vamos? – Itachi me chamou, já da porta de saída.
— Já vou, só mais uma coisa. – Pedi tempo enquanto já me dirigia até o butsudan de meus pais, que agora ocupava uma boa parte da parede lateral da sala. Toquei na moldura do porta-retrato ali posto e sorri para os os rostos que estavam estampados. – Kaa-san, tou-san, ittekimasu.
Não esperava escutar uma resposta, podia senti-la.
— Sasuke-kun?
A voz de Sakura soou no vazio. Antes mesmo que meus olhos se abrissem, eu já sabia que havia algo fora do normal pelo tom usado por ela. Anos de convívio faziam com que ler os jeitos e trejeitos de Sakura fossem tão naturais como respirar. Dito e feito: ela estava mantendo uma certa distância de mim, uma mão segurava o outro braço. Não era assim que ela se comportava pela manhã.
— Hey. – Ela sorriu quando nossos olhares se cruzaram, mas havia algum peso ali.
— O que foi? – Levantei da cama, preocupado. – Que cara é essa… – Minha fala se cortou quando notei que levantei da cama, mas meu corpo continuou nela, ainda adormecido. – O que aconteceu?! – Esbravejei no susto.
Sakura parecia transparecer mais tristeza (era isso que estava pesando o seu sorriso, afinal) ao soltar o braço para erguer a mão e apontar para a própria cabeça, bem na direção de onde nós dois sabíamos muito bem que era onde estava em mim a cicatriz deixada pela bala que me atingiu naquela noite.
Então, foi como se um balde de água gélida tivesse sido despejado sobre mim. Eu não estava apenas dormindo na cama, não é?
E pensar que as pessoas romantizam e desejam morrer enquanto dorme. Não é nem um pouco menos desesperador você morrer de surpresa.
— Ei, tá tudo bem.
Sakura deu um passo na minha direção, mas não mais que isso. Ela estava um pouco inclinada para entrar em meu campo de visão, e foi muito bom ter algo a mais para focar além daquele corpo inerte que agora eu conseguia notar que estava acinzentando.
Céus, o que será do Itachi quando ele for me acordar e descobrir?
— Mas Itachi… – Engasguei.
— Ele vai ficar triste. – Sakura respondeu rápido, mas delicada como uma pena. – Mas ele não está sozinho.
Era verdade, Itachi ainda tinha Izumi. Eles se casariam assim que terminassem suas graduações, e estava tão perto.
— ... Você tem razão. – Não consegui evitar de olhar mesmo que rápido para o corpo imóvel na cama. Não conseguia me acostumar com aquilo. – Naruto e os outros vão ficar mal. – Lembrei dos outros que sentiriam a minha partida.
— É verdade. – Sakura simplesmente concordou, se aproximando mais um pouco. – Mas eles têm uns aos outros. Eles vão enfrentar o luto juntos, vão superar a sua partida e ficar mais unidos do que nunca porque vão entender como é importante ter bons amigos.
Uma risada melancólica escapou por um pequeno sorriso. Cultivamos muitas memórias boas juntos. Como fui sortudo em tê-los comigo durante esses anos.
— E eles foram bons amigos.
Sakura acenou com a cabeça para concordar, seu sorriso acompanhando a minha melancolia.
Entendendo que minha partida não era inviável, olhei novamente para a cama e não me senti incomodado com o que vi dessa vez. Aquilo era só uma casca, eu ainda era a minha essência, e na forma mais pura, agora. Tentei ajustar um pouco o cabelo eternamente rebelde daquele corpo atualmente desocupado, ou talvez fazer uma carícia de agradecimento para me despedir, mas o toque nunca aconteceu.
— Quando se sentir pronto, a gente parte.
“A gente” ressoou em minha cabeça e então, por fim, me toquei no que aquilo implicava, no que era mais importante: Sakura finalmente poderia ser livre.
— Sakura, finalmente você pode- – Não consegui completar a constatação, de tanta emoção que me enchia e chegava a transbordar.
Ela sorriu e estendeu sua mão à minha frente.
— Acho que isso é o menos importante nesse momento. – Sua voz saiu quase num sussurro.
Ansiedade borbutava de meus poros. Encarei aquela mão que nada parecia de diferente do normal, estaria mesmo ela física agora? Meio incrédulo e temeroso pelo desconhecido, estiquei minha mão até relar na ponta dos dedos de Sakura. Quando nossas peles se sentiram, uma corrente elétrica se estendeu pelo corpo inteiro e pulei com a sensação. Sakura teve a mesma reação,.
Uma risada incrédula redesenhou o seu rosto e os olhos ganharam mais brilho. Como ímãs, nossas mãos se reconectaram.
— Faz tanto tempo que eu quero isso…! – Os dedos e as palmas se contornavam e agarravam com força, cada um buscando pelo par como se um fosse a fonte encontrada no meio do deserto do outro.
— Eu também. – Soltei baixo, junto com a respiração, completamente tomado pela euforia.
Buscando por mais, entendendo que finalmente poderíamos ter mais, nossos corpos se uniram num abraço. Era quente, como estar por fim em casa. Podia sentir o cheiro dela, a maciez de seu cabelo e dedilhar o contorno que os ossos faziam no ombro. Afundei a face contra as madeixas, inspirei o seu perfume e me deixei a textura ser sentida na sensibilidade da pele do meu rosto.
Nossos braços apertavam ainda mais e assim ficamos por um tempo, só sentindo a silhueta do outro contra si, batalhando pelo espaço ocupado por qualquer ar que ousasse ficar entre nós dois. Conseguia sentir o coração de Sakura palpitando contra o meu peito e tinha certeza de que ela também conseguia sentir o meu. O enlaçar era forte a ponto de impedir a respiração, que percebi que não necessariamente acontecia, afinal, não precisava mais dela.
Uma curta risada escapou ao notar as diferenças desse plano.
— É tão estranho. – Sorria que nem um bobo, encarando como meus braços deformavam o tecido da blusa de Sakura e ainda afundavam contra a pele. Tudo era tão diferente, mas, ao mesmo tempo, tão semelhante.
— Você se acostuma, vai por mim. – Desfizemos o abraço, com certo custo desunindo nossos corpos, mas nossos braços continuaram conectados. Sakura me deu uma piscadela, afinal, ela já tinha experiência nessa história de ser espírito.
Agora prestando mais atenção no que eu via, notei como os olhos de Sakura pareciam ainda mais verdes e cristalinos. Aqueles olhos pelos quais me apaixonei estavam mais vivos do que nunca. Eu me sentia assim também.
Levei as mãos ao rosto dela, sentindo a pele macia e cálida. Sakura se inclinou em direção ao carinho, uma pequena lágrima de felicidade escorrendo de seu olho.
Inclinei até alcançá-la e nossos lábios se tocaram. O contato era delicado e almofadado, mas o que senti foram fogos explodindo, como os que vimos no primeiro Ano Novo juntos, só que dentro de mim. Os braços de Sakura me enlaçaram e ela abriu os lábios para me envolver ainda mais. Meu rosto aqueceu com chamas que não ardiam e os fogos não paravam de explodir em completo júbilo. Em algum momento, até parecia que estava transcendendo. Talvez realmente estivesse.
Então, era essa a sensação de estar morto...? Não. Eu estava morto antes. Morri junto com os meus pais naquela noite. E, por mais irônico que isso pareça, foi uma garota que já estava morta que me fez voltar a viver. Agora, seria apenas a continuação disso, só que de mãos dadas com ela.
Agora, eu ia recomeçar a viver, pois, finalmente, estaria junto eternamente com quem eu amo, com que eu ansiava poder tocar...
Finalmente, a morte nos uniu.
Fim?
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