Meus pais estavam de férias e queriam aproveitar o máximo possível, claro, me arrastando junto. Estávamos viajando o dia inteiro, meu pai dirigia, minha mãe mudava a música no rádio e eu, no banco de trás com meus fones no ouvido, encarava a janela como se não desejasse estar ali. O sol estava se pondo quando chegamos na pousada.
O muro que cercava o lugar era coberto de Unha de Gato e as árvores deitavam seus galhos por cima dele. O alaranjado do sol junto com as sombras projetadas pelas copas das árvores fazia um show à parte.
Depois de passarmos pelo portão principal, descemos do carro e fomos recebidos por um chofer e outro funcionário responsável por levar nossas bagagens. Tínhamos ainda que percorrer um caminho até chegar na recepção da pousada. Era uma estrada de pedra que passava no meio de um lindo jardim. Belíssimas flores preenchiam o espaço, árvores frondosas davam um ar de mistério, um rio de águas cristalinas cortava o caminho que, para atravessá-lo, foi construída uma ponte de madeira ornamental. O lugar era imenso e extremamente belo!
Ainda no caminho, enquanto admirava todo o lugar, uma família, dentre tantas outras que se encontravam ali, me chama a atenção. Um casal, aparentando ter a mesma faixa etária dos meus pais, tirava as malas do carro, mas não era isso que me cativava. Uma garota os acompanhava, usava um vestido branco rendado e o cabelo solto que voava com o vento. Ela parecia estar muito animada com tudo aquilo, diferente de mim que desejava voltar pra casa o mais rápido possível.
Depois do longo percurso, finalmente entramos no recinto. Fomos atendidos pela recepcionista que nos entrega as chaves dos quartos. Acompanhados por um guia, fomos apresentados a todos os cômodos da pousada. Piscina, quadra de esportes, o jardim e a praia que ficava atrás do edifício. Enfim chegamos aos nossos quartos. Eu fiquei em um ao lado dos meus pais, embora o deles seja bem maior que o meu. Todos tinham vista direta para o mar.
A noite acabava de chegar e antes de despacharmos a bagagem, o guia nos convida para uma espécie de Luau que a pousada promovia no início de cada temporada. Meus pais nem pensaram duas vezes e já aceitaram, me intimando a ir também.
Assim que terminamos de nos acomodar e tomado um bom banho, fomos até o ‘’salão’’ de festas onde aconteceria o evento. Era um espaço totalmente aberto, sem teto, sem paredes, o chão era um gramado rasteiro e somente uma cerca baixa limitava o lugar, caso contrário daria direto na praia. Alguns funcionários montavam o palco, outros acertavam o sistema de som, no centro, diversas mesas e um bar ao lado. Escolhemos uma mesa e ficamos vendo as pessoas chegarem aos poucos.
A noite era estrelada ali, diferente da cidade, os garçons passavam de mesa em mesa servindo comidas e bebidas, a banda repassava o som, mas nada de muito emocionante acontecia. Num instante, todas as mesas já estavam ocupadas. Pouco tempo depois, o casal que vi antes chegou na festa junto com a garota. Ela tinha trocado o vestido por um short jeans e uma blusa regata amarela, o cabelo estava amarrado com uma presilha em forma de flor. Não sei se era sorte ou azar meu, mas eles acabaram sentando numa mesa ao lado da nossa.
A banda alternava entre Elvis e umas músicas no estilo havaiano. As pessoas conversavam, se conheciam, casais levantam pra dançar e isso incluía meus pais. Passaram-se uns 30 minutos desde que a festa havia começado e eu estava gostando cada vez menos de estar ali. Os músicos então resolvem mudar o repertório. Eu fiquei surpreso pela quebra de ritmo repentino, trocaram o Rei do Rock pelo Ed Sheeran. Nada contra, até me agrada mais. Fizeram um arranjo com a música Perfect que deixou, na minha opinião, melhor que a original.

— EU AMO ESSA MÚSICA!!

Para minha surpresa, quem acabara de gritar era a garrota de antes. O som estridente percorreu todo o recinto chamando a atenção de todos. Ela se levanta da cadeira no momento em que um garçom passava com uma bandeja de bebidas. Lembra que eu falei se era sorte ou azar meu? Bem, isso se aplica agora, pois ela estava sentada exatamente atrás de mim. Adivinha o que aconteceu? Isso mesmo, ela bate no garçom que derruba toda a bandeja com as bebidas na minha cabeça.
A banda no mesmo instante parou a música. Todos focaram na cena patética em que eu estava. Na verdade, eu era a cena patética.

— Senhor, por favor me perdoe, não foi por querer!! – Repetia o garçom, a única vítima de tudo isso.

— Tudo bem, ta tudo bem! Você não teve culpa de nada. – Falei com um sorriso no rosto escondendo todo o ódio que eu sentia.

— Cê ta bem? –Perguntou a garota.

Meus olhos se encheram de raiva na hora. Como que alguém vê a situação em que eu me encontrava e ainda faz uma pergunta idiota dessas?

— Claro que não ou você é cega?!

Olhei para os meus pais que estavam na frente do palco dançando. Eles não sabiam se riam ou ficavam preocupados com o que aconteceu. Levantei da cadeira e o único pensamento que eu tinha era em sair dali o mais rápido possível.

— Vou para o meu quarto! Até amanhã!

— Filho, espere, eu vou com você. – Minha mãe pensava que a presença dela me consolaria nessa hora.

— Não precisa, eu sei o caminho!

Assim que cheguei no quarto fui logo tomar um banho. As bebidas misturadas criaram um cheiro forte que se alguém tivesse gripado, certamente sentiria. Passaram-se uns 20 minutos desde que eu saí da festa. Coloquei a roupa de dormir apaguei todas as luzes e quando estava prestes a deitar na cama eu escuto um barulho. Era como se alguém jogasse pedra no vidro. Com a luz do celular apontei para o único lugar em que podia acontecer isso, a porta do quarto que dava para a varanda com vista pro mar.
Como nossos quartos ficavam no térreo, depois da varanda, precisaria passar por diversos arbustos antes de chegar na praia. Abro as cortinas e ainda com a luz do celular, eu aponto na direção do matagal. Um arbusto se mexe e, num salto, uma criatura pula da escuridão. Na hora eu me assustei e acabei caindo sentado.

— Mais que...!

— Ei, diminui o brilho desse celular aí!

— Hã?!

— Ta tudo escuro aqui e você me vem com essa luz.

— Pera aí, eu conheço essa voz.

Me levanto do chão e acendo a luz do abajur no criado mudo. Agora podia ver claramente o que era. Colocando a mão no rosto tentando não ser ofuscada, lá estava ela. A garota da festa!!

Notas finais
Olá,pessoal! Essa história é um projeto meu criado na intenção de adquirir experiência na forma de narrar, criar personagens, diálogos e afins. Isso não significa que eu não leve a sério o trabalho, muito pelo contrário, é tempo e dedicação que estão sendo colocados em jogo. Enfim, eu to gostando bastante do resultado e espero que gostem também. Estou aberto a todo tipo de críticas. Agradeço desde já sua paciência!