Aswang e a Herança de Lótus
1 Capítulo 1- Os irmãos Clark
"Morrestes achando que amava.
Matastes pensando que era
amor.
Dominado pelo egoísmo da
paixão,
Nos fez ver que não te
conhecíamos como
deveríamos
e, por sua atitude,
demonstrou que não
conhecia o amor.
Descansem em paz."— William Shakespeare
Tudo parecia parte de um sonho. Um pesadelo na verdade, do qual eu não conseguia acordar. Estava afundando cada vez mais, porém, ninguém percebia. Procurava por ajuda nos olhos que me rodiavam, mas todos eles me pareciam vazios, sem formato distinto. O que a minha vida foi em tempos, e aquilo que se havia tornado, eram duas coisas demasiado distintas. Quase opostas. Todo o universo parecia conspirar contra mim, mas eu estava inocente. Não merecia tal punição.
Mesmo que Adriel já estivesse sentado do meu lado, assumindo uma posição tranquila e impenetrável, não me sentia totalmente descansada. O meu coração ainda palpitava enlouquecidamente contra o meu peito, a minha cabeça ainda latejava e as minhas pernas ainda não haviam recuperado as suas forças. Pamela cantarolava descontraídamente no banco da frente com apenas uma mão no volante, balançando a sua cabeça quase totalmente raspada, seguindo o ritmo da agressiva melodia. Era a única pessoa descontraída naquele carro, conseguia sentir o odor putrefato do medo nos bancos traseiros. Tentava manter a calma, enquanto via passar a paisagem cada vez mais rápido. Não conseguia imaginar a velocidade máxima que o carro de Pamela conseguiria alcançar, mas as suas mãos ágeis manuseavam o carro com destreza, atacando as curvas completamente segura.
Segurava contra o peito a carta de Miss Clark, com toda a força que ainda conseguia encontrar no meu corpo exausto. Ou como pedira para que a tratasse, com menos formalidade, de Miriam Clark. Ainda conseguia sentir o seu perfume doce e hipnotizante, enquanto me lembrava das suas exatas palavras de despedida: "Você tem uma longa jornada para percorrer. Tente não se perder de quem você realmente é." Essas palavras tinham sido proferidas na porta da velha mansão dos Olsen, minha família. Ou, como os gosto de nomear carinhosamente de meros desconhecidos, com a infelicidade de ter parentesco em comum. Por hora, a única coisa que conseguia identificar como sendo algo em comum entre mim e aquele grupo excêntrico de pessoas. Um bando de "idiotas mal vestidos", como o tio Paul sempre se tinha referido a eles.
Miss Clark, com os seus cabelos vermelhos curtos e os seus múltiplos colares e medalhões, havia se despedido de mim com um abraço apertado. Não sabia o quanto precisava dele, até entrar naquele carro e me sentir completamente sozinha, mesmo que me encontrasse acompanhada. Após uma longa viagem de avião feita à menos de quarenta e oito horas, não esperava estar prestes a começar uma outra tão cedo. Mas era necessário. Ainda nem havia tido tempo para respirar os ares campónios da pequena vila de Shrewsbury e já me encontrava encafuada em um carro minúsculo, com dois completos estranhos, que deveriam me proteger com a sua vida.
-Não é suposto você abrir isso agora.- reclamou Pamela, deixando bem claro pelo seu tom autoritário que desobedecer às suas regras não era uma opção. Suspirei indignada, guardando em seguida a carta no bolso interior do meu casaco, ainda sob aquele olhar atento manchado de lápis de olho preto. Depois de finalmente desviar o olhar, soltou um risinho abafado e ajeitou os seus piercings labiais com desdém.
-O que foi?- perguntei, abrindo a boca pela primeira vez em quase meia hora de viagem. Ela me olhou pelo espelho retrovisor, abrindo ainda mais o seu sorriso irônico. E depois de parecer pensar sobre o assunto, estalou a língua divertida e olhou para Adriel através do pequeno espelho.
-Quanto tempo você acha que essa vai durar?- perguntou ela, ignorando completamente a minha presença. Adriel levantou o olhar do seu livro de poemas pela primeira vez, e me olhou da cabeça aos pés, como se estivesse fazendo uma avaliação médica. Senti o meu corpo gelar perante toda aquela atenção, e percebendo o meu desconforto acabou por desviar o olhar e apenas responder secamente.
-Não sei ao certo, Pam. Veremos.
-Ah, vá lá Adriel! Vamos fazer uma aposta.- pediu ela, imitando uma voz irritante e infantil. -Eu aposto que ela morre de susto mal o vir. Eu digo dois dias no máximo.- depois de o dizer, aumentou o seu tom de voz e voltou a sua atenção para mim.- Talvez ainda consiga ver o Big Ben antes de cair morta no chão, florzinha.
-Ver quem pela primeira vez? Lótus?- quis saber, completamente confusa. Pamela fez questão de soltar o riso mais estridente que era capaz de emitir, e depois de soltar alguns "Você ouviu isso, Adriel? Ela é hilária!", voltou a ficar em silêncio e se dedicou inteiramente às curvas apertadas na sua frente. Lancei um olhar perdido a Adriel, que se limitou a abrir novamente o seu livro e desaparecer nos seus pensamentos.
Chovia torrencialmente no lado de fora, estremeci só de pensar em sair para aquele ambiente úmido e sombrio. Tentava relembrar todos os eventos do dia anterior, mas pareciam cada vez mais remotos. A minha viagem atribulada, a minha chegada à pequena Shrewsbury, a grande reunião familiar e o choque da verdade. Parecia que estava vivendo a vida de uma outra pessoa, como se a verdadeira Olivia estivesse apenas assistindo a tudo, como uma atenta observadora, que havia decidido assistir ao filme mais horripilante que conseguiu encontrar em cartaz.
Depois da morte dos meus pais, quando fui viver com o tio Paul em Manhattan, pensei que finalmente teria uma família. E agora estou aqui. A morte do tio tinha pegado todo o mundo de surpresa, até a mim, que convivia com ele todos os dias. Ele era extremamente parecido com a minha mãe, sua irmã mais nova, que tanto amava e presava. Ele adoeceu de um dia para o outro, uma doença repentina e silenciosa. Uma gripe, disseram os médicos, nada de preocupante. Infelizmente estavam errados, e Paul acabou por falecer apenas dois dias depois do diagnóstico, após uma crise de insuficiência respiratória. E agora absolutamente nada, vazio. Estava sozinha.
Havia passado dos braços dos meus pais para os dele, que me acolheram de coração cheio. E, à menos de 48 horas tinha sido entregue à familia Olsen, minha família da parte de mãe. Precisava parar de chamar eles de Olsen's, e sim de minha família. Nunca havia falado com eles antes, até à sete dias atrás, quando uma advogada mal humorada me avisou que eles estavam interessados em ter a minha custódia.
Os Olsen's (a minha familia ou o que restava dela) era composta por apenas quatro membros. A estranha prima Georgine, que havia enviado imensas cartas após a morte de Paul. A minha outra prima mais nova, Gleen, que espalhava ódio só com o seu olhar gélido e sombrio. E a tia Glória, uma mulher de meia idade com a cara mais fechada que alguma vez tinha visto. Três mulheres estranhas, sinistras e irreverentes. Todos os seus nomes começam por G, algo quase tão estranho como todas elas. E por fim, mas não menos importante, a Miss Miriam Clark. Que não era realmente família, mas que era uma das mais antigas amigas da mesma. Na verdade, os Clark sempre foram amigos dos Olsen's, por várias gerações.
Passado cerca de uma hora de viagem, comecei a avistar uma pequena formação de edifícios, de aspeto antigo e mal cuidado. Pamela parou o carro do lado de fora das grandes grades que nos separavam do terreno lamacento, e olhou com desagrado para a grande placa antiquada que anunciava "MOTEL RIOS&MARÉS". Não conseguia entender o porquê do nome, visto que em nenhum momento tinha visto um rio ou algo que se parecesse por perto. O céu já estava escuro, a lua já espreitava no topo das nossas cabeças e o frio já se começava a fazer sentir.
Pamela abriu a porta do seu lado e saiu para a escuridão, deixando entrar uma lufada de ar frio que me fez estremecer. Adriel não se moveu um único centímetro, continuando na mesma posição, de olhos fixos na sua leitura. Abri a boca e fechei-a logo em seguida, desistindo de perguntar fosse o que fosse. Ele não parecia disposto a conversar, pelo contrário, parecia tentar ignorar a minha presença. Não conseguia entender o porquê da sua saída, e me perguntava se seria ali que iríamos dormir. Na verdade já me havia perguntado sobre a dormida, mas tentava não me debater muito sobre esse assunto. Tentava manter a mente ocupada com pensamentos vagos, como se eles me conseguissem ajudar. Ainda haviam muitas perguntas, e muito mais importantes, para serem respondidas.
Ainda não conseguia acreditar que o meu destino estava dependente dos irmãos Clark. Na verdade, e para ser completamente sincera, ainda não acreditava totalmente em tudo o que estava acontecendo. Parecia algo saído de um filme, algo no qual não queria estar envolvida. Mas estava, e não havia maneira de me livrar disso. Tudo aquilo representava muito mais que uma mera viagem, representava a minha sobrevivência ou morte.
-Onde ela está indo?- perguntei por fim, observando as suas passadas largas em direção ao interior do Motel. Adriel direcionou o seu olhar para a pequena janela embaçada do seu lado, e depois suspirou, fechando o seu pequeno livro de capa vermelha em seguida, onde se conseguia ler "The Raven, Edgar Allan Poe".
-Parece que a minha irmã encontrou um local para pernoitar. Como pode ver, ela tem muito bom gosto.- explicou ele em tom sarcástico, guardando o seu livro por baixo do banco.- Vamos.- acabou por dizer, saindo para o exterior em seguida. O segui sem exitar, algo que me deixou surpresa. Era como se as minhas pernas funcionassem em piloto automático, corri para tentar acompanhar o seu passo apressado. Ele caminhava em direção à porta do Motel com rapidez, sem sequer olhar para trás.
Pamela estava conversando com uma mulher curva e grisalha, junto de uma lareira antiga e suja. O interior não era muito diferente do exterior, era extremamente antigo e mal estimado. A entrada era iluminada por um pequeno lustre, na minha frente grandes paredes cobertas de papel verde musgo ocupavam a minha visão. Haviam duas poltronas juntas da lareira, assim como uma pequena mesa, onde dois homens de idade avançada jogavam xadrez. Tinha um cheiro bafiento e intenso, como se não fosse limpo fazia muito tempo.
-Queremos um quarto, por favor.- ouvi Pamela pedir, assim que nos chegamos perto dela o suficiente. A pequena mulher olhou para ela categoricamente, puxando pequenos fiapos de cabelo para trás das orelhas, nos lançando um olhar inquiridor em seguida.
-É, nós temos bastantes desses por aqui.- respondeu ela, olhando com desconfiança para Adriel, que se limitava a olhar os múltiplos quadros que percorriam as paredes. A pequena senhora acabou por simplesmente abanar a cabeça, e depois de me lançar um olhar insinuante, perguntou:- Quarto duplo ou separado?
-Não tem nenhum quarto com três camas individuais?- perguntou Pamela, cortando aquele ambiente desconfortável.
-Nesse momento só tenho um quarto com duas camas separadas. Mas sempre podem alugar um saco cama, ali com o Fred.- explicou ela, apontando em seguida para o homem gordo e de aspeto grotesco que se encontrava junto da janela, dormindo de boca aberta.
-Erh...aceitamos as duas camas individuais.- decidiu Pam, depois de me lançar um olhar duvidoso, ao qual respondi com um aterrorizado.
-Como queiram, criançada!- depois de o dizer, lançou uma pequena chave para as mãos de Adriel e sem parar de mastigar o seu chiclete, piscou o olho para ele.
Pamela agradeceu secamente, e depois quase me arrastou para o elevador mais próximo. O elevador estava coberto de sujidade, parecia quase antigo. Tudo naquele motel remontava para uma época distante. Duvidava que algum tipo de reforma tivesse tomado lugar naquele sítio, desde a sua construção.
Pamela e Adriel caminhavam na minha frente, seguindo caminho pelo longo corredor bafiento do terceiro piso. Adriel jogou a pequena chave para Pamela, que sem dificuldade, a pegou em pleno ar. O interior do quarto estava mal iluminado. Duas camas estavam dispostas, junto da pequena janela do outro lado do minúsculo cubículo, apenas separadas por uma pequena mesinha conveniente. Adriel foi o primeiro a entrar, deixando cair a sua mala sob a alcatifa bolorenta.
-O que você esperava? Um hotel de 5 estrelas, florzinha?- perguntou Pamela ironicamente, pressionando as minhas costas para que lá entrasse. Me dirigi em silêncio para a cama mais próxima, pousando a pequena mala que trazia comigo. Adriel olhava pela janela, como se estivesse desconfiado de algo.
-Lar doce lar, meus camaradas.- comentou ele por fim, depois de perceber que o observava do outro lado do quarto. Voltou o seu rosto moreno na nossa direção, e depois de um sorriso fraco e desconcertado, declarou:- Podem ficar com as camas, prefiro ficar com o chão.
-Eu fico com o chão.- recusou Pamela, jogando a sua grande mala desportiva no chão. Adriel lançou um olhar relutante à irmã, e depois de pensar por alguns segundos, respondeu:
-As camas são para as donzelas.- disse sarcasticamente, fazendo Pamela soltar um riso incrédulo e maldoso, que sob a pouca luz do quarto pareceu quase malévolo. Os seus variados piercings cintilavam no escuro, e a sua face morena demonstrava o quão decidida estava.
-Não, você vai ficar na cama. Eu gosto de dormir no chão, e para além disso, você é o defensor da pátria, não eu.- acabou por dizer, apontando levemente com a cabeça na minha direção.- Eu sou apenas uma aprendiz. Acredito que a princesa se iria sentir mais segura com você por perto.
Adriel suspirou indignado e depois apenas assentiu, retirando o seu longo casaco preto, que estava agora encharcado. Os seus cabelos negros e compridos estavam igualmente molhados, e me perguntava como estaria a minha aparência naquele momento. Provavelmente algo parecido.
-Vou falar com a tia.- informou Pamela, antes de se retirar do pequeno quarto, fechando a porta após a sua saída. A brutalidade com que a fechou, fez com que um pequeno quadro de parede caísse no chão, se estilhaçando por completo. Olhei para o rapaz incrédula, sem compreender o que estava acontecendo. Ele segurou o meu olhar por alguns segundos, e depois simplesmente se sentou na cama do lado da minha. Parecia exausto.
-Qual é o problema dela?- perguntei insegura, enquanto me encaminhava para a minha cama. Ele estava retirando um pequeno caderno de capa preta da sua mala, assim como um lápis e uma borracha branca.
-Demasiado tempo livre.- falou ele entre suspiros. As olheiras ao redor dos seus olhos escuros já se acumulavam, formando dois pequenas bolsas ainda mais escuras.- Não se sinta especial, ela é assim com todo o mundo.
-O que ela quis dizer com "você é o defensor da pátria, não eu"?
Adriel se remexeu na cama e depois me olhou por alguns segundos, tentando arrumar uma forma fácil de explicar aquilo.
-A minha irmã ainda não foi declarada como Protetora Oficial, pelo menos não pela Sede. Ela me ajuda muito na minha função, porém, não é a obrigação dela. Ela faz isso como um treino.
Protetor. Essa palavra me levou de volta para o dia anterior, quando a sua tia, Miriam, me havia contado tudo aquilo. A Miss Clark era conhecida na região pela sua mediunidade. Maioria das pessoas só recorriam aos seus serviços em momentos de desespero, pois pensavam o que a maioria pensa sobre esse assunto, que tudo não passava de uma fachada. Porém, e por mais que eu pensasse o mesmo, hoje eu acredito nela e no seu dom. Mesmo que, na maioria das vezes, só fosse utilizado para ajudar idosas que desconfiavam de adultério, ou por mulheres jovens, que desejavam saber se iriam encontrar o amor. Mesmo que essa não fosse a sua função.
Miss Clark falou por horas sobre os seus contatos com o outro lado, e segundo a mesma, ela havia se comunicado com a minha mãe. Não poderia ser real, mas era. Tudo o que ela sabia sobre mim e sobre a minha mãe, eram sem dúvida, coisas que mais ninguém sabia. Miriam sabia que ela me havia dado o colar que trazia no peito, um pequeno medalhão prateado, com o formato de um pequeno Lótus. Lótus, ainda um assunto por resolver.
-De qualquer das formas, isso é algo que a incomoda bastante.- continuou ele o seu raciocínio, cortando os meus pensamentos.- Ela é mais velha que eu, porém, os seus talentos ainda não despontaram. Ela se sente envergonhada por isso.
—Não deveria, não é culpa dela.- responde automaticamente, sem certezas.
—Você está certa.- respondeu ele.- Porém, você não entende algumas coisas, Olivia. Para as famílias de Protetores, terem descendentes com talentos é uma questão de status. Ela tem medo de ser uma desilusão para os nossos pais.
—Pamela não se deveria cobrar assim tanto...Ela ainda tem tempo, não é verdade?- perguntei, me sentando junto dele.
—Normalmente os talentos aparecem entre as idades de 11 a 15 anos...ela tem quase 20 anos.- sussurrou tristemente, como se tivesse medo que a sua irmã o ouvisse.- Ninguém sabe.
Depois de o dizer, puxou as suas mantas para cima, e repousou a sua cabeça no travesseiro. O observei durante todo o percurso, tentando perceber se seria o momento certo para fazer mais perguntas. Cheguei à conclusão de que esperar pelo dia seguinte seria a melhor escolha, porém, tinha tantas perguntas por fazer. Tantas dúvidas por colocar.
Sempre fora apenas uma garota. Olivia Olsen Watson, a garota órfã. A garota que vivia na cidade e tirava notas exemplares. A garota que juntava os amigos para ir no cinema. E agora, não era mais. Era uma Aswang. Ainda não sabia ao certo o que tudo aquilo significava, mas sabia que não era mais a Olivia. Pelo menos, não a Olivia que foi em tempos. Sentia-o nos seus ossos, na sua alma, em todo o lado. E estava sedenta por mais informações, mas bastava por hoje.
—Você precisa descansar, foi um dia muito longo para você, Olivia.- recomendou Adriel, assim que Pamela entrou no quarto, trazendo consigo uma expressão fechada e arrogante.
—Eu estou perfeitamente bem, obrigada pela preocupação.- menti.
—Não precisa fingir ser forte nesse momento.- disse calmamente, já de costas para mim.- Você não está. Todas as suas crenças mudaram em apenas dois dias, não consigo imaginar pelo que você está passando.
—Acredito que também foi chocante quando descobriu o que você estava destinado a ser.- arrisquei dizer, sentindo o olhar penetrante de Pamela focado em mim.
—Eu já sabia, Olivia.- explicou ele, soltando um risinho abafado e exausto.- Crescemos ouvindo as histórias dos nossos pais, tios, avós...quando os talentos se manifestam já estamos preparados. Passamos a nossa vida inteira esperando por isso. Pela nossa missão.
—Não penso que seja justo.
—O que não é justo, Olivia?
-Não é justo que vocês sejam arrancados dos braços da vossa família para me defender.- acabei por dizer, me arrependendo logo em seguida.- Não é justo que vocês tenham que colocar a vossa vida em risco por mim, não é justo.
-É quem somos.- ouvi Pamela dizer do outro lado do quarto.
-Não podem mudar isso?
-É...uma questão de honra, Olivia.- respondeu Adriel. A sua voz estava cada vez mais profunda, desgastada, como se estivesse prestes a adormecer.
-Boa noite.- disse.
-Boa noite, Olivia.- apenas Adriel respondeu. Pamela continuou calada, com o olhar triste fixo na janela.
—Acorda! Acorda!
Acordei com os gritos de Pamela, que puxava as minhas cobertas para o chão. Já era de manhã, disso eu tinha certeza. A forte luz do sol já entrava pela pequena janela, machucando os meus olhos, ainda sonolentos.
-Temos muita coisa para fazer antes de partir. Vá se arrumar. Agora!- exigia ela, enfiando apressadamente uma quantidade enorme de roupas dentro de uma pequena sacola. De onde surgiram todas aquelas roupas?
-Vamos comer alguma coisa antes de ir.- explicou Adriel, ajudando a sua irmã naquela tarefa.- E por favor tire essa expressão de indignação da sua cara, tem que comer.
-Não estou com muita fome.- expliquei sem vontade. A minha cabeça ainda latejava, a dor era insuportável. A minha barriga deu um nó, só de pensar em comer.
-Deixa ela morrer de fome, Adriel. Iria poupar o nosso trabalho.- comentou Pamela sarcástica, atirando mais uma blusa para dentro da mala.- Poderíamos voltar para Shrewsbury e assistir filmes na televisão, como uma família normal. O que acha, Adriel?
-Já chega, Pam.- respondeu ele secamente, lançando um olhar lancinante à mesma.- Vamos todos comer.
-Escolha uma roupa lavada. Estaremos lá em baixo esperando por você, florzinha.- disse Pamela, antes de largar a grande sacola na minha cama. Depois piscou o olho para Adriel e o puxou para a porta.- Vamos dar alguma privacidade à princesa. Vamos!
Assim que ouvi a porta bater, comecei a remexer o interior da sacola. Maioria das roupas eram de couro escuro, ou blusas pretas e justas. "Tão Pamela"- pensei para mim mesma. Achei uma blusa simples, porém demasiado larga para mim. A passei pela cabeça rapidamente, e depois de vestir as calças do dia anterior e de uma breve passagem pelo banheiro, peguei na mala e saí porta fora.
Andava o mais rápido que conseguia pelos grandes corredores. Dentro do elevador, me olhei no espelho pela primeira vez em dois dias. Estava pálida, quase translúcida. Tentei pentear os meus cabelos escuros com os dedos, e depois de algumas tentativas, consegui o efeito esperado. Mais ou menos.
Quando as portas se abriram de par em par, caminhei para a entrada do motel, onde se encontravam apenas a dona do mesmo e dois homens de terno. Um deles era careca e alto, já o outro era mais gordo e baixo. Estava passando os olhos apressadamente pelo cômodo, quando senti uma mão forte na minha boca, me puxando para trás. Procurei as últimas forças que tinha em mim para lutar contra aquela pessoa, mas quando fui encostada a uma das paredes escondidas por múltiplas estantes, percebi ser apenas Adriel. Ele colocou um dedo sob os seus lábios, me silenciando por completo.
-Você tem noção da quantidade de jovens que passam aqui a noite? Você acha mesmo que iria lembrar de algum deles em especial?- falava a velha mulher, que nos havia atendido na noite anterior. Espreitando rapidamente, consegui ver que falava com aqueles homens, que seguravam uma foto nas mãos.
-Por favor, tente se lembrar senhorita.- pedia o mais alto, utilizando uma voz doce e demasiado melodiosa.- Uma garota baixinha, cabelos escuros e olhos castanhos. Provavelmente acompanhada por um outro jovem.
-Como disse, peço desculpas, mas não me recordo de todos os jovens que passam por aqui. São dezenas por dia. -explicava ela impaciente.- E mesmo que a minha memória ainda fosse a mesma, que não é, não poderia dar informações sobre hóspedes. Vai contra a minha conduta.
-Por favor, tente se lembrar, é muito importante.- pediu o mais baixo desta vez. Não consegui ouvir mais nada. Adriel, ainda com a mão pressionada sob a minha boca, me empurrou lentamente para a porta de saída. Estávamos quase correndo pelo pavimento de asfalto em direção ao carro, quando vi Pamela já dentro dele. Parecia relaxada, passando batom roxo escuro nos seus lábios carnudos. Adriel me obrigou a entrar no carro, e depois de se certificar de que a porta estava trancada, voltou para o interior do edifício apressadamente.
-Quem são eles?- perguntei, sentindo lágrimas quentes descendo pelo meu rosto.- Quem são eles, Pamela?- repeti. Estava praticamente gritando, sentia todo o meu corpo carregado de adrenalina e medo. Uma mistura de ambos.
Ela não respondeu, continuando a passar o batom lentamente. Olhei aterrorizada para a porta do Motel, tentando encontrar Adriel. Passado alguns segundos ele saiu, trazia a sua carteira na mão. Teria ido pagar a dormida? Pamela sorria e abanava a cabeça incrédula, sussurrando "Não posso acreditar nisso.".
-Tem certeza que eles estão com a seita?- perguntou Adriel, visivelmente sobressaltado, assim que entrou no carro. Olhou para mim variadas vezes antes de sequer respirar fundo, como se eu fosse apenas uma visão, e que não estaria de fato a salvo.
-Certeza absoluta. Não viu aquela marca na nuca? Pertencem à seita, com toda a certeza.- respondeu Pamela descontraidamente. Como ela conseguia estar assim tão descontraída?
-Alguém pode me explicar o que está acontecendo? Podem parar de ignorar a minha presença?- gritei para ambos, perdendo a compostura pela segunda vez naquele dia.
-Explicamos tudo no caminho, agora você precisa ficar quieta. Ouviu?- perguntou Pamela bruscamente, retirando as chaves do carro do seu bolso.
-O que eles querem de mim?- senti que a minha voz estava falhando, se tornando em um sussurro quase inaudível.
-Pergunte antes o que eles não querem de você, seria mais rápido e prático de responder.- respondeu ela irônica.
-Porque não posso ser vista por eles?
-Porque não pode, apenas. A menos que queira ser um pequeno rato de laboratório, para experimentos por anos a fio. Ou pior, morta.- informou Pamela, lançando um pequeno sorriso cínico pelo espelho. Senti um forte arrepio percorrendo todo o meu corpo, ao ouvir as suas últimas palavras.
-Vamos embora daqui, Pam.- pediu Adriel, tentando manter a sua voz baixa e controlada. Conseguia perceber que também ele estava nervoso.
-Seus pedidos são uma ordem, senhor.
Fale com o autor