Astra Jupiter
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Todas as noites Camila observava as estrelas, um costume prazeroso herdado do seu pai, o ufólogo Marconi Valença, um conceituado estudioso dos OVNIS, no qual lhe rendera muitos prêmios e menções na literatura do gênero. A noite estava agradável, 25 graus conforme previsto para aquele período do ano. Catalogava o céu naquela região, conhecida por haver grande incidência de avistamentos de OVNIS em Pernambuco.
Lembrou-se dos momentos em que o seu pai a levava para a beira da praia, deitavam-se na areia e observavam o céu,
Não é à toa que o seu pai construiu literalmente uma mansão e colocou nela tudo que precisava para passar longos períodos sem precisar sair para comprar mantimentos. Na área da piscina o céu parecia uma abóbada cintilante, fazendo com que Camila se sentisse pequena diante da bela criação divina, e deitada na espreguiçadeira continuava sua observação, quando bateu a saudade de um velho amigo: Ricardo Luna, com quem dividiu por toda sua juventude o fascínio pelo cosmos e pelo fenômeno UFO, bem como um carinho imenso por quem considerava mais que um simples amigo.
Seus pais eram grandes amigos e dividiam semanas inteiras longe de suas famílias para trazer evidências ao público de que os OVNIS eram reais. Buscou na mesinha ao lado de sua cadeira, o celular. Discou o número que estava programado na discagem rápida.
— Alô, Ricardo falando.
— Ricardo? Que bom falar com você meu querido!
— Mila! O prazer é meu, o que mandas minha linda? — Sempre agiam assim quando se falavam, sem formalidades, como dois amigos se permitem tratar.
— Estou morando novamente em Maracaípe, na casa de papai. E gostaria que você passasse o fim de semana aqui, tenho umas fotos maravilhosas para te mostrar. Onde estás?
— É a casa que ele chamava de “nave-mãe”? — Ricardo deixou escapar uma estrondosa gargalhada.
– Essa mesma! — A gargalhada foi recíproca.
– Estou saindo de uma reunião do GIEU aqui em Porto de Galinhas, fica perto daí uns 25 minutos. Estamos organizando a caravana para o congresso mundial de Ufologia, esse ano vinte pessoas se inscreveram na caravana. Isso já é um grande progresso.
— Verdade, papai ia adorar ver tantas pessoas realmente se interessando pelo tema que ele defendeu com unhas e dentes, a fim de mostrar a verdade ao mundo de que os OVNIS são tão reais quanto nós. Ah… — interrompeu a fala.
— Chegarei por volta das oito, ok?
— Ótimo, terei uma surpresa para você. — Ela sorri, pondo a língua entre os dentes.
— Coincidência, eu também.
— Beijos e até daqui a pouco.
Despediram-se com carinho. Camila estava realmente feliz por poder compartilhar seus achados com a única pessoa que não a condenaria por ter o desejo de buscar o conhecimento sobre a vida alienígena. Um banho quente e demorado era tudo de que precisava para receber a visita especial, no qual a deixava exultante, pois nutria um amor sincero por ele.
Um vestido na altura do joelho, de malha leve florida era o ideal para a ocasião, e para completar o visual praieiro, um colar de prata com o pingente de saturno, um presente de sua mãe. E esse era um bom motivo para cozinhar, um de seus hobbies favoritos.
Preparou um delicioso escondidinho de charque gratinado. Uma jarra de suco de cajá complementou o típico prato da culinária nordestina. Como sobremesa, pastéis de romeu e julieta, com goiabada cascão, feita artesanalmente por sua vó de Carpina.
Tudo estava pronto. A comida que ele adora, o clima perfeito para falar de seus sentimentos por ele, que a conhecera há tantos anos, não se viam como amigos e sim como cúmplices, companheiros. Mas como os assuntos do coração são complicados, nenhum dos dois admitiam seu amor um pelo outro.
Resolveu esperá-lo na sala, deixou tocar Fixação de Id Abelha, a música que mais refletia seu estado de espírito naquele momento. Parecia uma colegial, à espera de seu grande amor.
Em meio ao turbilhão de sentimentos pelo amigo, lembrou-se de seu pai, e o porquê ela não sabia. Porém presenciar o pai sendo retirado de casa em plena madrugada, por militares uniformizados, não era bem a lembrança que ela gostaria de guardar.
“ Guarde esta dádiva com você! Muitos tentarão matá-la, portanto seja durona e não permita que eles destruam nosso mundo” — O que será esse recipiente? E o que significa aquelas inscrições…? — Seus pensamentos foram interrompidos ao ouvir a campainha.
– Uau, Mila! Você está linda. — Largou a mala na porta e a abraçou, como se não a visse há muitos anos e a beijou em seguida. — Estava louco de saudades!
Ela por sua vez, retribuiu o carinho com um doce beijo na bochecha.
– Eu também meu querido, entre. A casa ainda é sua. — Ambos sorriram.
Ricardo deixou sua mala próxima à porta. Camila o levou para o sofá, segurando o seu braço.
– Rapaz, como você está ótimo. O que tens feito todo este tempo?
—Consegui a bolsa para lecionar Astrofísica na USP, um preparatório para Cambridge. Mas não sei se quero ir… Estou ganhando bem aqui para viver e morar em outro país, sacrificaria tudo que eu tenho aqui e o que eu ainda quero viver.
– Estou orgulhosa de você, meu querido. Você merece, lutou tanto por isso… Sem falar que era o seu maior sonho ir para Cambridge, não desperdice essa grande oportunidade. — Seu sorriso ainda conseguia amolecer o coração de Ricardo.
– Fiz seu prato favorito. Escondidinho de charque, do jeito que você gosta e pasteizinhos romeu e julieta, com goiabada cascão. Vou servi-lo, um momento. — Camila sabia que Rico, como carinhosamente o chamava, adorava sua saborosa comida. — Eita, hoje eu durmo feliz. Você sempre soube me conquistar pelo estômago, com os seus quitutes maravilhosos. Devia ter feito gastronomia.
– Ha ha, você sabe. Minha cabeça sempre esteve entre as estrelas. Cozinhar é apenas um hobby, que me faz bem.
Rapidamente dispôs o jantar nos pratos. A jarra de cajá já estava na mesa.
– Vem, Rico. — O aroma estava perfeitamente saboroso, fazendo com que ele parasse próximo à mesa e aspirasse o prazer de uma boa comida. Sentou à mesa, ao mesmo tempo que Camila. Levou uma porção do escondidinho à boca. E por alguns segundos ficou ali, parado com os olhos fechados. Mila sabia dar um toque divino a algo tão simples quanto aquele prato.
– Simplesmente fabuloso. — Camila tocou a face do amado e propôs um brinde.
– Vivamos o melhor da vida ao lado de quem amamos. — Ricardo assentiu, sorrindo.
A noite transcorreu muito bem. Temas como política e religião foram citados, sem haver animosidades, embora discordassem de alguns pontos.
– impressionantes as fotos que tirei essa semana. Você precisa vê-las. — Ela recolheu os pratos e copos da mesa. Guardou o restante do jantar na geladeira, e puxando o amigo pelo braço, o levou até a sala, onde uma pasta de couro repousava sobre uma mesinha de vidro.
– Abre a pasta. — Ricardo prontamente abriu. Observou-as por alguns segundos antes de emitir uma opinião.
– É um OVNI. Não acredito! — Levou a mão à boca, em sinal de surpresa.
– O formato difere de qualquer tipo já catalogado, possui a forma de um losango. Se você analisar as três fotos, há a sensação de estar se aproximando da Terra.
Ricardo põe as três fotos lado a lado, e tem a mesma constatação.
– Você entende o que isso significa, Ricardo? A possibilidade de estarmos a um passo de interagirmos com uma forma de vida alienígena. Isso é fantástico.
– Nem sei o que dizer… Quando você tirou as fotos?
– Quarta e captei uma frequência estranha no rádio, havia muita estática, pensei até que fosse as ondas curtas, o que é comum de acontecer…
Ricardo a interrompeu, pondo a mão em seu ombro.
– Mudando de assunto, preciso falar com você e não posso adiar esta conversa.
Percebendo o tom sério das palavras do amigo, Camila sentou no sofá e fixou seu olhar no dele.
– Pode falar, sou 'todo ouvido’'. — Amarrou os longos cabelos castanhos.
– Serei direto, pois não quero mais perder tempo. Eu te amo, e de uma forma que jamais amei outra mulher. Você é surpreendente, bonita e inteligente e gostaria de passar a minha vida ao seu lado e compartilhar a alegria de viver ao lado da pessoa mais perfeita, generosa e amável que já tive o imenso prazer de conhecer. Você. Portanto você fazer a pergunta mais importante da minha vida: Camila K'arvikk Valença, quer casar comigo?
Camila estava paralisada, de seus olhos lágrimas de pura alegria jorravam. Há muito tempo desejava ouvir tais palavras, e naquele momento sentia-se a mulher mais feliz e realizada, pois estava diante do homem que faria a feliz por toda uma vida.
—Eu aceito, com todas as letras, meu amor! — Mila o abraçou fortemente. Ricardo a segurou em seus braços, como um príncipe apaixonado se debruça em amor para com a sua princesa. Um beijo intenso e despretensioso brotou dos seus lábios. E permaneceram assim por algum tempo.
Camila quisera comemorar esse momento com toda pompa. Da adega, trouxe o melhor champanhe, que fora servido nas mesmas taças que os pais de Camila utilizaram em seu casamento. Deu um beijo no amado, e seguiu para a área de lazer, lá poderiam namorar com mais liberdade. Sob a luz das estrelas. Logo esqueceram a champanhe, e deram lugar ao carinho que há muito estava adormecido.
Camila sentou no colo do noivo e aos poucos fora desabotoando sua camisa, deslizando seus dedos lascívia e paixão. Suas mãos eram hábeis e rapidamente tornou nu o corpo de Camila. Ali mesmo sob as estrelas fizeram amor, definitivo e acima de qualquer sentimento terreno.
As primeiras flechas douradas brilhavam no mundo quando Camila despertou. Estava deitada no gramado nua, ao lado de Ricardo. Deu uma risada enquanto acariciava o rosto adormecido dele. Se sentiu como os hippies de Woodstock, sem vergonha e medo de ser feliz. Vagarosamente o despertou. — Amor, acorda, flor do dia. — Ela sorriu.
– Ahn… Nossa, que horas são? — Perguntou esfregando os olhos.
– Sei lá… O que importa é a nossa felicidade. — Ricardo assentiu.
–Vamos entrar e tomar um bom café da manhã, estou morrendo de fome. — Camila se espreguiçou, enquanto o noivo se levantava, limpando a grama em seu corpo. Recolheram a garrafa quente de champanhe, e os restos da sobremesa.
Antes que camila entrasse na casa, os dois são abordados por três homens uniformizados, portando fuzis e metralhadoras. Um dos homens agarra camila, apontando uma faca ao seu pescoço.
– Pensei que vocês não viriam, rapazes. — Ricardo larga sua típica gargalhada, enquanto veste o mesmo uniforme dos soldados.
– Fizemos uma varredura completa e não encontramos sinais de radiação, nem mesmo no subsolo. — O soldado lhe mostra um scanner, onde os gráficos estão apagados.
Camila estava perplexa. Não compreendia o porquê dessa atitude tão arbitrária. Viu o seu sonho de amor desmoronar em segundos.
– Porque Ricardo? Porque está fazendo isso comigo? — as lágrimas jorravam com a intensidade de uma tempestade, de fúria, decepção. — O que você quer de mim?
Ricardo aproximou dela, tocou sua face, sussurrando em seu ouvido. — Essa era a forma mais simples de se chegar à mina de ouro. Afastou-se dela, dando uma tapinha em seu rosto. — Sei o que o seu pai mantinha aqui um artefato alienígena de grande valor, e que pode mudar o modo como utilizamos os recursos energéticos neste país. E por bem ou por mal, você vai nos entregar tal artefato.
– Seu desgraçado, me enganou esse tempo todo, por algo que não existe. E se estivesse aqui, eu saberia. Agora me solte, filho da mãe!
A tentativa de se desvencilhar do algoz foi interrompida por um soco, que fez o sangue escorrer de seu nariz, deixando-a totalmente atordoada.
– Agora cale sua boca, e vamos recomeçar. Um segredo desses seu pai não manteria oculto por muito tempo e pelo que sei você era a única pessoa de sua confiança. Vamos meu amor, seja boazinha.
Num tablet ele mostrou uma foto do artefato. Uma ogiva de cor platinada, onde um fragmento de cristal lilás translúcido flutuava num líquido viscoso transparente.
– Não brinque comigo, garota. É melhor dizer o que quero ouvir, esses homens não tem tanta paciência como eu, e seria uma pena eles machucarem esse lindo corpo.
Limpando o sangue que ainda escorria do seu nariz, ela implorou para que não a machucasse.
— Pelo amor de Deus! Eu não sei do que você está falando! Não faço ideia do propósito do meu pai para isso.
Ricardo a observou por uns instantes.
— Tudo bem, não vamos perder a cabeça. Troquem-na de roupa e limpem seu rosto, não podemos chegar no centro com ela desse jeito.
Um dos soldados seguiu em direção ao quarto, quando voltou trouxe com ele uma calça jeans, moletom e um tênis surrado. Quando chegou na parte externa da casa, um dos homens a vendou.
— não coloque essa porcaria na minha cara seu imbecil. — Vociferou.
— Meu amor, não seja rude. Com uma ordem minha, você já era. Agora entre.
Camila não fazia ideia de onde estava, no processo da captura sentiu seu braço adormecer após uma injeção, que o Ricardo descreveu como uma precaução. Simplesmente desmaiou.
O susto foi imenso quando acordou. Seu corpo estava revestido por um polímero semelhante ao silicone. Sua cabeça estava a ponto de explodir, sem contar o enjoo que ameaçava colocar todo o que comeu na noite anterior para fora. Soltou um palavrão ao perceber que os longos cabelos cacheados haviam sido cortados na altura da orelha.
— Meu deus se for para eu morrer, que me matem logo… — tentou levantar-se da cama estreita que estava no meio de quarto revestido por azulejos marrons, tão logo firmou um dos pés, seu corpo amoleceu e ela caiu de frente. O grito fora gutural, e ali ficou, contorcida pela dor do impacto da cabeça com o chão.
Através do sistema de monitoramento do Centro Integrado de Segurança, órgão criado pela FAB, após o incidente Trapió, onde uma nave alienígena fora abatida por um míssil XS23, em pleno exercício de rotina, Ricardo a observava analisando a melhor forma de extrair as informações de que precisava.
Uma enfermeira entrou na sala acompanhada de um soldado, pois fora informada não poder retirá-la da sala onde ela estava.
— Teremos de realizar o procedimento ali mesmo, então prepare todo o equipamento. Os russos logo estarão aqui, e não vão esperar a recuperação dela.
— Sim senhor. — respondeu o enfermeiro, imediatamente retirou-se junto com a enfermeira.
Minutos depois, Ricardo recebe uma chamada informando que o grupo de militares russos já aguardava no complexo. Vestiu seu uniforme e convocou dois soldados para que o acompanhassem durante a reunião, enquanto seguia pelo corredor, a tenente Cassin o abordou, batendo continência.
— Senhor, devo informá-lo que o grupo é liderado por Igor Kulikov, coronel das Spetznaz, condecorado com a honraria máxima da URSS. Perito em nanotecnologia e Engenharia Nuclear, foi agente classe 1 da KGB, sendo famoso por suas técnicas de tortura, quase ninguém saia vivo.
— Tem mais alguma coisa que eu precise saber, tenente?
— Não senhor.
— Fala russo, soldado? — Perguntou apoiando as mãos nos ombros da jovem tenente.
— Da, tovarish. — Ela deixou escapar um breve sorriso, recompôs-se em seguida.
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