Assim não tão vivo
1 Assim não tão vivo
Aprisionado. Mas vivo. Assim não tão vivo.
Eu pensava que estava salvo quando libertei as minhas têmporas daquelas terminações nervosas colossais com que o grotesco alienígena nos prende a estes assentos de carne. Porém, estava claramente enganado. Não se vê qualquer saída no horizonte. Só entranhas em constantes movimentos peristálticos. O interior semi-orgânico desta tétrica criatura envolve-nos a todos. Toda a raça humana está aqui. Todos fomos capturados, prisioneiros de uma guerra que nunca foi do nosso interesse. Agora, só quero sair. Ser livre, talvez.
Quando ligado a nós, este gigantesco monstro mostra-nos coisas. Vemos as cidades deles, da sua raça abominável, e sonhamos que lá moramos como escravos. Os outros são mais pequenos que este colosso que nos mantém enclausurados. Vivem em edifícios cuja geometria ridiculariza qualquer construção terráquea. Qualquer ângulo, qualquer linha reta e linha curva parece volátil. São e não são ao mesmo tempo, como se se tratasse do pior pesadelo coletivo já experienciado pelo Homem.
Nas ruas puramente artificiais eles rastejam nus, tal como nos obrigam a fazer. Obrigam-nos a perder todas as vestes e obrigam-nos a rastejar. Eles podem muito bem andar sobre duas patas, como seres bípedes, mas, sadomasoquisticamente, preferem-no assim. Se o solo, raspando ardentemente, nos desprover da própria carne, eles riem-se. Riem às gargalhadas do nosso infortúnio, aqueles animais. Dizem que se não caminhássemos como eles seria "uma ofensa à sua amável hospitalidade". E, de certo modo, têm razão. É a partir dos nervos que nos prendem a esse mundo que nos alimentam. Devemos estar no ventre da rainha deles, quem sabe, aquela a que eles chamam Bellaska. É só uma hipótese sem qualquer argumento que a possa justificar.
Lá, o céu é sempre nublado e esferas de vidro levitam por entre as nuvens. De vez em quando, por alguma razão, essas esferas de uma avançada tecnologia simulam relâmpagos, eletrificando o que quer que esteja sob elas. Isso inclui organismos vivos, claro. Obviamente, os extraterrestres sabem ao certo quando aquelas malditas bolas decidem disparar. Deve haver um horário para isso, ou um padrão. Eles sabem-no e fazem-nos ficar lá embaixo de propósito no momento certo.
Eles abusam de nós de todas as formas possíveis e imagináveis. Da nossa mente, do nosso corpo. São muito mais evoluídos que nós. A sua medicina supera qualquer sabedoria que possamos ter acerca da ciência, ou que julgamos ter. Eles precisam de nós, foi por isso que nos subjugaram. São como vírus: precisam de uma vítima, de uma presa, para permitir a propagação do seu genoma vil. Para eles, não passamos de insetos, formigas pequeninas que trabalham para o bel-prazer dos seus amos e morrem quando deixam de ser necessárias. Fecundam-nos, homens e mulheres, com a sua semente alienígena. Eu próprio fui vítima desses atos imundos. Assim, criam híbridos, criaturas ainda mais nojentas que eles próprios, e expandem a sua sociedade até limites inimagináveis.
Mas, no fundo, sempre fomos prisioneiros. Se não dos outros, de nós próprios. Prisioneiros de uma vida miserável, destinados a trabalhar e trabalhar por um "bem comum" que nunca chegaremos a alcançar e ver concretizado. Não, morreremos ainda trabalhando para manter a civilização de pé. Só por isso. Somos meros pilares, instrumentos, objetos. Não valemos mais do que isso nos complexos desígnios de Deus. Em toda a infinidade deste nosso cosmo, não passamos de uma miserável migalha, um fragmento de poeira que, levado pelos ventos estrangeiros, vagueia sem rumo. No fundo, não somos nada nem nunca fomos nada, do pó viemos e ao pó voltaremos. Assim se vislumbra de facto a realidade.
Esta corpulência toda que serve de prisão à dormente humanidade é meio-viva, meio-máquina. Vejo cabos circulando por entre pedaços de avermelhada massa gordurosa, grossos cabos elétricos. A energia é transportada rapidamente, impulsionada por uma qualquer força vinda dos confins da besta. Talvez lá me aguarde a salvação.
Nunca teria tempo de libertar todos sem ser notado. Devo ser discreto. Se não for possível salvar os outros, que seja. Salvar-me-ei a mim mesmo nesse caso. Sigo então os cabos em sentido contrário ao percurso de emissão daquela eletricidade. A esperança servir-me-ia de guia.
Uma longa jornada fiz até às profundezas daquela horrenda vivência, até ao lustroso coração de metal. Tal mecanismo, cujas roldanas rodavam a velocidades estrondosas, bombeava o potencial elétrico pelos diversos cabos que o suspendiam. Estalagmites de puro músculo sustentavam o pseudo-órgão, servindo-lhe de base. Protegendo o órgão estava um só guardião: um humano.
Até ali achava ser o único homem acordado. Ao que parece, enganara-me redondamente. Aquele velho havia escapado do seu confinamento primeiro. Quando lhe perguntei o que fazia e porque não tentava escapar ele respondeu-me num tom de extrema melancolia. A sua voz fez-me tremer.
«Não há escapatória.»
Só isso. Se eu tivesse argumentado mais, ele teria continuado em silêncio. Se eu tivesse tentado destruir o coração, ele teria impedido as minhas forças com toda a sua vontade. Porquê? Porquê proteger os monstros?
Para ele, não eram monstros. Para ele, que vivera na Terra como um velho mendigo que há muito contemplava o suicídio, aquilo era uma bênção. Eles ofereciam-nos uma casa e davam-nos comida. Satisfaziam todas as nossas necessidades, apesar de, para além disso, nos tratarem como servos. Mas e a liberdade? A liberdade não importa?
«O que é a liberdade? Já não tenho a certeza...»
E calou-se, para todo o sempre. Nunca mais o ouviria falar.
Decerto este encontro não abalou as minhas convicções. Eu quero ser um indivíduo. Eu quero viver a minha vida como quero, quero poder decidir, quero poder controlar-me a mim mesmo. Não desejo mais nada, e tenho quase a certeza disso.
Mas o humano nunca pararia de desejar. A consciência que temos tem como maldição a capacidade de formular sonhos. Somos seres sonhadores, cada um de nós. E sonhos são apenas sonhos: coisas que almejamos, mas não podem ser alcançadas. Afinal, se pudessem ser alcançadas, deixavam de se chamar "sonhos". E é isso que nos faz sofrer, essa celestial frustração.
No momento, não refleti sobre todas estas coisas pois isto são tudo visões extremamente pessimistas do mundo recheado de livre-arbítrio em que outrora vivemos. Hoje em dia, já não penso assim. Hoje em dia, repenso as palavras do velho. Seria uma bênção não poder mais sonhar? Seria uma bênção doar os meus sonhos a outros? Não seria uma honra servir? Perder todas as responsabilidades. A verdadeira liberdade.
Sim, era isso que ele queria dizer.
Ainda cheguei a ver uma fenda ao fundo da ensanguentada paisagem. Era um buraco, um bem-aventurado buraco. Corri para lá. Corri como se a minha vida dependesse disso. E, de certo modo, dependia mesmo. Num ápice, lá cheguei. Esqueci aquela necessidade de ser discreto, de não ser ouvido. O que importava agora era escapar de uma vez por todas.
Mas quando chego àquilo que pensava ser a saída, só vejo o vazio. Vejo-nos possivelmente a milhares de anos-luz acima da superfície terrestre. Lá fora, o espaço. O maldito espaço sideral.
Não há escapatória. Nunca houve.
No interior do meu estômago, sinto algo crescendo. Oh. A fecundação. A maldita fecundação.
Olhei para o abismo sem sequer questionar o facto de estar a conseguir respirar sem dificuldade. Mirei as estrelas ao fundo, piscando-me no que, na minha cabeça, parecia apenas código morse.
Pisca, pisca, pisca. Três longos piscas. Pisca, pisca, pisca.
É a loucura. É a fraqueza da minha imperfeição mortal abatendo-se sobre mim. Sou só um homem, só um homem. Um homem obrigado a gestar a cria de um qualquer tirano alienígena.
Meu Deus. Ainda sinto os gâmetas percorrendo-me o... oh...
Ainda pensei em mergulhar no vácuo, em deixar-me cair e perder-me no espaço inexplorado. Mas optei por não o fazer. Eu morreria de certeza mas ela, a criatura que agora reside no meu ventre, talvez sobrevivesse
E aqui estou eu. Sobrevivi à escravatura, mas não me sinto feliz. Não me sinto livre. Só me sinto vivo.
Vivo, mas assim não tão vivo.
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